FAZER LOGINDepois da morte do pai, Sayuri é arrastada pela mãe para um dos morros mais perigosos do Rio de Janeiro. Lá, elas passam a viver sob o teto de um homem conhecido como Jogador — temido por uns, desejado por muitas, respeitado por todos. Quando Sayuri completa catorze anos, a mãe desaparece sem aviso, deixando a adolescente sob os cuidados do traficante que governa o morro. Entre regras rígidas, proteção silenciosa e um olhar que ela nunca conseguiu decifrar, Sayuri cresce ao lado dele… e aprende que o perigo pode ter muitas faces. Agora, aos dezoito, ela percebe que algo mudou. Nos olhares. Nos silêncios. Na forma como ele a protege… e como a namorada dele tenta afastá-la. Sayuri sempre soube que Jogador era proibido. Mas ninguém nunca avisou o quanto o proibido podia ser irresistível. Entre o caos do morro, a ausência da mãe e um desejo que ela tenta negar, Sayuri vai descobrir que alguns limites não existem para sempre — e que tem paixões que nascem exatamente onde não deveriam.
Ver maisO sol entra pelas frestas da janela, desenhando listras douradas no chão do quarto. Acordo com o calor do corpo do Ariel ao meu lado e o cheiro gostoso de bebê que já tomou conta da casa toda. Ayumi dorme no berço portátil ao lado da cama. Colocamos ela aqui desde que voltamos do hospital, porque nenhum de nós dois aguentava ficar longe e ela tá aqui desde então. Eu viro de lado, apoio a cabeça na mão, e fico olhando. Ela é tão pequena. Tão perfeita. Os olhinhos puxados, igual os meus. A pele morena, que puxou ele. O cabelo preto e liso, uma mistura dos dois. Ela dorme de boca aberta, os bracinhos pra cima, feito um passarinho. — Tá olhando ela de novo? — a voz rouca do Ariel vem de trás, cheia de sono. — Sempre. Ele se aproxima, cola o corpo no meu, o braço envolvendo minha cintura. Beija meu ombro. — Eu também. Toda hora. Ficamos ali, os três, na paz da manhã. Até a Ayumi acordar, com aquele chorinho manso de quem tá com fome. — Vou pegar — ele diz, já levantando. — Deixa q
A tarde tava mansa. Daquelas que o morro parece até sossegado, o sol batendo fraco, a brisa entrando pela janela. Eu tava no sofá da sala, a televisão ligada num programa qualquer, mas minha atenção tava toda na Sayuri. Ela tava inquieta. Levantou, foi pro banheiro. Voltou depois de uns minutos, sentou do meu lado. Mal encostou no sofá, levantou de novo. — Tá bem, Sasa? — perguntei, acompanhando ela com o olhar. — Dor de barriga — ela respondeu, a mão na barriga enorme. — Mas não fiz nada. — Senta aqui. Puxei ela pro meu lado no sofá. Coloquei a mão na barriga, sentindo os chutes da Ayumi. Fortes, como sempre. — Ela tá mexendo muito — comentei. — Tá. Parece que quer sair. — Ainda falta um mês, princesa. Calma. Ela tentou sorrir, mas a careta de dor voltou. A campainha tocou. — Deve ser o Alan — falei, levantando pra abrir. Era ele. E com ele, a Bárbara. A enfermeira da clínica onde a Sayuri faz o pré-natal. A mina que, pelo jeito, virou namorada do meu irmão, pois vivem
O dia começou comum. Sol quente, morro fervendo, a rotina de sempre. O Jogador me chamou cedo, mandou eu resolver umas paradas no morro do Ben. Negócio de rota, de fornecedor, de alinhamento entre as áreas. Coisa chata, mas necessária. O Ben é parceiro, mas parceiro exige atenção. Peguei o carro, desci o morro, subi o outro. A paisagem mudava, mas a essência era a mesma: viela, barraco, olhar desconfiado de quem não te conhece. Cheguei no QG do Ben. O cara me recebeu na porta, aperto de mão firme, olho no olho. — Edy, tranquilo? — ele perguntou. — Tranquilo, Ben. O Jogador mandou lembrança. — Manda um abraço pro chefe. Vamo resolver esses assuntos logo. Entramos. A sala era parecida com a nossa: mesa grande, cadeiras, mapa do morro na parede, radinho chiando. Sentei, abri a pasta, comecei a explicar as propostas do Jogador. O Ben ouvia, acenando, fazendo suas contrapropostas. Tava tudo indo bem. Até a porta abrir com violência. Maya. Ela entrou aos prantos. O cabelo preto b
A madrugada era silenciosa. O tipo de silêncio que pesa, que aperta, que faz a gente ouvir o próprio coração batendo. Eu tava deitada na cama, o Jogador dormindo ao lado, a mão dele pousada na minha barriga como fazia toda noite. Protegendo. Cuidando. Mas eu não conseguia dormir. A gravidez tava avançando. Cinco meses já. A barriga crescia, os chutes da Ayumi ficavam cada dia mais fortes, mais frequentes. Tudo parecia bem. Exames normais, médica satisfeita, o Jogador babando demais. Mas dentro de mim, um medo crescia. Medo de perder. Medo de não ser boa o suficiente. Medo de acabar sendo uma péssima mãe. Medo de que tudo aquilo fosse bom demais pra ser verdade. Fechei os olhos. Tentei respirar fundo. O sono veio devagar. --- Eu tava no hospital. Não sei como cheguei ali, mas tava. Corredor branco, luz forte, cheiro de álcool e medicamento. Gente passando, macas, vozes abafadas. — Sayuri? Uma enfermeira me chamou. Rosto sério, olhos tristes. — Acompanha a gente. Segui












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