— Sra. Monteiro, pelo visto desta vez a fertilização in vitro foi mesmo um sucesso. No momento, a senhora e os bebês estão bem saudáveis.
Alice estava sentada no consultório do médico de reprodução assistida, segurando o laudo do ultrassom que ela tinha acabado de fazer. O rosto tenso dela, finalmente, se desarmou num sorriso curto.
— Que maravilha. — Disse Alice. — Valeu a pena ter passado por duas fertilizações.
Ela se lembrou de quando a primeira tentativa tinha fracassado. Com medo de ver o marido, Michel, desapontado, ela não teve coragem de contar a verdade. Em segredo, ela correu de novo para o hospital e fez, às pressas, uma segunda transferência de embrião.
Ainda bem que, dessa vez, tinha dado certo de vez.
Quando Alice já ia se levantar para ir embora, ela se lembrou de um detalhe.
— Ah, Dr. Fernando, por favor, não comente com o meu marido sobre o fracasso da primeira tentativa. — Pediu ela. — Eu não quero que ele fique se sentindo mal com algo que já passou.
Alice se recordou do dia em que o médico tinha dado o diagnóstico de obstrução bilateral das trompas. Ela tinha sentido como se um raio tivesse caído em plena cabeça dela. Naquela época, foi Michel quem apertou a mão dela e disse:
— Não fica com medo. Hoje em dia a medicina está muito avançada. A gente ainda pode fazer fertilização. Eu vou ficar do seu lado.
Até o médico, naquela ocasião, elogiou:
— O Sr. Michel é mesmo um homem raro, muito atencioso.
Por isso, para Alice, o que eram duas rodadas de hormônios, injeções e exames? Desde que ela conseguisse levar os gêmeos até o fim e mantivesse o casamento, a casa deles, a família deles, Alice achava que todo sacrifício valia a pena.
Quando ela saiu do hospital, ela já pensou logo em ir até a Capital Monteiro para contar a novidade para Michel. Talvez fosse horário de almoço, porque, no caminho até lá, ela praticamente não encontrou ninguém.
A porta da sala da presidência estava encostada, sem ter sido fechada por completo. Alice levantou a mão para bater, mas, antes que tocasse na madeira, ouviu lá de dentro uma voz bem conhecida, com um tom de deboche:
— Michel, essa tua jogada foi genial, hein. Fez a Alice engravidar no lugar da Iolanda. Se um dia ela descobrir que carrega na barriga o filho seu com a Iolanda, ela vai surtar bonito, não vai?
A mão de Alice congelou no ar. Era a voz de Dario Andrade, amigo de infância de Michel. Será que ela tinha escutado errado?
O riso gelado de Michel veio logo em seguida, cheio de desdém:
— Surta por quê? Que direito ela tem de fazer escândalo? Se não fosse pelas armações dela naquele tempo, a Iolanda não teria ido embora da minha vida, não teria me deixado e nem teria fugido para outro país. Isso é o que a Alice deve a mim e à Iolanda.
Michel continuou, sem pressa:
— Além do mais, poder gerar os filhos meus e da Iolanda é um privilégio pra ela.
Alice ficou paralisada, como se tivesse tomado um choque elétrico em plena espinha. Ela se mantinha de pé, dura, sem conseguir mexer um músculo. O rosto dela perdeu toda a cor, e ela levou a mão trêmula até o próprio ventre, incapaz de acreditar no que tinha acabado de ouvir.
Dario murmurou, num tom hesitante:
— Mas a Alice sofreu demais nesses últimos seis meses…
A voz de Michel soou ainda mais fria:
— A Iolanda tem a saúde frágil e morre de medo de dor. Como é que eu ia deixá-la passar por tudo o que uma gravidez exige? E, além disso…
A voz dele ficou mais grave:
— A Alice não vive dizendo que sonha em ter um filho meu? O filho meu com a Iolanda é meu filho do mesmo jeito.
— Michel, você foi cruel dessa vez. — Comentou Dario.
— Não diga que eu sou insensível. — Retrucou Michel. — Quando ela tiver o bebê sem complicação, eu vou dar uma boa quantia em dinheiro pra compensar o esforço dela.
— E se por acaso… — Dario começou a dizer.
Michel sabia exatamente onde ele queria chegar. Ele lançou um olhar duro, cortando a frase do amigo pela metade:
— Não existe "por acaso"! Só não a deixe descobrir! Os meus filhos com a Iolanda não podem correr nenhum risco.
Alice não soube dizer depois como tinha saído dali.
Quando percebeu, ela já estava na escada de emergência. O corpo dela tremia sem controle. Se ela não tivesse se agarrado ao corrimão, ela teria despencado.
Então era isso: os bebês que ela tinha conseguido com metade da própria vida não eram para ela. Ela estava carregando os filhos do marido com o primeiro amor dele.
Ela não passava de uma barriga de aluguel.
Ridículo. Era tudo ridículo demais.
Toda aquela atenção, todo aquele cuidado… tinham sido apenas uma encenação para enganá‑la. Nada daquilo tinha sido real. Tudo falso.
Não, espera!
Alice se lembrou de que a primeira fertilização tinha falhado. O que ela carregava agora era o embrião da segunda tentativa.
Então, afinal, os bebês no ventre dela eram sangue dela e do Michel ou eram da tal Iolanda?
"Não. Eu preciso voltar para o hospital. Eu tenho que descobrir a verdade."
Alice levantou a mão e enxugou, de uma vez só, as lágrimas que escorriam pelo rosto inteiro. Depois, ela virou nos calcanhares e desceu as escadas às pressas.
Ao chegar ao hospital, ela foi direto atrás do médico responsável pelo caso dela, o Dr. Fernando.
A porta do consultório estava destrancada. Ela empurrou e entrou, mas parou ao ver a cena.
Fernando estava aos berros com uma enfermeira jovem.
As lágrimas escorriam em cascata pelo rosto da moça. Os ombros dela tremiam como se ela estivesse passando frio, e ela ainda tentava se defender, engolindo o choro:
— Dr. Fernando, eu juro que não fiz de propósito. Foi a primeira vez que eu fui ao banco de esperma, eu acabei confundindo os códigos…
Ao ouvir o barulho da porta, Fernando se virou bruscamente.
Ao ver Alice, a expressão irada de Fernando foi engolida por um pânico imediato. O médico congelou. A enfermeira também ficou tão assustada que nem ousou continuar chorando e ela agarrou a barra do uniforme e abaixou ainda mais a cabeça.
A voz de Alice saiu fria a ponto de cortar o ar:
— Dr. Fernando, eu não tenho tempo pra ficar ouvindo você dar sermão em funcionário. Eu quero saber de uma coisa: de quem são os embriões que estão na minha barriga?
O rosto de Fernando empalideceu na hora, ficando branco como papel. Até a voz dele tremeu quando ele respondeu:
— Sra. Monteiro, a senhora… a senhora já sabe? Foi… foi um engano.
Ele esticou o braço e apontou para a enfermeira encolhida num canto, tentando se eximir:
— Foi ela que errou. Ela é nova aqui. Dois meses atrás, no dia em que ela foi ao banco de sêmen buscar o material, ela acabou pegando o sêmen errado. Eu… eu só agora percebi que tinha algo muito estranho, mas, do jeito que as coisas aconteceram, agora já não tem mais como voltar atrás…
Pegou o sêmen errado? Como assim?
Enquanto ele falava, Fernando lançou um olhar rápido para a barriga de Alice. Antes que Alice, atônita, conseguisse reagir e perguntar de novo, ele se apavorou de vez e despejou tudo de uma vez:
— A origem do sêmen dos bebês que a senhora está esperando não é… não é do Sr. Michel.
O coração de Alice pareceu parar por um segundo.
— Como assim? E o óvulo, é de quem? — Perguntou Alice, cortante. — Se você esconder mais uma vírgula de mim, eu juro que coloco esse hospital inteiro na lona. Eu vou arruinar vocês até a falência, e eu cumpro o que eu prometo.
Fernando levantou as mãos num gesto quase de rendição:
— Sra. Monteiro, eu falo, eu vou falar tudo. É que… o embrião que está na sua barriga, a origem do sêmen não é do Sr. Michel.
Ele pegou uma pasta com alguns documentos e começou a explicar:
— É do Sr. Ronaldo Valente, do Grupo Primar Investimentos. Há dois anos, o Sr. Ronaldo sofreu um acidente gravíssimo e quase morreu. A família Valente, que já vinha de cinco gerações com apenas um herdeiro homem, ficou desesperada e, para garantir a continuidade do sangue da família, mandou coletar o sêmen dele às pressas para ser congelado aqui no nosso hospital.
Fernando respirou fundo e continuou:
— Depois que o Sr. Ronaldo se recuperou, a família Valente nunca veio buscar o material de volta. Na sua primeira fertilização, por causa da baixa qualidade do sêmen do Sr. Michel, o procedimento não foi bem‑sucedido. Na época, o óvulo que o Sr. Michel trouxe também tinha alguns problemas. Então, quando a senhora voltou pela segunda vez para tentar outra fertilização, nós coletamos novos óvulos diretamente da senhora, e isso a senhora sabia.
Fernando prosseguiu, meticuloso, sem ousar omitir nada:
— Portanto, nós usamos os novos óvulos retirados do seu corpo. Só que, na hora do procedimento, a enfermeira, por descuido, pegou o tubo errado e usou o sêmen do Sr. Ronaldo. Então os bebês que a senhora está gerando são, sim, seus filhos biológicos, mas não carregam o sangue do Sr. Michel.
Um frio cortante tomou conta de Alice. Todo o sangue pareceu sumir do rosto dela. Em poucas horas, a vida dela tinha virado uma montanha‑russa desgovernada.
Um momento antes, ela acreditava ser apenas uma ferramenta, uma barriga de aluguel para o marido e o primeiro amor dele. No momento seguinte, ela descobria que, por um desencontro do destino, o embrião do marido com o tal primeiro amor tinha sido justamente o que não vingara. E a segunda fertilização, que ela fizera em segredo, era, na verdade, filhos dela com um estranho poderoso.
O que era aquilo? Uma piada de extremo mau gosto contada por Deus?
Alice levou a mão ao ventre ainda plano, onde nada denunciava a gravidez. Na cabeça dela, o rosto de Michel surgiu com nitidez.
De um lado, ela se lembrava do abraço dele, quente, protetor, murmurando:
"Não fica com medo, eu estou aqui."
Do outro, ecoava a frieza com que ele dizia que "para a Alice, gerar o filho meu e da Iolanda é um privilégio pra ela".
As duas imagens se sobrepuseram na mente dela, até deixarem o estômago dela revirado de nojo.
Se o embrião de Michel e Iolanda não tivesse sido expulso pelo próprio corpo, agora ela estaria gerando os filhos do marido com outra mulher.
Era revoltante.
Alice não chorou mais. Ela apenas passou o dorso da mão com força pelo rosto, apagando qualquer rastro de lágrima. No fundo dos olhos dela, só sobrou uma frieza cortante.
Fernando e a enfermeira continuaram em silêncio absoluto.
Alice caminhou na direção de Fernando, cada passo firme:
— Dr. Fernando, o que aconteceu hoje não pode passar desta sala. Além de nós três, não pode existir uma quarta pessoa sabendo disso.
— Sra. Monteiro, nós… — Fernando tentou se explicar, mas foi calado pelo olhar dela.
— O erro foi de vocês. Eu, por enquanto, posso fingir que não vou atrás disso. Mas, se essa história vazar, primeiro: eu vou processar esse hospital até a falência. Segundo: a sua licença médica vai ser cassada, e você nunca mais vai pôr o pé em nenhum hospital neste país. Terceiro: essa enfermeira… — Alice virou o rosto e olhou diretamente para a jovem encolhida. — Você cometeu erro de procedimento e ainda tentou acobertar um erro médico grave. Você acha que isso não é motivo suficiente para responder criminalmente e passar alguns anos na cadeia?
Fernando ficou tão apavorado que as pernas dele quase cederam. A enfermeira, então, começou a chorar de novo, as lágrimas já escorrendo.
— Sra. Monteiro, a gente promete! — Disse a garota, gaguejando. — A gente jura que não vai falar nada pra ninguém!
Fernando se apressou em concordar, a voz dele carregada de súplica:
— Isso mesmo, nós garantimos, não vamos comentar com ninguém.
Alice não olhou mais para nenhum dos dois. Naquele momento, a única coisa que ainda parecia minimamente positiva era o fato de os bebês serem dela. Não eram filhos do Michel com a Iolanda. Ela não estava gerando o fruto do amor de outras duas pessoas, e sim crianças que eram só dela.
Quanto à família Valente, desde que ela enterrasse aquele segredo fundo o bastante, ninguém jamais saberia da verdade.
Alice respirou fundo e saiu do consultório.
Divórcio. Ela precisava se divorciar.
Ela não queria passar mais um minuto dentro daquela família Monteiro que devorava pessoas vivas. E aquele Michel, cheio de mentiras, era alguém que ela não suportava mais sequer olhar na cara.
Quanto a os bebês, ela ia levar a gestação até o fim e criar as crianças com as próprias mãos. Daquele dia em diante, ela viveria apenas por ela mesma e por seus filhos.
Quando Alice entrou em casa, exausta, a luz do sensor acendeu no hall de entrada. O silêncio ocupava cada canto.
Antes, ela tinha visto aquele lugar como um porto seguro, um refúgio aconchegante. Agora, ela só enxergava a jaula em que Michel a tinha mantido presa.
Ela não conseguia mais respirar ali. Ela foi direto para o quarto, decidida a arrumar as malas.
Mas, ao abrir o guarda‑roupa, ela percebeu que tinha pouquíssimas coisas que realmente eram dela.
Quando Alice ainda era a "herdeira" da família Castro, a família Monteiro, querendo fortalecer a parceria com os Castro, foi pessoalmente pedir a mão dela e escolheu Alice como a noiva ideal para Michel.
Até o primeiro amor de Michel, a tal da Iolanda, tinha sido descartada pelos Monteiro por ser "de família simples demais". No fim, a família deu uma quantia de dinheiro para ela ir embora do país.
Michel, sem saber de nada disso, passou a vida achando que tinha sido Alice quem armara tudo e empurrara Iolanda para fora da vida dele. Quando não teve mais escolha, ele acabou cedendo à pressão da família e se casou com Alice.
Só que, poucos meses depois do casamento, veio à tona a notícia de que Alice era, na verdade, uma falsa herdeira da família Castro.
Os Castro, então, voltaram todas as atenções para a verdadeira filha que tinham reencontrado, e deixaram Alice de lado como se ela fosse um estorvo.
A família Monteiro também não demorou para virar o jogo. Sem os Castro por trás, Alice perdeu qualquer valor como peça de casamento arranjado.
Dentro da família Monteiro, a impostora virou um alvo de desprezo imediato. A mãe de Michel, Marta Monteiro, a tratava com sarcasmo e veneno todos os dias, rezando para que Alice pedisse o divórcio por conta própria, liberando o caminho para que a "Sra. Monteiro de verdade" ocupasse o lugar dela.
Alice fechou os olhos por um instante e enfiou, às pressas, as poucas roupas que tinha dentro da mala. Assim que puxou o zíper, o celular dela tocou: era a sogra dela, Marta.
— Alice, você esqueceu que dia é hoje? — A voz de Marta veio carregada de irritação. — Vai se arrastar até aqui agora mesmo! Se atrapalhar o que é importante, você não vai ter um minuto de paz!
Marta desligou logo em seguida, sem dar espaço para resposta.
O rosto de Alice se endureceu de raiva. Ela realmente tinha esquecido que, naquele dia, era a visita semanal à mansão antiga dos Monteiro, o Solar do Vale Verde.
Desde que Marta descobrira que Alice não era filha legítima da família Castro, o tratamento da sogra só piorara.
Marta vivia reclamando que uma rejeitada, expulsa pelos Castro, insistia em se agarrar ao futuro herdeiro da família Monteiro.
Mas o casamento já estava feito. Michel também não aceitava bater o martelo do divórcio de imediato. Então Marta passou a descontar todo o ódio em cima de Alice.
Marta parecia ter esquecido completamente o quanto, no passado, os Monteiro tinham implorado por aquela união com os Castro, fazendo de tudo para que Alice se casasse com Michel.
O destino, porém, tinha dado uma guinada cruel. Agora, se pudessem, todos ali gostariam que Alice sumisse do mapa. A única exceção era Dona Rosa, a parente doente que vivia na casa de repouso.
Toda semana, Dona Rosa voltava ao Solar do Vale Verde por um dia, e a pessoa de quem ela mais gostava no mundo era Alice.
Pensando na ternura e no carinho de Dona Rosa, Alice acabou decidindo ir até a casa dos Monteiro.
Assim que ela entrou, Marta já veio arremessando coisa nela:
— Ainda lembra o caminho de volta? Por que você não morre lá fora de uma vez? Sua desgraçada!
Alice se moveu com rapidez e se esquivou.
A maçã que Marta tinha atirado rolou pelo chão.
Ao ver que Alice ainda tinha ousadia de desviar, Marta ferveu de ódio, avançou para cima dela e levantou a mão, pronta para dar um tapa.
Alice segurou o pulso da sogra com firmeza:
— Chega.