FAZER LOGINADA
ADA SORRIU COM O CLIMA ROMÂNTICO do livro que lia, enquanto a mãe assistia à novela turca na sala. A porta do quarto pairava fechada, o que a possibilitou de espernear de felicidade na cama confortável. Finalmente o primeiro beijo dos protagonistas!, os pensamentos estavam animados, enquanto marcava a página da leitura para aliviar o êxtase dançando sem qualquer ritmo. Os cabelos dela balançavam; eram longos, pretos e cacheados. Com seus vinte e quatro anos, altura de 1,50m e negra de pele clara, ela era bonita como achava que devia ser. Mas detestava confessar algumas frustrações, pois as mesmas lhe causavam inseguranças que levariam até o túmulo. A primeira delas era que lhe faltava altura, depois, o tamanho dos seios. Ou seria o tom de pele? Cabelo muito volumoso? Ela não saberia dizer. Pensava que sempre lhe faltava alguma coisa para ser notada do jeito certo, até perceber que o problema não era exatamente ela, mas os outros. Vamos lá, havia outra frustração. Não exatamente por nunca namorar ou ainda ser virgem, mas por saber que os homens eram nojentos e perversos. Não conseguia enxergá-los nos nobres cavalheiros que lia nos livros de romance. Na ficção tinha a palavra e a honra, a gentileza e o respeito, coisas que não via nos homens que convivia. Tudo bem, tudo bem, ela sabia que não estava sendo justa ao generalizar, mas era impossível acreditar em qualquer homem real quando nenhum deles se comportava do modo certo. A menos, é claro, que ouvir “dale, morena” na rua fosse isso. A verdade era que se realmente fosse apenas isso ela até levaria em consideração alguns deles, mas quando observava os colegas de turma falar das mulheres como se fossem objetos sexuais ou se exibiam por algo que fizeram com elas entre quatro paredes, Ada só sentia nojo — e não era como se todos levassem em conta o comprometimento. Parecia que status sério de relacionamento era uma doença contagiosa. Qual o problema deles? Isso sem contar que muitos repetiam aquela desculpa ridícula de terem “carne fraca”, por isso, justificavam o par de chifres que davam. Não havia honestidade, Ada sequer tinha exemplos plausíveis, então, era claro que preferia morrer seca lendo romances em vez de tentar viver um. Por isso ela não parava de girar e de esticar os braços. Não parava de sorrir. Se não podia ter aquele tipo de romance na vida real, poderia ao menos imaginar. Os livros eram uma maneira de fazer coração acreditar que aquele tipo de amor existia, mesmo que a realidade dissesse totalmente o contrário. E assim lá estava ela toda feliz por se sentir sendo beijada e amada por um cara que simplesmente não existia. Talvez eu não seja tão normal assim, pensou rodopiando. Se Lilian visse os meus pensamentos, ela provavelmente me chamaria de aberração. Mas que se...! Ada parou de girar por notar a porta da varanda do vizinho do mesmo jeito que a sua: aberta, coisa que nunca aconteceu antes. Ele é novato? Achou estranho o fato da mãe não ter falado sobre ele. Não que aquilo fizesse diferença, já que ela não mantinha contato com quase nenhum, mas ficou curiosa. E ainda mais por ele pisar em território proibido e mal-assombrado. As cortinas brancas balançavam de acordo com o ritmo do vento. Ela ainda podia notar algumas sombras e... olhos! Havia alguém na varanda. Um homem, ponderou. E ele olhava para ela de forma curiosa, ainda que demonstrasse um pequeno sorriso nos lábios. Ele estendeu uma garrafa escura para ela como forma de cumprimento. Automaticamente Ada acenou, sentindo o rosto enrubescer. Ela nunca tinha visto um homem tão bonito, embora o porte dele fosse completamente ameaçador. Tinha os cabelos escuros e os olhos também. Ela não conseguiu enxergar muita coisa, mas tinha certeza que ele possuía um charme sombrio e perigoso. Ele tinha me visto pular?, pensou. Meu Deus, que vergonha... Então ela o observou se inclinar, indicando que se retiraria. E Ada acenou novamente, como a babaca que era, sem ir para a varanda para falar alguma coisa, nem que fosse um simples “boa noite”. Assim que o homem saiu, Ada fechou a porta, depois as cortinas e sentiu a boca do estômago congelar. Ela pôs a mão no coração ao perceber que ele estava palpitando e respirou fundo três vezes. Meu Deus, que mico! Se eu soubesse que tínhamos um vizinho, eu nunca ia deixar a minha varanda aberta! Muito menos ficar pulando de camisola!, ela espiou para o tecido. Camisola de bolinhos de chocolate! Ada abriu uma brecha nas cortinas para ver se o novo vizinho tinha mesmo ido embora, e percebeu que uma mulher andava pela calçada lá embaixo. É muito bonita. Tinha uma beleza e sensualidade que possivelmente Ada nunca teria, a começar pela forma de andar. Naquela rua, alguns homens buzinavam enquanto dirigiam, um mendigo bateu de frente a um poste; mas um cachorro latiu, um gato fugiu, os grilos do quintal pareciam ter encontrado o silêncio eterno. Poderia até ser impressão, mas Ada sentia que havia algo de errado com a loira. Ignorou aquele pensamento assim que notou a mulher entrar na casa do vizinho. O novato. Seria a namorada dele?, não deixou de pensar, enquanto notava aquela mesma leve decepção dentro de si, enquanto voltava para a leitura.ADAAda não esperava que Ian entrasse pela varanda naquela noite. Ela estava tão absorta com a história que escrevia que não se deu conta que um homem de um metro e oitenta e cinco entrava.Aquilo seria um tipo de comportamento maníaco? Se não fosse pelo fato de que ele a salvou, ela consideraria de verdade a ideia. No entanto, Ada achava que Ian só apareceu no quarto sem a autorização para lhe provocar, mas no fim se tornou algo que ela não esperava: a morte do irmão dele.Sentia, de fato, que algo estava errado. Por isso o pressionou para que falasse a respeito do que acontecia. Por um momento até pensou que Arthur tivesse sido sequestrado ou morto, mas, pelas graças dos céus, não foi. De qualquer forma, aquilo não excluía o fator principal: alguém morreu naquela noite.E tinha sido o irmão de
IANAda não estava entendendo o que estava acontecendo, óbvio, mas Ian agora tinha mais certeza de que ela não devia viver em um mundo tão... cruel. Conseguia agora sentir o cheiro dela emanar preocupação, compaixão, empatia, todos aqueles sentimentos doces e sagrados que passara anos desejando sentir de novo. Ou que ainda tentava cultivar, mesmo com as Marcas.Mas ele não conseguiu.Não tão bem, claro.Ada piscou duas vezes e inclinou um pouco a cabeça esperando que ele dissesse alguma coisa.— Não precisa me trazer nada, obrigado. Eu só... — ele tentou encontrar as palavras certas. — Eu só preciso...
IAN— O que foi? Você está passando mal ou algo assim? — Ada saiu da cama, mancando, e foi em direção a ele.Pelo maldito inferno, ela não podia simplesmente andar de camisola de unicórnios com aqueles cachos desordenados e achar que ele não sentiria vontade de colocá-la de volta na cama, mas com ele junto. Também não podia ficar diante dele, olhando para cima, sem nenhum pingo de desejo ou medo, como se tentasse entender o que se passava, porque era exatamente assim como queria que todas as pessoas agissem.É por isso que eu a quero!, alfinetou a Luxúria. Ela é diferente
Depois de enterrar Helgar, Ian voltou para a Mansão cercado da fumaça que os Pecados representavam quando não estavam em forma física e quando também não se encontravam no corpo. Não conseguia controlar as Marcas muito bem porque a raiva que sentia fazia com que a Ira despertasse todas as outras. Cogitou em ir para o subsolo na intenção de extravasar aqueles sentimentos, mas sabia muito bem que ficaria horas se desgastando em exercícios que não o fariam ficar melhor.Maldição!, pensou. Maldito seja Azira e todo o seu Clã.Por que não se vinga logo de uma vez?, a Ira lhe dizia. Vai ser bem melhor resolver agora do que depois.
LUCASLucas sabia que seria doloroso ver mais outro irmão ser enterrado. O choro de Surina por si só dificultava toda a situação. Não conseguia consolá-la quando sequer mantinha as próprias emoções no lugar. Se não estivesse ali, Lucas não teria notado que Ian não conseguiu ficar por muito tempo no Mosteiro. Ninguém conseguia dizer uma só palavra, para o bem da verdade.Bina, que tinha deixado o posto de observar Ada para dar vez ao John, assoava o nariz com um lenço, enquanto Bamby colocava a terra de volta. Nano era o único que, obviamente, tentava consolar Surina, mas sem sucesso. Perder um companheiro de séculos... com certeza, era algo difícil de lidar.Bem, Lucas também não aguentou ficar por muit
LUCASQuando Ian disse a Lucas para irem de encontro a Surina e Helgar, ele sabia que os irmãos estavam com problemas. Era bastante óbvio pela cara de ódio que via. Nos últimos séculos, conseguia interpretar as atitudes de Ian com relação a certas escolhas e, apesar de sempre discordar de algumas situações, ele sabia que no fim aquela seria a melhor alternativa. Não somente para ele, como para todo o Clã.Por isso Lucas não se espantou quando Ian lhe passou as novas informações que Ariane deveria ter dado ao Clã assim que colocaram os pés no Brasil. Os Duboi agora eram parte do Clã de Azira. Uma notícia daquela era de extrema importância. E saber que todos corriam perigo nas mãos dos antigos Duboi era algo preocupante.Então eles não perderam tempo em chamar Nano, que estava desocupado e próximo a região, e rumou até lá voando. Assim







