INICIAR SESIÓNNa noite em que toda a alcateia se reuniu para coroar sua nova Luna, Maia Valença viu a própria vida ser destruída diante de centenas de testemunhas. O homem ligado a ela pelo vínculo, o poderoso Alfa Supremo Aren D’Ávila, rejeitou Maia em público. E, como se aquilo não bastasse, escolheu outra loba para ocupar o lugar que deveria ser dela. Humilhada, marcada pela rejeição e dada como morta, Maia desapareceu sem deixar rastros. Quando retorna, ela não é mais a jovem que caiu aos pés do Alfa. Carrega um poder proibido. Um dom capaz de quebrar os vínculos entre Alfas e Lunas. Agora, o homem que a destruiu faria qualquer coisa para tê-la de volta. Mas Maia não voltou para perdoá-lo. Ela voltou para descobrir por que tantas Lunas rejeitadas desapareceram ao longo dos séculos… e por que é a única mulher capaz de fazer um Alfa Supremo se ajoelhar. Só existe um problema. Quanto mais ela tenta destruí-lo, mais o vínculo entre os dois se recusa a morrer. E, quando a verdade vier à tona, Maia vai descobrir que o maior inimigo nunca foi o homem que partiu seu coração. Foi o segredo sombrio que controla o destino de todos os lobos. Ele a rejeitou diante de toda a alcateia. Agora será ele quem implorará para ser aceito.
Ver más— Não respira tão fundo, Maia — sussurrou Nara, a voz quase sumindo no burburinho do salão. — Eles sentem o cheiro do teu medo a dez metros.
Maia engoliu em seco. A garganta ardeu, seca. Diante dela, no centro do salão elevado da Alcateia do Norte, o fogo da pira principal estalava, projetando sombras longas sobre centenas de lobos alinhados em silêncio. No topo dos degraus de pedra, Aren D'Ávila a aguardava. Ele parecia impossível de mover dali. A postura ereta, a capa escura pesando nos ombros largos, a mandíbula tão travada que o músculo no canto da bochecha pulsava ritmicamente. Aren era o Alfa Supremo, o homem que o Norte aprendeu a temer antes mesmo de respeitar. E, naquela noite, ele deveria torná-la sua Luna. Maia deu o primeiro passo subindo a escadaria. O vínculo apertava dentro do peito. A cada degrau, ficava mais difícil ignorar. Não era uma metáfora bonita das histórias antigas. Era um puxão físico, violento, que fazia os ossos de Maia vibrarem. Quando ela pisou no último degrau, o cheiro dele — cedro, chuva forte e fumaça — atingiu seu nariz com a força de um soco no estômago. A pele arrepiou. As coxas vacilaram por um segundo. O pulso disparou, martelando no pescoço. Aren olhou para ela. Os olhos dele, de um castanho tão escuro que parecia preto sob a luz das tochas, fixaram-se na curva entre o pescoço e o ombro de Maia. Onde a marcação deveria acontecer. Ninguém dizia uma palavra. Na primeira fileira, os anciãos do Conselho acompanhavam cada movimento com os olhos estreitados. O olhar da mãe de Aren, a antiga Luna, era puro gelo. Maia sabia o que todos eles pensavam. Maia Valença era a filha de uma linhagem sem renome, sem exércitos, sem terras. Uma "fraqueza" que o Norte não podia se dar ao luxo de ostentar enquanto as alcateias do Oeste rondavam as fronteiras. Mas o vínculo não ligava para política. A Deusa da Lua não pedia permissão ao Conselho. Aren deu meio passo à frente. Ergueu a mão direita, os dedos longos e calejados se aproximando da pele da nuca de Maia. A proximidade fez a pele dela reagir na hora. Cada centímetro do corpo pedia que ele não parasse. — Maia — o nome dela saiu da boca dele num sussurro rouco, audível apenas para os dois. A mão dele tocou a pele abaixo do queixo dela. O contato direto fez Maia soltar o ar num arfado involuntário. As pupilas de Aren se dilataram, cobrindo a íris, a parte lobo dele reagindo instantaneamente à presença da companheira destinada. A respiração dele falhou. Por um instante, ela acreditou. Acreditou que a força daquele laço esmagaria qualquer dúvida, qualquer pressão política, qualquer jogo do Conselho. Aren endureceu de repente. A mão dele parou no ar, a poucos milímetros da pele dela, como se algo o tivesse detido pelo pescoço. Maia viu a pupila dele contrair violentamente. A dor piscou no olhar do Alfa Supremo, substituída em uma fração de segundo por um brilho frio, distante. Então uma voz invadiu a cabeça de Aren, limpa demais para ser ignorada: "Aceitar essa mulher é condenar o Norte à ruína." O músculo do braço dele se tensionou. A mão que quase tocava a nuca de Maia recuou. O calor do vínculo, que antes preenchia o peito de Maia com uma promessa de pertencimento, virou uma pressão incômoda, um aviso de perigo. — Aren? — a voz de Maia saiu falhada, quase sumindo. Ela viu o exato momento em que o homem diante dela desligou tudo o que sentia. Os olhos de Aren ficaram opacos, desprovidos do brilho quente de segundos atrás. O passo que ele deu para trás fez o fio invisível entre os dois esticar de forma dolorosa, queimando a pele por dentro. Um murmúrio baixo percorreu o salão. As dezenas de guerreiros e betas alinharam os ombros, percebendo a quebra do protocolo. Nara deu um passo à frente no pé da escada, a mão no cabo da adaga, a expressão dominada pelo pavor. Aren virou ligeiramente o rosto em direção ao Conselho. O ancião líder deu um único e sutil aceno de cabeça. O selo da sentença estava dado. Um segundo ancião, sentado à direita da mãe de Aren, inclinou a cabeça na direção dela, como quem confirma um acordo fechado havia semanas. Maia entendeu antes mesmo de conseguir aceitar: aquilo não fora impulso do momento. Tinha sido decidido antes de ela subir os degraus, antes de vestir aquele vestido, antes de acreditar que aquela noite lhe pertencia. As chamas das tochas oscilaram. Ninguém fazia um único movimento. Do fundo do círculo, alguém tossiu — baixo, nervoso, do tipo que quebra um silêncio grande demais para ser sustentado. Ninguém se moveu para ajudá-la. Ninguém nunca se move quando é a Luna quem cai. O estômago de Maia revirou. O rosto dela queimou de vergonha. Aren voltou a encará-la. Ele não hesitou mais. A rigidez do seu rosto era a de um juiz prestes a assinar uma execução, sem espaço para misericórdia. Ele ergueu a voz, e o tom de Alfa Supremo ressoou pelas paredes de pedra do salão, vibrando no peito de cada lobo presente: — Eu, Aren D'Ávila, Alfa Supremo da Alcateia do Norte... O ar fugiu dos pulmões de Maia. A pele da sua nuca formigou, rejeitando as palavras antes mesmo de serem concluídas. — ...recuso a determinação dos céus e declaro a quebra. Eu rejeito você, Maia Valença, como minha Luna e minha companheira.A primeira neve do inverno cobriu os picos da cordilheira com uma camada grossa e branca, trazendo silêncio para as encostas e cobrindo de gelo os telhados reconstruídos do Jardim. Uma estação inteira havia se passado desde a queda do altar e a derrota da chancelaria, e o vale finalmente não mostrava mais as marcas abertas da guerra. Pelas ruas internas, a fumaça subia mansa das chaminés dos alojamentos, misturando o cheiro de pinho queimado ao do pão fresco que saía do forno comunitário. No pátio principal, crianças que meses atrás dormiam com medo de alarmes agora corriam e brincavam na neve fofa, e o som de suas risadas ecoava pelas muralhas de pedra que antes quase haviam vindo abaixo. Maia caminhava devagar pelo terraço superior, vestindo um casaco pesado de lã escura forrado com pele. O vento gelado da montanha batia em seu rosto, mas o frio parecia não tocar sua pele, contido pelo calor suave e constante do núcleo subterrâneo que subia pelas fundações da terra. Sob as pálpebra
O cheiro de terra molhada e mato fresco subia do vale, trazido pelo vento brando que soprava pelas encostas do Jardim após a última chuva de verão. As semanas que se seguiram à queda do altar e à derrota definitiva da chancelaria tinham o gosto raro de uma paz conquistada com sangue e coragem. Ninguém mais corria pelos corredores de pedra carregando ordens de emergência ou armas na mão. A rotina do vale havia entrado num ritmo calmo: a reconstrução acontecia sob a luz do sol, sem o medo de um ataque surpresa rondando as muralhas. Lá embaixo, no pátio, o som ritmado de martelos fincando estacas de madeira nova misturava-se às conversas e às risadas de quem finalmente podia pensar no dia de amanhã. Maia estava sentada na mureta de pedra do terraço superior, observando o verde vivo dos campos que se estendiam até a garganta da montanha. O casaco de lã grossa protegia seus ombros do vento frio do fim de tarde. O brilho prateado em suas íris já não queimava como antes; acomodara-se em seu
O sol da tarde começava a dissipar a neblina na saída das minas do sul, levando embora o cheiro pesado de fumaça, suor e poeira que impregnava as roupas de todos. A subida pelos túneis de pedra havia sido feita em silêncio, cada um lidando à sua maneira com o peso do que ficara para trás. Ao cruzarem a entrada da galeria e pisarem ao ar livre, o o vento gelado da montanha bateu no rosto de todos, trazendo um alívio que parecia impossível dias atrás. Do lado de fora, o acampamento começava a se desarmar. Cavalos pastavam soltos na beira da trilha, e os batedores da guarda recolhiam selas e arreios com a tranquilidade de quem já não precisava temer emboscadas a cada curva. Aren esperava perto de um pinheiro retorcido, segurando as rédeas de seu cavalo cinzento. O rosto do Supremo ainda trazia a marca de noites em claro, mas o olhar estava calmo, com a firmeza de quem começava a juntar os cacos do território com paciência. Quando Kaelen se aproximou amparando Denis pelo braço, Aren deu
O silêncio na caverna durou segundos que pareceram horas, quebrado apenas pelo barulho contínuo da água pingando nas fendas da rocha. Zarek apertava o corpo mole de Maia contra o peito, sentindo o desespero fechar sua garganta ao notar que ela não se mexia. Ele contou cada batida do próprio coração como um golpe seco nas costelas, recusando-se a aceitar que a batalha terminaria daquele jeito — com ela sem vida nos seus braços depois de tudo o que haviam enfrentado juntos. O corpo de Maia estremeceu de repente. Ela abriu a boca e puxou o ar com força, como quem volta à tona depois de quase afogar. Os olhos prateados se abriram devagar, piscando contra a claridade fraca que ainda restava nas paredes, firmando-se num brilho vivo e constante. Uma onda avassaladora de alívio varreu o peito de Zarek. O caçador encostou a testa na dela, soltando a respiração num suspiro pesado de pura exaustão. Do outro lado da câmara, Kaelen soltou o ar que também prendera sem perceber, e Denis, ainda en






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