LOGINO padre anunciou:
— Senhores e senhoras, apresento-lhes os senhores Clark e Iza Atlas! Os aplausos explodiram. Sorrisos. Abraços. Champagne. Tudo o que um casamento de mentira deveria ter. Clark me puxou para um beijo. Senti os lábios dele contra os meus. Frios. Controlados. Um selo de propriedade. Lembrei de Bruce. Do beijo dele na padaria. Quente. Farinhado. Verdadeiro. Aquele beijo tinha gosto de pão. O beijo de Clark tinha gosto de morte. Quando ele se afastou, sussurrou: — Agora você é minha. Olhei para ele. Para os olhos que achavam que tinham vencido. — Você acha que ganhou, Clark? Ele franziu a testa. — Você disse "sim". — Disse. — Meu sorriso foi lento, perigoso. — Mas não esquece: eu também disse que ia destruir tudo que você construiu. Clark riu. Um som confiante. — Como você vai fazer isso, Iza? Você tá no meu mundo agora. Não tem nada. Não tem ninguém. Não tem— — Tenho o seu celular. O sorriso dele congelou. O silêncio caiu entre nós como uma parede de vidro. Clark ficou imóvel. Os olhos pararam de piscar. O rosto perdeu toda a cor. — O quê? — O celular que você deixou cair no carro — menti, mas a voz não tremeu. — O celular com todas as suas mensagens, todos os seus contatos, todas as suas provas. Clark ficou pálido. As mãos apertaram as minhas com força. — Você tá blefando. — Tô? — Tirei o celular do bolso do vestido. A tela ainda brilhava. — Quer descobrir? Ele avançou. Os dedos alcançaram meu pulso. Aperto de ferro. — Me dá isso agora, Iza. — Clark — o segurança mais próximo sussurrou. — Cuidado. Tem gente olhando. Clark parou. Respirou fundo. Quando falou de novo, a voz era calma, mas os olhos eram fogo. — O que você quer? — A liberdade de Bruce. — Ele já tá livre. Fugiu da delegacia. — Quero que você nunca mais toque nele. Nunca mais ameace ele. Nunca mais olhe na direção dele. Clark hesitou. — E em troca? — Em troca, vou ser a esposa perfeita. Vou sorrir pra você nas festas. Vou segurar sua mão nas reuniões. Vou fazer todo mundo acreditar que esse casamento é real. — E no privado? — No privado, você não vai me tocar. Não vai me beijar. Não vai me olhar como se eu fosse sua. Porque eu não sou sua, Clark. Nunca vou ser. O silêncio entre nós foi um campo de batalha. Clark me encarou por um longo momento. Então ele deu um passo à frente. Tão perto que senti o hálito quente contra meu ouvido. — Você pode ter o celular, Iza. — A voz era um sussurro gelado. — Mas eu tenho o Bruce. Tenho seu pai. Tenho advogados. Tenho seguranças. Tenho dinheiro pra comprar qualquer juiz, qualquer testemunha, qualquer verdade. Ele se afastou. O sorriso voltou ao rosto. — Mas se quer brincar de jogo, vamos brincar. Você acabou de fazer o maior erro da sua vida. Os convidados aplaudiram novamente. Clark levantou minha mão, como um troféu. E eu sorri. Porque dentro do meu bolso, o celular vibrou. "Iza. Sei que você disse sim. Sei que foi forçada. Sei onde Bruce está. Me encontre amanhã. Mesmo lugar. — L." Eu tinha uma aliada. Uma que Clark não conhecia. Do lado de fora, Bruce parou na calçada. O peito ardia. As mãos tremiam. O sol da manhã era frio. Lembrou de tudo. O sorriso falso de Iza. O beijo de Clark. A aliança no dedo dela. Ele queria gritar. Queria correr. Queria voltar e arrancar ela daquele altar. Mas ele não podia. Ele tinha visto o medo nos olhos dela. Sabia que ela estava fingindo. Sabia que ela estava se sacrificando por ele. E isso doía mais do que qualquer coisa. O celular vibrou. "Bruce. Eu sei quem você é. Sei o que você viu. E sei que você quer salvá-la. Eu também quero. Venha para o café da esquina. Cuidado: Clark tem olhos em toda parte. — L." Bruce hesitou. Então olhou para a rua. Viu um carro preto estacionado. A placa — ele reconheceu. Era o mesmo carro que tinha levado Iza. "L" não era uma estranha. "L" estava dentro da operação de Clark. Bruce guardou o celular. Apertou os punhos. O sangue ainda escorria do rosto. Ele começou a andar. E no fundo do peito, uma chama se acendeu. Não era esperança. Era vingança. Porque ele ia salvar Iza. Mesmo que isso significasse queimar o mundo inteiro. Na mansão, Clark entrou no escritório particular. A luz azul do computador iluminava o rosto. Ele pegou o telefone. — Rastreia o número que mandou mensagem para a Iza. Quero o nome dela até amanhã de manhã. A voz do segurança tremeu. — Sim, senhor. Clark desligou. Apertou o telefone na mão. — Você acha que pode jogar contra mim, Iza? — ele sussurrou, o sorriso voltando ao rosto. — Vai descobrir que eu sempre jogo para ganharA sala de reuniões do advogado era pequena e austera. Nada de luxos, nada de desvios. Apenas uma mesa de madeira gasta, estantes abarrotadas de livros de direito, e um homem de cabelos brancos e olhos cansados que ouviu a história de Isla sem interromper.O Dr. Almeida era amigo de Clara — mais um dos seus contactos misteriosos. Fora procurador durante trinta anos antes de se reformar e dedicar-se a casos pro bono. "Contra gente como o teu pai", explicou ele."E então?", perguntou Isla depois de lhe entregar a pen. "É suficiente?"Almeida enfiou a pen no computador e passou longos minutos a ler. O silêncio era ensurdecedor.Finalmente, tirou os óculos e esfregou os olhos."É suficiente para abrir uma investigação. Para congelar contas. Para deter preventivamente." Ele fez uma pausa. "Mas não é suficiente para o manter preso. O teu pai tem advogados. Tem contactos. Tem um império.""Então não serve de nada.""Não disse isso. Serve para comprar tempo. Serve para o enfraquecer. E serve p
Três dias se passaram sem notícias de Viktor. Três dias de silêncio tenso, de olhares para a porta cada vez que a campainha tilintava, de dormir com um olho aberto.Kai mantinha a padaria a funcionar, mas a rotina estava diferente. Havia farinha no balcão e medo no ar. Os clientes habituais não notavam nada, mas Isla via tudo — a forma como Kai verificava a rua antes de abrir, o taco de baseball que agora estava encostado atrás do balcão, a nova fechadura na porta das traseiras."Estás a transformar a padaria num bunker", disse ela naquela manhã, enquanto bebia o café."Estou a ser prudente.""Estás a ser paranóico.""São coisas diferentes." Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.A campainha tilintou. Ambos se viraram, tensos.Era Clara. Mas não vinha sozinha. Atrás dela, um homem de cabelos escuros com entradas prematuras, óculos de aro fino, e um ar de quem passara demasiadas noites em claro."Bom dia", disse Clara, como se aparecer com um estranho fosse a coisa mais normal
A padaria fechou mais cedo nesse dia.Kai baixou as persianas com movimentos calmos, mas Isla via a tensão nos seus ombros. Clara partira logo após a mensagem, dizendo que tinha "assuntos a tratar". O quadro das papoilas estava agora pendurado na parede da padaria, as flores vermelhas a contrastarem com o ambiente rústico."Devias ir embora", disse Isla, pela terceira vez. "Devias desaparecer por uns dias. Eu enfrento-o sozinha.""Já falámos sobre isso.""Kai...""Não." Ele virou-se para ela, os olhos duros mas não frios. "Não vou fugir. E tu também não.""Não é fuga. É estratégia.""É fuga. E eu não fujo."Isla passou as mãos pelo cabelo, frustrada. "Tu não sabes do que ele é capaz. Eu vi o que ele fez a pessoas que o tentaram enfrentar. Não são só ameaças. Ele arruína vidas. Ele compra pessoas. Ele...""Ele o quê? Ele é um homem. Um velho com dinheiro, como tu disseste." Kai aproximou-se. "Eu não tenho medo de velhos com dinheiro. Tenho medo de perder quem amo. Isso sim."A palavra
Na manhã seguinte, Isla apareceu na padaria.Era a primeira vez que ia lá desde a noite em que fugira. A fachada modesta, o toldo verde, a montra onde Kai expunha os pães como obras de arte. O cheiro de fermento e açúcar queimado que saía pela porta entreaberta e envolvia a rua como um abraço.Ela parou na entrada. O coração martelava."Vais ficar aí parada o dia todo, ou vais entrar?" A voz de Kai veio do interior, abafada mas divertida.Isla empurrou a porta. A campainha tilintou.Kai estava atrás do balcão, as mãos cobertas de farinha, o avental manchado. Parecia exausto — provavelmente não dormira —, mas os olhos brilhavam quando a viu."Bom dia", disse ele, como se ela aparecer ali fosse a coisa mais natural do mundo."Bom dia.""Há croissants acabados de sair do forno. E café. Muito café."Ela sentou-se a uma das mesas pequenas, as mãos a tremerem ligeiramente. Kai trouxe-lhe um prato com um croissant dourado e uma caneca de café preto."Não pus açúcar. Lembrei-me que não gostas
O passado de Isla não era uma história bonita.Começava num bosque. Sempre começava num bosque. Ela tinha oito anos, um vestido amarelo que a mãe cosera à mão, e um pai que ainda não se tinha transformado no monstro que o dinheiro criaria. Nesse bosque, ela apanhava flores silvestres. Margaridas. Papoilas."O meu pai era um homem bom", disse Isla, sentada no chão da cave da galeria, as costas apoiadas na parede fria. Kai estava ao seu lado, não a tocava, apenas ouvia. "Antes do dinheiro. Antes da empresa. Antes de tudo."Ela contou-lhe como o pai herdara uma fortuna inesperada de um tio distante. Como o dinheiro o transformara lentamente, como uma doença. Primeiro, vieram os carros. Depois, as festas. Depois, as mulheres. Depois, a crueldade."A minha mãe morreu quando eu tinha doze anos. Não foi o dinheiro que a matou. Foi a tristeza. Ele destruiu-a aos poucos, com silêncios, com ausências, com desprezos. E quando ela se foi, eu fiquei sozinha com ele."Kai não disse nada. Mas a sua
Clara aproximou-se lentamente, os sapatos de sola macia quase não fazendo som no chão de madeira. O cabelo prateado brilhava sob as luzes da galeria, e o seu sorriso enigmático permanecia no lugar."Bem", disse ela, a voz neutra como a de uma jurada num tribunal. "Isso foi bastante mais interessante do que catalogar gravuras."Isla endireitou-se. "Desculpe, Clara. Eu não queria trazer problemas para a galeria.""Problemas?" Clara arqueou uma sobrancelha. "Minha querida, eu vendo arte. A arte é feita de problemas. De paixão. De fogo." Ela olhou para o quadro das papoilas. "Aquele ali chama-se 'Ignis'. Fogo. Sabem porquê?"Kai e Isla ficaram em silêncio."Porque o artista o pintou depois de perder tudo. A casa. A família. A sanidade. Durante um ano, ele não conseguiu pintar nada. Estava bloqueado. Destruído. E então, uma noite, ele pegou na tinta mais vermelha que encontrou e despejou-a toda. Sem pensar. Sem planear. Apenas sentindo." Clara virou-se para eles. "O fogo não destrói apenas







