MasukPOR MAIA
Cheguei à sala de Ecologia Urbana e Paisagística faltando poucos minutos para a aula começar.
Era, sem dúvidas, minha matéria favorita daquele semestre.
Talvez porque fosse uma das poucas disciplinas que me faziam esquecer completamente todo o resto.
Quando eu estava ali, falando sobre arborização urbana, drenagem natural, jardins sustentáveis ou ocupação inteligente dos espaços… minha cabeça finalmente silenciava.
Nenhum cliente.
Nenhuma conta atrasada.
Nenhuma preocupação.
Só eu.
E o futuro que eu ainda tentava construir.
Eu estava no penúltimo ano da faculdade.
Ano que vem, se tudo desse certo, eu finalmente me formaria.
Só de pensar nisso já me dava um alívio estranho.
Quando entrei na sala, alguns alunos já estavam espalhados pelas cadeiras. Reconheci Valéria imediatamente.
Ela já estava sentada no lugar de sempre, perto da janela.
Sentei ao lado dela automaticamente.
Valéria estava comigo desde o começo do curso.
Nos tornamos amigas rápido.
Talvez porque fôssemos muito parecidas em algumas coisas e completamente diferentes em outras.
Ela era um ano mais nova que eu, mas tinha uma maturidade admirável.
Personalidade forte.
Direta. Observadora.Era magra, mas com curvas maiores que as minhas, cabelos lisos e curtos, sempre acima dos ombros, e uma pele tão branca que às vezes eu brincava chamando ela de Branca de Neve.
Ela odiava.
O que obviamente me fazia repetir ainda mais.
— Bom dia, morta-viva — ela cochichou assim que sentei.
Sorri.
— Você não tem ideia.
Ela arqueou uma sobrancelha, curiosa, mas o professor entrou naquele instante e não tivemos tempo de conversar.
A aula passou rápido.
Como sempre acontecia quando eu realmente gostava do assunto.
No final, antes de encerrar, o professor apoiou as mãos sobre a mesa e disse:
— Antes de irem embora, tenho uma novidade.
A sala inteira prestou atenção.
— Na sexta-feira, daqui a quatro dias, vamos sortear quatro vagas de estágio entre os alunos com as melhores notas deste semestre. As vagas são para duas empresas excelentes: Artelife Arquitetura e Mono Arquitetura.
Meu coração acelerou.
Olhei imediatamente para Valéria.
Ela me olhou de volta.
Nós duas entendemos a importância daquilo ao mesmo tempo.
Um estágio.
Um salário.
Uma chance real.
Aquilo mudaria muita coisa.
Por mais que eu não aceitasse tantos encontros quanto Diana, eu ainda fazia pelo menos dois por semana.
Era o suficiente para pagar:
minha faculdade, as contas da casa, a comida, e ajudar minha mãe com meus irmãos mais novos, que teve de um outro casamento..Hannah tinha onze anos.
Rafael, nove.
Eles eram a minha vida.
E eu faria qualquer coisa para garantir que não crescessem como eu cresci.
Hannah fazia ginástica artística.
Rafael fazia natação.
E toda vez que eu pagava aquelas mensalidades, sentia uma pequena vitória.
Como se estivesse quebrando algum ciclo antigo.
Minha mãe havia se separado há pouco mais de um ano.
Coincidentemente na mesma época em que fui demitida do restaurante onde trabalhava como garçonete.
Foi aí que tudo apertou.
E foi aí que Diana me apresentou o aplicativo.
Eu relutei.
Muito.
Mas contas não esperam dignidade.
E nem sempre os encontros eram sexuais.
Na verdade, raramente eram.
Mas eram esses os que pagavam melhor.
Então aquele estágio…
Mesmo se pagasse um salário mínimo…
Já me ajudaria absurdamente.
Assim que a aula acabou, eu e Valéria fomos direto nos inscrever.
Éramos boas alunas.
Talvez duas das poucas realmente interessadas ali.
Muitos colegas eram filhos de famílias ricas.
Estavam ali por obrigação.
Eu e Valéria não.
Nós duas tínhamos bolsa parcial de cinquenta por cento.
Tínhamos estudado muito pra estar ali.
E dávamos valor a cada aula.
— Vamos cruzar os dedos — Valéria disse assim que saímos da secretaria. — Com certeza vamos conseguir essas vagas.
Sorri.
Ela era sempre otimista.
— Tomara. Isso iria me ajudar muito nesse momento.
— Vai ajudar.
O jeito decidido dela quase me convenceu.
Como ainda faltavam cinquenta minutos para a próxima aula, convidei Valéria para ir até a cafeteria.
Mandei uma mensagem para Diana avisando que estaríamos lá.
Enquanto caminhávamos pelo corredor, meu celular vibrou.
Finalmente olhei.
Mensagem da minha mãe.
“Preciso falar com você urgente. Me liga quando puder.”
“Me liga porra”
Suspirei.
Mais um problema.
Com certeza.
Mas não iria pensar nisso agora.
Minha mãe tinha quarenta e oito anos.
Alta. Cabelos pretos. E com olhos verdes claros como o meu
Dizem que pareço muito com ela.
Fisicamente, talvez.
Na personalidade, nem de longe.
Minha mãe sempre foi dura.
Controladora.
Teve eu e meu irmão mais velho, Maicon, muito nova.
Com dezoito anos.
Foi criada junto com seis irmãos numa pequena casa de madeira no interior, onde meu avô trabalhava em colheitas de café e minha avó lavava roupa para fora.
Ela cresceu ouvindo que violência era educação.
E repetiu isso em casa.
Comigo.
Com Maicon.
Até hoje ela defendia que “na época era assim”.
Eu nunca aceitei isso.
Nunca.
Chegamos à cafeteria.
Pedi o de sempre.
Café preto, puro.
E broas de milho.
Elas me lembravam a infância.
Ou pelo menos as partes boas dela.
Minha mãe fazia a tarde para o lanche, antes de tudo virar caos depois que meu pai e ela se separaram.
Valéria pediu cappuccino e uma fatia enorme de bolo de cenoura.
Como sempre.
— Você realmente nunca muda — falei.
— E nem pretendo.
Escolhemos uma mesa perto da janela e começamos a conversar enquanto esperávamos Diana.
Ela chegou alguns minutos depois.
Apressada como sempre.
Cabelos presos às pressas.
Batom impecável. Perfume forte.Diana tinha essa capacidade de parecer arrumada mesmo quando claramente tinha saído correndo.
— Oi, bonitas — disse sentando-se. — O que perdi?
— Maia quase morreu de ansiedade hoje cedo — Valéria respondeu antes de mim.
Lancei um olhar pra ela.
— Obrigada pela delicadeza.
Diana riu.
— Ainda é sobre o homem estranho?
Assenti.
— Bloqueei.
— Fez certo — Valéria disse imediatamente.
Diana apoiou o cotovelo na mesa.
— Eu não sei… se ele realmente for um dos donos do aplicativo, talvez seja interessante manter contato.
Eu e Valéria olhamos pra ela ao mesmo tempo.
— Interessante? — repeti.
— Ué. — ela deu de ombros. — Homens assim podem ser úteis.
A frase me incomodou mais do que deveria.
Valéria também pareceu desconfortável.
— Nem tudo precisa ser calculado assim — ela comentou, mexendo no cappuccino.
Diana sorriu de lado.
— Fácil falar quando você não precisa pagar aluguel sozinha.
O clima ficou levemente estranho. Odiava quando Diana atacava Valéria desse jeito só porque ela ainda morava com os pais.
Eu resolvi mudar de assunto.
— Vamos falar de coisa boa. Sexta tem sorteio dos estágios.
— Ah, eu soube — Diana respondeu. — Vai ser ótimo se você conseguir. Talvez finalmente pare de aceitar encontro com homens que você diz tanto odiar fazer.
Ela falou sorrindo.
Mas havia alguma coisa ali.
Alguma ponta.
Alguma provocação sutil.
Ignorei. Ou tentei.
Conversamos mais alguns minutos sobre faculdade, provas e banalidades até o horário apertar novamente.
Nos despedimos.
Pedi para que Valéria fosse para o bloco que iríamos ter a próxima aula sem mim, que eu precisava fazer algo primeiro.
Diana também.
E eu fiquei alguns segundos parada do lado de fora da cafeteria.
Sozinha.
O celular ainda pesava no bolso.
A mensagem da minha mãe parecia me chamar.
Respirei fundo.
Abri a conversa.
E apertei o botão de ligar.
Eu já sabia.
Aquilo nunca significava coisa boa.
Ignorei a mensagem.Não respondi.Não porque não tivesse medo do Victor.Mas porque estava cansada de permitir que aquele homem decidisse cada passo da minha vida.Guardei o celular no bolso e continuei andando.Precisava de um lugar onde pudesse pensar.Acabei entrando em um parque próximo dali.O movimento era tranquilo naquela hora da tarde.Algumas pessoas caminhavam.Crianças brincavam.Casais conversavam sentados nos bancos.Tudo parecia tão normal.E eu invejava aquilo.Sentei em um banco mais afastado e fiquei olhando para as árvores durante alguns minutos.O que eu faria?Não tinha resposta.Só sabia que não queria envolver Diana.Não queria envolver Valéria.E muito menos Christopher.Quanto mais pessoas entrassem naquela história, maior seria o estrago.Então eu precisava resolver sozinha.De algum jeito.Olhei para o celular novamente.Uma nova mensagem.Depois outra.E outra.Todas de Victor.Não abri nenhuma.Desliguei o aparelho.Chega.Por algumas horas, eu só queria s
Saímos do campus e fomos para uma cafeteria ali perto.Diana passou praticamente todo o caminho mexendo no celular.Não disse uma palavra.Valéria também parecia ter percebido que havia alguma coisa errada, mas preferiu não comentar.Assim que chegamos, escolhemos uma mesa mais afastada e fizemos nossos pedidos.Quando todas nos sentamos, Diana finalmente guardou o celular.Ela olhou diretamente para mim.— Certo. Agora fala.Franzi a testa.— Falar o quê?Diana soltou um suspiro impaciente.— Não se faça de boba, Maia. Eu te conheço. E não é de hoje.Fiquei em silêncio.Ela cruzou os braços sobre a mesa.— Por que você foi naquele evento com aquele babaca?Meu estômago apertou.Baixei os olhos para a xícara à minha frente.Eu poderia contar.Talvez fosse a hora de contar tudo.As ameaças.A chantagem.Tudo.Mas, no instante em que imaginei a reação dela, desisti.Diana nunca ficaria parada sabendo que alguém estava ameaçando uma pessoa que ela amava.E eu não podia colocar mais esse
POR MAIAAcordei assustada.Olhei para o despertador na cabeceira.— Droga!Já estava atrasada.Levantei praticamente pulando da cama.Escovei os dentes às pressas.Prendi o cabelo em um coque malfeito.Passei um pouco de corretivo nas olheiras, rímel e um hidratante nos lábios.Peguei a primeira calça jeans limpa que encontrei e uma blusa branca simples.Cinco minutos depois, já estava saindo do quarto enquanto terminava de vestir a jaqueta.O cheiro de café fresco tomou conta da casa.Passei pela cozinha e encontrei Maicon de costas para mim, mexendo uma frigideira.— Bom dia, dorminhoca.Sorri de leve.— Não começa.Ele colocou duas fatias de pão em um prato e virou para mim.— Acordou atrasada de novo?— Nem me fala.Maicon serviu café em uma caneca e estendeu para mim.— Toma.Peguei a caneca quase sem pensar.O primeiro gole pareceu trazer minha alma de volta ao corpo.— Salvou minha vida.Ele sorriu.— Hoje vou sair para entregar uns currículos.Assenti enquanto bebia mais um g
Não tinha a menor condição de colocar os pés na Art Life naquele estado.Se eu encontrasse a Maia…Provavelmente acabaria pressionando-a por respostas que ela claramente não queria me dar.E se encontrasse o Victor outra vez…Bom…A segunda conversa dificilmente terminaria só com um soco.Virei o carro em direção ao meu apartamento.Precisava pensar.Pensar era sempre mais fácil quando eu estava cercado pelo silêncio.Assim que entrei, tirei o paletó e o joguei sobre o sofá.Afrouxei a gravata.Passei a mão pelo rosto.Respirei fundo.Peguei o celular.Daniel atendeu quase imediatamente.— Sobreviveu?— Vem pra cá.— Isso é um convite ou uma ordem?— Os dois.Ele riu.— Chego em vinte minutos.Daniel entrou no apartamento carregando dois notebooks e uma pasta cheia de contratos.Olhou para mim.Depois para a garrafa de uísque já aberta sobre a bancada.— Achei que fosse encontrar um cadáver.— Ainda não.Ele arqueou uma sobrancelha.— Então a conversa foi produtiva?Servi duas doses.
POR CHRISTOPHERO apartamento estava silencioso.Do jeito que eu gostava.Mesmo assim, naquela manhã, o silêncio não ajudava.Servi uma xícara de café e caminhei até a enorme janela da sala.Lá embaixo, a cidade já estava completamente acordada.Carros.Pessoas.Compromissos.Tudo seguia exatamente como deveria.Menos a minha cabeça.Voltei para o escritório improvisado que mantinha no apartamento.Abri alguns e-mails.Respondi dois.Fechei o notebook.Cinco minutos depois já o tinha aberto outra vez.Li o mesmo contrato três vezes.Não fazia ideia do que estava escrito nele.Bufei irritado.Aquilo nunca acontecia.Sempre fui o tipo de homem que separava trabalho da vida pessoal.Mas bastou uma mulher entrar na minha vida para transformar meu cérebro numa bagunça.Levantei da cadeira.Passei a mão pela nuca.A discussão da noite anterior continuava voltando à minha cabeça.Maia.A expressão dela.A forma como tentou fugir de mim.E principalmente…Aquela frase.“Estou tentando protege
Fiquei alguns segundos parada em frente ao espelho do lavabo.Minha respiração ainda estava acelerada.Molhei as mãos na água fria e passei delicadamente na nuca, tentando diminuir o calor que parecia consumir meu corpo inteiro.Mas não adiantava.Toda vez que eu fechava os olhos…Via Christopher.Com aquela mulher.Ela sorrindo.Ele segurando sua cintura.Ela beijando o canto da boca dele.Meu estômago embrulhava outra vez.Respirei fundo.Uma vez.Duas.Três.— Você precisa se controlar, Maia…Murmurei para mim mesma.Quando levantei novamente o rosto para o espelho…Vi o reflexo da porta se abrindo atrás de mim.Christopher.Ele entrou devagar.Fechou a porta sem desviar os olhos de mim.Por alguns segundos…Nenhum dos dois disse absolutamente nada.Eu conseguia enxergar o esforço estampado no rosto dele.Os punhos fechados.O maxilar travado.A respiração pesada.Como se estivesse fazendo um esforço absurdo para não perder completamente o controle.Foi ele quem quebrou o silêncio.







