FAZER LOGINDormir... deixou de ser descanso há muito tempo.
Desde aquela madrugada. Basta fechar os olhos... e tudo volta. O cheiro do hospital. As luzes fortes. Os sons apressados. E o medo. Sempre o mesmo medo esmagando meu peito como se estivesse acontecendo outra vez. Acordo no meio da noite, sem ar, com o coração disparado... como se tivesse corrido para salvar alguém. Mas eu não salvei. Abro os olhos de repente. O quarto está escuro. Silencioso. Mas, por um segundo... eu ainda vejo. Ela. Monalisa. Deitada naquela cama, pálida demais... distante demais... enquanto eu implorava em silêncio para que aquilo não fosse o fim. Passo a mão pelo rosto, sentindo o suor frio. Droga. Até quando isso vai continuar? Meu olhar se perde no vazio à minha frente. E então vem o pior. A lembrança que nunca falha. A voz do médico. Baixa. Cuidadosa demais. Como se existisse alguma forma gentil de destruir alguém. (Sinto muito.) Duas palavras. E tudo acabou. Minha mulher. Minha filha. Na mesma noite. No mesmo maldito momento. Solto uma risada baixa, sem humor. Irônico, não é? Passei anos construindo uma vida... planejando cada detalhe... acreditando que, pelo menos ali, eu teria controle. E bastou uma madrugada. Uma única madrugada... Para me mostrar o quanto eu estava errado. Levanto da cama, passando a mão pelos cabelos. Olho para o lado vazio. Ainda não me acostumei. E acho que nunca vou. Monalisa deveria estar ali. Olívia deveria ter chorado pela primeira vez naquele quarto. Eu deveria ter sido pai. Mas não fui. Não consegui. Não protegi nenhuma das duas. A culpa aperta meu peito como uma mão invisível. Porque, no fundo, é isso que me destrói. Não foi só a perda. Eu falhei. Fecho os olhos com força. E, por um instante, vejo de novo. Monalisa sorrindo, com a mão sobre a barriga. - Ela vai ter seus olhos - ela disse, rindo. E eu acreditei. Acreditei em cada plano. Cada detalhe. Cada futuro que nunca chegou. Abro os olhos bruscamente. Chega. Passo a mão no rosto, tentando afastar as imagens. Mas é inútil. Porque o passado não vai embora. Ele só espera. E ataca quando eu menos espero. Pego o copo na mesa ao lado e viro o resto da bebida de uma vez. O gosto amargo desce queimando. Mas não é suficiente. Nunca é. E como se não bastasse... A vida decidiu me lembrar de tudo outra vez. Alguns dias atrás. Um telefonema. Outra notícia. Minha irmã morta. Um acidente, simples assim. Mais uma pessoa tirada de mim. Mais um pedaço arrancado. Mas dessa vez... veio algo junto. Uma criança. Uma filha que eu nem sabia que existia. Minha sobrinha. Fecho os olhos, irritado. Só de pensar nisso... meu corpo reage. Raiva. Rejeição. Eu não vou passar por isso de novo. Não vou. Dei um enterro digno para minha irmã. Fiz o que precisava ser feito. Mas parei por aí. Não fui ao abrigo. Não quis ver a criança. Não quero ver. Ela terá outras pessoas. Outras famílias. Mas parece que ninguém entende isso. Principalmente aquela diretora insistente. A mulher simplesmente não desiste. Ligando. Insistindo. Como se eu tivesse alguma obrigação emocional com algo que eu me recuso a reviver. Ontem foi o limite. Eu estava em uma reunião importante quando ela resolveu ligar. Falando daquela criança como se fosse minha responsabilidade. Como se eu tivesse escolha. Senti o sangue ferver. Saí da reunião sem me importar com nada. Disse tudo que precisava ser dito. Que ela seguisse em frente. Que aquela criança não me interessa. E então... Ela apareceu com olhos amêndoas cheio de petulância no olhar. A outra. Aquela necessidade irritante de se meter onde não é chamada. (Crianças não são erros.) A voz dela ainda ecoa na minha cabeça. Aperto o copo com força. Quem ela pensa que é? O que ela sabe? Nada. Ela não sabe o que é perder tudo em questão de horas. Não sabe o que é sair de um hospital... sozinho. Sem esposa. Sem filha. Sem nada. Solto o ar com força. Qual é a dificuldade de entender? Eu não vou cuidar dessa criança. Não vou. Porque eu sei exatamente onde isso termina. No mesmo lugar de sempre. Perda. Dor. Silêncio. Sou arrancado dos pensamentos pelo som do celular tocando.Antes do casamento, fiz questão de apresentá-la oficialmente aos meus pais.Marquei um almoço em um restaurante.Queria que eles conhecessem a mulher que transformou completamente a minha vida.Assim que entramos, minha mãe levantou imediatamente.Olhou para Patrícia por alguns segundos.Depois caminhou até ela.Achei que faria algum comentário...Mas simplesmente a abraçou.Um abraço longo. Carinhoso.Sincero.Quando se afastou, segurou seu rosto entre as mãos.- Agora eu entendi.Patrícia sorriu sem entender.- Entendeu o quê?Minha mãe olhou para mim.- Por que meu filho voltou a sorrir daquele jeito.Meu coração apertou.Minha irmã apareceu logo em seguida.- Então essa é a famosa Patrícia?Patrícia arregalou os olhos.- Famosa?Minha irmã começou a rir.- Você não imagina o quanto a Luna fala de você.Como se tivesse sido chamada, minha pequena apareceu correndo.- Vovó! Eu falei que ela era linda!Todos caíram na gargalhada.Minha mãe acariciou os cabelos da Luna.- Você não exa
Antes do pedido, havia algo que eu precisava admitir para mim mesmo.Durante muito tempo, achei que o que vivi com a Vivian tinha sido amor.Mas, olhando para trás...Percebo que estava enganado.O que existia entre nós era uma mistura de paixão, desejo e uma convivência que me fez acreditar que aquilo bastava. Eu estava tão focado em construir um futuro ao lado dela que nunca parei para me perguntar se aquilo realmente era amor.Hoje eu sei que não era.Porque amor... Eu só descobri quando Patrícia entrou na minha vida.Desde a primeira vez que a vi.Mesmo completamente alcoolizado naquela noite, havia alguma coisa nela que não saía da minha cabeça.No começo achei que fosse apenas curiosidade. Depois imaginei que fosse atração.Mas cada reencontro só aumentava aquilo que eu tentava ignorar.Ela me provocava como ninguém.Me enfrentava sem medo.Nunca abaixava a cabeça para mim.Era dona de uma força que me deixava completamente fascinado.Patrícia era intensa. Determinada.Leve quan
- Esse rapaz é diferente... - minha mãe comentou enquanto dobrava algumas roupas. - Faz tempo que não vejo alguém cuidar tanto de outra pessoa sem esperar nada em troca.Meu pai concordou.- Ele tem caráter. Hoje em dia isso vale mais do que dinheiro.Sorri em silêncio.Acho que eu tinha estado cega por muito tempo.Porque Breno era exatamente isso.Um homem incrível. Daqueles que chegam devagar, sem fazer promessas impossíveis.Mas que cumprem cada palavra que dizem. Ele não conquistou apenas a mim. Conquistou meus pais, meu filho. Conquistou até os meus medos.Pela primeira vez em muitos anos, eu conseguia imaginar um futuro que não fosse construído apenas sobre dor e luta.No dia em que saímos do interior, a despedida foi difícil.Vi meus pais olhando pela última vez para a casa onde construíram toda a vida.Minha mãe enxugava discretamente as lágrimas. Meu pai permanecia em silêncio, tentando ser forte.Aproximei-me dos dois e os abracei.- Vai dar certo.Meu pai passou a mão pelo
Algumas semanas depoisTer a guarda definitiva do meu filho não foi a melhor conquista da minha vida.A melhor parte era poder tê-lo comigo todos os dias.Poder acordar sabendo que ele estava no quarto ao lado.Abraçá-lo sem medo de alguém dizer que o tempo havia acabado.Beijar sua testa.Fazer carinho em seus cabelos.Ouvir sua risada ecoando pela casa.Descobrir, pouco a pouco, quem ele era. E permitir que ele também descobrisse quem era a sua mãe.Cada instante ao lado do Guto parecia recuperar um pedacinho dos anos que nos foram roubados.No primeiro dia, tudo era novidade.Passeamos juntos pela cidade.Tomamos sorvete na praça.Brincamos no quintal da casa dos meus pais.Conversamos sobre coisas simples.Ele ainda me observava com certa curiosidade, como se tentasse guardar cada detalhe meu na memória. E eu fazia exatamente a mesma coisa.Queria decorar cada sorriso.Cada expressão.Cada palavra.Porque, por muito tempo, tudo o que eu tive dele foi uma fotografia.Agora... Eu ti
Quando Mizael percebeu que ela realmente chamaria a polícia, sua expressão mudou.Sem dizer mais uma palavra, entrou no carro e foi embora.Olhei para Patrícia.- Pegue seus documentos.Ela me encarou.- Vamos até a delegacia.- Agora?- Agora. Se ele quer brincar, vamos fazer isso do jeito certo.Não demorou para estarmos na delegacia.Expliquei toda a situação ao delegado, detalhando cada aproximação, cada tentativa de intimidação.Ele parecia conhecer bem a família Machado.Quando comentou que aquela aproximação poderia estar relacionada apenas ao filho, não consegui ficar calado.- Com todo respeito, delegado, não vou permitir que isso seja tratado como uma simples coincidência. Minha cliente já foi intimidada mais de uma vez. E, se essa delegacia não tomar providências, eu levo esse caso para outra cidade, para outra corregedoria ou para onde for necessário.O delegado me encarou por alguns segundos.Então percebeu que eu não estava blefando.Pouco depois, o boletim de ocorrência
Quando terminei, ele soltou um longo suspiro.- Então era isso...Assenti.- Ela passou todos esses anos acreditando que tinha perdido o filho definitivamente.- E foi enganada esse tempo todo.Passei a mão pelo rosto.- Agora eu vou acabar com isso.Dante sorriu.- Eu sabia que você não voltaria de lá do mesmo jeito.- Não mesmo.Ele pegou o celular.- Vou avisar a Helena. Ela precisa saber de tudo.Assenti.Porque, dali em diante...Todos nós lutaríamos pela mesma causa.Trazer o Guto de volta para os braços da mãe.Avisei a Dante que precisava voltar e pedi que ele e Helena ficassem com a Luna.- Preciso ir. Patrícia vai precisar de mim mais do que nunca.Dante assentiu sem hesitar.- Pode ir tranquilo. Nós cuidaremos da Luna. Quando tudo isso passar, vocês voltam.- Prometo que não vou demorar. Vou buscá-la assim que puder e levá-la para casa. Mas, quando eu voltar, não virei sozinho.Ele apenas sorriu e apertou meu ombro.- Vai. Cuida dela.Receber aquele apoio significava muito







