INICIAR SESIÓNContenho a vontade de chutar a porta do meu carro mais uma vez.
Estou morrendo de dor de cabeça e estressada além do limite, mas isso certamente é por causa do meu novo emprego. Tudo novo é frustrante, até mesmo minha casa nova me frustra.
Eu sou péssima em me adaptar a novidades.
Faz uma semana desde que me mudei e, porra, ando tanto sob pressão que quando ouço o toque do meu celular simplesmente grito. Não falo com Dee ou seu irmão durante esses dias e vejo, vez ou outra, movimentos na casa, já que a janela da minha cozinha dá para a janela da sala deles.
Mas hoje, uma plena segunda-feira, estou uma fera.
O idiota do meu chefe, tal de Bruno — o que tem de bonito tem de antipático — já me faz querer arrancar sua cabeça fora e jogar na caçamba de lixo mais próxima.
Mark, um amigo meu — e um dos sócios mais queridos de Bruno, que tem um extravagante clube onde rola de tudo, tudo mesmo — me diz sobre a vaga e eu acabo conseguindo um emprego administrando o lugar.
Um bom emprego e um bom salário. O problema é ter que aguentar as idiotices de Bruno, o que certamente vou ter que fazer por algum tempo. A última coisa que quero é voltar para minha cidade e para a casa da minha mãe, que jogaria um “eu te avisei” na minha cara na primeira oportunidade.
Saio da garagem e puxo a grande porta para baixo um pouco rápido demais, o som estrondoso me faz pular de susto.
— Jesus... — suspiro, passando as mãos pelo rosto. Se eu for nesse ritmo, acabo destruindo a casa. Que desastre.
Me viro para entrar em casa e dou de cara com Dorian me olhando sem qualquer expressão específica. Ele parece um detergente neutro em forma de gente.
— Oi? — pergunto, insegura, já que ele entrou no meu quintal e eu nem sequer ouvi seus passos.
— Ouço um estrondo e penso que você está com algum problema — ele diz, sem desviar o olhar.
— Apenas puxei a porta rápido demais, então o metal bateu forte no chão. Sou um pouco desastrada — dou de ombros.
— Um pouco? — o canto da boca dele se ergue.
— Não repita isso para o seu próprio bem — aviso, estreitando os olhos.
Me viro em direção à porta da frente. A casa tem um design estranho, mas, apesar disso, é confortável e o aluguel tem um bom preço.
Pego minhas chaves e encaixo a chave certa na fechadura.
— Você não está sendo uma boa vizinha — a voz de Dorian surge logo atrás de mim, grave e terrivelmente sedutora. Ele nem tenta.
Terrível porque ele parece um idiota como muitos outros homens, e ainda assim a voz dele é divina. É questionável eu me impressionar tanto com isso, mas e daí?
— Oh? Você veio até aqui sem ser convidado e ainda foi rude — viro para encará-lo.
Dorian me observa por um bom tempo. Então sorri. Um sorriso completo, mostrando os dentes.
Fico em silêncio por um segundo. Ele não tinha sorrido antes. E agora estou de boca aberta.
O sorriso ilumina o rosto dele de uma forma absurda, quase injusta. Lindo de morrer, e claramente com um aviso de “perigo” estampado em cada traço.
— Já que estou aqui, poderia me convidar para entrar. Ajudei a colocar os móveis aí dentro. Seja educada, vizinha — ele diz como se fosse óbvio.
— Você só ajudou porque sua irmã te chantageou — lembro sem hesitar.
— Isso não muda o fato de que ajudei, muda? — ele rebate.
Quero estapear esse sorriso convencido até ele desaparecer.
Respiro fundo várias vezes. Minha cabeça lateja.
Empurro a porta e aponto para dentro.
— Se quer entrar, vá em frente.
Dorian dá um passo à frente e para ao meu lado. Quando ele se aproxima, engulo em seco. Ele é grande, cheiroso e intimidador de um jeito irritante.
— Claro, vizinha. Aceito entrar e tomar algo — ele sorri de novo. — Será um prazer.
E entra na minha casa como se fosse dele.
Fico parada por um segundo, sem respirar direito.
Que merda.
Esfrego a têmpora e entro logo depois, fechando a porta. Tiro as sapatilhas e deixo perto do sofá. Quando piso no tapete felpudo, seguro um gemido de satisfação. Levanto o olhar e encontro Dorian me observando.
— O que foi? — corto, sem paciência.
— Você é estranha — ele diz, neutro.
— Olha só quem fala, o vizinho esquisitão — passo por ele em direção à cozinha.
Ele me segue.
— Cat como um gato. Você não me acha esquisitão — afirma com convicção.
— Dorian com D de doido. Já ouviu falar de modéstia?
— Já ouvi falar, mas pessoas como eu não usam essa palavra — ele responde.
Olho por cima do ombro.
— Pessoas como você?
— Pessoas incrivelmente lindas — ele diz, com um sorriso de lado.
Eu rio. Alto.
Abro a geladeira e pego duas Coca-Cola. Entrego uma a ele. Quando nossos dedos se encostam, sinto um arrepio estranho e prendo a respiração por um segundo.
Eu poderia entrar em combustão só com ele me olhando desse jeito.
— Sente-se — aponto para a banqueta.
Tomo dois comprimidos para enxaqueca e engulo com refrigerante.
— Não sei se isso é indicado sob termos médicos — ele comenta.
Sento na banqueta oposta e encaro ele.
— Você é médico?
— Não
— Então pronto.
Ele balança a cabeça, como se não acreditasse em mim.
— Você trabalha com o quê? — ele pergunta.
— Administro um clube a quatro quadras daqui — respondo.
— O “The Moon”? — ele me encara, curioso.
— Esse mesmo — confirmo. A dor já começa a aliviar.
— Vejo porque sua cabeça dói agora. Bruno não é uma pessoa fácil — ele murmura.
— Meu chefe é um cuzão. — Não penso duas vezes.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Você fala o que pensa, né?
— Não falo nem metade — dou um sorriso curto. — Isso já me torna uma pessoa maravilhosa.
— Se falasse tudo, as pessoas sairiam chorando — ele comenta.
— Os homens pelo menos não — escapa antes de eu me segurar.
— O quê? — ele sorri.
— Nada — corto rápido. — Como vai Dee?
— Ela está bem. Trabalha muito — ele responde.
— Que bom.
O silêncio cai entre nós é incômodo.
Eu já estou inventando perguntas na minha cabeça quando o celular dele toca. Ele se levanta, encara o visor e lê algo com uma leve careta, digita rápido e guarda o aparelho no bolso.
— Tenho que ir — anuncia.
— Oh, que pena.
— Estava quase me colocando para fora, hein? — ele provoca.
— Jamais — respondo, inocente demais até para mim mesma.
Acho que ele ri baixo.
Abro a porta e fico esperando.
— Foi um prazer aceitar seu autoconvite para entrar em minha casa — falo, ajeitando uma mecha de cabelo.
— Tenho certeza que sim — ele responde, com aquele meio sorriso. — A gente se vê, Cat.
— Tenho certeza que sim, Dorian.
Ele sai, e fico parada até ele desaparecer na curva e entrar na casa ao lado.
Fecho a porta e volto para a cozinha. Faço um macarrão instantâneo e pego mais um refrigerante. E viva a minha saúde.
Levo tudo para a sala, coloco na mesinha que antes eu odiava, agora gosto. Pego meus documentos na bolsa e me sento no tapete.
Perfeito.
Essa vai ser uma noite maravilhosa.
Meus olhos encontram um par de olhos que oscila sem parar entre o azul inebriante e um forte violeta. Eles me encaram com raiva e decepção, enquanto seu peito largo sobe e desce em uma velocidade anormal.— Merda! — solto, quase tombando uma cadeira.— O que...Dee interrompe a própria frase quando segue meu olhar. Val nem sequer diz nada; apenas solta o ar e aperta minha mão, tentando me transmitir algum conforto.Dorian está parado no fundo, os braços inertes ao lado do corpo e os punhos cerrados com tanta força que, mesmo daquela distância, consigo ver os nós brancos de seus dedos.Abro e fecho a boca repetidamente, como um peixe fora d’água. Dou um passo à frente, mas ele simplesmente desvia o olhar e começa a sair do clube.— Você ligou para ele? — grito para Dee.— Ele já estava aqui. Estava preocupado que eles fossem aparecer — responde apressadamente. Seu rosto está vermelho, mas sei que não é de vergonha. — Eu mandei uma mensagem para ele, apenas para que ficasse ciente.— O
— Ian? — reconheço, olhando para o homem que para diante de mim.Ele veste uma camiseta azul-marinho justa e uma calça jeans de cós baixo que, por incrível que pareça, fica muito bem nele, deixando visíveis todos os seus músculos torneados. Seus cabelos loiros estão puxados levemente para trás com extrema perfeição, e aqueles olhos verdes-claros me encaram, cheios de surpresa.Eu me esqueci de como Ian é grande e lindo.— Assim que entrei, reconheci você. Esse cabelo lindo e esse corpo incrível são inconfundíveis! — exclama ele.Forço um sorriso e me levanto, aproximando-me dele. Quando oferece a mão e aqueles olhos brilhantes se voltam para os meus, suspiro, sem jeito, ao perceber que ele me puxa para seus braços em um abraço apertado e bastante significativo..— Você parece bem, Ian. Não sabia que ainda fazia parte do show — comento quando me afasto, tentando ignorar os olhares perplexos das minhas duas amigas, que agora nos encaram com espanto. Mas sei que o espanto é por causa del
Meu celular vibra, e sorrio ao ler a mensagem de Dorian.Dorian: Tudo bem por aí, amor?Tenho que me lembrar de, futuramente, pedir a ele para falar em italiano para mim, trocar “amor” por “amore” e sussurrar baixinho coisas absurdas no meu ouvido.Balanço a cabeça e digito rapidamente uma resposta. É a terceira mensagem que ele me manda desde que nos conhecemos. Lembro que ele me disse não gostar muito de celulares.Eu: Sim, estou fora com Dee e Val. Vamos mostrar alguns lugares para sua irmã.Uma buzina soa alta atrás de mim, e eu pulo de susto. Estou esperando por Dee e Val na frente do clube, enquanto as duas lidam com o cara na entrada. A resposta de Dorian chega, e eu literalmente suspiro.Dorian: Tomem cuidado. Se precisar de mim, me ligue e estarei aí. Sinto sua falta, Cat.Guardo o celular na pequena bolsa que trouxe. Por um momento, penso que seria ótimo se Dorian estivesse aqui, e não a seis horas de distância. Ainda estou ressentida comigo mesma por ter sido horrível com e
Oito horas depois — das quais passamos mais de cinco dirigindo até Jacksonville e quase duas ouvindo um médico explicar a situação da minha mãe, além de assinar os papéis de sua liberação do hospital — finalmente a levamos para casa. Gemo de cansaço e fecho a boca para não começar a xingar como um marinheiro.Eu amo minha mãe, Marie, com todo o meu coração, mas, se em perfeito estado de saúde ela já era uma peça rara, imagine com uma perna quebrada e um pulso torcido.Dee, a verdadeira calma em pessoa, responde pacientemente a todas as perguntas dela. Mesmo quando minha mãe reclama sem parar, sua expressão permanece serena e atenta. Quase pergunto se ela não pode usar seus poderes para silenciá-la, mas logo me sinto um monstro em forma de filha. Então me calo e começo a pensar.Eu sabia do que Dorian era capaz. Ele também tinha me contado quais eram os dons da irmã, mas eu ainda estava completamente perdida naquele mundo sobrenatural em meio à realidade mundana. E, pensando nisso, com
— Mãe? — atendo ao celular ainda grogue de sono.Haviam se passado dois dias desde o pequeno confronto com Dorian e, desde então, estou sofrendo com uma insônia horrível. Só consigo dormir de verdade tarde da madrugada, quando já deveria estar acordada há muito tempo.Não estou treinando nem indo ao dojo porque meu maldito carro estragou, e estou pensando seriamente em mandá-lo para o lixão mais próximo. A verdade é que já cheguei ao meu limite para muitas coisas.— Filha, sei que é cedo, mas aconteceu um pequeno acidente... — a voz da minha mãe soa baixa e cansada. Em questão de segundos, chuto o cobertor e me levanto mais desperta do que nunca.— Mãe?— Depois que cheguei de viagem, fui tomar banho e acabei escorregando no banheiro — explica, sem rodeios. — Resultado: uma perna quebrada e uma torção no pulso.Praguejo e passo a mão pelo rosto.— Onde você está? — pergunto, preocupada. — Estou indo para aí.— Filha, não precisa. Estou bem.— Mãe, onde você está? Estou indo para aí! —
Dorian e Dee não me procuram nem tentam falar comigo por quase três semanas.Estabeleço uma rotina firme e rígida para evitar que meus pensamentos vão para a área proibida, onde fica toda aquela história sobre meus vizinhos terem poderes e serem algum tipo de espécie sobrenatural fodona.Porque eles são fodões, certo?Se tudo aquilo for verdade, não tem como negar. Mas eu ainda não estou pronta para falar ou acreditar em tudo isso. Ainda não.Depois de colocar as sacolas no carro, pego um cigarro e o acendo. Não costumo fumar com frequência e, quando fumo, é mais para relaxar. Marquei de encontrar Adam no clube mais tarde. Ele é um cara legal, e nós criamos amizade rapidamente.— Não sabia que fumava.Viro-me com o coração disparado e encontro não só Dorian, mas também uma loira deslumbrante ao lado dele, que me observa com um interesse peculiar.— Não sabia que isso era da sua conta. — Retruco, soltando a fumaça pelos lábios.Tento não olhar muito para ele, que, aliás, usa uma bermud







