INICIAR SESIÓNKyara Miller
O primeiro trovão não foi um estrondo, mas um tremor surdo que subiu pelo chão de madeira da suíte e se instalou diretamente no meu peito. A luz da lareira dançava nas paredes, projetando sombras longas que faziam Julyan parecer ainda maior, uma silhueta imponente contra a escuridão que devorava os vinhedos lá fora.
Eu segurava a taça de vinho como se fosse um amuleto de proteção. O líquido era escuro, com um aroma de frutas negras e carvalho que deveria me acalmar, mas o efeito era o oposto. Cada gole parecia aumentar a temperatura do meu sangue.
— Você está encarando a lareira há dez minutos sem dizer uma palavra — a voz de Julyan cortou o silêncio. — Se está tentando me incendiar com o pensamento, lamento informar que sou imune ao fogo.
Virei-me devagar. Ele estava encostado na mesa de escritório da suíte, com o laptop aberto, mas sua atenção estava inteiramente em mim. Ele tinha afrouxado os primeiros botões da camisa e enrolado as mangas até os antebraços. Havia algo cru e visceral naquela visão; o homem corporativo estava desaparecendo, dando lugar a algo muito mais instintivo.
— Eu estava pensando no contrato — menti, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — Se os proprietários da vinícola souberem que estamos presos aqui por causa de um erro no sistema, eles podem usar isso como vantagem. Podem achar que somos desorganizados.
Julyan soltou uma risada curta e sem humor, um som que vibrou na minha espinha.
— Eles não vão saber de nada, Kyara. E mesmo que soubessem, eles não lidam com a organização. Eles lidam comigo. E ninguém, em dez anos de carreira, jamais me chamou de desorganizado.
— Existe uma primeira vez para tudo, Julyan. Até para você.
Ele se afastou da mesa e caminhou em minha direção. Cada passo dele era calculado, predatório. Eu não recuei. Se ele queria um confronto, eu entregaria um. Ele parou a poucos centímetros de mim, o calor emanando de seu corpo como uma fornalha.
— Você gosta de me provocar, não gosta? — ele perguntou, sua voz descendo para um tom perigosamente baixo. — Gosta de ver até onde a corda estica antes de arrebentar.
— Eu gosto de ser notada — corrigi, olhando-o nos olhos. — Você me trata como um fantasma ou como uma criança desde que entrei na empresa. Eu cansei de ser invisível para o homem que meu pai mais admira.
Julyan soltou um suspiro pesado, uma fresta em sua armadura de gelo. Ele pegou a taça da minha mão e a colocou sobre a lareira, sem nunca desviar os olhos dos meus.
— Invisível? — ele repetiu, a palavra soando como uma maldição. — Kyara, você é a coisa mais visível em qualquer sala em que entra. Eu passo cada minuto daquelas reuniões fingindo que não sinto o seu perfume, fingindo que não percebo quando você morde o lábio porque está frustrada com um relatório. Eu não te ignoro porque você é invisível. Eu te ignoro porque olhar para você dói.
O ar entre nós pareceu desaparecer. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. A revelação dele foi como uma explosão silenciosa.
— Dói? — sussurrei, dando um passo involuntário para mais perto.
— Dói saber que você é a única coisa que eu nunca poderei ter — ele disse, sua mão subindo, hesitante, até o meu rosto. Seus dedos eram quentes e ásperos quando tocaram minha bochecha. — Eu devo tudo ao seu pai. Ele é a minha família. E você... você é a herdeira do império dele. Tocar em você não é apenas um erro profissional, Kyara. É uma traição.
— Talvez eu não queira ser apenas uma herdeira — respondi, minha mão subindo para segurar o pulso dele, sentindo o pulso acelerado sob sua pele. — Talvez eu esteja cansada das regras do meu pai.
Um relâmpago iluminou o quarto, transformando tudo em um branco ofuscante por um segundo. No momento seguinte, o trovão rugiu com tanta força que as janelas vibraram. A energia oscilou e, de repente, mergulhamos na escuridão total, restando apenas o brilho alaranjado das brasas da lareira.
Eu senti a respiração de Julyan contra a minha testa. O mundo lá fora estava desabando em chuva e fúria, mas aqui dentro, o tempo parecia ter congelado.
— Kyara, vá para a cama — ele ordenou, mas sua voz não tinha autoridade. Estava carregada de súplica.
— O quarto é meu também, Julyan. E eu não vou a lugar nenhum.
— Se você ficar aqui, neste tapete, sob esta luz... eu não vou conseguir me controlar. E amanhã, você vai me odiar por ter quebrado a única promessa que fiz a mim mesmo.
— Então quebre — eu disse, desafiadora. — Deixe o mundo acabar lá fora.
Julyan soltou um rosnado baixo, um som de pura frustração e desejo reprimido. Ele não esperou mais. Suas mãos envolveram meu rosto e ele me beijou.
Não foi um beijo suave ou romântico. Foi um beijo de colisão. Tinha o gosto do vinho, da chuva e de anos de desejo acumulado. Era a destruição que a sinopse prometia. Ele me pressionou contra a parede de pedra da lareira, o contraste entre o frio da rocha e o calor de seu corpo me fazendo soltar um gemido que foi abafado pela sua boca.
Eu passei as mãos pelos cabelos dele, puxando-o para mais perto, querendo mais. Naquele momento, eu não era a Srta. Miller e ele não era o braço direito do meu pai. Éramos apenas duas pessoas perdidas em uma tempestade que nenhum de nós queria que acabasse.
Mas, mesmo enquanto minhas roupas começavam a ceder às mãos dele, uma parte de mim sabia que o amanhecer traria o preço daquele momento. E o preço seria alto demais para qualquer um de nós pagar.
Dona Lúcia havia feito jantar.Não havia avisado havia simplesmente feito, e quando Érica havia ligado às cinco para avisar que estava de volta ela havia dito ótimo, jantar às sete, tragam fome.Tragam — plural.Ela havia olhado para Henrique quando havia desligado.— Tragam — ela havia dito.— Ela sabia que eu ia estar — ele havia dito, sem surpresa.— Ela sabe de tudo.— Sempre soube.Às sete menos cinco haviam chegado à casa dos Cavalcante.O jardim estava com a aparência de jardim de junho — as roseiras em fase diferente da de março quando ela havia chegado, o ipê sem a promessa de agosto mas com a dignidade de árvore que existe além das suas flores, a buganvília roxa persistente como a Dona Lúcia havia sempre sido.Rodrigo havia aberto a porta.Havia olhado para ela por um segundo — a avaliação de sempre, mais rápida, mais suave, a versão de avaliação de quem havia adicionado afeto ao repertório.— Érica — ele havia dito.— Rodrigo — ela havia respondido.Ele havia ficado em sil
Ele chegou às oito e vinte e dois.Oito minutos antes.Rosa estava na recepção quando o carro parou — havia aparecido na recepção, que era a forma dela — e havia olhado para o carro e depois para Érica que estava descendo com a mala.— O que é oito minutos de antecedência? — Rosa havia dito.— É ele — Érica havia respondido.Rosa havia feito o gesto de pessoa que recebeu uma informação que confirmava o que já havia avaliado.Henrique havia entrado.Rosa havia estendido a mão — não o abraço, a mão, com a formalidade de pessoa que tem protocolo de hospitalidade mas que havia colocado naquele aperto de mão toda a avaliação das semanas anteriores.— Cuide dela — Rosa havia dito.— Vou — ele havia dito.— Não prometeu — Rosa havia corrigido. — Cuide.— Cuido.Rosa havia ficado satisfeita.Havia ido para a cozinha.Voltado com dois cafés — porque era a coisa que Rosa sabia fazer para dizer o que Rosa sabia dizer.Haviam tomado o café de pé na recepção com a mala ao lado e o sol de manhã ent
Junho chegou.Com ele veio o fim do projeto da CAT não de forma abrupta, mas com a qualidade de encerramento que acontece quando uma coisa foi bem feita e chegou ao ponto onde continuar seria acrescentar por acrescentar em vez de acrescentar porque havia algo a acrescentar.A identidade visual havia ficado certa.O verde de terra com o dourado que não era corporativo mas que era honesto. A tipografia que havia escolhido depois de quarenta tentativas e que havia parecido óbvia na quadragésima primeira. O sistema de comunicação que havia construído em torno da ideia de Euclides — não é fraqueza precisar de alguém, é inteligência — sem usar a frase literalmente porque as melhores ideias não precisam ser declaradas para funcionar, precisam ser vividas em cada escolha visual e linguística até que a pessoa que vê sinta o que está por baixo sem que alguém precise apontar.Marcos havia ficado quieto quando ela havia apresentado.Por um tempo que era mais longo do que o silêncio de avaliação.
Ele ficou dois dias.Não havia sido planejado como dois dias havia chegado sem data de volta declarada, com a mochila que cabia num fim de semana ou num mês dependendo de como as coisas fossem, e dois dias havia sido o que havia sido.No domingo à tarde eles haviam caminhado.Não com destino específico ela havia mostrado o que havia aprendido de Uberlândia nas semanas: a cafeteria da rua de trás que tinha café bom mas não tão bom quanto o de Rosa, a banca da feira que havia fechado mas que ela havia descrito com suficiente detalhe para que ele visse, o quarteirão onde ficava a loja do Carlinhos que havia configurado o celular novo sem fazer a pessoa se sentir burra.— Você conhece a cidade — ele havia dito.— Três semanas — ela havia respondido. — Cidade pequena de Minas se aprende rápido.— Uberlândia não é cidade pequena.— Não é Ribeirão Fundo — ela havia concordado. — Mas tem a qualidade de Minas que algumas coisas ficam independente do tamanho.— Que qualidade?— De lugar que exi
Ele chegou no domingo às duas da tarde.Érica havia ficado acordada sábado à noite com a qualidade específica de quem está esperando por algo que sabe que vem e que o saber não resolve a espera mas torna a espera diferente — não ansiosa, mais presente, o tipo de vigília que não exige nada além de estar.Havia ligado para a mãe depois de desligar com Henrique.— Ele disse que podia ir — ela havia dito.— Eu sei — Dona Lúcia havia respondido. — Ele me ligou.— Você os dois me ligarão na mesma tarde.— Somos família. É o que fazemos.— A senhora é impossível.— Sou eficiente.Havia dormido.Melhor do que qualquer noite desde que havia chegado em Uberlândia — o sono que existe quando alguma coisa que estava suspensa finalmente pousa.Acordou às oito.Café de Rosa que valia o preço do quarto.Trabalhou no laptop por algumas horas — havia projeto suficiente para preencher uma manhã e o projeto era bom e havia algo que era ao mesmo tempo concentração real e forma de não olhar para o relógio
— Oi — ele repetiu.Não havia mais nada nos primeiros segundos.Apenas os dois de cada lado do telefone com o peso de três semanas de silêncio que havia sido necessário e que havia custado e que havia chegado ao fim com uma sílaba que era pequena demais para o que carregava.— Como está o braço? — ele disse, por fim.— Tiraram os pontos hoje — ela disse. — Está bem. Vai ficar uma marca fina mas a Ana disse que clareia.— A Ana do posto.— A minha mãe montou uma rede de vigilância.— Eu sei — ele disse. — Eu fazia parte da rede.Ela ficou imóvel.— Você sabia do braço antes de eu ligar.— Sabia que estava cicatrizando. Não sabia dos pontos hoje. — Uma pausa. — A Lúcia me contava o que achava que eu precisava saber sem que eu pedisse diretamente.— E você deixava.— Era o que tinha disponível.Ela ficou olhando para a planta nova no parapeito.As folhas verdes-escuras arredondadas.— Henrique — ela disse.— Hmm.— Preciso te perguntar uma coisa antes de dizer qualquer outra coisa.— Pod







