LOGINGuilhermo D'Angelis
Entro na ala do meu primo, o novo capo, mas, em vez de seguir direto para seu escritório, vou até a cozinha. Porque, sejamos honestos, se tem um lugar onde Antonella sempre está, é lá. E não por acaso. A mulher faz um café tão bom que até parece feitiçaria. Sem falar que, se eu chegasse até ela com um pedido de favor sem antes trazer um presente (neste caso, minha própria presença encantadora), provavelmente sairia de mãos vazias e, talvez, com um chute no traseiro. Ao entrar, sou imediatamente recebido pelo aroma do café recém-passado. Um verdadeiro abraço quente no coração. Antonella está de costas para mim, ocupada despejando o líquido escuro em uma garrafa térmica, e eu aproveito para me aproximar sorrateiramente. — Prima do meu coração! — cantarolo, escorando-me no balcão com meu melhor sorriso encantador. Antonella nem se vira. Apenas suspira, como se já soubesse que estou aprontando alguma. — Subchefe, você por aqui tão cedo? Precisa de algo? Se for dinheiro, peça para o Vince. Se for uma explicação sobre a vida, procure um padre. Eu rio. Antonella e suas respostas afiadas. É realmente a mulher perfeita para o meu primo cabeça-dura. — Na verdade — continuo, pegando uma xícara e servindo-me do café dela sem permissão —, queria te pedir um favor. — Ah, claro. — Agora ela se vira, cruzando os braços sobre a barriga já evidente da gravidez. — Porque eu, no auge da minha paciência de grávida, adoro favores. — É que vocês bambinas têm essa pegada investigativa, sabem tudo sobre todo mundo... Ela arqueia uma sobrancelha, me estudando com aquele olhar de raposa que faria até o demônio tremer. — Seja direto, Guilhermo. Estou grávida, não posso passar nervoso. Dou um gole no café antes de responder. Está perfeito, como sempre. — Quero que você dê uma sondada entre as mulheres da alta sociedade sobre Aurora Bianchi. Antonella pisca algumas vezes antes de soltar: — Quem diabos é essa? Dou de ombros. — Uma garota que conheci. Ela sorri de lado. — Ahhh, então é isso. O senhor D'Angelis finalmente foi laçado. — Não exagera. Só quero saber mais sobre ela. Pequena curiosidade. — Uhum. — Ela estreita os olhos. — Continua. — Ela está noiva do Domenico Rizzi. Antonella engasga no próprio café. — O velho que já foi viúvo três vezes?! Faço uma careta. — Isso, esse mesmo. — Mas que tipo de pai entrega a filha para aquele seboso? — Então, né... isso que eu quero descobrir. Antonella tamborila os dedos na bancada, claramente já processando todas as informações. — As mulheres dos conselheiros falam horrores sobre ele. — Sua expressão se fecha. — Parece que é um péssimo marido. Machista, controlador, faz as esposas virarem sombras depois do casamento. Raramente são vistas nos eventos depois que se casam com ele. Minha mandíbula aperta. Isso era ainda pior do que eu imaginava. — Eu preciso saber mais sobre ela. Sobre ele, eu mesmo vou atrás. Antonella suspira, pegando a garrafa térmica de café e me entregando. — Guilhermo D'Angelis, o que você está aprontando? Levanto as mãos em um gesto inocente. — Nada, sua raposa perigosa. Só investigando um pouquinho. Ela me encara desconfiada, mas não pressiona mais. — Vai logo, então. Mas avise ao Vince que estarei na casa dos pais dele com a Giulia, vendo uns móveis para a Giovanna. Rio, pegando a garrafa. — Deus que ajude nosso capo tendo uma filha. Ela balança a cabeça, rindo também. — Vai embora, Guilhermo, antes que eu jogue essa garrafa na sua cabeça. Dou um beijo no pequeno Enrico, que está nos braços dela, e saio da cozinha, pronto para encarar meu primo e, quem sabe, começar a mudar a história dessa Aurora Bianchi. Assim que entro no escritório do Vince, já sei que ele percebeu minha visita à cozinha. Meu primo não é bobo. — Se apareceu com café, quer dizer que passou pela cozinha para perturbar minha esposa. — Ele diz sério, olhando para a garrafa térmica que carrego. Me jogo na poltrona em frente à sua mesa, relaxado. — Não perturbei. Pedi um favorzinho. — Tomo um gole do café e, antes que ele possa perguntar, continuo: — Ela está lá na casa da sua mamma com sua sorella. Vince confirma com um aceno. — Inclusive... — Apoio a garrafa na mesa e cruzo as mãos. — Preciso que me ajude a saber mais sobre Máximo Bianchi e Domenico Rizzi. O rosto dele se fecha. — Eles estão aprontando outra vez? — Na verdade, não. Mas conheci uma garota que está ligada a eles e queria saber mais dessa história. O olhar do Vince se estreita. — A filha do Máximo. A que é noiva do Rizzi. Arquejo, chocado. — Porra, todo mundo sabia disso menos eu? Cara, em que mundo eu tava? Ele dá um meio sorriso sem humor. — Nada demais a saber. Máximo é um grande nome no conselho, mas anda no meio do submundo da máfia. Já fiquei sabendo. Agora, Rizzi... — Vince encosta-se na cadeira, pensativo. — Sabe que mantemos aliança com ele apenas porque os cassinos da família dele são bons para os negócios. Mas confiar? Nunca confiei. Inclino a cabeça. — Dizem por aí que já foi viúvo três vezes. Um velho roubando velhas ainda mais velhas. — Brinco. Vince revira os olhos. — Na verdade, eram moças novas. Filhas de grandes nomes de máfias aliadas. O Máximo é o único doido da Nostra Famiglia a entregar a filha para o Rizzi. Balanço a cabeça, incrédulo. — Como se não tivessem homens solteiros nessa máfia... Meu primo me encara. — Guilhermo, você está ficando obcecado. Isso não é bom e você sabe. Solto um suspiro. Eu sabia. Mas ignorava. — Não vai atrapalhar nossas questões. — Mas vai arrumar uma guerra com aliados se você se meter com essa garota. — Ele diz, sério. — Sabe das regras. Desonrou, tem que casar. Bufei. — Você sabe que não saio por aí desonrando garotas. Se quero sexo, vou ao prostíbulo. E outra: não vou começar uma guerra. Só quero ajudá-la. Vince ri, mas sem humor. — Guilhermo, eu te conheço. Crescemos juntos. Você não vai descansar enquanto essa garota não for sua. Sorrio de lado. — Confia em mim? Não será nada grande. Eu prometo. Ele me encara por alguns segundos antes de se inclinar sobre a mesa, apontando um dedo para mim. — Se for, eu juro que te mato com minhas próprias mãos. Jogo a cabeça para trás, rindo. — Qual é? Vai me dizer que não ficou louco com Antonella? Que não daria sua vida por ela? Ele solta um suspiro pesado. — Sim, sou louco pela minha raposa. É por isso que sei que nós, D'Angelis, quando ficamos obcecados, cometemos loucuras. Levanto as mãos, rendido. — Não se preocupe. Agora vamos trabalhar. Temos muita coisa para fazer desde que assumimos nosso cargo. Ele assente, mas seu olhar me avisa: não faça merda, Guilhermo. Mas eu sei que já estou ferrado. Porque Aurora Bianchi já está na minha cabeça. E isso nunca acaba bem.Guilhermo D’Angelis Quando o alarme vibrou no celular de Vincenzo e o aviso surgiu na tela — o botão de emergência havia sido acionado, e o quarto do pânico estava em uso — eu vi o sangue sumir do rosto do meu primo. E não era para menos. Estávamos fora do território, longe demais. Antonella estava sozinha com as crianças, já que os pais dela tinham viajado. Em segundos, avisamos nossos pais e Matteo para correrem até lá, já que estavam mais perto que nós. No carro, Vincenzo tremia. As mãos presas ao volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, os olhos fixos na estrada como se pudesse encurtá-la pela força da vontade. Segurei seu ombro. — Respira, cara. Eles estão bem. O quarto do pânico existe para isso, se eles estão lá, estão bem. A frase era mais para mim do que para ele. Quando entramos em casa, o caos nos engoliu. Meu pai e o tio Alessandro gritavam ao telefone, tentando entender como a segurança havia falhado. Varri a sala com o olhar até encon
Aurora Bianchi ( D’ Angelis) A sala estava fria, e o som de cada passo de Domenico ecoava em minha mente. Eu sabia que a tortura começaria assim que ele adentrasse aquele espaço, mas já estava preparada. Matteo sempre dizia que, em momentos como este, a melhor defesa era a frieza. Então, eu me mantive impassível, meus olhos fixos em sua figura enquanto ele entrava com a mala, sentindo a tensão em cada músculo do meu corpo. Domenico era sorrateiro, como uma cobra, e sua presença ali era como um presságio do tormento que se seguiria. Ele colocou a mala sobre a mesa e dela retirou uma adaga, sua lâmina reluzindo como se soubesse o sofrimento que causaria. O coração acelerou um pouco, mas minha expressão permaneceu vazia. Não deixaria que ele visse minha dor. Não falaria, não mostraria fraqueza. Nenhuma palavra. O metal cortou meu braço com precisão, a dor extrema me fez morder forte o lábio, a vontade de gritar era imensa, mas eu me recusei. Eu não deixaria que ele soubesse o im
Guilhermo D’ Angelis Quando o alarme no celular de Vincenzo vibrou e o aviso apareceu na tela — o botão de emergência havia sido acionado, e o quarto do pânico estava em uso — eu vi o sangue sumir do rosto do meu primo. E não era para menos. Estávamos fora do território, longe demais, e Antonella estava sozinha com as crianças, já que os pais dela tinham viajado. Em segundos, avisamos nossos pais e Matteo para que corressem para lá até conseguirmos voltar. No carro, Vincenzo estava à beira do colapso, as mãos tremendo no volante, os olhos fixos na estrada como se pudesse encurtá-la pela força da vontade. Eu tentava mantê-lo de pé, repetindo que Antonella e os bambinos estavam bem, que o quarto do pânico existia justamente para isso, que nada de mal havia acontecido… mas cada vez que eu dizia, parecia que eu falava mais para mim mesmo do que para ele. Quando entramos em casa, o caos nos engoliu. Meu pai e o tio Alessandro gritavam ao telefone, tentando entender como diabos a s
Aurora Bianchi Meses depois … A noite estava tranquila. Eu, Giulia e Antonella estávamos na sala, jogadas no sofá com potes de pipoca e copos de refrigerante nas mãos, assistindo a MVs do BTS na TV. O pequeno Enrico já balançava os bracinhos animado, acostumado com as músicas que eu sempre colocava em casa. Giovanna, mais quieta, apenas observava, de olhos atentos, como Guilhermo e Vicenzo viajaram a “negócios” aproveitamos para dormir todas juntas na casa de Antonella para fazer companhia a ela e os bebês. Tudo parecia normal. Até que não era mais. Um estrondo violento cortou o som da música. Não foi uma batida de porta, nem um trovão distante. Foram tiros. Altos. Próximos. O ar pareceu se solidificar ao nosso redor. Meu coração disparou no mesmo instante, e o refrigerante escorregou da minha mão, caindo no tapete. — Merda. — Giulia sussurrou, já se levantando. Antonella ficou pálida. Mas sua voz foi firme ao dizer: — No escritório de Vincenzo tem um quarto do
Aurora D’Angelis (Bianchi) Meses depois … O celular do Guilhermo tocou de forma ensurdecedora, cortando o silêncio da madrugada como um trovão inesperado. Ele se levantou num pulo, os olhos ainda semicerrados, o corpo tenso. Meu coração disparou, sentindo a urgência no ar antes mesmo de entender o motivo. Acordei atordoada, sentando-me na cama enquanto meu olhar buscava o relógio digital ao lado: 03:00. A hora das almas, como dizia minha nonna, mas naquela noite, seria a hora de uma nova vida. Guilhermo atendia com a voz grave e baixa, dizendo apenas: — “Aham.” — “Certo.” E por fim: — “Logo estaremos aí.” Com essas palavras, senti um frio percorrer minha espinha — não de medo, mas de expectativa. Nossos olhos se encontraram, e ali, naquele instante silencioso, compreendi antes que ele dissesse. — Ella entrou em trabalho de parto. Nossa famiglia ganhará mais um membro — anunciou ele, com um brilho nos olhos que não via há semanas. Suspirei aliviada, e um sorriso s
Aurora D’Angelis A segunda-feira chegou com céu limpo, mas o ar estava carregado daquele tipo de tensão que a gente sente antes de uma mudança. Depois do café com Guilhermo, encontrei Giulia no pátio de treino, ambas de roupa esportiva, com o cabelo preso e a determinação no olhar. Já estávamos alongando quando o som de passos firmes ecoou no cimento. Me virei e vi Matteo se aproximando… e ao lado dele, para surpresa geral, vinha Elena. Giulia parou o movimento na hora, o maxilar levemente travado. Elena usava uma roupa justa de treino, expressão neutra e o cabelo preso num rabo de cavalo impecável. Não olhava para ninguém em especial, mas sua presença soava quase como uma provocação silenciosa. — Meninas — começou Matteo, com aquele tom casual demais para a bomba que estava prestes a soltar — conversei com Elena no sábado. Ela vai treinar com vocês a partir de hoje. A cabeça de Giulia virou lentamente na direção dele, o olhar cortante como uma lâmina embainhada. — E vo







