LOGINCharlotte Beaumont está prestes a dizer “sim” a Julian Langford na Abadia de Westminster, em Londres. O casamento perfeito, a união esperada, a vida segura que todos desejavam para ela. Até as portas se abrirem. Um homem loiro de olhos azuis intensos invade a cerimônia como se tivesse direito absoluto sobre ela. Ele a chama de Siobhan. Diz que ela era sua esposa. Que dormiu em sua cama. Que deu à luz sua filha. E que ele matou por ela. Charlotte não se lembra de nada. Nem do nome. Nem do homem. Nem da vida que ele alega ter pertencido a ela. Mas seu corpo reage. Sua pele reconhece. Seu instinto grita perigo… e algo muito mais perigoso ainda. Arrancada do altar e jogada de volta para um passado que não existe em sua memória, Charlotte se vê prisioneira de um homem que não aceita a palavra “não” — e que está determinado a fazê-la se lembrar, custe o que custar, mesmo que, para isso, tenha que destruí-la de novo.
View MoreA chuva açoita os vitrais da Abadia de Westminster, em Londres, enquanto repito as palavras que supostamente selarão o resto da minha vida.
“Eu, Charlotte Beaumont, aceito você, Julian Langford, como meu legítimo esposo…”
Minha voz sai fraca. Instável. Errada.
O véu pesado cobre meu rosto como uma sentença, abafando o mundo, tornando tudo distante e nebuloso. Julian aperta minhas mãos com muita força — seu aperto é forte demais, possessivo demais. Quando levanto os olhos, encontro seu sorriso: confiante, satisfeito, quase triunfante.
Como se ele já tivesse vencido.
Como se ele soubesse que, depois desta noite, eu lhe pertencerei para sempre.
Eu deveria me sentir feliz. Protegida. Segura.
Mas algo dentro de mim está gritando.
Errado.
Então as portas da abadia se abrem com estrondo.
O estrondo rasga o ar. A madeira estilhaça. Gritos ecoam por toda parte. O órgão para de tocar no meio de uma nota, deixando um silêncio grotesco antes que o caos engula tudo.
Meu coração explode no peito.
Homens armados invadem o corredor central.
Três abrem caminho. O do meio é loiro, alto, de ombros largos e veste preto. A chuva escorre pelo seu terno como se ele tivesse atravessado a tempestade só para chegar até mim. Mas não é a chuva que me aprisiona.
São os olhos dele.
Azul. Feroz. Fixado em mim com uma intensidade tão brutal que me rouba o ar dos pulmões.
Como se eu fosse o único ser vivo em toda esta abadia.
Julian solta minhas mãos imediatamente e se coloca na minha frente.
“Quem diabos é você?” Ele ruge, sua voz ecoando pelas paredes. “Isto é um casamento. Saia daqui agora mesmo.”
O loiro não diminui o ritmo.
Ele continua caminhando em direção ao altar, passo a passo, como se nada neste mundo pudesse detê-lo. Como se cada centímetro da distância entre nós já lhe pertencesse.
Atrás dele, mais homens vestidos de preto se espalharam pelas laterais, cercando os convidados, bloqueando todas as saídas e transformando a abadia em uma prisão.
Um deles — moreno, de olhar gélido — pressiona o cano de uma arma contra a nuca de Julian.
“Um movimento seu”, diz ele com uma calma aterradora, “e eu pintarei o altar com seus miolos, Langford.”
Julian congela.
A raiva ainda arde em seu rosto, agora misturada com choque.
Tento dar um passo para trás. O vestido pesado me prende.
Sinto um nó no estômago.
“Não, não...”
O loiro sobe os degraus do altar sem hesitar. Sem pedir permissão. Sem medo. Então, seu braço me envolve pela cintura como aço.
“Me solta! Me solta!” Eu grito, me debatendo no instante em que sou puxada contra o corpo dele.
Ele é sólido. Firme. Perigoso.
Seu perfume me atinge primeiro — chuva, madeira escura e algo selvagem, bruto e insuportavelmente masculino. Algo que não deveria me afetar.
Mas acontece sim.
Meu corpo reage antes que minha mente consiga acompanhar.
“Siobhan”, ele rosna, a voz baixa e rouca, carregada de dor e possessão, tudo misturado.
Eu fico paralisada por um instante.
Siobhan?
“Meu nome é Charlotte!” Cuspi, lutando com todas as minhas forças. Minhas unhas arranharam seu pescoço, fazendo-o sangrar. “Me solta, seu psicopata!”
Ele arranca o véu com a mão livre.
Nossos olhares se cruzam.
O mundo inteiro se inclina.
Por um segundo, algo profundo e visceral me atravessa enquanto encaro aqueles olhos azuis. Um calor estranho inunda meu corpo — rápido, violento, doloroso. Minha pele arrepia. Meu coração dispara de uma forma que não é apenas medo.
É como se meu corpo o reconhecesse.
É como se uma parte esquecida de mim já soubesse exatamente quem ele é.
Mesmo que minha mente não entenda.
Mesmo que minhas memórias gritem vazio.
Então ele sorri.
Frio. Escuridão. Fome.
“Você não pode se casar com ele”, diz ele, com uma voz que soa como promessa e ameaça ao mesmo tempo. “Se já é casada comigo.”
Antes que eu pudesse reagir, ele passou um braço por trás dos meus joelhos e me jogou por cima do ombro como se eu não pesasse nada.
O mundo vira de cabeça para baixo.
Meu vestido sobe. O sangue sobe à minha cabeça. A humilhação me atinge com a mesma força do pânico.
“Me solta! Você está louco! Eu nem sei quem é você. Socorro! Julian!” Eu grito, chutando descontroladamente e golpeando suas costas com toda a força que tenho.
Sua mão aperta minha coxa com força.
Firme. Possessivo. Reivindicador.
“Quieta, meu bem”, ele murmura, carregando-me pelo corredor como um troféu. “Você vai se lembrar de mim.”
Meu corpo inteiro fica rígido.
“Ou eu farei você se lembrar.”
Julian tenta se libertar, com o rosto vermelho de fúria.
“Tirem as mãos dela, seus desgraçados!” Ele grita. “Charlotte!”
Um dos homens desfere um soco brutal em seu estômago. Julian se curva, ofegante, enquanto a arma permanece pressionada contra sua cabeça.
Ninguém vem me salvar.
Ninguém consegue.
A chuva nos atinge como facas de gelo enquanto ele me carrega para fora da abadia. O céu de Londres é um borrão escuro. Flashes. Gritos. Pneus cantando. Portas batendo.
Ele me jogou no banco de trás de um SUV blindado preto e entrou logo em seguida, batendo a porta com força.
Imediatamente, em desespero, corro para o lado oposto e puxo a maçaneta com força.
Trancado.
“Não, não, não…”
Ele me puxa de volta pelos quadris com uma força humilhante e me prende sob seu corpo.
Pesado. Inescapável. Quente demais.
“Por favor…” Minha voz falha. “Eu não te conheço.”
Lágrimas quentes escorrem pelo meu rosto.
Ele agarra meu queixo entre os dedos e me obriga a olhar para ele.
Aqueles olhos azuis são mais selvagens de perto. Mais intensos. Mais insanos. Há dor neles. Ódio também. E uma fome sombria e possessiva, tão profunda que me faz tremer por inteiro.
“Você me conhecia melhor do que qualquer outra pessoa neste mundo maldito”, ele rosna. “Você dormiu na minha cama. Você deu à luz, minha filha. E eu matei por você.”
Meu sangue se transforma em gelo.
Não.
Isso não pode ser verdade.
“Agora você está voltando para casa. Para mim.”
O carro arranca em alta velocidade pelas ruas encharcadas de Londres.
Eu luto. Empurro. Choro. Tento me libertar de seu aperto, de seu peso, de sua presença opressora.
Inútil.
Com uma mão, ele prende meus pulsos acima da minha cabeça. A outra desliza pela curva do meu corpo num gesto lento e possessivo, como se estivesse reafirmando seu domínio.
“Lute o quanto quiser”, ele sussurra, com a boca perigosamente perto da minha. “Quanto mais você resistir…”
Sua voz fica mais grave. Mais sombria.
“… mas eu vou gostar de te destruir novamente.”
Viro o rosto, tremendo.
Mas, no fundo do peito, aquele calor insuportável ainda queima.
Uma faísca.
Um eco.
Uma memória sem rosto.
E enquanto Londres desaparece atrás da cortina de chuva, eu entendo — com um terror gélido percorrendo minhas veias — que minha vida acaba de ser arrancada de minhas mãos.
Roubada por um homem que alega ser meu marido.
Um homem de quem não me lembro.
Mas que claramente nunca se esqueceu de mim.
Paciente compatível com identificação fornecida pela família.A família. Não, a paciente. Não há exames. Não reconhecimento. A família.— Ele nem sequer confirmou quem ela era — murmuro, e a constatação sai mais amarga do que eu pretendia.— Não precisava.Julian fecha os olhos, e vejo os músculos do rosto se contraírem.— Meu Deus.Olho novamente para Eleanor.— Quando Siobhan acordou, quem estava com ela?— Hayes é o pai de Charlotte.— Meu pai estava lá? — Julian pergunta outra vez, mas agora a voz está diferente, mais rouca.Eleanor assente.— Sim.— Ele falou com ela?— Não sei.— Mas estava lá.— Sim.Julian se afasta da mesa, os passos pesados. A raiva em seu rosto é tão evidente que até eu consigo senti-la.— Então meu pai sabia que a mulher que saiu daquele hospital não era Charlotte.— Sim.— Durante seis anos?— Sim.Ele ri uma única vez, sem humor.— Eu passei seis anos acreditando que amava uma mulher chamada Charlotte.Ninguém responde. Julian olha para mim, e há algo em
RONANPor alguns segundos, ninguém fala.A palavra "acordo" permanece na sala como uma sentença, pesada demais para ser ignorada e vaga demais para satisfazer a pergunta que agora exige uma resposta. Observo Julian, que parece ter envelhecido diante dos meus olhos nos últimos minutos. Ele continua olhando para Eleanor como se esperasse que ela desfizesse tudo o que acabou de dizer, como se bastasse uma explicação diferente para que a mulher que ama volte a ser simplesmente Charlotte Beaumont, sua noiva, e nada mais.Eu conheço aquela expressão. É a mesma que vi no meu próprio rosto quando acordei seis anos atrás e perguntei pela minha esposa. A diferença é que, naquele momento, me deram uma mentira pronta. Agora Julian está começando a enxergar a verdade.— Que acordo? — pergunto, e a voz sai mais baixa do que eu pretendia.Eleanor ergue os olhos para mim. Há cansaço em seu rosto, mas também a expressão de alguém que passou tempo demais guardando um segredo e finalmente percebeu que n
Mais uma pessoa morta. Outra peça desaparecida. Outra vida que foi apagada para que o segredo pudesse ser mantido.— Quando morreu?— Pouco depois do nascimento das meninas.— Naturalmente?Eleanor levanta os olhos, e há algo neles que parece desafio.— Não.O silêncio que segue me incomoda, pesado e carregado de possibilidades.— Então como?— Foi um acidente.Ronan percebe a escolha das palavras imediatamente, os olhos se apertando.— Acidente?— É assim que registraram.Minha atenção se concentra, cada nervo do meu corpo em alerta. É a mesma palavra. A palavra que aparece em toda parte desta história. Acidente. Mas cada vez que alguém a usa, existe alguma coisa escondida por trás.— Ela foi assassinada? — Minha voz é baixa, mas firme.Eleanor não responde diretamente, os olhos fixos em algum ponto distante.— Clara descobriu o que o marido pretendia fazer com as meninas. Tentou impedir.— Ele queria separar as duas.— Sim.— E conseguiu.— Conseguiu.Meu olhar cai para as minhas mã
JULIANA notícia chega até mim quando ainda estou no corredor lateral da mansão.— Uma mulher.Apenas isso. Duas palavras que ecoam pelo rádio como um aviso, um prenúncio de algo que ainda não compreendo completamente. Depois de tudo o que descobrimos naquela noite — os registros, as fotografias, os nomes que se acumulam como camadas de uma mentira que parece não ter fim —, aprendi que poucas palavras podem esconder uma quantidade assustadora de informações. Uma mulher desconhecida apareceu no perímetro dos Gallagher, atravessou uma área que deveria estar sob vigilância, e afirmou que veio atrás de Charlotte Beaumont.Meu primeiro pensamento é simples: uma armadilha. Alguém enviado para nos confundir, para plantar mais dúvidas, para nos fazer correr em círculos enquanto o verdadeiro inimigo se aproxima pelas sombras.Meu segundo pensamento é pior. E se ela realmente souber alguma coisa? E se for a primeira pessoa em seis anos capaz de explicar por que a mulher que amo está vivendo com






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