LOGINPOV: Cristina Sousa
O estômago do navio não conhecia o sol ou a lua. O tempo no porão era medido apenas pelo pulsar contínuo e ensurdecedor das turbinas de aço. Cada vibração do motor subia pelas solas dos meus pés e se instalava nos meus ossos, um tremor constante que me impedia de esquecer onde eu estava. Eu me encolhia no espaço estreito entre dois caixotes de carvalho. O cheiro de óleo diesel queimado, maresia podre e ferrugem impregnava o meu cabelo e a minha pele. Toda vez que o casco cortava uma onda mais violenta e o navio balançava, o meu corpo inteiro protestava. Um gemido raspo escapou dos meus lábios rachados. O movimento brusco repuxou os músculos do meu abdômen e a carne entre as minhas pernas. A dor não era um aviso de vida; era o eco da morte. Era a lembrança física do peso daquele homem me esmagando contra o chão de terra da taberna em Sevilha. A ardência brutal, o rasgo nos meus tecidos, os hematomas que agora deviam estar roxos e amarelados nas minhas coxas e costelas. Meu corpo era a cena de um crime, e cada respiração mais funda parecia reacender o fogo das minhas feridas. O ruído metálico da escotilha acima me fez prender a respiração. A luz amarela de uma lanterna varreu as trevas, seguida pelo som de botas de borracha descendo os degraus de ferro. Clanc. Clanc. Clanc. Eu me apertei mais contra a madeira farpada do caixote, puxando os joelhos esfolados contra o peito. O feixe de luz parou a dois metros de mim. O marinheiro baixou a lanterna para não me cegar, mas o brilho fraco iluminou a pistola que repousava no coldre de couro sob o seu casaco sujo de graxa. Ele não sacou a arma desta vez. Em vez disso, empurrou um cantil de alumínio amolgado e um pedaço de pão duro enrolado em um pano cinza na minha direção. — Coma — a voz dele soou baixa e áspera, abafada pelo barulho das máquinas. — É a última refeição. Vamos atracar em algumas horas. Minhas mãos tremeram quando alcancei o cantil. A água tinha gosto de metal velho, mas desceu pela minha garganta seca como um milagre. Arranquei um pedaço do pão com os dentes, ignorando a dureza da casca. Mastiguei devagar, engolindo a seco, e ergui os olhos para o homem que estava em pé, mantendo uma distância segura. — Você sabe o que eu passei... sabe o que me fez pular nesse navio — minha voz era um fiapo, rouca pelo desuso e pelo choro entalado. — Mas eu não sei nada sobre você. Você me traz água, mas anda com uma arma e olha para os lados como se o ar pudesse te trair. Quem é você? Ele cruzou os braços, o maxilar travando na penumbra. O silêncio dele durou o tempo de três batidas do motor. — Meu nome é Leo — ele disse, finalmente. — E você deveria esquecer que me viu assim que colocar os pés fora deste porão, se quiser continuar respirando. — Leo... — testei o som do nome dele. — Você disse que todos neste navio pertencem ao Lewis. O homem que controla tudo. Como ele é? Leo deu um passo para trás, como se a simples menção do nome pudesse invocar o próprio diabo nas entranhas do navio. — Lewis Stinson — ele pronunciou cada sílaba com um misto de reverência e terror absoluto. — Ele é o Dono de Nova York. Ele não é o tipo de monstro de taberna que você conheceu na Espanha. Stinson não suja as próprias mãos. Ele veste ternos que custam mais do que o seu vilarejo inteiro, fuma charutos importados e, se ele olhar para você e decidir que você não deve existir, você simplesmente desaparece. Um calafrio subiu pela minha espinha. A dor das minhas feridas latejou em resposta ao medo que a voz de Leo transmitia. — Ele não está no navio, está? — perguntei, o pânico apertando a minha garganta. — Não. O Don não atravessa o oceano com a carga. Mas ele nos espera no porto. Ele sempre inspeciona a chegada pessoalmente. É por isso que você tem que sair pelo duto de ventilação do setor C antes que a rampa principal desça. Se Stinson vê uma garota espanhola clandestina e ensanguentada no cais dele, ele não fará perguntas. Ele vai assumir que você é um problema, e o mar de Nova York é cheio de problemas que nunca mais boiaram. Leo virou as costas e subiu as escadas de ferro. O baque da escotilha selando o teto foi a última coisa que ouvi dele. O aviso ficou martelando na minha cabeça. Lewis Stinson. Um império de gelo e chumbo construído do outro lado do mundo. Horas depois, as turbinas morreram. O silêncio súbito foi ensurdecedor. O casco do navio bateu pesadamente contra os grandes pneus do cais, e as buzinas e gritos que ecoaram do lado de fora me disseram que o Atlântico havia acabado. Eu me arrastei com os braços raspando no aço. Encontrei a grade do duto de ventilação que Leo havia apontado, empurrei-a com as mãos latejantes e me espremi pelo túnel apertado. O cheiro de ferrugem entupiu o meu nariz. A poeira cobria as minhas roupas rasgadas. Quando chutei a pequena escotilha lateral e caí sobre a madeira do píer, o ar de Nova York me estapeou. Era cortante, gelado, denso com o cheiro de fumaça de carvão e peixe. Rolei para trás de uma pilha de barris de madeira e tentei regular a respiração. O sol mal havia nascido, mas a névoa pálida já iluminava o Porto de Manhattan. Olhei por entre as frestas dos barris em direção à rampa principal do navio. Foi impossível não saber quem ele era. Mesmo a dezenas de metros de distância, a figura dele engolia o ambiente. Rodeado por meia dúzia de homens imensos em sobretudos escuros, havia um homem que parecia talhado em granito. O sobretudo negro dele não tinha um único vinco. Os ombros largos e a postura letalmente calma exalavam um poder que fazia os marinheiros abaixarem a cabeça quando passavam. Ele tragou o charuto, a brasa brilhando vermelha na névoa úmida, e soltou a fumaça enquanto os olhos frios varriam o convés do navio. O instinto primitivo que me fez fugir da taberna gritou dentro da minha cabeça. Levantei-me, mantendo o corpo encurvado, e corri pelas docas. A dor aguda na minha pélvis tentava me jogar no chão a cada passo. Meus pés nus batiam no asfalto congelado, deixando um rastro invisível do meu desespero. Mergulhei nas ruas da cidade, me afastando do rio. Nova York não era um sonho de ouro; era um pesadelo de concreto. Os prédios arranhavam as nuvens cinzentas, fazendo sombra nas ruas apertadas e barulhentas. Os carros pretos passavam espirrando água suja das poças, e multidões de pessoas de casacos grossos esbarravam em mim sem pedir desculpas. Ninguém olhava para a garota suja de fuligem e sangue seco. A solidão era absoluta, esmagadora. A adrenalina da fuga começou a sumir, dando lugar à exaustão e à fome. O frio mastigava a minha pele. Minhas pernas finalmente falharam e eu desabei nos degraus de pedra de uma igreja no Upper East Side. Abracei os meus joelhos contra o peito, enfiando as mãos geladas sob os restos do vestido de algodão na tentativa inútil de encontrar algum calor. O vento soprou forte pela avenida, arrastando folhas secas e lixo. Uma folha de jornal velho voou pela calçada e grudou na bota do meu pé machucado. Suspirei, inclinando-me para afastar o papel com nojo, mas as letras grossas da coluna de classificados, impressas em inglês, prenderam os meus olhos. O meu inglês era quebrado, resultado das aulas que minha mãe havia me forçado a ter no vilarejo antes de morrer, mas eu sabia ler o suficiente para entender o básico. As palavras saltaram do papel sujo de lama e fuligem. "PROCURA-SE BABÁ. DISCRIÇÃO ABSOLUTA EXIGIDA. MORADIA E SALÁRIO ACIMA DO MERCADO. APRESENTAR-SE: MANSÃO STINSON. RUA 72, UPPER EAST SIDE." A respiração morreu na minha garganta. Stinson. O mesmo nome que fez Leo recuar no escuro. O mesmo homem de sobretudo negro que estava no porto, governando a vida e a morte com um olhar. Apertei o jornal com as mãos trêmulas. Eu não tinha para onde ir. As moedas que roubei do meu agressor na Espanha mal dariam para comprar um casaco e alguns pães, e depois disso, a calçada seria o meu túmulo. O frio me mataria antes que a noite caísse. Eu precisava de um teto. Eu precisava me esconder do mundo. Ele vai te abrir da garganta ao umbigo se souber quem você é, a voz de Leo ecoou na minha memória. Mas ele não saberia. Eu era uma sombra, um fantasma que acabara de nascer da violência. Eu iria limpar a terra do meu rosto, amarraria o meu cabelo e me apresentaria na porta daquele monstro. O melhor lugar para uma ovelha se esconder de uma alcateia inteira é morando debaixo da cama do lobo alfa. Se Lewis Stinson exigia discrição e obediência, eu seria o túmulo de todos os meus próprios segredos. Com as articulações estalando de frio e os músculos gritando pela dor do abuso ainda cru na minha carne, forcei o meu corpo a se erguer. Limpei as lágrimas secas do rosto com as costas da mão suja e caminhei em direção à Rua 72. Eu estava marchando para a mansão do diabo, e faria dele a minha salvação, ou ele terminaria o trabalho que a Espanha começou.POV: Lewis Stinson Nova York, Inverno de 1954 O silêncio que se abateu sobre o meu escritório após a saída de Cristina era pesado, carregado com a eletricidade estática que sempre precedia uma tempestade. Apoiei as mãos sobre a mesa de mogno maciço, ignorando a velha máquina de escrever *Underwood* de teclas duras que eu vinha usando para falsificar os manifestos de carga do porto. O meu olhar estava cravado no envelope pardo amassado, jogado no chão perto da porta, exatamente onde o soldado aterrorizado o havia deixado cair. Dei a volta na mesa, os meus sapatos de couro italiano ecoando no assoalho de madeira de lei. Abaixei-me e peguei o envelope. O papel era grosso, selado com cera barata. Rasguei a ponta com o polegar e despejei o conteúdo sobre a mesa. Três fotografias em preto e branco deslizaram sobre o verniz da madeira. Senti o meu sangue congelar nas veias, apenas para, no segundo seguinte, entrar em ebulição. O cheiro dos produtos químicos de revelação ainda exalava d
POV: Cristina Sousa O som do clique da chave girando pelo lado de fora da fechadura era o sinal de que a noite tinha terminado. Fiquei estática, deitada na escuridão do meu quarto, encarando o teto sombrio enquanto o silêncio da mansão se restabelecia como um lençol pesado. O meu corpo ainda ardia, pulsando com a invasão recente, marcado pelo peso esmagador de Lewis. O cheiro dele — aquela mistura opressora de uísque caro, tabaco e o suor da nossa luxúria — flutuava no ar, impregnado nos lençóis de algodão e na minha própria pele. Dentro de mim, o sêmen dele ainda estava quente, escorrendo lentamente pelas minhas coxas, uma prova líquida e viscosa de que, por algumas horas, eu havia sido o seu único foco de destruição. Levei a mão trêmula ao ventre. Seis meses. A minha barriga estava redonda, firme, abrigando o herdeiro de um império construído sobre cadáveres. Na penumbra, senti um leve movimento interno. Um chute tímido, como se o
POV: Lewis Stinson Três meses. Noventa dias excruciantes se arrastaram desde que aquela noite de insanidade na Suíte Master destruiu a última barreira de gelo que eu ainda tentava manter erguida. Noventa dias em que eu me tornei um estranho dentro da minha própria pele, vivendo uma farsa esquizofrênica que alimentava a minha alma faminta durante a madrugada e me enojava assim que o primeiro raio de sol rasgava o horizonte. O inverno rigoroso de Nova York estava em seu auge. Lá fora, a neve cobria as ruas do Brooklyn com um manto branco e espesso, congelando o sangue derramado nas calçadas pelas disputas de território. Mas, por mais que a cidade estivesse congelada, o verdadeiro inferno de gelo morava dentro dos muros da Mansão Stinson. O clima sob o meu teto era de um deserto árido e silencioso. Os guardas andavam na ponta dos pés. Os empregados evitavam cruzar o meu caminho. E eu... eu governava o meu império de sombras sentado num
POV: Cristina Sousa O cheiro de sândalo e fumaça de charuto foi a primeira coisa que invadiu os meus sentidos. Não havia o frio cortante do meu quarto de babá, nem o tecido áspero do meu cobertor de lã. Embaixo de mim, o colchão era macio como uma nuvem, e os lençóis que cobriam o meu corpo eram de uma seda escura e gelada. Pisquei devagar, os meus olhos se ajustando à penumbra. O quarto era imenso. As cortinas pesadas deixavam apenas um feixe da luz prateada da lua entrar, iluminando os móveis de carvalho maciço. A Suíte Master. O quarto de Lewis. A respiração dele soou baixa e próxima. Girei o rosto no travesseiro. Lewis estava sentado na beirada da cama, a postura curvada, o rosto mergulhado nas sombras. Mas a mão dele... a mão calejada, quente e imensa do "Homem de Aço" continuava exatamente onde ele a havia colocado antes de eu apagar. Espalmada com firmeza e proteção sobre o meu ventre.
POV: Lewis Stinson A porta de madeira bateu nas minhas costas com um estrondo. A chave de latão ainda estava presa na fechadura, esmagada entre os meus dedos com tanta força que o metal ameaçava entortar. Fiquei parado no corredor escuro do segundo andar. O ar da minha própria casa de repente parecia rarefeito, pesado demais para os meus pulmões puxarem. «Eu fui estuprada em Sevilha.» As palavras dela não foram um grito. Foram um sussurro. Um sussurro que atravessou a porta trancada, rasgou a minha camisa preta e afundou direto no meu peito como uma lâmina enferrujada. Soltei a chave. Cambaleei um passo para trás, encostando as costas na parede fria do corredor. Fechei os olhos, mas a escuridão só piorou as coisas. A imagem do rosto dela banhado em lágrimas, o desespero manso, a forma como ela prendeu a minha mão contra o ventre dela... «Você sabe que esse bebê é seu... do mesmo jeito que sabe que eu...» A confissão não dita. O amor que ela me entregou de bandeja, mesmo
POV: Cristina Sousa A palavra pairou no ar, ácida e pesada, caindo sobre mim como uma sentença de morte. «Isso.» O peso da mão quente dele continuava sobre o meu ventre, protetor e possessivo, mas a crueldade do que ele tinha acabado de dizer rasgou o último fio de orgulho que ainda me mantinha armada. A minha garganta se fechou. A bandeja de prata com a carne assada entre nós desapareceu da minha visão, embaçada pelas lágrimas que eu não conseguia mais conter. Eu ergui o rosto. Não com fúria. Não com a teimosia que sempre foi o meu escudo desde que cheguei àquela mansão. O que tomou conta de mim foi uma tristeza profunda, silenciosa e devastadora. Apoiei a minha mão trêmula sobre a dele. A mão do Don de Nova York era áspera, calejada, o dobro do tamanho da minha. Apertei os dedos longos dele contra o meu corpo, não o deixando recuar, forçando-o a sentir a vida invisível que pulsava ali debaixo do avental cinza. Lewis travou. O corpo gigante dele enrijeceu como pedra, mas os







