INICIAR SESIÓNLevou uma maldita semana para me acostumar apenas com a ideia de que ela tinha chegado, que era realmente ela. O que era engraçado, pois havia passado um ano miserável, entre a pressão que sentia pelo lado da minha família e a sensação de vazio.
Dee, minha irmã, acreditava nessa coisa toda de destino. Antes, eu discutia e virava um maldito troglodita com qualquer um que tocasse em tal assunto. O vazio em meu peito foi crescendo conforme o ano passou, me deixando irritado e intocável, me fazendo odiar ainda mais toda aquela merda.
Então eu senti.
Uma semana atrás eu senti quando ela chegou. A sensação foi tão forte que me fez tropeçar, e bem, eu nunca tropeçava. Os olhos de Dee quase saltaram de suas órbitas, e depois veio aquele sorriso de satisfação em seu rosto. Ela adorava me ver daquele jeito.
Aquela história toda de destino era verdadeira afinal.
Era isso ou eu estava me tornando um psicopata fascinado por minha vizinha, que era excepcionalmente linda. Na verdade, a palavra linda não era suficiente para descrevê-la.
Seus cabelos castanhos escuros ondulados batiam um pouco acima da cintura, seus olhos verdes em um tom escuro me lembravam duas pedras preciosas, a boca grande e naturalmente rosada me fascinava, e seu corpo, puta que pariu, minhas palavras nunca fariam jus à beleza de Catherine.
Quando a vi pela primeira vez, parada com os braços cruzados sobre o peito, amaldiçoei do céu à terra. Cat era alta, com seios exuberantes, cintura fina e quadril largo, a minha maldição sem dúvidas.
— No que está pensando? — a voz de Dee me tira dos meus pensamentos.
— Nada — resmungo, mentindo. Não tinha uma única chance no mundo de Dee saber sobre o que eu estava pensando.
— O que está sentindo? — ela pergunta pela milésima vez.
— Hoje está mais forte, é como se uma corda estivesse amarrada em meu pescoço, querendo me arrastar direto para ela — respondo, engolindo em seco.
— Deus, isso soa…
— Louco? Estranho? — questiono, levantando meu olhar. — Acredite, eu sei.
— Quando vai contar para eles?
— Não por agora, e nem você vai — falo, fitando-a. — Ela é completamente humana, Dee, não é como se eu pudesse chegar e falar sobre toda essa merda como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— Você já… — Dee começa e então pigarreia. — Já tentou ler a mente dela?
— Isso só vai funcionar se ela aceitar o laço, e eu nunca faria isso sem o consentimento dela — digo, me levantando do sofá e indo pegar uma bebida na mesinha da sala com diversas garrafas de whisky. — Catherine está aqui há uma semana e já acho que isso não vai acontecer.
— Você é muito negativo, Dorian — Dee fala com uma careta, e antes que eu leve o copo aos lábios ela balança a mão, fazendo o copo sair da minha mão e ir para a dela, sem derramar nenhuma gota. — Grata.
— Pensei que tínhamos combinado de não usar o poder desde o último acontecimento? — acuso, servindo outro copo.
— Já me desculpei por aquilo, não é como se fosse minha culpa.
— Dee, a língua do cara não saiu da sua boca sozinha — falo, suspirando. — Demos sorte que ele não podia mais falar e ficou instável o suficiente para ser internado em uma clínica psiquiátrica.
— Dorian, aquele homem ia abusar de uma adolescente indefesa, arrancar apenas a língua dele foi bondade minha — diz com a voz cheia de raiva, a mesma raiva que eu também sentia sempre que me lembrava do desgraçado.
— Tudo bem, apenas tenha cuidado — falo, exalando alto.
Bebo metade da dose no meu copo, pensando se deveria ou não começar a falar sobre o assunto com minha irmã, sabendo que se começasse ela não pararia.
Porra, eu tinha que falar.
— Você ainda não sente essa coisa? — pergunto a ela.
— Dorian, você sabe muito bem que não é assim que funciona, por isso mesmo se chama “kismet”.
— Nossa mãe chama de fio vermelho — murmuro, mas na realidade não me importo como chamam.
— Tanto faz — diz Dee, colocando o copo na mesinha de centro. — Quando você soube?
— Eu apenas acordei e senti como um puxão, se assim posso dizer. Apenas sabia que estava acontecendo e que aqui era o lugar — falo, dando de ombros.
— Exatamente, fratello, você não escolheu isso, simplesmente aconteceu. Há uma ordem natural nos acontecimentos, só tem que aceitar e ter paciência.
Fácil dizer. Penso, terminando minha bebida.
— Sabia que ela está trabalhando no The Moon? — pergunto para Dee.
— Não brinca? — ela me olha, parecendo surpresa. — Bruno vai devorá-la inteira!
— Acho mais fácil ela chutar as bolas dele — falo, rindo levemente.
— Acho que deveríamos ir até lá hoje à noite — Dee sugere e eu quase posso ver sua mente girando. — Posso pedir ao Bruno para mantê-la lá até mais tarde.
Concordo com um aceno, me sentindo um pouco mal por isso. Vi como Cat estava irritada pelo comportamento de Bruno, ela certamente o faria engolir os próprios olhos.
Esse pensamento me faz rir enquanto vou para meu quarto.
Me jogo na cama, tentando ignorar a vontade de ir até a casa ao lado novamente. Tenho que me controlar, isso é um pouco doentio.
A ideia de arrastar qualquer pessoa para o nosso mundo faz meu peito se apertar. Eu queria ter qualquer outra escolha, mas sou obrigado a pelo menos tentar. É isso que fazemos na nossa egoísta família.
Veja, as famílias Gray, Verlon, Amistac e Kitsun são de longa linhagem com poderes sobrenaturais.
Parece chocante, não é? Se eu fosse uma pessoa normal e alguém viesse com esse papo para cima de mim, eu certamente pensaria que a pessoa estava prestes a me atirar pedras de tão louca.
Há muitos e muitos anos, quando criaturas sobrenaturais andavam pelo mundo sem qualquer preocupação, uma bela metamorfa, em sua forma humana, cheia de luxúria e sempre em busca de mais poder, resolveu enganar um “nephilim”. Eles também estavam por aí, desfilando pelo mundo como se fossem os donos.
Luri, a metamorfa, conseguiu o que queria, usou e abusou do nephilim, que por sinal não era um cara muito legal também. Alguns meses depois nasceu seu primeiro filho, uma mistura única dos dois DNAs. Luri, claro, escondeu seu filho como um grande tesouro. A criança cresceu mostrando dons extraordinários, e anos depois começou sua própria linhagem ao engravidar uma humana. Porém, só algum tempo depois deram um nome para tais humanos que possuíam dons que desafiavam o poder do criador.
Os Clérigos.
É, você não leu errado: Clérigos, como em D&D.
E assim como no jogo, os clérigos usavam seus dons conforme sua fé, boa ou ruim. Qualquer emoção era sua fonte para controlar o poder. Ninguém foi tão forte quanto o original, Leones, filho da metamorfa com o nephilim, óbvio.
Enquanto uma criança clériga crescia, ela podia dar sinais de possuir mais de um dom ou nenhum, o que não seria uma boa coisa, infelizmente.
Os dons eram: metamorfose, telecinese (tanto pelos olhos quanto pelas mãos), incrível força e velocidade idêntica à de um anjo. Metamorfose era o dom mais precioso para os clérigos, mas apenas uma pequena parcela era abençoada. E também havia a telepatia, que era o dom que apenas casais unidos pelo destino poderiam possuir.
Se um clérigo casasse com outro, poderiam ler a mente um do outro. Se um clérigo se unisse a um humano, apenas ele poderia ler a mente do parceiro.
Essa é a parte da história entre o lance de fio vermelho, kismet, destino…
Eu, Dorian Gray, como um perfeito clichê, fui abençoado — ou amaldiçoado — com a metamorfose, e Dee com a telecinese. Nós dois somos fortes e rápidos como a luz.
Fecho os olhos, desta vez pensando em todas as formas de meu destino estar errado. Essa merda é estranha até para mim.
Sabia que o que sinto pela minha vizinha não é amor. Não pode ser. Não com apenas uma semana e duas conversas.
Não. É algo diferente. Chamativo. Curioso. Como algo proibido que você não consegue parar de olhar.
Me levanto, abro a janela e, com um leve e familiar estalo quase inaudível, deixo de ser Dorian e me transformo em uma águia. Voo sentindo o ar fresco e o vento forte. Quando chego à praia, sobrevoo por um momento a casa que venho evitando por tanto tempo.
Desço planando até o fundo. Sei que ele já sabe que estou aqui — ele me espera há meses.
Agradeço por ser uma área fechada quando volto à forma humana. Quem criou a metamorfose certamente esqueceu de criar um armário invisível para depois da transformação. Corro até o varal e pego uma calça caqui e uma camiseta.
— Vejo que minhas roupas caíram bem em você — ouço sua voz profunda e fico tenso.
Termino de me vestir rapidamente e me viro, encarando o homem que tanto se parece comigo. Passo a língua pelos lábios, os umedecendo, e caminho até a pequena varanda mais à frente.
— Já estava na hora, Dorian — ele fala duramente.
Encaro seus olhos e finalmente abro a boca.
— Oi, pai.
Meus olhos encontram um par de olhos que oscila sem parar entre o azul inebriante e um forte violeta. Eles me encaram com raiva e decepção, enquanto seu peito largo sobe e desce em uma velocidade anormal.— Merda! — solto, quase tombando uma cadeira.— O que...Dee interrompe a própria frase quando segue meu olhar. Val nem sequer diz nada; apenas solta o ar e aperta minha mão, tentando me transmitir algum conforto.Dorian está parado no fundo, os braços inertes ao lado do corpo e os punhos cerrados com tanta força que, mesmo daquela distância, consigo ver os nós brancos de seus dedos.Abro e fecho a boca repetidamente, como um peixe fora d’água. Dou um passo à frente, mas ele simplesmente desvia o olhar e começa a sair do clube.— Você ligou para ele? — grito para Dee.— Ele já estava aqui. Estava preocupado que eles fossem aparecer — responde apressadamente. Seu rosto está vermelho, mas sei que não é de vergonha. — Eu mandei uma mensagem para ele, apenas para que ficasse ciente.— O
— Ian? — reconheço, olhando para o homem que para diante de mim.Ele veste uma camiseta azul-marinho justa e uma calça jeans de cós baixo que, por incrível que pareça, fica muito bem nele, deixando visíveis todos os seus músculos torneados. Seus cabelos loiros estão puxados levemente para trás com extrema perfeição, e aqueles olhos verdes-claros me encaram, cheios de surpresa.Eu me esqueci de como Ian é grande e lindo.— Assim que entrei, reconheci você. Esse cabelo lindo e esse corpo incrível são inconfundíveis! — exclama ele.Forço um sorriso e me levanto, aproximando-me dele. Quando oferece a mão e aqueles olhos brilhantes se voltam para os meus, suspiro, sem jeito, ao perceber que ele me puxa para seus braços em um abraço apertado e bastante significativo..— Você parece bem, Ian. Não sabia que ainda fazia parte do show — comento quando me afasto, tentando ignorar os olhares perplexos das minhas duas amigas, que agora nos encaram com espanto. Mas sei que o espanto é por causa del
Meu celular vibra, e sorrio ao ler a mensagem de Dorian.Dorian: Tudo bem por aí, amor?Tenho que me lembrar de, futuramente, pedir a ele para falar em italiano para mim, trocar “amor” por “amore” e sussurrar baixinho coisas absurdas no meu ouvido.Balanço a cabeça e digito rapidamente uma resposta. É a terceira mensagem que ele me manda desde que nos conhecemos. Lembro que ele me disse não gostar muito de celulares.Eu: Sim, estou fora com Dee e Val. Vamos mostrar alguns lugares para sua irmã.Uma buzina soa alta atrás de mim, e eu pulo de susto. Estou esperando por Dee e Val na frente do clube, enquanto as duas lidam com o cara na entrada. A resposta de Dorian chega, e eu literalmente suspiro.Dorian: Tomem cuidado. Se precisar de mim, me ligue e estarei aí. Sinto sua falta, Cat.Guardo o celular na pequena bolsa que trouxe. Por um momento, penso que seria ótimo se Dorian estivesse aqui, e não a seis horas de distância. Ainda estou ressentida comigo mesma por ter sido horrível com e
Oito horas depois — das quais passamos mais de cinco dirigindo até Jacksonville e quase duas ouvindo um médico explicar a situação da minha mãe, além de assinar os papéis de sua liberação do hospital — finalmente a levamos para casa. Gemo de cansaço e fecho a boca para não começar a xingar como um marinheiro.Eu amo minha mãe, Marie, com todo o meu coração, mas, se em perfeito estado de saúde ela já era uma peça rara, imagine com uma perna quebrada e um pulso torcido.Dee, a verdadeira calma em pessoa, responde pacientemente a todas as perguntas dela. Mesmo quando minha mãe reclama sem parar, sua expressão permanece serena e atenta. Quase pergunto se ela não pode usar seus poderes para silenciá-la, mas logo me sinto um monstro em forma de filha. Então me calo e começo a pensar.Eu sabia do que Dorian era capaz. Ele também tinha me contado quais eram os dons da irmã, mas eu ainda estava completamente perdida naquele mundo sobrenatural em meio à realidade mundana. E, pensando nisso, com
— Mãe? — atendo ao celular ainda grogue de sono.Haviam se passado dois dias desde o pequeno confronto com Dorian e, desde então, estou sofrendo com uma insônia horrível. Só consigo dormir de verdade tarde da madrugada, quando já deveria estar acordada há muito tempo.Não estou treinando nem indo ao dojo porque meu maldito carro estragou, e estou pensando seriamente em mandá-lo para o lixão mais próximo. A verdade é que já cheguei ao meu limite para muitas coisas.— Filha, sei que é cedo, mas aconteceu um pequeno acidente... — a voz da minha mãe soa baixa e cansada. Em questão de segundos, chuto o cobertor e me levanto mais desperta do que nunca.— Mãe?— Depois que cheguei de viagem, fui tomar banho e acabei escorregando no banheiro — explica, sem rodeios. — Resultado: uma perna quebrada e uma torção no pulso.Praguejo e passo a mão pelo rosto.— Onde você está? — pergunto, preocupada. — Estou indo para aí.— Filha, não precisa. Estou bem.— Mãe, onde você está? Estou indo para aí! —
Dorian e Dee não me procuram nem tentam falar comigo por quase três semanas.Estabeleço uma rotina firme e rígida para evitar que meus pensamentos vão para a área proibida, onde fica toda aquela história sobre meus vizinhos terem poderes e serem algum tipo de espécie sobrenatural fodona.Porque eles são fodões, certo?Se tudo aquilo for verdade, não tem como negar. Mas eu ainda não estou pronta para falar ou acreditar em tudo isso. Ainda não.Depois de colocar as sacolas no carro, pego um cigarro e o acendo. Não costumo fumar com frequência e, quando fumo, é mais para relaxar. Marquei de encontrar Adam no clube mais tarde. Ele é um cara legal, e nós criamos amizade rapidamente.— Não sabia que fumava.Viro-me com o coração disparado e encontro não só Dorian, mas também uma loira deslumbrante ao lado dele, que me observa com um interesse peculiar.— Não sabia que isso era da sua conta. — Retruco, soltando a fumaça pelos lábios.Tento não olhar muito para ele, que, aliás, usa uma bermud







