INICIAR SESIÓNLorena é uma jovem determinada que sobreviveu a uma infância marcada por perdas e lares adotivos. Formada em Economia, ela trabalha como faxineira na Nexus Tech, a maior empresa de tecnologia do país. Solitária, resiliente e com um talento especial para dizer exatamente a coisa errada na hora certa, sua rotina muda completamente na noite em que um mendigo completamente encharcado bate à sua porta sob forte chuva, pedindo apenas comida… e um pouco de dignidade, se possível. Esse homem é Draven. O que Lorena não sabe é que ele esconde uma identidade perigosa é o bilionário fundador e CEO da própria Nexus Tech. Após descobrir uma sofisticada rede de fraudes internas que sangra a empresa em milhões, Draven decide desaparecer do radar. Com a ajuda da irmã Lina e de detetives de confiança, ele se infiltra na própria companhia como faxineiro, vivendo nas ruas e depois no sofá (e depois no quarto de hóspedes, e depois… bem) da casa de Lorena, para reunir provas sem alertar os envolvidos. O que começa como um acordo de sobrevivência desajeitado se transforma em uma conexão intensa, cheia de discussões absurdas, química inegável e momentos em que os dois quase se matam de tanto rir… ou de tanto se segurar para não se beijar. Lorena conquista uma vaga como Analista Financeiro Júnior e, com sua inteligência afiada, começa a notar inconsistências nos dados da empresa. Sem saber que está investigando o mesmo esquema que Draven tenta desmascarar, ela se aproxima perigosamente da verdade — e dele. Enquanto a investigação avança e o cerco se fecha contra os fraudadores, a mentira que sustenta a vida de Draven começa a rachar de forma cada vez mais cômica e tensa. Lorena descobre que o “mendigo” que ela abrigou é, na verdade, o dono da empresa.
Ver másA chuva caía pesada sobre a cidade. Eu mal conseguia enxergar o caminho enquanto dirigia meu velho Corolla de volta para casa. Acabara de sair da sede da Nexus Tech, a maior empresa de tecnologia do país, depois de mais um turno noturno como auxiliar de limpeza. As costas doíam, os pés latejavam dentro dos sapatos gastos, e a mente estava vazia de qualquer pensamento além do desejo de chegar.
Cheguei quase às duas da manhã. Assim que desliguei o motor, a chuva intensificou-se ainda mais, batendo com força no telhado da pequena casa alugada. Morava sozinha. Sempre sozinha. Meus pais haviam morrido quando eu ainda era criança, e desde então aprendi a carregar a vida sem esperar ajuda de ninguém. Entrei depressa e tranquei a porta. O silêncio da casa me trouxe algum alívio. Tirei o uniforme úmido, vesti um moletom velho e sentei-me à mesa da cozinha com os livros da faculdade abertos. Era a última semana. Em poucos dias eu me formaria em Economia. Parecia distante, quase irreal. Foi então que ouvi as batidas. Três toques firmes na porta da frente. Meu coração acelerou. Fiquei parada por um segundo. Quem poderia ser a essa hora, com aquela tempestade? Levantei devagar, peguei o celular e me aproximei da porta. Abri apenas uma fresta, mantendo a corrente de segurança. A chuva forte dificultava a visão. Só conseguia distinguir uma silhueta encharcada, ombros curvados, roupas velhas grudadas no corpo. — Desculpa incomodar… — a voz era rouca, baixa, cansada. — Será que você teria alguma coisa pra comer? Qualquer coisa. Estou com muita fome. Meu corpo ficou tenso. O medo subiu pela espinha. Eu morava sozinha, era madrugada, e um homem desconhecido batia na minha porta. Mas algo na voz dele não carregava agressividade. Só cansaço. — Eu… um segundo — respondi, a voz um pouco trêmula. Fechei a porta rapidamente. Fui até a geladeira e juntei o que havia: arroz, feijão, um pedaço de frango que sobrara do almoço e um pouco de salada. Coloquei tudo em uma marmita velha, ainda quente, e peguei também uma garrafa de água. Respirei fundo, destranquei a corrente e abri a porta de novo, só o suficiente para entregar a marmita. Ele estendeu as mãos. Eram calejadas, sujas de terra e frio. Mal consegui ver seu rosto — a aba do capuz molhado e a escuridão escondiam quase tudo. — Qual é o seu nome? — perguntei, sem saber muito bem por quê. Ele levantou ligeiramente a cabeça. Por um breve instante, nossos olhares se cruzaram. — Draven — respondeu, com um tom suave. — E o seu? — Lorena. Ele segurou a marmita com cuidado, como se fosse algo valioso. — Obrigado, Lorena. Tudo de bom pra você. De verdade. Então ele se virou e caminhou devagar para dentro da chuva, sem dizer mais nada. Fiquei ali, parada na porta, vendo sua silhueta desaparecer na escuridão até que não consegui mais distingui-la. Fechei a porta, passei a tranca duas vezes e encostei as costas na madeira. Meu coração ainda batia forte. Estava assustada, sim. Mas também senti algo estranho… um calor quieto no peito. Voltei para a mesa da cozinha, olhei para os livros de Economia abertos e suspirei. A última semana. Logo eu seria formada. Apesar do cansaço, da solidão e da chuva que não parava lá fora, eu ainda estava ali. Lutando. ... O despertador tocou às 5h20 da manhã e eu já levantei reclamando baixinho. O corpo ainda doía do dia anterior, mas não havia escolha. Vesti o uniforme azul escuro da limpeza, prendi o cabelo num coque apertado, peguei a bolsa velha e saí com o carro. Uma hora e meia de trajeto depois, entrei pela porta de serviço da Nexus Tech. O prédio era enorme, de vidro e aço, iluminado mesmo de madrugada. Passei o crachá e fui direto para o setor de limpeza no subsolo. As meninas já estavam lá, guardando as coisas nos armários. — Bom dia, Lorena! Chegou cedo hoje, hein? — disse a Rosa, minha colega de sempre, já com o carrinho de limpeza pronto. — Bom dia, gente. Cedo nada… o trânsito atrasou — respondi, dando um suspiro enquanto vestia as luvas. A Suelen, a mais faladeira do grupo, se aproximou logo, olhos brilhando de quem já tinha novidade: — Meninas, vocês não vão acreditar no que eu descobri ontem. Sabe a Juliana do financeiro? Aquela que vive se achando? — A loira de salto alto? — perguntei, rindo enquanto pegava o produto de vidro. — Essa mesma! — Suelen baixou a voz, mas não muito. — Descobri que ela tá ficando com o gerente do TI, o Rodrigo. E o pior: a esposa dele tá grávida de seis meses! — Mentira! — Rosa quase deixou o pano cair. — Mas ele vive postando foto de família no I*******m. — Safado mesmo — completei, balançando a cabeça enquanto limpava o espelho do elevador de serviço. — Outro dia eu tava limpando a sala dele e vi ele no celular mandando mensagem com carinha de beijo. Fiquei com nojo. A Cida, a mais velha e que trabalhava na empresa há oito anos, riu baixinho enquanto trocava o saco de lixo: — Isso aqui é um ninho de cobra, meninas. Quanto mais alto o cargo, pior a pessoa. Falando nisso… vocês souberam da reunião que rolou ontem à tarde? — Qual? — perguntei, curiosa. — A irmã do CEO apareceu de novo. A tal da Dra. Beatriz. Chegou toda perfumada, cara de poucos amigos, e ficou dando ordens como se fosse dona do pedaço. Disse que o irmão dela “está muito ocupado com projetos internacionais” e que por isso ele só participa por videoconferência. Suelen revirou os olhos: — Ocupado uma pinoia. Preguiçoso, isso sim. O homem é bilionário, mora sabe-se lá onde, e nunca pisou nessa empresa. A gente aqui se matando todo dia e o chefe nem sabe como é o cheiro do prédio. — A Beatriz falou que ele odeia sair de casa, que detesta trânsito e que prefere resolver tudo de casa ou de iate — completou a Rosa, imitando a voz fina da executiva. — “Meu irmão é um gênio, mas tem uma mente muito sensível para o caos corporativo.” Eu ri, empurrando o carrinho pelo corredor do 12º andar. — Sensível? O cara deve estar jogando videogame ou viajando pelo mundo enquanto a gente limpa a bagunça dele. Outro dia eu tava no escritório da diretoria e vi a tela dele na videoconferência. Só apareceu a mão mexendo no mouse. Nem o rosto ele mostra direito. — Pois é — disse a Cida, séria. — Ninguém aqui sabe como ele é de verdade. Tem gente que diz que ele é feio pra caramba e por isso se esconde. Outros falam que ele é bonitão, mas excêntrico. Eu só sei que a gente nunca viu o homem. É fantasma. — Fantasma rico — completei, passando o pano no chão. — E a gente aqui é a parte invisível da empresa. Ninguém repara na gente, mas se a lixeira transbordar, aí todo mundo reclama. Suelen deu uma cotovelada leve em mim: — Falando em invisível… e você, Lorena? Conta aí como foi ontem. Chegou em casa bem? Ainda tá nessa correria louca de faculdade? — Cheguei molhada até a alma, menina. Caiu uma tempestade daquelas. Mas tô bem. Só mais uns dias e eu me formo. Depois quero tentar subir de vida, sabe? Fazer alguma coisa melhor do que isso aqui… — Você merece, viu? — falou a Rosa com carinho. — Inteligente pra caramba, humilde… Deus vai te dar o teu lugar. Ficamos em silêncio por um momento, só o barulho dos rodos e dos produtos de limpeza ecoando no andar vazio. Depois a Suelen já mudou de assunto: — Ah, mas me conta: vocês viram o novo estagiário do marketing? Aquele moreno alto… — Sim, eu vi. Bem bonito. Mas agora tenho que ir. ... Cheguei em casa exausta. Joguei a bolsa no sofá, tirei o uniforme e fui direto para a cozinha. Abri o freezer e peguei a última pizza de muçarela que tinha guardado. Enquanto descongelava no micro-ondas, preparei um suco de caixinha e sentei à mesa com os livros e o notebook abertos. Era a penúltima noite de estudos antes da entrega final do TCC. Revisei os gráficos de economia, corrigi algumas referências e, quando finalmente salvei o arquivo, soltei um suspiro longo. — Caramba… tá acabando mesmo — falei sozinha, com um sorriso cansado. — Só mais um pouco e eu me livro dessa loucura. Comi a pizza direto da forma, ainda quente, assistindo um vídeo bobo no celular para relaxar. Depois de lavar a louça, fui apagar as luzes da sala. Antes de deitar, parei na janela como sempre fazia. A chuva fina ainda caía lá fora. Meu olhar atravessou a rua e parou na praça pequena e mal iluminada. Lá estava ele. O mesmo homem de ontem — Draven — deitado no banco de concreto, enrolado num cobertor velho e sujo. Mas não estava dormindo. Ele tinha se levantado e agora discutia feio com outro homem, um cara magrelo e agitado. O pior: Draven segurava um cabo de vassoura quebrado e gesticulava ameaçando o outro. Não consegui me conter. Comecei a rir sozinha. — Meu Deus… olha esse maluco — murmurei, ainda rindo. Peguei o celular rapidinho, abri a câmera e gravei uns trinta segundos da cena. Draven dava golpes de vassoura no ar enquanto o outro sujeito xingava e recuava. Era uma briga ridícula, quase cômica, com os dois escorregando na calçada molhada. Ainda rindo, abri o grupo das meninas no W******p (“Faxineiras da Nexus + Fofoca”) e mandei o vídeo com a legenda: **Lorena:** Olha o que tá rolando aqui na frente de casa kkkkkk o mendigo de ontem tá dando show agora Enviei. Não demorou nem dez segundos para as respostas começarem a explodir. **Rosa:** NÃOOOOOOOO KKKKKKKKKKK Ele tá lutando com o cabo de vassoura??? 😂😂😂😂 Parece gladiador de favela, meu Deus **Suelen:** MANO EU NÃO AGUENTO “En garde, seu ladrão de cobertores!!” Tô chorando aqui no sofá kkkkkkkk **Cida:** Lorena pelo amor de Deus Esse homem tem energia pra briga de rua e eu não tenho energia nem pra dobrar a roupa Manda mais, vai **Rosa:** Olha o jeito que ele segura o cabo… parece que tá duelando com o demônio “Volta pro inferno, Satanás!” **Suelen:** A cara do outro coitado correndo kkkk Draven ganhou a briga por nocaute técnico de vassoura Coroa ele rei da praça agora **Cida:** Tá vendo, Lorena? Enquanto a gente limpa a bagunça dos ricos, o Draven tá conquistando território com arma branca reciclada Herói popular **Rosa:** Manda áudio contando a história completa dele de ontem!! Quero saber se ele te deu em troca uma benção ou uma praga kkkk **Suelen:** Imagino ele amanhã na porta da Nexus pedindo marmita de novo “Ô Lorena, me dá uma pizza que hoje eu lutei pela honra da praça” Eu estava deitada na cama, rindo sozinha com as notificações pipocando sem parar. Desliguei o celular, ainda com um sorriso no rosto, e apaguei a luz. O dia tinha sido longo, exaustivo e estranho. Mas, de alguma forma, terminar com a imagem do Draven duelando com um cabo de vassoura na chuva fina me deixou mais leve. Amanhã seria outro dia na Nexus. Outro dia de uniforme, fofocas e vidros para limpar. Mas por enquanto… eu só queria dormir.Na quinta à noite, enquanto jantávamos, resolvi convidar:— Draven, amanhã é sexta. Vou sair com as meninas da empresa e mais uns amigos pra um barzinho aqui perto. Quer ir com a gente?Ele levantou a sobrancelha, surpreso.— Sério? Não quero atrapalhar…— Relaxa. Vai ser divertido. Topa?— Topo sim....Na sexta, fomos todos para o Bar do Zé, um lugar simples, com música ao vivo e karaokê. Estavam lá: Rosa, Suelen, Cida, mais dois amigos meus e Draven.Sentamos numa mesa grande, pedimos cerveja e petiscos. O papo fluiu rápido.— Então, Draven… conta aí como era sua vida antes de virar Sir Vassoura — pediu Suelen, já rindo.Ele tomou um gole de cerveja e sorriu com calma.— Era normal. Trabalhava, pagava conta, cuidava do meu pai… Depois que ele faleceu e eu perdi tudo, aprendi que a rua ensina muita coisa. Inclusive brigar com vassoura — completou, arrancando risada geral.— E você, Lorena? — perguntou Rosa. — Quando vai arrumar um namorado decente?— Quando ele aparecer — respondi r
Os dias seguintes passaram mais rápido do que eu esperava. Draven e eu acabamos nos aproximando. Eu dava carona pra ele todos os dias — ida e volta. No caminho, conversávamos sobre tudo: trabalho, as fofocas da Nexus, séries ruins que passavam na TV e até sonhos bobos pro futuro. Ele já não cheirava mais mal e até tinha cortado o cabelo melhor. Virou uma companhia estranha, mas boa.Numa sexta-feira à noite, depois do pagamento do primeiro salário, ele chegou em casa com um sorriso enorme no rosto.— Consegui, Lorena! Primeiro salário! Não é muito, mas é meu de novo.Fiquei feliz por ele. Sentamos na calçada como sempre e ele me mostrou o contracheque, orgulhoso.Mas o sorriso durou pouco.— Procurei casa, pensão, quarto… tudo absurdamente caro. Não tem nada decente que eu consiga pagar agora. — Ele ficou em silêncio por um momento, depois me olhou sério. — Será que… eu poderia alugar um quarto aqui na sua casa? Só até eu conseguir juntar dinheiro pra algo meu. Eu pago, claro. Todo mê
No dia seguinte, quando saí de casa de manhã, Draven já estava acordado, sentado no degrau da minha porta. Assim que me viu, ele se levantou rápido e estendeu um papel amassado, escrito à mão.— Lorena… bom dia. Eu fiz um currículo ontem. Será que você podia entregar lá na empresa pra mim? Eu tenho experiência como faxineiro… só preciso de uma chance.Peguei o papel. Fiquei surpresa. Na foto 3x4 que ele tinha colado (parecia recente), ele estava bem apresentável: barba feita, cabelo penteado, olhar sério. Tinha experiência de quase seis anos em empresas de limpeza e manutenção.— Pode deixar. Vou entregar hoje — respondi, guardando o currículo na bolsa.Na empresa, passei no RH na hora do almoço e entreguei o currículo da parte da limpeza. A atendente olhou, viu a foto e ergueu a sobrancelha.— Bonita a foto dele, hein? E tem experiência boa. Vamos analisar.Como ele não tinha telefone, ela pediu o meu número para contato. Dei sem pensar muito.Um dia depois, por volta das 11h da manh
No dia seguinte, mal entrei na cantina da Nexus para o lanche das 10h e já vi a confusão. A Rosa, a Suelen e a Cida estavam reunidas com mais umas quatro meninas da limpeza, todas inclinadas sobre o celular da Suelen.— Olha ela aí! A documentarista da praça! — gritou a Suelen quando me viu.O vídeo que eu tinha mandado já tinha mais de quarenta visualizações no grupo. Elas colocaram no volume máximo e todo mundo começou a rir de novo. Eu não consegui me segurar e ri junto.— Meninas, pelo amor de Deus, para de passar isso! — falei, limpando as lágrimas dos olhos.— Impossível! — disse a Rosa. — Olha o jeito que ele brande o cabo de vassoura! Parece o Obi-Wan Kenobi do asfalto.A Cida bateu na mesa, rindo:— Já temos o apelido dele: Sir Vassoura, o Cavaleiro da Praça Molhada.— Perfeito! — completei, ainda rindo. — Sir Vassoura, Defensor dos Bancos de Concreto e Terror dos Mendigos Rivais.A cantina inteira do turno da limpeza estava em polvorosa. Até a supervisora passou e perguntou












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