Home / Urbano / Fragmentos de Nós / Segundo Fragmento." Encontro Inevitável ".

Share

Segundo Fragmento." Encontro Inevitável ".

last update publish date: 2024-10-18 23:47:23

Quando a memória sangra em público

Valentina aproximou-se com uma taça de espumante na mão, disfarçando o próprio nervosismo com eficiência.

— Está lotado. Ela disse, satisfeita e alerta ao mesmo tempo. Todo mundo importante veio.

Clara assentiu, mas não sorriu de verdade. O peito estava apertado desde o café. Desde o perfume. Desde o olhar rápido, como faca, que ela não se permitiu sustentar. Ela tinha passado o dia inteiro repetindo para si mesma que aquilo não significava nada. Que Miguel estar na mesma cidade era coincidência. Que ela não voltaria a ser a adolescente que acreditava em promessas.

Valentina inclinou-se um pouco, lendo a tensão no corpo da irmã.

— Você vai ficar bem. Ela disse baixo, como quem protege. É só uma exposição.

Clara respirou fundo.

— Para eles, sim. Para mim, não.

Luna puxou de leve a mão da mãe, apontando para uma foto com flores.

— Mamãe, olha essa. Parece o nosso caminho.

Clara se abaixou, beijou o topo da cabeça da filha e forçou um sorriso.

— Parece mesmo, minha pequena.

Ela tentou se convencer de que conseguiria atravessar aquela noite sem se quebrar. Só precisava manter o controle. Só precisava passar pelas pessoas, agradecer elogios, sorrir para fotos. Só precisava lembrar que era uma mulher adulta, mãe, dona de si.

Então a porta principal se abriu.

Clara não viu primeiro. Ela sentiu.

A mudança no ar, como se a sala tivesse puxado um fôlego coletivo. Um leve aumento no zumbido das conversas. Um perfume doce, caro, entrando como declaração de guerra.

Miguel Alencar apareceu ao lado de Cecília Monteiro.

Cecília vestia um vermelho tão intenso que parecia feito para ofender o resto do ambiente. O vestido colado realçava o corpo com precisão cirúrgica. Os brincos brilhavam como pequenos holofotes. E ela segurava o braço de Miguel de maneira possessiva, como se quisesse deixar claro para todos, inclusive para ele, que aquele homem tinha dono.

Miguel estava impecável, como sempre. Terno escuro, postura firme, olhar controlado. Só que havia algo diferente. Uma rigidez no maxilar. Um cansaço escondido no modo como ele varreu a sala, como se procurasse algo sem saber o quê.

Clara sentiu o estômago afundar.

Ver Miguel já era difícil. Ver Miguel acompanhado daquela maneira foi uma violência que ela não tinha previsto. O gesto íntimo, o riso de Cecília, a forma como ela se encostava nele, como se fosse natural. Clara não sabia nada sobre aquela mulher e, ainda assim, sentiu um ciúme antigo, infantil e desesperado, subir como uma onda. Não por achar que Miguel lhe pertencia. Mas por lembrar demais do que um dia foi.

Ela desviou o olhar rápido demais, como se tivesse sido pega em flagrante. O corpo inteiro ficou quente e frio ao mesmo tempo. A mão apertou a de Luna com força, e a menina reclamou baixinho.

— Mamãe, tá doendo.

Clara soltou um pouco, respirando.

— Desculpa, amor. Foi sem querer.

Valentina notou o impacto. A irmã conhecia Clara o suficiente para perceber que aquilo não era apenas desconforto. Era desmoronamento silencioso.

— Ele veio. Valentina murmurou, sem precisar perguntar.

Clara não respondeu. Só assentiu, encarando o chão por um segundo longo demais.

Miguel, do outro lado, atravessou os primeiros metros da galeria como quem cumpre um dever. Cecília parava a cada passo para cumprimentar alguém, fazer o sorriso certo, tocar o braço certo, garantir que o nome Monteiro continuasse brilhando ao lado do nome Alencar.

— Amor, olha quanta gente importante. Cecília disse, encantada consigo mesma. Essa exposição vai bombar.

Miguel respondeu com um som neutro, sem entusiasmo real. O olhar dele escapava. A mente dele escapava. Havia algo ali dentro, um incômodo que não se resolvia com champanhe nem com elogios.

Ele viu Clara.

Não viu como quem reconhece. Viu como quem é atingido.

Aquele rosto.

Aquele jeito de segurar a criança.

Aquela postura de quem está tentando não quebrar.

Miguel parou por uma fração de segundo, e Cecília percebeu. Percebeu porque ela estava vigiando desde o café. Percebeu porque o instinto dela era o de uma mulher que fareja ameaça antes de enxergar forma.

— O que foi? Ela perguntou, apertando mais o braço dele, sorriso ainda no rosto.

Miguel engoliu seco.

— Nada. Ele disse, mas o nada não convenceu nem a ele.

Cecília seguiu a direção do olhar e viu Clara. A mulher não estava chamando atenção. Ela não fazia escândalo. Ela não sorria demais. Ela simplesmente existia com uma calma que parecia esconder uma história inteira. Cecília sentiu o próprio sangue esquentar.

— Você está olhando de novo. Cecília sussurrou, doce demais, perto do ouvido dele.

Miguel se obrigou a piscar, a respirar.

— É só alguém que eu vi no café. Ele respondeu, controlado.

Cecília sorriu.

— Alguém que você desmaiaria por causa dela? Porque eu ainda não esqueci o jeito que você ficou.

Miguel não respondeu. O silêncio dele irritou Cecília como insulto. Ela puxou-o para mais perto, como se quisesse colá-lo ao próprio corpo e apagar qualquer possibilidade de passado.

— Vamos. Ela disse. Eu quero ver as fotos mais comentadas.

Miguel deixou-se conduzir, mas a atenção dele não estava nela. Não estava no vestido vermelho. Não estava nos elogios ao redor. Estava no impulso absurdo de ir até Clara e perguntar por que o coração dele batia como se a conhecesse.

Ele não foi até Clara. Ainda.

Mas os pés dele começaram a traçar um caminho próprio, por entre as paredes, como se o corpo soubesse o que a cabeça não alcançava.

E então ele parou diante de uma fotografia.

Preto e branco. Melancólica. Precisa. Uma escola antiga ao fundo, com um jardim pequeno e um portão simples. No centro, um banco de madeira. Sobre ele, duas silhuetas, um menino e uma menina sentados lado a lado. Não era uma foto espetacular pelo luxo. Era espetacular pelo que fazia sentir.

Miguel sentiu o peito apertar.

Não era emoção comum. Era memória tentando nascer.

A garganta dele secou. O som da galeria ficou distante. O foco de luz sobre a foto pareceu mais forte, quase agressivo. Ele enxergou o banco e teve a sensação física de que já tinha tocado aquela madeira, já tinha sentado ali, já tinha vivido algo naquele lugar. A cabeça latejou. Uma pontada rápida e depois outra, mais forte, como martelo por dentro.

Ele tentou recuar, mas as pernas falharam por um segundo.

A imagem da escola virou flash.

Um pátio. Gritos. Um empurrão. Um corpo no chão. Uma menina com olhos desafiadores e voz embargada. Uma mão pequena segurando a dele.

Miguel levou a palma à parede para se firmar. O suor começou a escorrer pela nuca, frio.

— Não… Ele murmurou, e a palavra saiu sem força, como se não fosse escolha.

Cecília apareceu ao lado dele, irritada por ter sido deixada para trás.

— Miguel, o que você está fazendo parado aqui?

Ele não respondeu. Ele não conseguiu.

A visão embaçou. A sala girou. O coração disparou com violência. A imagem do banco cresceu dentro dele, e junto dela veio algo pior que dor.

Veio uma promessa.

A certeza de que ele jurou algo para alguém, e o mundo o arrancou no meio.

Miguel caiu de joelhos, e o som do impacto no chão fez algumas pessoas virarem o rosto. Cecília soltou um grito curto, fino, alarmado e teatral.

— Miguel!

Clara ouviu o nome.

O corpo dela congelou no instante em que o som atravessou a galeria. Ela virou o rosto, e o que viu fez a respiração falhar.

Miguel no chão.

As pessoas em volta.

Cecília tentando segurá-lo, desesperada mais pela cena do que por ele.

Clara deu um passo instintivo à frente, mas parou. As pernas não obedeceram. A mão dela apertou a de Luna de novo, e dessa vez Luna apertou de volta, como se entendesse que a mãe precisava ser segurada.

— Mamãe? O que aconteceu? A menina perguntou baixo.

Clara engoliu o choro.

— Nada, meu amor. Fica comigo.

Miguel desmaiou.

O mundo ficou preto.

E, no preto, o sonho veio inteiro.

Ele estava à beira da adolescência, mais jovem, com as mãos segurando as mãos dela.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Fragmentos de Nós    Zakar Significa Memórias.

    Uma Nova Vida a CaminhoOs 20 dias de lua de mel foram intensos e inesquecíveis para Miguel e Clara. Nas Maldivas, o casal viveu momentos de pura conexão, aproveitando cada segundo da paz que a ilha proporcionava.Eles começaram os dias com banhos de mar ao amanhecer, o sol dourando suas peles enquanto mergulhavam nas águas cristalinas. Passeios por cachoeiras escondidas os levaram a locais mágicos, onde o som da água caindo e a vegetação exuberante pareciam um santuário particular. Guiados por locais, exploraram trilhas secretas e vegetações tropicais raras, aprendendo sobre a flora e fauna da região. Clara se encantou com a delicadeza das flores exóticas, enquanto Miguel a observava com um sorriso de adoração.Aventura também fez parte da lua de mel: escaladas nas pequenas montanhas da região, passeios de caiaque e até mesmo um voo de helicóptero para observar o pôr do sol. O casal mergulhou em experiências únicas, conectando-se ainda mais em cada momento compartilhado.— Miguel, e

  • Fragmentos de Nós    Amores sob o céu Estrelado.

    Clara e Miguel, Valentina e Roberto: Dois Momentos, Um SentimentoMiguel e Clara - Vida e AmorAs Ilhas Maldivas brilhavam sob o céu estrelado, refletindo o amor que transbordava entre Miguel e Clara. Eles estavam em um bangalô particular, cercados pelas águas cristalinas. A brisa do mar envolvia os dois enquanto Miguel segurava Clara pela cintura, ambos descalços sobre a madeira da varanda.— Vida, você já parou pra pensar em como tudo isso parece um sonho? — perguntou Miguel, puxando Clara para mais perto.Ela sorriu, com os olhos brilhando de emoção.— Amor, eu não acho que seja um sonho. É a nossa realidade agora. Uma realidade que construímos juntos, depois de tudo.Miguel a segurou pelo rosto, seus polegares acariciando as bochechas dela com delicadeza.— Clara, você é a razão de cada passo que eu dei até aqui. Eu olho pra você e só vejo perfeição. Não sei como tive tanta sorte de encontrar alguém como você.Ela se inclinou para beijá-lo, um beijo profundo, cheio de amor e desej

  • Fragmentos de Nós    Alianças e Surpresas.

    O Amor e as Surpresas que Unem Miguel e AlmeidaAlmeida sorriu de canto, mas logo voltou a ficar sério.— Eu precisava te dizer isso, Miguel. Quero ser completamente honesto com você. Valentina é sua cunhada e... eu nunca misturei trabalho com nada pessoal. Sempre fui extremamente profissional.Miguel cruzou os braços, observando atentamente o amigo.— Sei disso, Almeida. Pode falar, eu estou ouvindo.Almeida respirou fundo, seus olhos brilhando com uma sinceridade incomum.— Eu não sei o que aconteceu, Miguel, mas eu me apaixonei pela Valentina. Estou completamente perdido por ela, e quero me casar o mais rápido possível.Miguel não conseguiu conter uma gargalhada.— Cara, você quase me matou de susto pra me dizer isso? Meu Deus, eu achei que você estava vindo aqui dizer que tinha acontecido outra tragédia!Almeida abriu um sorriso de alívio.— Desculpa, Miguel. Eu só queria que você soubesse disso antes de tudo. Valentina significa muito pra mim, e eu não quero que você ache que iss

  • Fragmentos de Nós    Planos que movem o Destino.

    Entre Campos do Jordão e Brasília, um Casamento em SegredoO sol nascia por trás das colinas em Campos do Jordão, tingindo o céu com tons dourados e rosados. Clara espreguiçou-se na cama, sentindo o calor do corpo de Miguel ao lado dela. Ele dormia profundamente, com um braço em torno da cintura dela. A tranquilidade daquele momento era uma pausa rara em suas vidas agitadas.Cinco dias se passaram desde que o casal decidira ficar mais um tempo na ilha, mas agora o retorno ao Brasil se fazia necessário. Por volta das 10 horas da manhã, o piloto chegou com o jatinho para buscá-los. Miguel ajudou Clara a carregar as malas, enquanto ela suspirava com um misto de saudade da ilha e ansiedade pelo futuro.A viagem durou cerca de 10 horas, e ao pousarem no pequeno aeroporto em Campos do Jordão, o motorista já os aguardava. O carro serpenteou pelas ruas tranquilas da cidade até a casa de Clara no alto da colina. Ao chegar, Clara abriu a porta e foi recebida pela luz suave da tarde iluminando

  • Fragmentos de Nós    O Refúgio da Gruta.

    Redescobrindo o Desejo em um Lugar EspecialA brisa da noite era fresca, e o som das ondas quebrando suavemente na areia criava um ambiente de pura tranquilidade. Miguel segurava a mão dela com firmeza, guiando-a pela trilha que levava à parte mais isolada da ilha. O caminho era iluminado apenas pela lua cheia e pelo brilho das estrelas.— Para onde estamos indo, Miguel? — Clara perguntou, sorrindo, mas com um toque de curiosidade.Miguel apenas lançou um olhar cúmplice, com um pequeno sorriso no canto dos lábios.— Confia em mim, meu amor. É uma surpresa.Clara riu suavemente, apertando a mão dele. Ela sabia que, com Miguel, as surpresas eram sempre inesquecíveis.Após alguns minutos caminhando por uma trilha de areia e pedras, Clara notou o som da água correndo mais forte e viu que estavam perto de uma pequena nascente que terminava no mar. Sua respiração ficou mais leve quando percebeu o que Miguel tinha em mente.— Uau... — Clara murmurou, parando por um instante. — Vamos até aq

  • Fragmentos de Nós    Sob o Luar da Ilha.

    Um Encontro de Paixão e DesejoA noite na ilha era um espetáculo à parte. O som suave das ondas beijando a areia misturava-se ao canto dos grilos que ecoava entre as árvores. Miguel e Clara haviam decidido deixar os últimos dias de tensão para trás e simplesmente aproveitar o momento. A varanda iluminada por pequenas lanternas era o palco perfeito para um jantar romântico, com uma mesa adornada por flores do jardim e velas que espalhavam uma luz quente e acolhedora.Clara surgiu na varanda descalça, usando um vestido leve que dançava com a brisa da noite. Seus cabelos soltos caíam sobre os ombros, e o sorriso nos lábios era suficiente para acelerar o coração de Miguel. Ele, por sua vez, estava vestido de forma simples, com uma camisa branca parcialmente aberta e calças de linho, mas os olhos brilhavam de uma forma que só Clara conseguia provocar.— Você está linda — disse Miguel, levantando-se da cadeira e puxando-a para perto.Clara sorriu, inclinando-se para um beijo suave, mas chei

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status