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O Preço do Sim

last update Data de publicação: 2025-12-27 19:40:47

O carro de Clark atravessou as portas da igreja como um caixão entrando no cemitério.

— Chegamos — ele disse, como se aquilo fosse uma boa notícia.

Ele saiu primeiro. Ajeitou o paletó. O mesmo homem que mandou espancar Bruce agora parecia um príncipe de conto de fadas.

Um segurança abriu minha porta.

— Sai.

Levantei devagar. Vestido rasgado. Maquiagem borrada. Olhos vermelhos. Cada passo era uma ferida aberta.

Clark estendeu o braço.

— Não — recuei.

— Iza. — A voz doce, os olhos gelo. — Você vai entrar naquela igreja. Vai subir ao altar. Vai dizer "sim". E vai sorrir. Porque se não sorrir, o Bruce vai passar a noite numa cela. E amanhã, ele vai acordar com um processo de sequestro, tentativa de homicídio e mais algumas coisas que meus advogados vão inventar.

Senti o sangue ferver.

— Você é um monstro.

— Sou um homem que sabe o que quer. — Ele inclinou a cabeça. — E você é o que eu quero.

Entrei na igreja.

O murmúrio dos convidados parou. Trezentas pessoas viraram os rostos para mim. Vi o choque nos olhos deles — o vestido rasgado, a maquiagem escorrendo.

Meu pai estava no altar. Pálido.

— Iza... o que aconteceu?

— Nada que você não tenha planejado.

Clark se posicionou ao meu lado. O padre começou a falar.

"Queridos irmãos... estamos aqui para unir..."

"Clark Atlas, você aceita Iza Morgan como sua legítima esposa?"

— Aceito.

O padre se virou para mim.

"Iza Morgan, você aceita Clark Atlas como seu legítimo esposo?"

O silêncio caiu.

Abri a boca.

E foi então que eu vi.

No fundo da igreja. Atrás dos convidados. Atrás das colunas de mármore.

Bruce.

Ele estava de pé. O rosto machucado. O olho roxo. O sangue seco no canto da boca. As roupas sujas de poeira.

Ele tinha fugido dos seguranças. Tinha vindo correndo. Tinha chegado a tempo de ver tudo.

Os olhos dele encontraram os meus. E eu vi a pergunta silenciosa: "Por quê?"

Lembrei da primeira vez que vi Bruce. Eu tinha entrado na padaria para comprar pão. Ele estava atrás do balcão, os braços cobertos de farinha, um sorriso tão genuíno que parecia fora de lugar num mundo de mentiras.

— A senhorita parece que precisa de algo quente — ele disse, me oferecendo um pão ainda fumegante.

— Eu preciso de muitas coisas — respondi. — Mas um pão quente é um bom começo.

Ele riu. E eu soube, naquele momento, que minha vida nunca mais seria a mesma.

Agora, na igreja, eu olhava para ele e via o mesmo sorriso. Só que agora estava manchado de sangue.

— Iza! — ele gritou. A voz ecoou. — Iza, não faz isso!

Os convidados se viraram. Os seguranças se moveram. Clark franziu a testa.

— Quem deixou esse lixo entrar aqui?

— Lixo? — Bruce avançou. Dois seguranças o seguraram. — Você ameaçou a vida dela! Você bateu nela, seu filho da puta—!

Clark riu.

— Bati? Não. Eu salvei ela. De você. De uma vida de miséria.

Bruce lutou contra os seguranças. Punhos cerrados. Olhos brilhando de raiva. O sangue escorria do rosto, manchando a camisa.

— Iza! — ele gritou de novo, a voz rouca, desesperada. — Olha pra mim! Olha nos meus olhos e me diz que você quer isso!

Clark segurou meu queixo com força.

— Sorria, Iza.

Eu sorri.

E Bruce viu.

Viu a máscara. Viu a mentira. Viu o sorriso que não chegava aos meus olhos.

Ele parou de lutar.

Os seguranças soltaram ele.

E ele ficou ali, parado, o sangue escorrendo, os olhos fixos em mim.

— Iza — ele sussurrou. A voz não era mais raiva. Era uma tristeza tão profunda que eu senti o peito se abrir. — Não faz isso.

O padre tossiu, desconfortável.

— Senhorita Morgan... a resposta...

Olhei para Bruce. Para os olhos que me pediam para lutar.

Olhei para Clark. Para os olhos que prometiam destruir tudo.

Respirei fundo.

Lembrei do toque das mãos de Bruce. Lembrei do cheiro de pão quente. Lembrei do sorriso genuíno que ele tinha me dado na padaria, como se eu fosse a única coisa bonita no mundo.

— Sim.

A palavra saiu como uma faca.

Bruce deu um passo para trás. Depois outro. E outro.

— Então é isso — ele sussurrou.

Ele virou as costas.

E saiu.

Eu vi ele atravessar o corredor. Vi as portas se abrirem. Vi a luz da manhã engolir ele.

Vi ele desaparecer.

O padre sorriu. Os convidados aplaudiram. Clark colocou a aliança no meu dedo, o metal frio contra minha pele.

— Foi perfeito — ele sussurrou. — Você foi perfeita.

Não respondi.

Apenas olhei para a porta vazia.

Onde Bruce tinha estado.

Onde Bruce não estava mais.

Onde ele nunca mais ia estar.

Senti o peso da aliança no dedo. Senti o gosto amargo do "sim" na boca. Senti o peito vazio, como se Bruce tivesse levado tudo com ele.

Clark segurou minha mão. Aperto de propriedade.

Era a mão que Bruce tinha segurado na padaria. A mão que ele tinha beijado. A mão que agora pertencia a outro homem.

— Você vai se acostumar — Clark sussurrou. — Vai ver que isso é melhor para todo mundo.

Fechei os olhos.

Respirei fundo.

E fiz a única promessa que ainda tinha forças para fazer:

Nunca.

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