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Capítulo 6

Author: Maya Saint
last update publish date: 2026-05-14 04:48:10

POR MAIA

Minha mãe atendeu antes mesmo da terceira chamada terminar.

— Finalmente. Estou tentando falar com você desde cedo.

A voz dela continuava a mesma de sempre.

Fria.

Distante.

Mas existia um desespero escondido ali no fundo que imediatamente me deixou alerta.

Encostei na parede do corredor antes de responder:

— Eu estava na aula. O que aconteceu?

— Quando você vem aqui em casa? Seus irmãos perguntam de você o tempo inteiro… e eu preciso falar uma coisa urgente. Não pode esperar.

Fechei os olhos por um instante.

Eu também estava com saudade deles.

Muita.

Já fazia quase dois meses desde a última vez que fui para a cidade onde cresci.

— Não sei se consigo ir agora, mãe. A faculdade está uma loucura… mas por que você não vem passar o fim de semana comigo? Traz as crianças.

A ideia me incomodava um pouco.

Minha mãe sempre encontrava alguma coisa para reclamar quando ia à minha casa.

Uma louça fora do lugar.

Uma toalha dobrada errado.

Uma planta ocupando “espaço demais”.

Ela ainda falava comigo como se eu tivesse quinze anos.

Mesmo assim…

Eu queria ver Hannah e Rafael.

— Você sabe que eu não tenho dinheiro pra isso — respondeu imediatamente. — E o pouco que você manda não dá pra nada. Além disso, o assunto que preciso falar não pode esperar até o fim de semana.

O jeito que ela enfatizou a última frase fez meu estômago apertar.

Respirei fundo.

— Eu compro as passagens de vocês. Mas me fala logo o que aconteceu.

Tentei soar calma.

Mas já conseguia sentir ansiedade subindo lentamente pelo meu peito.

Minha mãe suspirou do outro lado da linha.

— Vou ser direta. Maicon fez besteira de novo.

Fechei os olhos imediatamente.

Claro.

— Vocês dois ainda vão me matar de nervoso qualquer dia desses…

— Mãe. — interrompi antes que ela começasse a reclamar de novo sobre como nós destruíamos a vida dela desde sempre. — Seja direta. Tenho aula em alguns minutos.

Ela ficou em silêncio por dois segundos antes de falar:

— Maicon pegou dinheiro com agiota.

Meu corpo inteiro travou.

— O quê?

— E agora eles estão atrás dele. Vieram aqui em casa hoje cedo perguntando onde ele estava. Me ameaçaram. Disseram que, se ele não pagar até o dia vinte, a gente ia “ver só”.

Meu coração começou a bater forte.

Não era a primeira vez.

Maicon era mais velho que eu, mas continuava agindo como um adolescente irresponsável.

Na última vez que ele se meteu com gente errada, me ligou desesperado pedindo dinheiro.

Mil reais.

Eu fiquei tão assustada com a possibilidade daquilo respingar na minha mãe e nas crianças que entreguei o dinheiro da mensalidade da minha faculdade pra ele pagar a dívida.

Ele prometeu devolver em uma semana.

Nunca devolveu.

Na época eu ainda trabalhava como garçonete.

Passei mais de um mês trabalhando sem folga, pegando bicos aos finais de semana, aceitando qualquer turno extra possível só pra conseguir me recuperar financeiramente.

Enquanto ele…

Nem apareceu pra pedir desculpas.

— Eu não acredito que ele fez isso de novo — falei alto demais, sentindo a raiva subir instantaneamente. — Ele é um irresponsável.

Algumas pessoas passaram pelo corredor olhando discretamente na minha direção.

Ignorei.

— Quanto ele deve? — perguntei já sentindo medo da resposta.

Minha mãe demorou alguns segundos antes de responder.

— 30 mil.

Meu corpo gelou.

— O quê?!

— Eu não tenho de onde tirar esse dinheiro, Maia. Você sabe disso.

Passei a mão no rosto lentamente.

30 mil reais.

Era impossível.

— E eu também não tenho — respondi tentando controlar a própria voz. — Todo o dinheiro que eu ganho vai pra faculdade, pras contas, pra ajudar vocês… às vezes nem sobra pra mim.

— Mas você vai ter que dar um jeito.

A frase veio seca.

Fria.

Como se aquilo fosse simplesmente minha responsabilidade.

— Porque eles ameaçaram fazer alguma coisa comigo e com as crianças.

Fiquei em silêncio.

Atônita.

Meu peito começou a apertar tão forte que por um instante achei que fosse passar mal ali mesmo.

Eu faria qualquer coisa por Hannah e Rafael.

Qualquer coisa.

E minha mãe sabia disso.

Ela sempre soube exatamente onde me atingir.

— Maia? — ela chamou depois de alguns segundos.

Engoli em seco.

— Depois eu te ligo. Preciso entrar pra aula agora.

— Mas eu preciso de uma resposta logo. Você sabe como essas pessoas funcionam. Eles não ficam só ameaçando por muito tempo.

Fechei os olhos por um instante.

Eu já sentia o peso daquela dívida caindo nas minhas costas mesmo sem ter sido eu quem a criou.

Como sempre.

— Tá bom… eu vou dar um jeito.

As palavras saíram antes mesmo que eu pensasse.

Minha mãe suspirou aliviada do outro lado.

— Depois a gente conversa então.

— Manda um beijo pras crianças. Amo vocês.

Ela não respondeu.

A ligação simplesmente encerrou.

Fiquei parada no meio do corredor olhando para a tela apagada do celular por alguns segundos.

Então senti a primeira lágrima escorrer.

Droga.

Passei rapidamente a mão no rosto e fui direto até o banheiro feminino.

Eu odiava chorar em público.

Odiava ainda mais sentir que estava perdendo o controle.

Me apoiei na pia tentando respirar devagar enquanto encarava meu reflexo no espelho.

Eu não estava chorando só por causa da dívida.

Era tudo.

A faculdade.

O dinheiro.

Os encontros.

A pressão.

O cansaço constante.

O medo de nunca conseguir sair daquele ciclo.

Às vezes eu terminava o mês literalmente zerada.

E aceitava encontros que não queria simplesmente porque precisava sobreviver.

Porque alguém precisava manter tudo funcionando.

Lavei o rosto com água gelada e fiquei alguns segundos encarando meus próprios olhos inchados antes de finalmente sair dali.

Quando cheguei à sala, a aula já tinha começado.

O professor interrompeu a explicação por um instante para olhar diretamente pra mim.

A expressão dele deixava claro o quanto atrasos o irritavam.

Ignorei o desconforto e fui direto me sentar ao lado de Valéria.

Ela me olhou imediatamente.

Observadora como sempre.

— O que aconteceu? — perguntou baixo assim que sentei.

Balancei a cabeça levemente enquanto abria o caderno.

— Minha mãe.

Só isso.

Mas aparentemente foi suficiente.

Valéria me observou por mais alguns segundos.

Depois seus olhos desceram discretamente para minhas mãos.

Eu ainda estava tremendo.

— Depois você me conta — ela disse num tom mais suave.

Assenti em silêncio.

E pela primeira vez naquele dia…

Eu realmente não fazia ideia de como iria conseguir resolver tudo aquilo.

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