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CAPÍTULO 2: O ECLIPSE DA ALMA

last update Data de publicação: 2026-04-25 07:48:29

O ar frio da noite atingiu o rosto de Helena como um tapa, mas nada doía mais do que as palavras que ainda ecoavam em sua mente.

Dentro do salão, ela era a Duarte errada. A filha que nunca correspondia às expectativas. A irmã que vivia à sombra de Isabela.

Ali, porém, no corredor silencioso que levava aos jardins de inverno da mansão, tudo parecia distante.

As mãos do desconhecido ainda a sustentavam pelos braços, impedindo que ela perdesse o equilíbrio. O toque firme transmitia uma segurança estranha, quase perigosa, mas que ela não conseguia rejeitar.

— Olhe para mim.

A voz dele era baixa e firme.

Helena ergueu o rosto lentamente.

A luz dourada de uma arandela iluminava parte do homem à sua frente. Os traços eram marcantes, quase severos, mas o que realmente a desconcertava era o modo como ele a observava.

Sem pena.

Sem desprezo.

Sem julgamento.

Como se ela fosse alguém importante.

— Por que está fugindo? — perguntou ele.

Helena soltou uma risada amarga.

— Porque não pertenço àquele lugar.

— E quem decidiu isso?

A pergunta a pegou desprevenida.

— Todos eles.

O homem permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Então todos eles estão errados.

O coração de Helena vacilou.

Era uma frase simples, mas ninguém jamais havia dito aquilo para ela.

— Você não me conhece.

— Talvez não. Mas conheço pessoas falsas quando as vejo. E você não se parece em nada com o que vi naquele salão.

Por um instante, Helena esqueceu as humilhações da noite.

A proximidade dele criava uma estranha sensação de calma em meio ao caos.

— Quem é você? — perguntou.

Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele.

— Esta noite, isso não importa.

Antes que ela pudesse responder, vozes ecoaram ao longe, vindas da direção da festa.

Os dois se afastaram instintivamente.

O momento foi quebrado, mas algo já havia mudado.

Helena sentia isso.

Pela primeira vez em muitos anos, alguém a tinha enxergado além das comparações, além das expectativas e dos fracassos que sua família insistia em lembrar.

O desconhecido estendeu a mão.

— Venha comigo.

Ela deveria recusar.

Não sabia seu nome.

Não sabia de onde ele vinha.

Não sabia absolutamente nada sobre ele.

Mas, por alguma razão, confiou naquele olhar.

Os dois seguiram em silêncio até a antiga biblioteca da mansão.

O ambiente estava vazio. As estantes altas, os livros antigos e a iluminação suave criavam uma atmosfera acolhedora, distante da falsidade que dominava o restante da casa.

Helena sentou-se em uma das poltronas próximas à janela.

Pela primeira vez naquela noite, conseguiu respirar sem sentir o peso esmagador da tristeza.

O desconhecido permaneceu diante dela.

— Você passa muito tempo tentando ser aceita por pessoas que não merecem isso.

Helena baixou os olhos.

Porque era verdade.

— E o que eu deveria fazer?

— Parar de pedir permissão para existir.

As palavras atingiram seu coração com força.

Talvez fosse exatamente isso que ela tivesse feito durante toda a vida.

Passado os anos tentando conquistar um lugar que nunca lhe foi oferecido.

Quando voltou a encará-lo, algo diferente brilhou dentro dela.

Uma esperança pequena.

Frágil.

Mas real.

O desconhecido percebeu.

E, pela primeira vez, seu olhar pareceu suavizar.

Naquela noite, Helena não encontrou respostas.

Não descobriu quem ele era.

Não compreendeu por que aquele encontro parecia tão importante.

Mas saiu da biblioteca diferente da mulher que havia entrado.

E enquanto caminhava de volta pelo corredor silencioso da mansão, teve a estranha sensação de que sua vida acabara de mudar de direção.

Ela ainda não sabia como.

Nem imaginava o preço que pagaria por isso.

Mas o destino já havia começado a escrever uma nova história.

E aquele homem misterioso era apenas o primeiro capítulo dela.

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