FAZER LOGINEu nunca fui o tipo de mulher que se estressava com facilidade ou com coisas aparentemente frívolas. Sempre tive o máximo de equilíbrio possível quando se tratava de minhas emoções e toda a confusão que os sentimentos sempre traziam. Eu sabia até onde eu deveria sentir raiva, felicidade, dor, excitação. No entanto, naquele dia eu estava sentindo tudo a flor da pele.
Eu havia acordado mais cedo que o habitual e eu não era uma pessoa matinal. O lado da minha cama estava vazio porque o meu marido simplesmente resolveu evaporar às cinco da manhã, me deixando apenas a droga de um recado avisando que precisaria trabalhar o mais cedo que podia. E mais nenhuma menção do nosso aniversário de casamento. Eu não me importava tanto quanto deveria com essas datas e evitava qualquer discussão estúpida, mas por alguma razão eu sentia que ao meu redor tudo estava errado. E eu sempre fui uma pessoa muito sensitiva, apesar de ter deixado e ignorado esse lado meu por anos. Mas eu quase poderia sentir que alguma coisa naquele dia iria testar toda a minha pequena paciência. Além dos meus problemas pessoais, eu estava me afundando em trabalhos e documentos na minha empresa. E eu estava lutando ardentemente para reler o protótipo do nosso último projeto, do qual eu havia trabalhado feito louca nos últimos dois anos e por alguma razão, os investidores resolveram dizer NÃO. E não havia nada no mundo que eu odiasse mais do que aquilo que eu não podia ter. Soltando o ar com força e tirando a visão daquela tela de computador, eu respirei fundo e tomei mais um pouco do meu espresso panna. Contei dez palavrões mentais e cedi a vontade que estava em mim. Peguei o meu celular e disquei o número do meu marido. Já se passavam das onze da manhã e provavelmente ele já havia largado e com sorte, ele havia recebido o book que eu havia preparado e mandado entregar horas antes. — Oi, gatinha. Aconteceu algo? – ele atendeu no quarto toque. — Não sei. Me diga você. – Sussurrei, o mais sedutor que eu podia. Anderson ficou em silêncio por um minuto e parecia confuso. Eu soltei a respiração impaciente. — Você, talvez, recebeu algum book especial vindo da Caccini’s Style hoje? — Ah sim! – ele respirou fundo e parecia surpreso. – Mas eu não entendi. Você precisa de alguma ajuda com negociações nas entregas on-line? — O quê? – minha voz saiu alta. – Do que você está falando? — A pasta que você me enviou hoje; continha os documentos sobre a nova ideia de marketing de sua nova linha de roupas. Puta que pariu. — Anderson, preciso desligar. – Joguei o meu celular na minha mesa e esbravejei alto o nome da minha assistente. Alguma parte racional de mim me fez relembrar de ser paciente e respirar fundo. Mas eu já tive o suficiente. Sobretudo porque Rayssa demorou cinco segundos a mais do que deveria. — O que você fez? – minha voz estava alta quando eu saí da minha sala e a encontrei vindo em minha direção. – O que você fez com as duas pastas que eu a entreguei? Rayssa respirou fundo e parecia assustada. — Eu fiz o que a senhora pediu; entreguei uma ao cara da copiadora e a outra enviei para o escritório do seu esposo. — Você viu o selo atrás? – perguntei estridente. – Viu o único selo que diferenciava as pastas e era o selo do estúdio? Com as fotos? — Eu... Eu... Desculpe, eu não sabia. – Seus olhos estavam arregalados. – Mas eu irei concertar isso, eu juro. Me dê apenas dois minutos. — Não. – Eu gritei. – Eu faço isso. E você está demitida. Deixei Rayssa para trás e atravessei todo aquele setor até seguir para a copiadora. Eu pisava fundo no chão e tudo que se podia ouvir enquanto eu passava era o barulho do meu salto alto. Parei em frente à mesa do cara da copiadora e o esperei notar minha presença porque ele parecia ocupado demais vendo um book que eu conhecia perfeitamente. — Com licença. – Precisei falar para que ele levantasse os olhos para mim. Ele se assustou com a minha presença e os seus óculos de grau escorregaram sobre o nariz. Desastrado, fechou o book rapidamente e o deixou em seu colo. — Sim, senhora Caccini. Precisa de alguma coisa? – sua voz estava trêmula e ele trazia um sotaque conhecido em sua forma de falar. — Posso saber o que você estava vendo? – eu perguntei. Ele simplesmente baixou os olhos novamente e o ouvi resmungar alguma coisa que eu não entendi. — Deixa eu refazer a minha pergunta; o que você estava vendo? – exigi. O garoto fechou os olhos com força e esticou o meu book até as minhas mãos, logo em seguida pegou outra pasta e colocou sobre o seu colo. Aquilo me deixou intrigada. — Preciso dessa pasta também. – Eu sorri para ele e ele arregalou os olhos castanhos para mim. – Estou ordenando, senhor Ramon. – Li o seu nome nos documentos que estavam sobre sua mesa bagunçada. — É Ramón. – Ele me corrigiu, repetindo o seu nome com o R vibrante. Em seguida, ele me entregou a outra pasta em seu colo e eu pude observar o que ele estava escondendo. É, o meu book aparentemente estava excitante pra cacete. — Obrigada, senhor Ramón. – falei o seu nome do mesmo jeito de antes porque eu não precisava que ele me corrigisse. – Na próxima vez que receber qualquer coisa que não tiver o seu nome, faça o favor de não abrir. Eu estava começando a dar a volta para me afastar quando ele abriu a boca de novo. — É o meu trabalho abrir pastas com documentos e tudo o mais; como poderia copiar com elas fechadas? Me virei sobre os meus próprios calcanhares mais uma vez e encarei aquele homem. Não sei por qual razão ele resolveu me responder e também não sabia ao certo o motivo de eu não o ter repreendido naquele instante. Eu odiava ser contrariada, ou ter a mínima ideia de que poderia estar errada, mas mesmo assim, não deixei a raiva que estava em mim me consumir. Porque aparentemente, ela dissipou. — É um grande instrumento. – Foi a única coisa que saiu da minha boca e olhei descaradamente para sua ereção atrás da mesa. Os seus olhos arregalaram e ele cobriu com a mão. Sorri orgulhosa e dei a volta me afastando do seu olhar. Atravessei mais uma vez aquele setor, um pouco menos estressada do que a primeira vez. Encontrei Rayssa jogando suas coisas dentro de uma caixa. Parei em sua frente. — O que você está fazendo? – eu perguntei. — Você me demitiu. – Ela parecia confusa. Revirei os olhos. — Minha sala. Agora. Segui até o meu escritório e Rayssa me acompanhou. Joguei aquelas pastas sobre a minha mesa e a encarei. A mulher de pele morena e olhos castanhos escuros parecia nervosa em minha frente. — Eu não demiti você. Eu estava estressada e você conhece o meu estado de espírito como ninguém, sabe que eu não agiria daquela maneira ríspida. – Rayssa engoliu em seco e assentiu rapidamente. – Agora volte a arrumar suas coisas em sua mesa e entregue isso corretamente. – Joguei o book pra ela. — Pode deixar, senhora Caccini. Rayssa começou a se afastar até que eu a chamei de volta e não evitei em perguntar: — Quem é o cara da copiadora? Há quanto tempo trabalha aqui? — O nome dele é Ramón Martin. Veio de Porto Rico. Está trabalhando aqui há uns três meses, ele também é... — Ok. Já é suficiente. – a dispensei. Atravessei a minha mesa e me joguei naquela cadeira. Respirei fundo. A minha saúde mental não iria aguentar mais nenhuma novidade que aquele dia poderia me trazer. Mas eu estava enganada...— Boa tarde, eu não sei o que falar exatamente ou se vão me entender por razão do sotaque pesado, mas o que importa é que você entenda, Cariño. – Ele me encarou e eu engoli em seco.— Nos últimos meses, tudo o que vem me importando é você. Então, aqui estou eu, vencendo minha timidez absurda para tentar expressar o quanto te amo para todo mundo ouvir. E eu sinto que é importante dizer todas as coisas que passam pelo meu coração, mesmo sabendo que as palavras se tornam pequenas comparadas ao grande amor que cresce em meu peito todas as manhãs. Elisa, você me veio como um sonho bom. Daqueles que você tem a certeza de que está sonhando, mas mesmo assim tenta manter os olhos fechados para saber o que acontecerá no fim. Mas sabe, essa é a melhor parte. Esse sonho não tem fim. Mesmo que eu acorde e viva a minha vida, a mesma rotina todos os dias normalmente, quando adormeço continuo sonhando com você e é esse sonho, o sonho que não tem fim. Eu sabia que era você desde a primeira palavra qu
Se eu achei que houve muitas flores no noivado de Melanie, eu estava absurdamente equivocada. A cada metro quadrado na tarde do seu casamento existia flores de todo o tipo, desde a decoração da igreja até a recepção no jardim da casa dos meus pais. Todos estavam vestidos elegantemente, parabenizando os recém casados e desejando todos os votos de felicidade.O casamento da minha irmã havia sido perfeito e eu, emotiva como estava, chorei discretamente. Eu fui a dama de honra de Melanie e usei um vestido de alça longo, era feito de dois tecidos diferentes, acima da cintura, era mais detalhado com rendas bordadas e brilhos discretos, tinha um decote em formato v aprofundado, destacando os seios, a parte de baixo do vestido era mais simples, um tecido plissado no tom rose. E a minha irmã estava belíssima em seu vestido de casamento de princesa. Eu nunca a vi tão feliz e a minha família estava extremamente orgulhosa.— Elisa, eu quero falar com você. – a voz da minha mãe chegou aos meus o
— Alô? – tomei coragem mesmo assim e levei o celular a orelha.— Elisa, boa tarde. Não queria incomodá—la, mas tenho boas notícias... – ele ficou em silêncio por um instante. – Uma nem tanto, mas acho que precisa saber.— Pode falar, Sebastian. – eu disse impaciente e nervosa.— Então, conseguimos limpar o seu nome de todas as acusações sobre lavagem de dinheiro, o caso da morte de Tyler foi encerrado porque claramente foi em legítima defesa e descobrimos vários desfalques que envolvia apenas o Tyler em todas as empresas que ele trabalhou antes. Desse modo, o juiz não irá emitir uma ordem de deportação para o senhor Martin, então o Green Card ainda está em jogo.— Você está falando sério? – eu quase gritei, um sorriso enorme nos meus lábios e meus olhos estavam marejados. – Então está tudo resolvido? Já estamos fora de perigo?Ramón parou para me encarar em minha frente, seus olhos estavam ansiosos e eu mal podia esperar para contar todas aquelas boas notícias.— Sim, tudo está
Nos dias seguintes a perda de dona Tália, Ramón havia passado as últimas noites em sua casa com Rayssa, sua irmã precisava ardentemente dele.Thalia havia sido cremada e antes disso, várias pessoas vieram se despedir, ela era uma mulher extremamente amada e os rostos desolados da maioria das pessoas só confirmaram que ela era iria fazer muita falta.Ramón passou todo o dia em silêncio, pensativo e agarrado a Rayssa. Ele não demonstrou nenhum desespero para mim, nem para sua irmã. Ele parecia compartimentar os seus sentimentos de maneira saudável e madura. Tudo que eu não conseguia.A medida que o tempo passava e tudo voltava de maneira gradual ao normal, eu ficava mais paranoica do que eu queria. Eu havia voltado ao trabalho e estava quase livre de todas as acusações de Anderson, conseguiram provar que eu não tinha absolutamente nada a ver com aquele crime absurdo que Anderson inventara. O caso sobre a morte de Tyler ainda estava em andamento mas também não era algo que eu precisar
— Do que Elisa está falando, Ramón? – Rayssa encarou os olhos do seu irmão ainda mais assustada do que eu estava.Ramón apenas se jogou de volta no sofá e escondeu o rosto nas mãos, os cotovelos pressionados nos joelhos. Ele respirou fundo e parecia esgotado desde já. Mas ele não estava mais que eu.Eu sentia tudo escapar das minhas mãos lentamente, sentia raiva e medo. O medo se sobressaia e eu odiava me sentir assim. Mas como eu poderia me sentir de outro jeito? Eu havia acabado de descobrir que a ideia de um futuro perfeito com Ramón poderia não ser real. E isso me deixou nauseada.— Rayssa, você pode nos dar um minuto? – Ramón quebrou o silêncio.Sua irmã olhou para o seu rosto e piscou repetidas vezes, parecia decepcionada, assustada, sentindo o fim do mundo literalmente dentro do seu peito. Ao menos, era assim que eu me sentia. Mas tudo que ela fez foi assentir e saiu daquela sala.— Por que me escondeu isso, Ramón? – tentei manter o tom de voz baixo.— Eu não escondi nada
Querida Elisa,Se chegou o momento dessa carta chegar em suas mãos, isso significa que eu já terei seguido a minha viagem. Espero que saiba que desde a primeira vez que eu a vi, eu sabia que tinha algo diferente em você, uma conexão que te ligava o tempo todo com a nossa família, com o Ramón. Confesso que fiquei com muita vontade de intervir na vida de vocês e falar tudo que eu sabia e descobri, mas eu não podia, não queria mexer no futuro e nem atrapalhar o fluxo dessa jornada.Se você for como a Rayssa, cética demais, provavelmente não irá se importar com essa carta e achar que isso são delírios de uma velha em seu leito de morte. Mas eu espero que saiba que eu jamais escreveria essas palavras se eu não tivesse certeza, se eu não soubesse que você seria a garota da vida do meu filho.Gostaria de deixar claro que eu sempre soube que você e Ramón não namoravam na época em que esteve em minha casa pela primeira vez. No entanto, eu vi amor em seu olhar, vi um brilho intenso através de







