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76 - O Que Dois Dias Guardam

last update publish date: 2026-07-27 02:58:28

Ele ficou dois dias.

Não havia sido planejado como dois dias havia chegado sem data de volta declarada, com a mochila que cabia num fim de semana ou num mês dependendo de como as coisas fossem, e dois dias havia sido o que havia sido.

No domingo à tarde eles haviam caminhado.

Não com destino específico ela havia mostrado o que havia aprendido de Uberlândia nas semanas: a cafeteria da rua de trás que tinha café bom mas não tão bom quanto o de Rosa, a banca da feira que havia fechado mas que ela
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    Dona Lúcia havia feito jantar.Não havia avisado havia simplesmente feito, e quando Érica havia ligado às cinco para avisar que estava de volta ela havia dito ótimo, jantar às sete, tragam fome.Tragam — plural.Ela havia olhado para Henrique quando havia desligado.— Tragam — ela havia dito.— Ela sabia que eu ia estar — ele havia dito, sem surpresa.— Ela sabe de tudo.— Sempre soube.Às sete menos cinco haviam chegado à casa dos Cavalcante.O jardim estava com a aparência de jardim de junho — as roseiras em fase diferente da de março quando ela havia chegado, o ipê sem a promessa de agosto mas com a dignidade de árvore que existe além das suas flores, a buganvília roxa persistente como a Dona Lúcia havia sempre sido.Rodrigo havia aberto a porta.Havia olhado para ela por um segundo — a avaliação de sempre, mais rápida, mais suave, a versão de avaliação de quem havia adicionado afeto ao repertório.— Érica — ele havia dito.— Rodrigo — ela havia respondido.Ele havia ficado em sil

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    Ele chegou às oito e vinte e dois.Oito minutos antes.Rosa estava na recepção quando o carro parou — havia aparecido na recepção, que era a forma dela — e havia olhado para o carro e depois para Érica que estava descendo com a mala.— O que é oito minutos de antecedência? — Rosa havia dito.— É ele — Érica havia respondido.Rosa havia feito o gesto de pessoa que recebeu uma informação que confirmava o que já havia avaliado.Henrique havia entrado.Rosa havia estendido a mão — não o abraço, a mão, com a formalidade de pessoa que tem protocolo de hospitalidade mas que havia colocado naquele aperto de mão toda a avaliação das semanas anteriores.— Cuide dela — Rosa havia dito.— Vou — ele havia dito.— Não prometeu — Rosa havia corrigido. — Cuide.— Cuido.Rosa havia ficado satisfeita.Havia ido para a cozinha.Voltado com dois cafés — porque era a coisa que Rosa sabia fazer para dizer o que Rosa sabia dizer.Haviam tomado o café de pé na recepção com a mala ao lado e o sol de manhã ent

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    Junho chegou.Com ele veio o fim do projeto da CAT não de forma abrupta, mas com a qualidade de encerramento que acontece quando uma coisa foi bem feita e chegou ao ponto onde continuar seria acrescentar por acrescentar em vez de acrescentar porque havia algo a acrescentar.A identidade visual havia ficado certa.O verde de terra com o dourado que não era corporativo mas que era honesto. A tipografia que havia escolhido depois de quarenta tentativas e que havia parecido óbvia na quadragésima primeira. O sistema de comunicação que havia construído em torno da ideia de Euclides — não é fraqueza precisar de alguém, é inteligência — sem usar a frase literalmente porque as melhores ideias não precisam ser declaradas para funcionar, precisam ser vividas em cada escolha visual e linguística até que a pessoa que vê sinta o que está por baixo sem que alguém precise apontar.Marcos havia ficado quieto quando ela havia apresentado.Por um tempo que era mais longo do que o silêncio de avaliação.

  • Herdeira Proibida: Um Amor Que Pode Destruir Tudo    76 - O Que Dois Dias Guardam

    Ele ficou dois dias.Não havia sido planejado como dois dias havia chegado sem data de volta declarada, com a mochila que cabia num fim de semana ou num mês dependendo de como as coisas fossem, e dois dias havia sido o que havia sido.No domingo à tarde eles haviam caminhado.Não com destino específico ela havia mostrado o que havia aprendido de Uberlândia nas semanas: a cafeteria da rua de trás que tinha café bom mas não tão bom quanto o de Rosa, a banca da feira que havia fechado mas que ela havia descrito com suficiente detalhe para que ele visse, o quarteirão onde ficava a loja do Carlinhos que havia configurado o celular novo sem fazer a pessoa se sentir burra.— Você conhece a cidade — ele havia dito.— Três semanas — ela havia respondido. — Cidade pequena de Minas se aprende rápido.— Uberlândia não é cidade pequena.— Não é Ribeirão Fundo — ela havia concordado. — Mas tem a qualidade de Minas que algumas coisas ficam independente do tamanho.— Que qualidade?— De lugar que exi

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    Ele chegou no domingo às duas da tarde.Érica havia ficado acordada sábado à noite com a qualidade específica de quem está esperando por algo que sabe que vem e que o saber não resolve a espera mas torna a espera diferente — não ansiosa, mais presente, o tipo de vigília que não exige nada além de estar.Havia ligado para a mãe depois de desligar com Henrique.— Ele disse que podia ir — ela havia dito.— Eu sei — Dona Lúcia havia respondido. — Ele me ligou.— Você os dois me ligarão na mesma tarde.— Somos família. É o que fazemos.— A senhora é impossível.— Sou eficiente.Havia dormido.Melhor do que qualquer noite desde que havia chegado em Uberlândia — o sono que existe quando alguma coisa que estava suspensa finalmente pousa.Acordou às oito.Café de Rosa que valia o preço do quarto.Trabalhou no laptop por algumas horas — havia projeto suficiente para preencher uma manhã e o projeto era bom e havia algo que era ao mesmo tempo concentração real e forma de não olhar para o relógio

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    — Oi — ele repetiu.Não havia mais nada nos primeiros segundos.Apenas os dois de cada lado do telefone com o peso de três semanas de silêncio que havia sido necessário e que havia custado e que havia chegado ao fim com uma sílaba que era pequena demais para o que carregava.— Como está o braço? — ele disse, por fim.— Tiraram os pontos hoje — ela disse. — Está bem. Vai ficar uma marca fina mas a Ana disse que clareia.— A Ana do posto.— A minha mãe montou uma rede de vigilância.— Eu sei — ele disse. — Eu fazia parte da rede.Ela ficou imóvel.— Você sabia do braço antes de eu ligar.— Sabia que estava cicatrizando. Não sabia dos pontos hoje. — Uma pausa. — A Lúcia me contava o que achava que eu precisava saber sem que eu pedisse diretamente.— E você deixava.— Era o que tinha disponível.Ela ficou olhando para a planta nova no parapeito.As folhas verdes-escuras arredondadas.— Henrique — ela disse.— Hmm.— Preciso te perguntar uma coisa antes de dizer qualquer outra coisa.— Pod

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