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CAPÍTULO 2 — O Uivo que Abalou a Matilha

last update Data de publicação: 2026-07-25 03:24:00

Seus olhos brilharam em um ametista intenso e toda a alcateia ouviu. Alguns Lobos que iniciavam suas transformações responderam imediatamente. Até aqueles que não deveriam se transformar sentiram o chamado.

Algo havia nascido naquela noite.

Algo raro.

Do outro lado da cidade, Damon congelou ao ouvir o uivo. Seu lobo interior se agitou violentamente.

— Apolo, controle-se… — rosnou mentalmente, caminhando até a janela do escritório.

Outro uivo ecoou.

Mais forte.

Mais sofrido.

Os olhos de Damon cintilaram em dourado enquanto um impulso quase incontrolável o dominava, correr, encontrar e reivindicar. Quando estava prestes a saltar pela janela, uma batida na porta o trouxe de volta.

— Entre, Noah.

O jovem Beta se curvou.

— Alfa… o senhor também sentiu?

Damon passou a mão pela nuca, tenso.

— Seja lá quem for… conseguiu fazer um Alfa perder o controle. Isso não é normal.

Os olhos de Noah brilharam em azul profundo.

— Quer que eu encontre o dono desse uivo?

Damon hesitou por um breve instante, seu lobo ainda se debatendo sob a pele, inquieto, sedento.

— Pode ser uma armadilha. Ainda assim…

— Até você está sendo afetado — Noah observou, sustentando o olhar do alfa enquanto seus olhos voltavam ao azul celeste habitual. — Acho melhor ficar. Seja lá o que ou quem for, pode ser perigoso.

Ele deu um passo à frente, a voz firme, carregada de promessa.

— Não confia no seu beta? Se for uma ameaça… eu vou eliminá-la.

Damon assentiu, concedendo permissão, embora cada fibra de seu corpo gritasse para correr em direção àquele chamado. Ele sabia que não podia sair. Do jeito que seu lobo estava, bastaria um estímulo errado para que perdesse o controle e quando Damon se transformava, deter sua sede por sangue era quase impossível. Em sua forma humana ainda havia limites; na outra… só restava o predador.

Enquanto isso, Ayla já corria pela floresta. Um vulto branco rasgando a escuridão. Passava pelos lobos mais jovens como um sopro, mas, no instante em que captavam seu cheiro, algo primitivo despertava neles. Um a um começaram a persegui-la, tomados por um impulso que nem eles compreendiam.

Ayla estava consciente de tudo e, por mais estranho que fosse admitir, havia prazer naquilo. O vento cortando seus pelos, a terra cedendo sob o peso de suas patas, os sentidos ampliados ao extremo… ela podia ouvir, cheirar e ver a quilômetros de distância.

Estava tão embriagada pela própria natureza que não percebeu o ataque. Um jovem lobo saltou sobre suas costas, tentando marcar sua pele, mas o movimento foi desajeitado e ele caiu logo atrás. O susto a fez reduzir o ritmo por um segundo, tempo suficiente para perceber que não era a presença de apenas um.

Eram muitos.

As outras fêmeas em bruma passavam despercebidas; toda a atenção estava nela.

Ayla acelerou, tentando despistá-los, procurando qualquer lugar onde pudesse se esconder e recuperar o fôlego. O lobo não chegara a marcá-la, mas suas garras haviam rasgado sua pele durante o salto, e o sangue agora escorria quente por seu corpo. Quando finalmente parou por um segundo, forçando-se a pensar com clareza, percebeu algo que fez seu estômago revirar.

Sua pelagem não era ruiva.

Era branca.

E ela sabia exatamente o que aquilo significava.

Destino.

Um destino traçado antes mesmo de seu nascimento.

Mas Ayla se recusava a aceitar que a cor de seus pelos pudesse decidir sua vida inteira. Aquele segredo seria enterrado tão fundo que ninguém jamais o arrancaria dela.

Por alguns minutos, os jovens se distraíram com outra loba em bruma, o suficiente para que Ayla escapasse para dentro de uma caverna próxima. Tentava controlar a respiração quando decidiu voltar para casa, mas, assim que pisou do lado de fora, eles a viram novamente.

E a caçada recomeçou.

Encurralada diante da caverna, ela os observou se aproximarem. Havia confusão nos olhos deles… e algo pior.

Desejo.

Avançaram ao mesmo tempo e, antes que chegassem até ela, começaram a brigar entre si, rosnando, mordendo, disputando quem teria o direito de alcançá-la primeiro.

Em um uivo carregado de autoridade, Ayla tentou fazê-los recuar, mas o efeito foi o oposto. O som apenas os deixou mais frenéticos. Pararam de lutar, e vieram para cima dela.

Babavam como cães no cio. Um a arranhou quando tentou desviar; outro buscou sua garganta com os dentes. Ayla se movia como podia, rápida, letal, mas o cansaço começava a pesar e o sangue já cobria seu corpo. Seus pelos brancos foram sendo tingidos até assumirem um ruivo cobre, um disfarce involuntário.

Então outro salto.

As garras se cravaram em sua perna traseira. Seu uivo de dor rasgou a noite.

Do lado de fora, Noah ainda procurava a misteriosa loba branca cujo cheiro dominava o ar, mas, ao ver uma jovem aparentemente ruiva sendo atacada, não hesitou, lançou-se entre os agressores e os expulsou um a um.

No instante de hesitação, Ayla correu para dentro da caverna, forçando a destransformação mesmo com cada músculo gritando em protesto.

Ela reconheceria aquele lobo em qualquer lugar.

Era Noah. O beta.

E ele não podia descobrir. Ninguém podia.

Não que sua loba carregava o sangue da realeza. Não que sua pelagem era branca.

Noah aproximou-se devagar enquanto se destransformava, a pele surgindo no lugar da pelagem, os ossos se reorganizando até restar apenas sua forma humana, completamente nua. Ao entrar, encontrou Ayla tremendo no chão, coberta de sangue, vulnerável de um jeito que fez algo feroz se erguer dentro dele.

Noah tentou se aproximar, mas Ayla recuou instintivamente. O medo ainda corria quente em suas veias, medo de ser descoberta, de ser levada até o alfa, de ter sua verdadeira natureza exposta antes que pudesse sequer compreendê-la. O sangue seco que manchava sua pele era, talvez, sua única chance de permanecer invisível. Noah deu mais um passo, o sorriso surgindo devagar, como quem tenta acalmar um animal ferido.

— Está tudo bem… eu não vim te machucar.

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