LOGINHelenaDepois da primeira semana, o programa deixou de parecer uma experiência de verão e começou a parecer uma pequena amostra da vida que eu poderia ter depois da escola.As manhãs começavam cedo. Aulas. Laboratório. Discussões em grupo. Leituras. Testes. Anotações. E, quando eu percebia, já era noite. Eu estava gostando de cada segundo.Até dos momentos em que alguma coisa não funcionava. Principalmente desses. Porque, pela primeira vez, eu não estava estudando apenas para acertar uma prova.Eu estava tentando descobrir respostas para problemas que ainda não tinham uma solução simples. Na segunda semana, a professora responsável pelo meu grupo apresentou o projeto que desenvolveríamos até o fim do programa.Nosso objetivo era estudar um sistema de monitoramento capaz de acompanhar determinados sinais associados a alterações neurológicas, pensando principalmente em tecnologias que pudessem facilitar o acompanhamento de pacientes fora do ambiente hospitalar.Não era uma solução defi
HelenaMeu primeiro pensamento naquela manhã foi que eu queria estar em casa. Meu segundo foi que eu não poderia voltar para casa.Abri os olhos no quarto do alojamento e fiquei alguns segundos olhando para o teto.Tudo era novo. A cama. O quarto. O silêncio. O prédio. Até o som dos passos no corredor parecia diferente.Peguei o celular. Nenhuma mensagem nova. Olhei para o horário. Ainda era cedo. Mas eu sabia que Daniel provavelmente já estaria acordado.Sorri sozinha. Abri nossa conversa.Eu: Bom dia.A resposta demorou menos de um minuto.Daniel: Bom dia.Eu: Dormiu?Daniel: Mais ou menos.Eu: Eu também.Daniel: Hoje começa.Olhei para a mensagem.Eu: Boa sorte.Daniel: Para nós.Meu coração apertou.Eu: Para nós.Guardei o celular. Levantei. O primeiro dia tinha começado.***O campus era enorme. Muito maior do que eu havia imaginado. Havia estudantes de diferentes cidades, professores, pesquisadores e coordenadores circulando entre os prédios.Passei alguns minutos tentando enten
HelenaNa noite anterior à viagem, minha mala estava pronta. Ou quase. Eu tinha conferido os documentos três vezes. Passagem. Identidade. Carta de aprovação. Informações do programa. Carregadores. Roupas.Tudo estava organizado. Tudo, menos eu.Fiquei alguns minutos sentada na beira da cama olhando para a mala aberta.Amanhã, eu iria embora. Amanhã, Daniel iria embora.E depois disso, nossas manhãs não começariam mais juntas. Não haveria corredor. Não haveria intervalo. Não haveria arquibancada. Não haveria aquela mensagem simples: “Estou te esperando.”Meu celular vibrou, era Daniel: Está pronta?Sorri e respondi: Para a viagem ou para te encontrar?Daniel: Os dois.A mensagem seguinte veio logo.Daniel: Último passeio?Meu coração apertou.Eu: Na praça? Daniel: Na praça.***Minha mãe permitiu que eu saísse depois de jantar. Talvez porque soubesse que não havia muito que pudesse dizer para me convencer a ficar em casa naquela noite.Quando cheguei à praça, Daniel já estava lá. Ele
HelenaEu sempre achei que despedidas aconteciam quando alguém ia embora. Agora eu descobria que não. Às vezes, a despedida começa muito antes. Começa quando você olha para a pessoa que ama e percebe que, em poucos dias, não vai mais vê-la todos os dias. Começa quando você passa a contar os momentos que ainda restam. Quando cada conversa parece importante demais. Cada abraço dura alguns segundos a mais. Cada “até amanhã” deixa de soar como uma certeza.Faltavam cinco dias. Cinco. Eu tinha riscado quase todos os compromissos da minha agenda daquela semana. Documentação. Últimos preparativos. Malas. Orientações do programa.Mas havia outra coisa ocupando espaço demais na minha cabeça: Daniel.Naquela manhã, recebi uma mensagem dele.Daniel: Posso te ver hoje?Sorri.Eu: Você não me viu ontem?Daniel: Ontem foi pouco.Fiquei olhando para a tela. Ele mandou outra.Daniel: Quero um encontro de verdade antes de a gente ir embora.Meu coração apertou.Eu: Onde?A resposta demorou alguns seg
HelenaOs primeiros dias de férias chegaram de um jeito estranho. Eu tinha esperado tanto pelo fim das aulas que imaginei que sentiria alívio. Mas não senti.Acordar sem precisar correr para a escola parecia errado. Não encontrar Daniel no corredor também. Não ter um cronograma para planejar, um professor para impressionar ou um intervalo para dividir com ele fazia o dia parecer grande demais.E havia uma contagem regressiva que eu não conseguia ignorar. Faltavam poucos dias para a viagem.Poucos dias até cada um seguir para uma universidade diferente. Por isso, quando Daniel mandou mensagem naquela manhã, aceitei quase imediatamente.Daniel: Henrique mandou mensagem.Eu: O que aconteceu?Daniel: Ele quer alguns ajustes no projeto antes de entregar a proposta internacional.Eu: Hoje?Daniel: Hoje.Eu: Então vamos.***A Westbrook parecia outra escola durante as férias. Os corredores estavam silenciosos. Algumas salas permaneciam fechadas. Não havia alunos correndo de um lado para o ou
HelenaDepois de enviarmos nossas inscrições para os programas de verão, alguma coisa dentro de mim finalmente pareceu desacelerar. Não completamente. Ainda havia as provas finais. Os últimos trabalhos. As apresentações. A formatura se aproximando.E, claro, a certeza de que o verão nos levaria para universidades diferentes.Mas pelo menos uma das grandes decisões estava tomada. Eu iria para o programa de Engenharia Biomédica. Daniel iria para o programa de Engenharia Mecânica. Nós tínhamos escolhido.Agora só precisávamos terminar o ano. Ou era isso que eu pensava. Até o professor Henrique pedir que eu e Daniel passássemos na sala dele depois da aula.Entrei primeiro. Daniel veio logo atrás.— O senhor queria falar com a gente? — perguntei.Henrique estava sentado atrás da mesa, com alguns documentos espalhados à sua frente.— Na verdade, eu quero apresentar uma coisa para vocês.Daniel se aproximou.— Isso parece importante.— É importante.Henrique virou um dos documentos. No topo







