FAZER LOGINOlho para a tela, irritado.
Meu assistente. Atendo. - Alô. - Senhor Ferraz, o diretor da filial já está à sua espera para a reunião. Merda. Olho pela janela. O dia já amanheceu. Nem percebi. - Já estou a caminho. Desligo sem esperar resposta. Passo a mão pelo rosto mais uma vez. Frio.Vazio. Controlado. É assim que eu funciono agora. Sem espaço para erros. Sem espaço para sentimentos. Sem espaço para... nada. Mas, por algum motivo que eu ainda não entendo... Aquela mulher... E aquela maldita criança... Ainda não saíram da minha cabeça. E isso... Isso me irrita mais do que deveria. Chego na empresa como sempre. Sem olhar para ninguém. Sem cumprimentar. Sem parar. As pessoas abrem caminho automaticamente não por respeito... mas porque aprenderam a não se aproximar. E eu prefiro assim. O silêncio. A distância O controle. O trabalho é a única coisa que ainda funciona. A única coisa que não falha. A única coisa que me impede de afundar completamente. Entro no elevador e observo meu reflexo no espelho. Frio. Intacto por fora. Destruído por dentro. As portas se abrem no meu andar. Caminho direto para a sala de reunião. Sem desvios. Sem pausas. Quando entro, tudo está exatamente como deve ser. Organizado. Cada pessoa no seu lugar, os documentos alinhado sobre a mesa. Controle. É disso que eu preciso. - Bom dia, senhor Ferraz - alguém arrisca dizer. Não respondo. Puxo a cadeira na cabeceira da mesa e me sento. Todos ficam em silêncio. Esperando. Abro a pasta à minha frente, passando os olhos pelos primeiros relatórios, números, estratégias. Expansão. Tudo dentro do esperado até que... Eu vejo. Meu corpo enrijece. O nome do projeto. "Hortelária DOM". Por um segundo... o ar pesa. Minhas mãos param. E o tempo... desacelera. Não. Não pode ser. Levanto o olhar devagar. - Quem autorizou isso? Minha voz sai baixa. Mas carregada. Perigosa. Os olhares se cruzam na mesa. Ninguém responde de imediato. Então um dos diretores limpa a garganta. - Senhor... nós achamos que- o corto sem paciência alguma. - Eu não perguntei o que vocês acharam. O silêncio cai pesado. Corto o documento com os dedos, empurrando-o sobre a mesa. - Eu perguntei quem autorizou isso. - Foi uma decisão estratégica - outro tenta intervir. - O projeto tem potencial enorme de retorno e- Eu rio. Sem humor. Sem paciência. - Retorno? Levanto da cadeira lentamente. - Você acha que eu estou interessado em retorno? Caminho até a ponta da mesa, pegando o documento novamente. Meus olhos passam pelas páginas, mas eu não estou vendo números. Eu estou vendo outra coisa... Outro lugar. .... - Vai se chamar Hortelária DOM.- Monalisa sorria, sentada no sofá, com os pés apoiados na mesa, completamente à vontade. - Hortelária DOM? - arqueei a sobrancelha, cruzando os braços. - Um lugar com vida, Dante. - ela colocou a mão sobre a barriga. - Verde, leve... cheio de famílias. Crianças correndo. Meu olhar caiu automaticamente para a barriga dela. Olívia. - Você já planejou tudo, não foi? Agora o que significa Dom?- perguntei, tentando não sorrir. - Claro que planejei. - ela deu de ombros, convencida. - Você só vai executar será nossas inicias onde tudo começou. Aproximei-me, ajoelhando na frente dela. - Eu faria qualquer coisa por vocês duas. Ela sorriu daquele jeito... que ainda me persegue. - Então constrói nosso lugar no mundo, Dante. .... Fecho o documento com força. O barulho ecoa pela sala. De volta. Para o vazio. - Esse projeto foi encerrado - digo, firme. - Mas senhor, os estudos mostram que- não o deixo terminar. - Eu não me importo com os estudos! Minha voz sobe pela primeira vez. Cortante, pesada. Irreversível. Todos se calam imediatamente. Apoio as mãos na mesa, inclinando o corpo levemente para frente. - Esse projeto... - minha voz sai mais baixa agora, mas muito mais perigosa - não é um número. Ninguém respira. - Ele não volta. Silêncio. Um dos diretores ainda tenta. - Senhor Ferraz, com todo respeito, esse projeto pode se tornar um marco para a empresa. Seria um legado- Meu olhar encontra o dele. E ele para. Porque entende. - Eu já perdi o único legado que importava. A frase sai seca. Sem emoção aparente. Mas por dentro... Por dentro tudo está queimando. Endireito o corpo. Ajusto o paletó. Volto a ser o que eles esperam. Frio. Inatingível.Antes do casamento, fiz questão de apresentá-la oficialmente aos meus pais.Marquei um almoço em um restaurante.Queria que eles conhecessem a mulher que transformou completamente a minha vida.Assim que entramos, minha mãe levantou imediatamente.Olhou para Patrícia por alguns segundos.Depois caminhou até ela.Achei que faria algum comentário...Mas simplesmente a abraçou.Um abraço longo. Carinhoso.Sincero.Quando se afastou, segurou seu rosto entre as mãos.- Agora eu entendi.Patrícia sorriu sem entender.- Entendeu o quê?Minha mãe olhou para mim.- Por que meu filho voltou a sorrir daquele jeito.Meu coração apertou.Minha irmã apareceu logo em seguida.- Então essa é a famosa Patrícia?Patrícia arregalou os olhos.- Famosa?Minha irmã começou a rir.- Você não imagina o quanto a Luna fala de você.Como se tivesse sido chamada, minha pequena apareceu correndo.- Vovó! Eu falei que ela era linda!Todos caíram na gargalhada.Minha mãe acariciou os cabelos da Luna.- Você não exa
Antes do pedido, havia algo que eu precisava admitir para mim mesmo.Durante muito tempo, achei que o que vivi com a Vivian tinha sido amor.Mas, olhando para trás...Percebo que estava enganado.O que existia entre nós era uma mistura de paixão, desejo e uma convivência que me fez acreditar que aquilo bastava. Eu estava tão focado em construir um futuro ao lado dela que nunca parei para me perguntar se aquilo realmente era amor.Hoje eu sei que não era.Porque amor... Eu só descobri quando Patrícia entrou na minha vida.Desde a primeira vez que a vi.Mesmo completamente alcoolizado naquela noite, havia alguma coisa nela que não saía da minha cabeça.No começo achei que fosse apenas curiosidade. Depois imaginei que fosse atração.Mas cada reencontro só aumentava aquilo que eu tentava ignorar.Ela me provocava como ninguém.Me enfrentava sem medo.Nunca abaixava a cabeça para mim.Era dona de uma força que me deixava completamente fascinado.Patrícia era intensa. Determinada.Leve quan
- Esse rapaz é diferente... - minha mãe comentou enquanto dobrava algumas roupas. - Faz tempo que não vejo alguém cuidar tanto de outra pessoa sem esperar nada em troca.Meu pai concordou.- Ele tem caráter. Hoje em dia isso vale mais do que dinheiro.Sorri em silêncio.Acho que eu tinha estado cega por muito tempo.Porque Breno era exatamente isso.Um homem incrível. Daqueles que chegam devagar, sem fazer promessas impossíveis.Mas que cumprem cada palavra que dizem. Ele não conquistou apenas a mim. Conquistou meus pais, meu filho. Conquistou até os meus medos.Pela primeira vez em muitos anos, eu conseguia imaginar um futuro que não fosse construído apenas sobre dor e luta.No dia em que saímos do interior, a despedida foi difícil.Vi meus pais olhando pela última vez para a casa onde construíram toda a vida.Minha mãe enxugava discretamente as lágrimas. Meu pai permanecia em silêncio, tentando ser forte.Aproximei-me dos dois e os abracei.- Vai dar certo.Meu pai passou a mão pelo
Algumas semanas depoisTer a guarda definitiva do meu filho não foi a melhor conquista da minha vida.A melhor parte era poder tê-lo comigo todos os dias.Poder acordar sabendo que ele estava no quarto ao lado.Abraçá-lo sem medo de alguém dizer que o tempo havia acabado.Beijar sua testa.Fazer carinho em seus cabelos.Ouvir sua risada ecoando pela casa.Descobrir, pouco a pouco, quem ele era. E permitir que ele também descobrisse quem era a sua mãe.Cada instante ao lado do Guto parecia recuperar um pedacinho dos anos que nos foram roubados.No primeiro dia, tudo era novidade.Passeamos juntos pela cidade.Tomamos sorvete na praça.Brincamos no quintal da casa dos meus pais.Conversamos sobre coisas simples.Ele ainda me observava com certa curiosidade, como se tentasse guardar cada detalhe meu na memória. E eu fazia exatamente a mesma coisa.Queria decorar cada sorriso.Cada expressão.Cada palavra.Porque, por muito tempo, tudo o que eu tive dele foi uma fotografia.Agora... Eu ti
Quando Mizael percebeu que ela realmente chamaria a polícia, sua expressão mudou.Sem dizer mais uma palavra, entrou no carro e foi embora.Olhei para Patrícia.- Pegue seus documentos.Ela me encarou.- Vamos até a delegacia.- Agora?- Agora. Se ele quer brincar, vamos fazer isso do jeito certo.Não demorou para estarmos na delegacia.Expliquei toda a situação ao delegado, detalhando cada aproximação, cada tentativa de intimidação.Ele parecia conhecer bem a família Machado.Quando comentou que aquela aproximação poderia estar relacionada apenas ao filho, não consegui ficar calado.- Com todo respeito, delegado, não vou permitir que isso seja tratado como uma simples coincidência. Minha cliente já foi intimidada mais de uma vez. E, se essa delegacia não tomar providências, eu levo esse caso para outra cidade, para outra corregedoria ou para onde for necessário.O delegado me encarou por alguns segundos.Então percebeu que eu não estava blefando.Pouco depois, o boletim de ocorrência
Quando terminei, ele soltou um longo suspiro.- Então era isso...Assenti.- Ela passou todos esses anos acreditando que tinha perdido o filho definitivamente.- E foi enganada esse tempo todo.Passei a mão pelo rosto.- Agora eu vou acabar com isso.Dante sorriu.- Eu sabia que você não voltaria de lá do mesmo jeito.- Não mesmo.Ele pegou o celular.- Vou avisar a Helena. Ela precisa saber de tudo.Assenti.Porque, dali em diante...Todos nós lutaríamos pela mesma causa.Trazer o Guto de volta para os braços da mãe.Avisei a Dante que precisava voltar e pedi que ele e Helena ficassem com a Luna.- Preciso ir. Patrícia vai precisar de mim mais do que nunca.Dante assentiu sem hesitar.- Pode ir tranquilo. Nós cuidaremos da Luna. Quando tudo isso passar, vocês voltam.- Prometo que não vou demorar. Vou buscá-la assim que puder e levá-la para casa. Mas, quando eu voltar, não virei sozinho.Ele apenas sorriu e apertou meu ombro.- Vai. Cuida dela.Receber aquele apoio significava muito







