Mag-log inCapítulo 3 – Regras, Café e Silêncios
A recepção da Monteiro Group era um reflexo do próprio dono: impecável, fria e intimidadora. O chão de mármore refletia as luzes frias do teto, e as paredes de vidro revelavam o movimento agitado da cidade lá fora. Eloise chegou às 7h45. O salto firme ecoava no saguão, mas seu coração, esse sim, vacilava. Respirou fundo ao entrar no elevador. Estava vestida de forma elegante, mas sem exageros — saia lápis preta, blusa de seda branca, cabelo preso em um coque moderno. Não era uma bajuladora, mas sabia jogar com presença. Ao chegar ao 21º andar, foi recebida por uma mulher magra, de óculos retangulares e expressão azeda. — Senhorita Nogueira, certo? — disse a mulher, olhando-a de cima a baixo. — Sou Marisa, diretora de RH e… sua supervisora direta. Antes de entrar na sala do senhor Monteiro, precisa ser clara sobre algumas regras. Eloise apenas assentiu com a cabeça. Marisa continuou: — Evite assuntos pessoais. Ele odeia atrasos. Prefere silêncio durante os trajetos. Não faça perguntas além do necessário. E café… — ela se aproximou, como se fosse contar um segredo — …apenas preto, sem açúcar, sem erro. — Entendido — respondeu Eloise, com um meio sorriso. — Eu gosto de homens exigentes. Marisa arqueou a sobrancelha, sem humor. — Boa sorte, você vai precisar. A porta se abriu automaticamente, revelando o escritório. Augusto Monteiro estava de costas, encarando a vista da cidade. A postura rígida, as mãos nos bolsos da calça social. Um homem que parecia carregar o mundo — e fazer questão disso. Eloise entrou sem hesitar. — Bom dia, senhor Monteiro. Ele virou o rosto lentamente, os olhos verdes cruzando com os dela. Frio, calculista… mas havia uma faísca ali. Algo contido, mas prestes a queimar. — Está atrasada — disse ele. — Cheguei às 7h45 — respondeu, firme. Augusto se virou por completo, os olhos descendo lentamente por ela, analisando cada detalhe. — Está bem. Sua mesa fica ao lado da minha sala, com um único objetivo: não ter que sair procurando você pela empresa. Receberá instruções diretas. Evite erros, senhorita Nogueira. Eles custam caro. — Erros só existem onde há espaço para falhas — ela arqueou uma sobrancelha — Comigo, isso não vai acontecer. Serei sua sombra para garantir que tudo saia perfeito. Ele não respondeu, apenas indicou a sua mesa na entrada da sua sala. O computador já estava ligado. Uma pilha de pastas organizadas esperava por ela. Durante horas, o ambiente ficou mergulhado em um silêncio profissional, quebrado apenas pelo som das teclas, dos telefonemas e de uma ou outra ordem direta vinda dele. Às 10h em ponto, ela se levantou. — Vou buscar seu café. Ele apenas assentiu. Ao retornar, colocou a xícara sobre a mesa com precisão. Augusto pegou a xícara, bebeu um gole… e parou. — Está… aceitável. — Aceitável? — Ela riu baixo. — Isso é quase um elogio vindo do senhor. Ele pousou a xícara e se inclinou para frente, os olhos fixos nos dela. — Senhorita Nogueira… ainda não entendeu. Aqui não se vence pela ousadia. Se vence pela perfeição. — E ousadia não é uma forma de perfeição? Ele se levantou, dando a volta na mesa até ficar próximo dela. — Você se acha esperta. — Eu sou esperta. O ar entre eles ficou carregado. Havia uma tensão invisível que se formava cada vez que se encaravam. Eloise sentiu. E ele também. Mas antes que algo fosse dito, Marisa apareceu na porta. — Senhor Monteiro, os documentos do Conselho estão aqui. Augusto recuou um passo, retomando a postura distante. — Pode deixá-los na minha mesa. Eloise sentou-se novamente, controlando a respiração. O jogo tinha começado. Mas ela não era apenas uma peça. Sabia exatamente o que estava fazendo. Naquela mesma manhã, quando foi até o banheiro, olhou-se no espelho e sussurrou para si mesma: — Vai doer. Mas eu vou aguentar. Mal sabia ela que aquele homem — com todos os seus traumas, sombras e regras — seria muito mais do que um chefe difícil. Ele seria o maior risco da sua vida. E talvez… o mais perigoso.Como sempre, elas chegaram faltando menos de vinte e quatro horas para o casamento. E, como era de se esperar daquele grupo, viveram tudo o que uma despedida de solteira tinha direito. Teve música. Teve dança. Teve lágrimas. Teve declarações emocionadas. E, infelizmente, teve ressaca. Uma ressaca histórica. Na manhã seguinte, as madrinhas estavam espalhadas pelo espaço de beleza, tentando sobreviver com água de coco, café e dignidade. Nenhuma das três coisas estava funcionando muito bem. Mas, apesar do caos, havia algo que preenchia o ambiente. Amor. Muito amor. Porque aquela não era apenas mais uma amiga se casando. Era Laila. A irmã caçula da Laís. A menina que todas tinham visto crescer praticamente. E que agora estava prestes a começar sua própria história. Horas depois, quando finalmente ficou pronta, o silêncio tomou conta do quarto. Laila saiu do provador devagar. O vestido parecia ter sido feito especialmente para ela. Elegante. Deli
Sete anos depois — Vocês vão mesmo vir, né? A voz de Laila ecoou pela chamada de vídeo. Do outro lado da tela, ela parecia nervosa. O que era compreensível. Afinal, faltavam poucos dias para o casamento dela. — Lógico que vamos. Laís respondeu imediatamente. — Eu nunca perderia o casamento da minha irmãzinha. Ao lado dela, Heitor assentiu. Os dois estavam sentados no saguão luxuoso de um hotel à beira-mar, onde todo o grupo passava férias. — Somos os padrinhos — Nathalia apareceu na tela usando óculos escuros enormes. — Como poderíamos perder esse evento? Laila riu. — Só confirmando. — Você está surtando. — Estou. — Justo. Antes que ela pudesse responder, Ricardo surgiu ao fundo carregando uma bebida colorida. — Não se preocupe. Ele abriu um sorriso. — Eu serei o responsável por fazer essas criaturas chegarem no horário. — Horário de quê? Emma apareceu logo atrás. Ricardo suspirou. — Exatamente por isso estou preocupado. Laís virou o c
A festa começou logo depois da cerimônia.Música.Risadas.Dança.Abraços.Por todos os lados existiam pessoas felizes.Pessoas que tinham acompanhado a história deles desde o começo.Pessoas que torciam por aquele final.Ou melhor...Por aquele começo.Alana e Enzo mal conseguiam ficar parados. Sempre havia alguém querendo cumprimentá-los, tirar uma foto ou fazer um brinde.Em determinado momento, durante uma das sessões intermináveis de fotografias, uma mulher aproximou-se sorrindo.Alana arregalou os olhos.— Meu Deus!A mulher abriu os braços.— Surpresa.— Eduarda!As duas se abraçaram imediatamente.Com carinho.Com sinceridade.Sem qualquer resquício do passado.Quando se afastaram, Alana ainda sorria.— Quanto tempo.— Eu não perderia isso por nada.Enzo apareceu ao lado delas segurando duas taças.— Amor.Ele apontou para um homem próximo.— Esse é o Paulo.— Prazer.— Nosso novo subchefe no restaurante.Alana olhou para Paulo.Depois para Eduarda.Depois voltou a olhar para
Alana acordou com a sensação de que um caminhão tinha passado por cima dela. Duas vezes. Abriu os olhos lentamente. Arrependeu-se imediatamente. — Nunca mais eu bebo. — Mentira. A voz de Emma veio da espreguiçadeira ao lado. — Você vai esquecer isso em três meses. — Dois meses — Nathalia corrigiu. — Um mês — Laís completou. As quatro caíram na gargalhada. Ou tentaram. Porque até rir fazia a cabeça doer. Quando todas chegaram ao espaço que cuidaria delas antes do casamento, era impossível esconder os efeitos da noite anterior. Olheiras. Óculos escuros. Passos lentos. Expressões de puro arrependimento. Pareciam madrinhas sobreviventes de uma guerra. A responsável pelo espaço de beleza observou o grupo por alguns segundos, alternando entre preocupação profissional e julgamento silencioso. — Meu Deus... Foi tudo o que ela conseguiu dizer. Emma levantou a mão. — Antes que a senhora pergunte, sim, nós estamos vivas. — Por enquanto — Eloise mur
As quarenta e oito horas mais malucas da vida deles continuavam correndo contra o relógio.Enquanto Alana passava o dia cercada pelas amigas, vestidos, flores e decisões impossíveis, Enzo enfrentava o próprio campo de batalha.O buffet.Ou melhor.A responsabilidade inteira da comida do casamento.O que seria simples para qualquer chef.Mas não para um chef que tinha apenas dois dias para organizar tudo. Enzo reuniu toda a equipe do restaurante.Os funcionários estranharam imediatamente.Principalmente porque ele parecia ter dormido aproximadamente três horas.— Chefe, aconteceu alguma coisa?— Sim.Enzo apoiou as mãos sobre uma mesa.— Amanhã o restaurante não abre.Silêncio.Ninguém entendeu.Até que ele completou:— Vou me casar.O silêncio durou meio segundo.Depois o restaurante explodiu.— AEEEE!— Finalmente!— Até que enfim!— Eu já estava achando que a Alana ia desistir!As gargalhadas tomaram conta da cozinha.Enzo apenas balançou a cabeça.— Obrigado pelo apoio emocional.
Alana sentiu o coração acelerar.— E eu vou me casar com o homem mais teimoso de Cidade Norte.— Só de Cidade Norte?— Do estado inteiro.Ele fingiu parecer ofendido.— Isso foi cruel.— Foi sincero.Os dois riram.O problema foi que eles esqueceram que não estavam sozinhos.Quando voltaram para a mesa, Enzo e Alana ainda estavam sorrindo como dois adolescentes que acabaram de aprontar alguma coisa.Ele segurou a mão de dela e pigarreou.— Pessoal, queria um pouco de atenção.— Ah, meu Deus! — Emma gritou.— Eu sabia que vinha bomba por aí! — Nathalia falou.— O que aconteceu? — Thiago perguntou.Alana olhou para Enzo.Enzo olhou para Alana.E os dois começaram a rir.Foi o suficiente para deixar todos nervosos.— Eu conheço essa cara — Sofia avisou.— Eu também — Thomas concordou.— E nunca significa coisa boa.Eloise cruzou os braços.— Alguém vai contar ou eu preciso arrancar a informação?Enzo segurou a mão de Alana.— Vamos nos casar.O grupo ficou em silêncio.Por aproximadament







