FAZER LOGINDois dias depois da festa, minha mãe chegou em casa (na casa do primo Márcio) com um sorriso que eu nunca tinha visto. Era aquele sorriso de quem ganhou na mega-sena, sabe? Dentes todos de fora, olho brilhando. Ela entrou batendo a porta, jogou a bolsa no sofá-cama e gritou:
— Arruma tuas coisa, Sayuri! Hoje a gente se muda daqui! Eu tava sentada no chão desenhando num caderno velho, levantei a cabeça sem entender nada. — Mudar pra onde, mãe? Ela deu uma risada alta, daquele jeito que já tava virando normal. — Pra casa do meu homem, ué! O Jogador falou que a gente pode ir hoje mesmo. Acabou esse inferno de dormir espremida aqui nesse barraco. Eu senti o estômago afundar. Jogador. Aquele homem da laje. Aquele olhar que não saía da minha cabeça nem quando eu fechava o olho pra dormir. — Tá falando sério? — minha voz saiu baixinha, quase sumindo. — Claro que tô falando sério, menina! Ele é o dono do morro, Sayuri. Dono! A gente vai morar naquela casa enorme, lá em cima, com piscina, um quarto pra cada uma, tudo do bom e do melhor. Acabou de comer miojo frio e dividir banheiro com dez pessoa. Eu não consegui falar nada. Só fiquei olhando pra ela, sentindo um nó na garganta. Vergonha. Muita vergonha. Porque eu sabia como minha mãe conseguia essas coisas. Eu já tinha onze anos, quase doze, não era mais burra. Ela abria as pernas pra qualquer um que desse um teto e esses dias eu vi ela sair do banheiro e depois o Márcio saiu também. Só que agora ela ia abrir as pernas pro cara mais perigoso do morro inteiro. Mas eu não tinha escolha, né? Nunca tinha. Naquela mesma tarde um cara de moto veio buscar a gente. Colocaram as malas naquelas caixas laterais da moto e eu fui sentada na garupa de outro cara que eu nem conhecia. Subimos o morro inteiro de moto, o vento batendo na cara, o funk tocando alto lá embaixo. Quanto mais subia, mais bonita ficava a vista. Dá pra ver o mar lá longe, brilhando. Eu nunca tinha imaginado que ia morar num lugar que dava pra ver o mar da janela. A casa dele era… diferente de tudo que eu já tinha visto. Não era mansão de novela, mas era grande pra caralho com vista pro morro. Muro alto, portão de ferro automático, dois pitbulls pretos latindo do lado de dentro. Tinha varanda, piscina (pequena, mas tinha), três andares, tudo pintado de branco com detalhes azul. Parecia casa de rico de verdade. Quando o portão abriu, ele tava lá. De pé, encostado na coluna da varanda, braços cruzados, só de regata preta e short de tactel. Eu desci da moto com as pernas tremendo. De perto era pior. Muito pior. Ele era ainda mais alto do que eu lembrava, quase dois metros, o peito largo, os braços cheios de tatuagem que subiam até o pescoço. Tinha uma virgem maria no braço esquerdo, um dragão no direito, nome de gente que eu não conhecia escrito em letra gótica. O cheiro dele chegou antes dele falar: perfume caro, misturado com bebida e um cheiro de homem que eu não sabia explicar. Me deu um arrepio. Minha mãe correu pra ele como se fosse namoradinha de escola. — Amor! Olha quem eu trouxe! — ela se pendurou no pescoço dele. Ele não abraçou ela de volta. Só colocou a mão na cintura dela, seco, e olhou pra mim por cima do ombro dela. — É essa a menina? — voz grave, rouca, parecia que saía do fundo do peito. — É, ué! Minha filha, se chama Sayuri. Bonitinha, né? Esses traços asiáticos puxou do pai dela. Eu abaixei a cabeça. Queria sumir. Sentia o rosto queimando de vergonha. Ele soltou minha mãe e deu um passo pra frente. Parou na minha frente, tão perto que eu conseguia ver o suor escorrendo no pescoço dele. Eu era pequena, o topo da minha cabeça mal chegava no peito dele. — Olha pra mim — ele mandou. Eu levantei o olho devagar. Encontrei aqueles olhos pretos de novo. De perto era pior. Parecia que ele via tudo que eu tava pensando. — Aqui em casa tem regra — ele falou baixo, mas firme. — Respeita horário, respeita quem mora aqui, não mexe no que não é teu. E o que você ouve aqui morre aqui. Entendeu? Eu engoli em seco e fiz que sim com a cabeça. — Fala. — Entendi — minha voz saiu um fiapo. Ele ficou me olhando mais uns segundos, depois virou as costas e entrou. Só isso. Nem oi, nem boa tarde, nada. Mas aquele “entendeu?” ficou ecoando na minha cabeça o dia inteiro. A gente foi se instalar no segundo andar. Eu ganhei um quarto só meu, com cama de casal, um guarda-roupa enorme novinho, até TV tinha. Nunca tive um quarto só meu na vida. Quando meu pai era vivo eu dormia no mesmo quarto que eles. Mas eu não conseguia ficar feliz ali. Eu ficava ouvindo os barulhos da casa. Moto chegando e saindo, gente falando alto no quintal, música o tempo todo. E ele… ele quase não falava comigo. Passava por mim no corredor e só fazia um aceno com a cabeça. Às vezes eu sentia o olhar dele me seguindo quando eu passava pra pegar água na cozinha. Minha mãe começou a mudar rápido. Primeiro era só cerveja e baseado. Depois começaram a aparecer uns pó branco na mesa da sala. Ela ficava acordada até de manhã, rindo alto, falando sozinha. Quando o efeito passava, virava um demônio. Gritava comigo por qualquer coisa. Uma noite depois do jantar eu tava no quarto fazendo lição quando ela entrou do nada, olhos vermelhos, cabelo bagunçado. Eu já aprendi a não respirar quando ela entra no meu quarto. — Cadê meu isqueiro, sua pirralha desgraçada?! — Eu não peguei nada, mãe… Ela me deu um tapa na cara que fez minha cabeça rodar. — Não mente pra mim, Sayuri! Eu caí sentada na cama, segurando o rosto. Comecei a chorar baixinho, não pela dor mas pelo susto, pelo medo. Foi aí que a porta abriu com força. Ele entrou. Só de short, sem camisa, o peito subindo e descendo rápido. Tava puto. — Que porra é essa, Elizabeth?! Minha mãe virou pra ele, tentando fazer carinha de coitada. — Ela pegou meu isqueiro, amor… — Eu não peguei! — eu gritei, chorando. Ele olhou pra mim, depois pra ela. Deu um passo pra frente e segurou o braço da minha mãe com força. — Eu já falei. A menina não apanha aqui dentro. Não quero ver tu batendo nela. Nunca mais. Entendeu? Minha mãe tentou se soltar. — Ela é minha filha, eu faço o que eu quiser! Ele apertou mais o braço dela. Eu vi o rosto dela contorcer de dor. — Enquanto ela tiver debaixo do meu teto, tu não toca um dedo nela. Tá ouvindo? Toca de novo e tu vai embora daqui sem dente. É o último aviso. Ele soltou ela com tanta força que ela tropeçou e caiu sentada no chão. Ele saiu do quarto batendo a porta. Eu fiquei lá, chorando, segurando o rosto. Minha mãe me olhou com ódio puro. — Sua vadiazinha… vai ver só. Ela saiu cambaleando. Eu fiquei sozinha, tava me tremendo inteira. Naquela noite eu não dormi. Fiquei pensando nele. No jeito que ele entrou no quarto, no jeito que segurou ela, no jeito que falou que eu não ia apanhar. Não era carinho. Não era amor de pai. Era… posse. Como se eu fosse um negócio que ele não queria que quebrasse. Mas, pela primeira vez desde que meu pai morreu, eu me senti… protegida. Nos dias seguintes eu comecei a observar ele mais. Ele nunca sorria pra mim, nunca falava mais que o necessário. Mas eu percebi umas coisas: - Quando minha mãe gritava comigo no corredor, ele aparecia do nada e mandava ela calar a boca. - Quando eu tava na cozinha fazendo um lanche, ele entrava, abria a geladeira, pegava uma cerveja e ficava me ajudando enquanto bebia. - Uma vez eu tava na piscina (eu nem sabia nadar direito) e ele ficou na varanda só olhando, braços cruzados, até eu sair da água em segurança. - Quando eu descia pra escola, ele já tava no portão com a caminhonete ligada, esperando. Nunca falava “bom dia”. Só abria a porta e esperava eu entrar. Eu comecei a reparar no corpo dele. Nos braços grossos, nas tatuagens que se mexiam quando ele mexia o braço. No jeito que a regata colava no peito suado. No cheiro que ficava no ar quando ele passava. Eu sabia que era errado. Eu era criança. Mas eu não conseguia parar. Minha mãe piorava a cada dia. Já não era mais só pó. Era pedra. Ela ficava dias sem dormir, falando sozinha, coçando o braço até sangrar. Às vezes sumia a noite inteira e voltava com homem diferente. Ele via tudo e não falava nada. Só olhava com nojo. Uma vez eu ouvi os dois brigando na sala. — Tu tá se acabando, Elizabeth. Eu não quero essa merda dentro da minha casa. — Então me manda embora, seu filho da puta! — Eu mando. Mas tu sabe que a menina fica. Eu tava escutando atrás da porta. Meu coração disparou. A menina fica. Ele falou como se eu fosse algo que ele não queria perder. Depois daquela briga, minha mãe começou a me odiar de verdade. Me chamava de vadia, de piranha, dizia que eu tava roubando o homem dela. Eu não entendia nada. Eu era uma criança. Mas ela sabia alguma coisa que eu ainda não sabia. Eu comecei a ter medo dela. Muito medo. Mas dele… dele eu não tinha mais tanto medo. Eu tinha medo do que ele era. Do que ele fazia. Das armas que eu via com os seguranças. Dos gritos que às vezes vinham lá de baixo à noite. Mas perto dele… perto dele eu me sentia segura. Ele era perigoso pra caralho. Todo mundo tremia na frente dele. Mas por algum motivo que eu não entendia ainda, perto daquele homem eu respirava aliviada. E eu sabia, lá no fundo, que isso era só o começo. E ele, ele ainda nem tinha começado a olhar pra mim de verdade.O sol entra pelas frestas da janela, desenhando listras douradas no chão do quarto. Acordo com o calor do corpo do Ariel ao meu lado e o cheiro gostoso de bebê que já tomou conta da casa toda. Ayumi dorme no berço portátil ao lado da cama. Colocamos ela aqui desde que voltamos do hospital, porque nenhum de nós dois aguentava ficar longe e ela tá aqui desde então. Eu viro de lado, apoio a cabeça na mão, e fico olhando. Ela é tão pequena. Tão perfeita. Os olhinhos puxados, igual os meus. A pele morena, que puxou ele. O cabelo preto e liso, uma mistura dos dois. Ela dorme de boca aberta, os bracinhos pra cima, feito um passarinho. — Tá olhando ela de novo? — a voz rouca do Ariel vem de trás, cheia de sono. — Sempre. Ele se aproxima, cola o corpo no meu, o braço envolvendo minha cintura. Beija meu ombro. — Eu também. Toda hora. Ficamos ali, os três, na paz da manhã. Até a Ayumi acordar, com aquele chorinho manso de quem tá com fome. — Vou pegar — ele diz, já levantando. — Deixa q
A tarde tava mansa. Daquelas que o morro parece até sossegado, o sol batendo fraco, a brisa entrando pela janela. Eu tava no sofá da sala, a televisão ligada num programa qualquer, mas minha atenção tava toda na Sayuri. Ela tava inquieta. Levantou, foi pro banheiro. Voltou depois de uns minutos, sentou do meu lado. Mal encostou no sofá, levantou de novo. — Tá bem, Sasa? — perguntei, acompanhando ela com o olhar. — Dor de barriga — ela respondeu, a mão na barriga enorme. — Mas não fiz nada. — Senta aqui. Puxei ela pro meu lado no sofá. Coloquei a mão na barriga, sentindo os chutes da Ayumi. Fortes, como sempre. — Ela tá mexendo muito — comentei. — Tá. Parece que quer sair. — Ainda falta um mês, princesa. Calma. Ela tentou sorrir, mas a careta de dor voltou. A campainha tocou. — Deve ser o Alan — falei, levantando pra abrir. Era ele. E com ele, a Bárbara. A enfermeira da clínica onde a Sayuri faz o pré-natal. A mina que, pelo jeito, virou namorada do meu irmão, pois vivem
O dia começou comum. Sol quente, morro fervendo, a rotina de sempre. O Jogador me chamou cedo, mandou eu resolver umas paradas no morro do Ben. Negócio de rota, de fornecedor, de alinhamento entre as áreas. Coisa chata, mas necessária. O Ben é parceiro, mas parceiro exige atenção. Peguei o carro, desci o morro, subi o outro. A paisagem mudava, mas a essência era a mesma: viela, barraco, olhar desconfiado de quem não te conhece. Cheguei no QG do Ben. O cara me recebeu na porta, aperto de mão firme, olho no olho. — Edy, tranquilo? — ele perguntou. — Tranquilo, Ben. O Jogador mandou lembrança. — Manda um abraço pro chefe. Vamo resolver esses assuntos logo. Entramos. A sala era parecida com a nossa: mesa grande, cadeiras, mapa do morro na parede, radinho chiando. Sentei, abri a pasta, comecei a explicar as propostas do Jogador. O Ben ouvia, acenando, fazendo suas contrapropostas. Tava tudo indo bem. Até a porta abrir com violência. Maya. Ela entrou aos prantos. O cabelo preto b
A madrugada era silenciosa. O tipo de silêncio que pesa, que aperta, que faz a gente ouvir o próprio coração batendo. Eu tava deitada na cama, o Jogador dormindo ao lado, a mão dele pousada na minha barriga como fazia toda noite. Protegendo. Cuidando. Mas eu não conseguia dormir. A gravidez tava avançando. Cinco meses já. A barriga crescia, os chutes da Ayumi ficavam cada dia mais fortes, mais frequentes. Tudo parecia bem. Exames normais, médica satisfeita, o Jogador babando demais. Mas dentro de mim, um medo crescia. Medo de perder. Medo de não ser boa o suficiente. Medo de acabar sendo uma péssima mãe. Medo de que tudo aquilo fosse bom demais pra ser verdade. Fechei os olhos. Tentei respirar fundo. O sono veio devagar. --- Eu tava no hospital. Não sei como cheguei ali, mas tava. Corredor branco, luz forte, cheiro de álcool e medicamento. Gente passando, macas, vozes abafadas. — Sayuri? Uma enfermeira me chamou. Rosto sério, olhos tristes. — Acompanha a gente. Segui
Mano, eu tava há dias pensando nisso. Ver o Jogador e a Sayuri naquela vibe de futuro papai e mamãe mexe com a gente. Não tem como. O cara que eu conheci endurecido pelo morro, que evitava compromisso, agora tava todo bobo escolhendo nome de filha, montando quarto rosa, sonhando com o futuro. E eu ali, vendo aquilo, pensando: porra, e eu? A Daiane. Minha pretinha. Minha gata. A mulher que me fez querer ser mais do que só mais um vapo no morro. Eu queria isso também. Queria um filho. Queria construir uma família. Mas sabia que não podia chegar assim, do nada, jogando a ideia. Tinha que ser especial. Tinha que ser num lugar que significasse algo pra nós. O motel. Aquele onde a gente transou pela primeira vez. Liguei, reservei o mesmo quarto. Mandei flores, deixei tudo preparado. Quando fui buscar ela em casa, ela já tava linda — um vestidinho vermelho curto, cabelo solto, maquiagem leve. Meu coração até pulou. A pretinha é um arraso. — Onde a gente vai? — ela perguntou, entran
Acordei cedo pra caralho. Sete da manhã, um horário que Deus não inventou pra mim. Mas hoje era especial. Hoje eu ia com a Sayuri comprar as primeiras roupinhas da Ayumi. Ela tava me esperando na porta da casa dela, ansiosa igual criança véspera de Natal. O vestido soltinho, a barriga ainda pequena mas já aparecendo, o cabelo colorido preso num coque fofo. Tava linda. — Daiane! — ela gritou quando me viu descer do carro do Vassoura. — Finalmente! — Finalmente o quê, mulher? — ri, chegando perto. — Oito da manhã! Até parece que o bebê vai nascer amanhã. — Quero comprar tudo hoje — ela disse, me puxando pra dentro de casa. — O Jogador liberou, mas não pode demorar. Disse que até meio-dia tenho que tá de volta. — Meio-dia? — olhei pro céu. — Tá de sacanagem? Vai dar tempo de comprar o quê? Duas fraldas? — É o que tem pra hoje. — Ela deu de ombros, mas o sorriso não sumia. — Vamo nessa. Antes de sair, o Jogador apareceu na porta. O homem tava com cara de poucos amigos, braço cruzad







