INICIAR SESIÓNO latejar no meu rosto seguia o ritmo frenético do meu coração. Deitada no escuro do quarto, o único som era o da minha respiração curta, que ainda doía nas costelas. O gosto de ferro do sangue na boca era o lembrete de que a Ive que beijou um estranho na esquina tinha ficado do lado de fora. Aqui dentro, eu era apenas a filha do Secretário de Segurança, uma propriedade que ele achava ter o direito de quebrar.
Estendi a mão trêmula para o criado-mudo e peguei o celular. A luz da tela cortou a escuridão, me fazendo fechar os olhos por um segundo. Havia uma mensagem. Diego: Chegou inteira? Acelerei um pouco demais ou você aguentou o tranco? Um esboço de sorriso tentou se formar nos meus lábios, mas o corte no canto da boca me lembrou de que sorrir era um luxo que eu não podia pagar agora. Olhei para a mensagem por longos minutos. Como eu poderia dizer a ele que o "tranco" da moto foi a parte mais segura da minha noite? Que a verdadeira guerra não estava nas ruas que ele dominava, mas no corredor da minha casa? Eu precisava responder. Precisava de um fio de contato com o mundo real, longe daquela redoma de vidro e violência. Ive: Sobrevivi. Mas acho que você dirige como um louco. A resposta veio quase instantaneamente, como se ele estivesse com o celular na mão, esperando. Diego: Um louco que te tirou de uma enrascada. Admite, você gostou do perigo. "Gostou do perigo". Se ele soubesse... O perigo para mim tinha nome, cargo público e uma farda impecável no armário. Diego era o oposto disso. Ele era o caos que parecia paz. Ouvi um barulho vindo do quarto ao lado — o soluço abafado da minha mãe. O ódio borbulhou no meu peito, mais quente que a dor física. Olhei para as marcas roxas começando a aparecer nos meus braços sob a luz do celular. Ive: Diego... você falou que o resgate era estratégico. Onde você se esconde quando o mundo resolve te caçar? Houve um hiato na conversa. Três pontos apareceram e sumiram. Imaginei ele em algum lugar do morro, talvez olhando para as luzes da cidade que meu pai jurou "limpar", sem saber que o maior lixo estava sentado na nossa mesa de jantar. Diego: Eu não me escondo, Ive. Eu domino o terreno. Se precisar sumir, eu conheço os melhores esconderijos. Por que a pergunta? Aconteceu alguma coisa? Engoli em seco. Eu queria gritar que sim. Queria pedir para ele voltar com aquela moto e me levar para qualquer lugar onde o sobrenome do meu pai não significasse nada. Mas o medo da realidade me calou. Eu respirei fundo, sentindo uma pontada na costela. Não podia entregar o jogo, não podia deixar que um estranho — por mais magnético que fosse — visse as rachaduras da minha vida logo de cara. Ive: Acho que seu "resgate" não foi tão limpo assim. Meu pai descobriu que eu saí. Estou de castigo por tempo indeterminado... então talvez a gente não se veja tão cedo. Tentei soar casual, como se fosse apenas uma briga comum de uma adolescente rebelde com um pai rígido. Mal sabia ele que o "castigo" envolvia gelo no rosto e hematomas escondidos sob o pijama. A resposta dele não demorou. Diego: Castigo? Achei que você fosse do tipo que não seguia regras. Mas não esquenta... o proibido é sempre mais gostoso. Eu dou um jeito de te ver. Senti um calafrio. O otimismo dele era excitante, mas perigoso demais para a minha realidade. Se o Diego aparecesse na frente do meu prédio, ele não estaria apenas quebrando uma regra de castigo; ele estaria entrando na toca do lobo. Ive: Calma aí, apressadinho. A gente se conheceu faz o quê? Três horas? Vai devagar. Digitei a mensagem com um sorriso amargo. Eu queria o fogo dele, mas precisava da cautela que a sobrevivência me ensinou. Diego: Três horas e um beijo que diz o contrário, Ive. Mas tudo bem... eu sei jogar o jogo da espera. Só não demora muito, porque eu perco a paciência fácil. Larguei o celular no peito e encarei o teto escuro. A arrogância dele me irritava e me atraía na mesma proporção. Ele falava como se o mundo estivesse aos seus pés, como se nenhum muro fosse alto demais ou nenhum secretário de segurança fosse ameaça suficiente. Na manhã seguinte, cada movimento era um sacrifício. O corretivo mal dava conta de esconder o tom arroxeado perto da minha maçã do rosto, e o casaco de gola alta, apesar do calor, era a única forma de ocultar as marcas nos braços. Verônica me esperava na esquina, o rosto pálido de preocupação assim que me viu de perto. — Ive… meu Deus, ele fez de novo? — ela sussurrou, me abraçando com cuidado. — Não fala nada, só vamos — respondi, a voz seca. Fomos o caminho todo em silêncio. Mas, ao dobrarmos a esquina da faculdade, meu coração não apenas acelerou; ele parou. Parado bem em frente aos portões principais, montado naquela moto preta imponente, estava Diego. Ele usava óculos escuros e uma jaqueta de couro, atraindo olhares de todos que passavam. Ele parecia um predador em terreno aberto. — O que Diego faz aqui? — Verônica perguntou, chocada. Meu estômago gelou. Olhei freneticamente para os lados, procurando qualquer viatura ou o carro preto blindado do meu pai. Se algum subordinado dele passasse por ali e me visse com um cara que exalava perigo daquele jeito, eu estaria morta. Deixei a Verônica para trás e caminhei a passos largos até ele. — O que você está fazendo aqui? — sibilei, parando ao lado da moto. — Você ficou louco? Diego tirou os óculos devagar, revelando olhos que me analisaram de cima a baixo. Ele parou no detalhe do meu rosto que o corretivo não conseguiu esconder totalmente. O sorriso dele sumiu por um segundo, substituído por uma expressão sombria que eu não soube decifrar. — Eu disse que o proibido era mais gostoso, lembra? — ele respondeu, a voz grave voltando ao tom de deboche, embora seus olhos estivessem sérios. — Vim ver se você ia mesmo cumprir o castigo. — Diego, vai embora! Agora! — Eu olhava por cima do ombro a cada dois segundos, o suor frio escorrendo pelas minhas costas. — Você não tem noção do perigo que está correndo parado aqui. Ele inclinou o corpo na minha direção, o cheiro de perfume e asfalto me atingindo em cheio. — Eu não vou embora, Ive. Eu não sou do tipo que recebe ordens, esqueceu? E eu não tenho medo de "perigo". — Mas eu tenho! — o desespero vazou na minha voz. — Por favor… se meu pai te vê aqui, se alguém conta pra ele… ele acaba com você. E comigo também. Diego arqueou uma sobrancelha, os dedos batucando no guidão da moto. Ele parecia achar graça da minha urgência, sem ter a menor ideia de que o homem que eu temia era exatamente quem estava caçando a família dele. — Então sobe — ele desafiou, estendendo o capacete reserva. — Se está com medo de ser vista aqui, vamos para um lugar onde ninguém te conheça.Continuação.Douglas e Diego continuavam se encarando no meio do galpão destruído.Ninguém abaixava a arma.O silêncio era pior que os tiros.Eu conseguia ouvir minha própria respiração falhando enquanto Oto me mantinha atrás dele, pronto pra explodir qualquer um que se mexesse.Foi então que o homem que era irmão de Mateus começou a rir.Um riso fraco. Cheio de sangue.Mesmo caído no chão, ele ergueu o rosto devagar.— Olha isso… — cuspiu sangue de lado. — A guerra começou por sua causa outra vez.Douglas travou o maxilar.Os homens dos dois lados ficaram ainda mais tensos.Era só alguém puxar o gatilho.Só um.A mulher também riu, mesmo ferida.— Seu pai vai destruir metade da cidade por você… igual sempre faz.Meu coração apertou quando olhei pra Douglas.Mas dessa vez… ele não parecia com o homem que eu conhecia.Ele parecia cansado.Velho.Quebrado.Douglas abaixou a arma primeiro.O galpão inteiro ficou em silêncio.Até Diego olhou pra ele sem entender.Meu pai respirou fundo an
Eu ainda tentava abrir a porta do carro, me debatendo como uma louca, gritando o nome de Diego, quando senti a mulher me puxar pelos cabelos.— Me solta! — gritei, tentando acertar qualquer parte dela.Eu não pensava. Só queria sair dali. Voltar. Ver se Diego tinha levantado. Se estava vivo. Se respirava.Mas ela perdeu a paciência.Vi o brilho metálico da arma quando ela tirou da cintura, e antes que eu pudesse reagir, ela segurou meu rosto com força.— Cala a boca, desgraçada.E então veio o golpe.A coronha da arma acertou minha cabeça com tanta força que senti uma dor absurda explodir atrás dos olhos. Um estalo seco ecoou dentro de mim, e tudo ficou embaralhado.Meu corpo amoleceu na mesma hora.Ainda tentei levantar a mão, segurar em alguma coisa, mas o sangue já escorria quente pela lateral do meu rosto. Minha visão ficou turva, as luzes da rua se misturando em manchas.A última coisa que consegui ver, antes de apagar, foi o reflexo do vidro traseiro mostrando as luzes vermelhas
Continuação.Aquela desgraçada estava me encarando com um ódio tão nítido que chegava a arrepiar. Eu sempre fui muito observadora quando se tratava das pessoas, mas aquela mulher conseguiu me enganar direitinho. Fingiu bem demais.Eu precisava dar um jeito de avisar Diego ou Oto. Virei o rosto procurando Diego no meio do camarote, mas antes que eu pudesse me aproximar, ela entrou na minha frente, bloqueando minha passagem.— Vai pedir ajuda pro maridinho, é? — ela falou, ficando cara a cara comigo. — E quando você entrou com aquela outra desgraçada pra matar o meu, não era tão medrosa assim.Ergui o queixo, segurando a raiva.— O que tiver que resolver, eu resolvo sozinha. Tá me subestimando?Ela soltou uma risada seca, carregada de desprezo.— Subestimar você? Sendo filha de quem é, eu não duvido de nada. Agora quero que você desça do camarote comigo... ou a pessoa que está na porta da sua casa vai tocar no seu filho.Meu sangue gelou na mesma hora.— Se você tiver coragem de mexer n
Voltei com aquele sorriso malicioso na cara e vi ele lá, sentado na parte mais escura do camarote. Então segui até ele e sentei no colo dele.— Eu tenho um presentinho pra você, amor! — digo baixando no ouvido dele.— O quê? — ele perguntou.Peguei a mão dele e coloquei entre os seios. Ele tirou a calcinha de lá, uma calcinha branca de renda. Ele a amassou na mão, levou até o nariz, cheirou e me deu uma olhada escura. Então peguei a mão dele e levei até minha intimidade, e ele passou o dedo de leve.— Gostou? — sussurrei.— Tá me provocando desse jeito!— Eu queria saber, Diego, como você vai me punir por sair de casa.— Quer saber?Ele apenas levantou, pegou na minha mão e abriu a porta que tinha ali no camarote, já que aquilo era a varanda de uma casa, e uma varanda bem grande. Ele fechou a porta e, antes que eu pudesse processar, me prensou contra a parede de costas, levantando meu vestido e dando um tapa bem forte na minha bunda. Senti ele abaixar a calça e, sem aviso algum, entro
Nota da Autora: Olá, amores! Desculpem a falta de atualização por aqui, porém estou passando pelo processo de luto pelo meu pai e pelo meu sobrinho, então às vezes a criatividade fica lá embaixo. Mas vamos lá, pouco a pouco ele vai ser finalizado. ❤️Continuação:O baile estava a todo vapor, porque eu conseguia escutar daqui de casa. As meninas já estavam me esperando e, como eu não sou besta e sei que Diego colocou alguém pra me vigiar, coloquei uma lace loira. Hahaha.Dei um beijo no meu Dante, que já estava dormindo. A babá já tinha chegado, então saí descalça, na ponta do pé. Abri a porta com cuidado e vi dois vapores na frente da casa. Resolvi sair pelo corredor lateral, que dava pros fundos.Mas o que me surpreendeu foi um cachorro.Como tinha um cachorro ali?— Calma, cachorrinho! — falei morta de medo.Eu tenho pavor de cachorro. Sério, parecia que eu estava vendo o próprio diabo na minha frente. O cachorro latia tão alto que eu quase pulei o muro.Não deu outra: os vapores qu
Eu já estava há alguns dias sem colocar os pés na rua, mas precisava levar meu filho para conhecer a avó. Levantei cedo, arrumei o pequeno e fui. A alegria da minha mãe era nítida; até o Loro se apegou ao Dante logo de cara.— Não sabia que tu tava aqui! — Oto disse, saindo do quarto. Fui logo dar um abraço nele.— Tu é grudenta pra caralho, hein?— Tava com saudade do meu maninho, ué!— Sei... agora o Diego te colocou o cabresto, né? — ele riu, me zoando.— Tá vendo, mãe? Ele tá me chamando de égua!— Eu não disse isso! — Oto se defendeu, rindo.— Tu vai ver só. Não vou mais te abraçar e nem venho mais aqui onde tu... — Cruzei os braços, mas parei de falar assim que vi as meninas passando pela janela. — Mãe! Cuida dele um pouquinho?— Claro, filha!Saí de casa sem nem dar moral para o que o Oto estava resmungando e chamei as meninas.— Onde vocês vão com essa pressa?— Tá tendo jogo na quadra, guria! — Verônica respondeu.— Sério? Nem sabia.— Meu irmão tá jogando também. — Julia me







