Início / Romance / Grávida do irmão Errado / CAPÍTULO 3: O SILÊNCIO DAS CINZAS

Compartilhar

CAPÍTULO 3: O SILÊNCIO DAS CINZAS

last update Data de publicação: 2026-04-25 08:00:02

O primeiro sentido a despertar foi o olfato.

O cheiro de carvalho, uísque e um perfume amadeirado marcante ainda pairava no ar, mas o calor do corpo que antes a aquecia já não estava ali.

Helena abriu os olhos lentamente. A luz pálida da madrugada atravessava as frestas das persianas da biblioteca, desenhando faixas prateadas sobre o chão de madeira. Por alguns segundos, a desorientação a dominou. Ela piscou, encarando as estantes altas, até que a represa das lembranças rompeu de assalto.

O jardim. O homem desconhecido. O beijo. As palavras sussurradas. O divã.

Seu coração acelerou violentamente. Helena sentou-se de chofre, puxando contra o peito o paletó escuro que a cobria. Uma fisgada aguda entre as pernas a fez fechar os olhos e prender a respiração por um instante.

Ele tinha ido embora. A biblioteca estava mergulhada em um silêncio absoluto. Não havia bilhete, explicação ou qualquer pista. Nem mesmo um nome.

— O que foi que eu fiz? — sussurrou, a voz sumindo no ambiente vasto.

Com movimentos vacilantes, ela desceu do divã e recolheu suas roupas espalhadas pelo tapete. O vestido de festa estava amassado, com uma das alças completamente rompida — um reflexo exato de como ela se sentia por dentro. Helena encarou o tecido rasgado por longos segundos antes de conseguir vesti-lo. A adrenalina da noite anterior escoava rápido, dando lugar a uma onda sufocante de vergonha.

Sempre imaginara sua primeira vez de outra forma. Não precisava ser um conto de fadas perfeito, mas, no mínimo, esperava conhecer o homem. Desejava sentir a segurança de um futuro, ou ao menos de um amanhecer compartilhado. Não aquilo. Não acordar sozinha, despida na biblioteca da própria família, sem saber sequer o nome de quem a tocara.

As lágrimas finalmente transbordaram. Não vinham por causa de Ricardo, e nem mesmo por Isabela. Vinham por ela mesma. Helena se encolheu, sem conseguir decidir se havia sido incrivelmente impulsiva ou apenas desesperadamente carente de afeto. Talvez as duas coisas.

Caminhou até o espelho antigo encostado à parede. Os cabelos escuros estavam desalinhados, os olhos inchados e os lábios ainda guardavam o dardo avermelhado dos beijos dele. Mas o que realmente a assustou foi a expressão refletida no vidro envelhecido. Parecia outra pessoa. Como se a Helena de ontem tivesse se fragmentado e ficado para trás durante a madrugada.

Respirando fundo, ela destrancou a porta de madeira pesada. O corredor estava deserto e a mansão inteira parecia adormecida, imersa naquele silêncio tenso que antecede o amanhecer. Helena caminhou na ponta dos pés, segurando os saltos em uma das mãos, o peito apertado pela urgência de se esconder.

Quando finalmente alcançou o próprio quarto, girou a chave na fechadura e encostou as costas na porta, deslizando até o chão. Só ali permitiu que o peso real daquela noite desabasse sobre seus ombros.

No banheiro, ligou o chuveiro no máximo. Sob a água quase ardendo, Helena tentou esfregar a pele, tentou organizar o caos em sua mente. Tentou convencer a si mesma de que aquilo fora apenas um erro mecânico, um momento de extrema fraqueza que o tempo se encarregaria de apagar.

Mas, quanto mais tentava esquecer, mais os detalhes insistiam em voltar. A firmeza das mãos dele em sua cintura. A forma como ele a olhara nos olhos — enxergando-a de verdade, quando o resto do mundo parecia ignorar sua existência. E era exatamente isso que a aterrorizava: não apenas o que havia acontecido, mas o quanto ela tinha desejado cada segundo.

Minutos depois, vestindo o pijama mais confortável que encontrou, ela se encolheu na cama. Lá fora, o céu ganhava tons de rosa e azul-claro. Para o restante da família, aquela seria apenas a manhã seguinte à grande festa de noivado de Isabela. Para Helena, era o início de um território completamente desconhecido.

Ela virou-se para a parede e forçou as pálpebras a se fecharem. Buscou o sono, buscou o esquecimento. Mas toda vez que a inconsciência ameaçava puxá-la, ela via aqueles olhos misteriosos e ouvia o eco daquela voz grave.

— Por que eu não fui embora? — questionou a escuridão do quarto.

No fundo, ela sabia a resposta. Porque, por algumas horas, sentira a única coisa que passara a vida inteira procurando: a sensação de ser a pessoa mais importante do mundo para alguém. Admitir aquilo para si mesma doía mais do que qualquer abandono.

Helena finalmente adormeceu quando os primeiros raios de sol começaram a cortar o quarto. Ela queria acreditar que aquele homem se tornaria apenas uma lembrança difusa, um segredo trancado a sete chaves, um capítulo encerrado.

Ela só não sabia que o destino tinha planos bem mais complexos. E que, na verdade, aquela noite estava muito longe de terminar.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Grávida do irmão Errado    EM BREVE: ANÚNCIO OFICIAL DO LIVRO 2

    "As cicatrizes do passado nunca desaparecem por completo... elas apenas esperam o momento certo para sangrar novamente."Você realmente acreditou que a história das famílias Duarte e Cavalcanti havia terminado em calmaria com o final feliz de Eros e Helena? O destino, com sua ironia implacável, tem outros planos guardados na manga.Quinze anos se passaram desde que as alianças reais foram trocadas. Gabriel Cavalcanti cresceu e se tornou um homem determinado, carregando a imponência física e o olhar afiado do pai, misturados à busca incansável por justiça que herdou da mãe. Mas o seu maior e mais perigoso desafio não estará nos tribunais acadêmicos, e sim trancado no seu próprio coração. Ele está perdimentre apaixonado por Martha Duarte, a prima com quem compartilhou a infância e a filha de Isabela, a mulher que no passado tanto humilhou Helena. Presos em um desejo proibido e avassalador que desafia a moral da família, eles terão que decidir se o amor da nova geração é forte o suficien

  • Grávida do irmão Errado    CAPÍTULO 54: O CONTRATO DO CORAÇÃO

    A capela da Casa Martha estava decorada de forma simples, mas profundamente significativa. Não havia os arranjos colossais de orquídeas importadas que marcaram o primeiro casamento de conveniência de Eros Cavalcanti, nem a lista de convidados composta por acionistas e políticos corruptos que Otávio Duarte fizera questão de ostentar. O perfume que preenchia o ar era o dos girassóis colhidos naquela mesma manhã no jardim de inverno da mansão, misturado ao aroma de lavanda que sempre acompanhara Helena. Cinco meses haviam se passado desde a noite em que Eros se ajoelhara à beira da cama e expulsara os fantasmas da distância entre eles. Cinco meses de madrugadas em claro, de lágrimas compartilhadas e de uma fisioterapia dolorosa e obstinada. As portas da capela se abriram, e um murmúrio emocionado percorreu os poucos e verdadeiros amigos presentes. Helena não entrou em uma cadeira de rodas. Ela caminhava com os próprios pés. Seus passos ainda eram lentos e cuidadosos, a mão esquerda ap

  • Grávida do irmão Errado    CAPÍTULO 53: A LINHA DO HORIZONTE

    O silêncio do escritório na cobertura da mansão Cavalcanti era quebrado apenas pelo som sutil das folhas de papel sendo assinadas. Eros mantinha a caneta-tinteiro em punho, mas seus olhos não conseguiam se fixar nas cláusulas de governança da nova holding. Seus pensamentos estavam presos no andar de baixo, no quarto onde Helena tentava se reconectar a um mundo que havia continuado a girar sem ela. A rigidez dela ao ver o porta-retratos na cômoda ainda ecoava na mente de Eros como um alerta de tempestade.Eros largou a caneta. O relógio de mesa indicava que passava das dezoito horas. A rotina dos últimos doze meses ditava que, a esta hora, os passos firmes e o perfume suave de lavanda de Clara cruzariam o corredor. Ela vinha quase todas as noites, não apenas como a médica que monitorava o crescimento de Gabriel, mas como a mulher que, aos poucos, preenchera o vazio deixado pela tragédia.Com o peito apertado por uma hesitação rara, Eros pegou o celular. Ele buscou o nome dela e discou.

  • Grávida do irmão Errado    CAPÍTULO 52: O CONTRATO INVISÍVEL

    A subida para o andar superior da mansão foi um trajeto feito de silêncio e da proximidade física que Helena tanto temera e desejara durante os seus anos de isolamento mental. A cadeira de rodas ficara na base da imensa escadaria de jacarandá. Sem dizer uma palavra, Eros se inclinou e a ergueu nos braços. O corpo de Helena, ainda leve e fragilizado pela longa inatividade, encaixou-se contra o peito dele com uma familiaridade dolorosa. Ela pôde sentir o bater firme do coração de Eros através do tecido da camisa, o mesmo ritmo que, de alguma forma, sua mente inconsciente registrara durante as milhares de horas em que ele estivera sentado à beira de sua cama de hospital.Enquanto subiam degrau por degrau, o peso do passado parecia flutuar entre eles. Quatro anos antes, enquanto Helena habitava o limbo do coma, a data de término do contrato nupcial que os unira havia expirado. Juridicamente, o vínculo que Otávio Duarte havia forçado e que Eros aceitara por pura conveniência corporativa nã

  • Grávida do irmão Errado    CAPÍTULO 51: A ARQUITETURA DO PERDÃO

    O sol da tarde filtrava-se pelas imensas vidraças da mansão Cavalcanti, mas o ambiente não era mais aquele mausoléu de mármore e silêncio que Helena conhecera cinco anos atrás. Havia vida pulsando nos detalhes. Samanta passara os últimos dias numa frenética atividade amorosa, preparando cada centímetro da casa para o retorno da sua verdadeira dona. Tapetes antiderrapantes foram estrategicamente colocados, as arestas dos móveis protegidas e, o mais importante, o jardim de inverno fora transformado num santuário de girassóis e luz. A porta principal abriu-se, e o som das rodas da cadeira sobre o piso polido ecoou como um marco histórico. Eros empurrava Helena com uma delicadeza quase religiosa. Ela ainda estava pálida, os músculos dos braços e pernas ainda se recuperavam da força perdida para o tempo, mas o seu olhar era de uma lucidez cortante. Gabriel corria à frente, saltitando, como se estivesse apresentando a casa a uma convidada de honra. — Bem-vinda a casa, Helena — sussurrou Er

  • Grávida do irmão Errado    CAPÍTULO 50: O RELÓGIO DE VIDRO

    O tempo, para quem espera, não é um rio que flui, mas um gotejamento lento e constante que esculpe a alma. Cinco anos haviam se passado desde que o mundo de Helena Duarte se reduziu às quatro paredes brancas do quarto 402 do Hospital Memorial. Cinco anos desde que o bipe rítmico dos monitores se tornou o metrônomo da vida de Eros Cavalcanti. Eros já não era o homem cujas fotos estampavam as revistas de negócios com um olhar predatório e calculista. O "Falcão" havia passado por uma metamorfose que nem o mais otimista dos seus amigos poderia prever. O terno cinza-chumbo, embora ainda impecável, agora carregava frequentemente manchas de iogurte ou marcas de dedos pequenos e gordinhos. Ele dividia o seu tempo entre o comando da Siderúrgica — que ele fundira à sua holding para salvar os empregos e limpar o nome da família de Helena — e a paternidade solo. Eros tornara-se um pai perfeito. Não o tipo de pai que delega funções a babás, mas o tipo que conhece o sabor preferido do xarope para

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status