INICIAR SESIÓNA governanta apareceu no batente da porta com a postura rígida de quem carrega o peso do mundo nos ombros e já estava acostumada com isso há muito tempo. Ela era uma mulher de meia idade, com cabelos grisalhos presos num coque rígido e um avental limpo.
— Senhor Augusto, desculpe interromper — ela falou, com uma voz firme que ainda tremia levemente, mostrando o alívio de ter encontrado o senhor Augusto inteiro. — O doutor Henrique chegou. Ele está esperando no escritório.
— Que médico, que nada! — Augusto levantou a mão com a energia irritante para alguém que tinha quase se afogado — Estou muito bem, dona Carmem. Tão bem quanto não se sinto há anos, se quiser saber.
Arthur e eu nos intrometemos ao mesmo tempo:
— Mas o senhor quase se afogou...
— O senhor não pode brincar com a saúde, padrinho.
Paramos os dois. Nossos olhos se cruzaram por um segundo involuntário, e eu desviei rápido, como se tivesse tocado em algo quente sem querer. O tipo de calor que deixa marca.
— Bom — Augusto cedeu, levantou as mãos em rendição teatral. — Se os dois insistirem.
Então ele apontou o dedo para mim, e seus olhos brilhavam com uma luz que eu ainda não conseguia entender. Não era a confusão de antes. Era outra coisa. A convicção firme de quem encontrou o que procurava e não tem a menor intenção de largar.
— Por favor, não saia daqui. Eu preciso conversar com você, minha neta.
Ele seguiu a governanta para o corredor e desapareceu.
O som dos passos foi diminuindo até que só restou o silêncio do quarto e a minha própria respiração, que eu tentava manter sob controle e não estava conseguindo muito bem.
Não consegui impedir. Meu coração apertou. Olhei para o porta‑retratos que ainda estava na minha mão e vi o sorriso da mulher que eu conhecia de cor, o sorriso que eu aprendi a lembrar com tanto cuidado e que às vezes doía. Eu fechei os dedos em volta do objeto com mais força do que eu queria, como se ele fosse fugir se eu soltasse.
— Então, o que você está fazendo aqui?
A voz de Arthur cortou o silêncio como uma lâmina, ao mesmo tempo em que eu o ouvia fechar a porta atrás de nós.
Eu me virei devagar. Arthur estava no batente da porta, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos verdes dele me observavam com uma frieza que parecia cirúrgica. Não parecia em anda com o homem que me beijou na escuridão de uma tempestade.
— O senhor Augusto estava se afogando no lago do parque, e eu não sabia o que fazer, então...
— Eu sei, eu sei — ele fez um gesto curto com a mão, dispensando uma explicação que não foi pedida. — Os funcionários já me contaram a história toda. Não foi o que perguntei. O que eu perguntei é o que você está fazendo aqui.
Eu olhei ao redor. Vi o berço com flores nas bordas, vi as roupinhas dobradas com cuidado que o tempo transformou em ritual, vi as paredes que guardavam uma vida inteira que eu só descobri há uma hora. O quarto cheirava a madeira velha e a um perfume floral suave que eu não sabia identificar, mas que apertava o meu peito. Por um segundo, eu ouvi a pergunta dele soar na minha cabeça, como se eu também não soubesse a resposta.
— O que significa tudo isso? — perguntei, minha voz saindo mais baixa do que gostaria.
— Não é da sua conta.
— É sim. — Ergui o porta-retratos na direção dele, segurando bem firme. — Quando tem uma foto da minha mãe dentro desse porta-retratos, é sim da minha conta.
Ele olhou para a foto e depois para mim. Seus olhos percorreram o meu rosto com uma atenção diferente agora, menos fria, mais esperta, como se estivesse tentando resolver uma conta que ainda não tinha solução. Então a máscara voltou ao lugar com uma exatidão que parecia praticada.
— Sua mãe?
Eu confirmei com a cabeça, sem desviar o olhar.
Arthur cruzou os braços devagar e pôs as mãos nos bolsos, em um movimento perfeitamente controlado. Quando falou de novo, sua voz ficou com um tom frio e pausado. Eu já reconhecia esse tom como sinal de que Arthur estava chegando a um lugar que eu não ia gostar.
— Olha, Zara, eu realmente não queria acreditar que você fosse a golpista que eles falavam naquela festa.
— Cala a sua boca e não ousa completar essa frase! — Respondi, sentindo a raiva subir quente pelo meu pescoço.
Ele não se intimidou, e continuou sem sequer desviar os olhos dos meus.
— Mas você está muito determinada a provar o contrário, não é? Você entrou na minha casa, entrou na vida do meu padrinho… O que você acha que está fazendo? O que nós tivemos foi só diversão de uma noite.
Eu soltei uma risada que saiu mais seca do que eu planejava e arranhou na minha garganta.
— Diversão é o cacete! Você não passa de um playboyzinho de merda. E quer saber? Nem foi tão divertido assim, não foi tão bom.
Foi sim, falou a vozinha lá no fundo, trazendo uma honestidade inconveniente que surgia sempre na pior hora. Não minta para si mesma.
Eu a ignorei.
— E você ainda me deixou com a conta de quase dois mil reais naquele hotel — completei, cruzando os braços. — Eu precisei usar o dinheiro do meu aluguel, só para constar.
Ele riu. Uma risada curta, de verdade, que começou rápido e acabou rápido. Uma risada que teria sido bonita em outras situações. Nessa situação, me fazia querer avançar na jugular dele.
— Foi, é? Eu tive que sair correndo quando recebi a notícia de que o padrinho tinha sumido — Ele deu de ombros, sem um pingo de remorso no rosto.
— Pois é, fui eu quem salvei o teu padrinho, seu idiota. E você não teve nem a decência de pedir desculpa.
— Pedido de desculpas? Foi bem-feito, golpista! Pelo menos você pagou pelo meu tempo.
Eu senti o sangue subir tão rápido que perdi a compostura.
— De onde eu venho, quem recebe por “tempo” — fiz as aspas com os dedos no ar — tem outro nome.
Eu percebi algo brilhar nos olhos verdes dele, mas não era raiva. Era algo ainda pior. Era diversão.
— E de onde você vem, afinal?
— Você sabe muito bem.
— Sei, sei... — ele deu um passo para dentro do quarto e o espaço entre nós ficou menor, me fazendo querer recuar. Não recuei. Pelo contrário, finquei os pés no chão como se o mármore pudesse me dar algum equilíbrio. — Escuta, já que estamos falando de dinheiro...
Ele parou, me olhando de cima a baixo com os olhos de vidro verde. Olhos que não deixavam passar nada.
— Quanto você quer?
Eu pisquei.
— O quê?
— Quanto você quer?
A voz dele saiu com a mesma naturalidade de quem faz essa proposta todo dia, como se fosse um trecho de contrato que ele já tinha decorado.
— Para sumir da minha vida, da vida do meu padrinho, e voltar para o seu... mundo. É só falar um valor.
~ Dois anos depois ~Estávamos todos sentados em uma mesa de café da manhã no Hotel Milani Londres.Thomas e a Júlia — que sim, finalmente tinham se assumido depois de um bom tempo saindo juntos, mas fingindo que nos enganavam ao negar. A Geórgia, que tinha aproveitado as férias da faculdade de medicina que ela tinha finalmente começado um semestre atrás, depois de ser a ovelha desgarrada da família e ter insistido em três outros cursos antes de chegar lá.— Acontece que eu realmente descobri que gosto de medicina. — Ela explicava para qualquer um que perguntasse. — Eu não queria fazer só porque a família é toda de médico, sabe? Então precisei fazer engenharia, direito e cinema antes, para ter certeza.O que sempre fazia a gente rir, porque se a Geórgia não tinha habilidade nenhuma para engenharia ou direito, tinha ainda menos para cinema. Mas ela não saiu desse último curso de mãos abanando, estava namorando um cara que tinha o maior estilo roqueiro clássico, para o qual a Claire to
— Últimas palavras? Talvez eu possa repassar para o Arthur antes de acabar com ele também.Então eu ri. Porque havia algo absurdo em estar naquela situação e ainda assim ter a cabeça funcionando o suficiente para perceber o detalhe que ela não tinha percebido.— Você se esquece que eu vivi por anos em uma favela? — Pressionei ainda mais a cabeça contra o metal frio da arma. — É uma Derringer.— O quê? — Leonora franziu a testa, a arma ainda apontada.— Sua arma. É uma Derringer.— Essas são suas últimas palavras?— Não. Mas isso significa que você só tinha dois tiros. — Pausei. — E os dois já foram.Eu estava contando. Estava forçando-a a atirar para qualquer lado por duas vezes. Estava torcendo para que o plano, o único que eu tinha, desse certo.Vi o momento em que ela processou. A mão apertou o gatilho de qualquer forma, claramente sem acreditar no que acabou de ouvir.Nada saiu.Aproveitei o seu choque e agarrei o braço dela com as duas mãos e virei pra trás com força, usando o ân
~ ARTHUR ~O telefone tocou enquanto eu ainda estava no estacionamento, a chave do carro na mão, tentando lembrar exatamente em qual faixa tinha parado.— Alô?— Arthur. — A voz do meu pai soou do outro lado, e o tom era diferente do suficiente para acender um alerta imediato. Não o tom de médico que ele usava para dar más notícias com controle total, mas algo por baixo disso, algo que raramente aparecia e que eu aprendi a reconhecer ao longo dos anos como o tom que ele usava quando havia perdido o controle da situação. — Você está com a Zara?— Não. Longa história, mas a Leonora armou uma armadilha e nos pegou mais uma vez. A Zara está sendo conduzida até a delegacia por um policial, eu estava indo buscar o carro para ir atrás e depois a encontrar lá...— Não deixa. — A urgência na voz dele subiu de um grau que eu não estava acostumado a ouvir. — Não deixa a Zara entrar naquela viatura. Arthur, para o que você está fazendo e ouve o que estou dizendo.— O que está acontecendo? Por quê
Leonora soltou uma risadinha contida que me assustou mais do que qualquer gargalhada aberta que ela pudesse ter dado.— É isso que você acha de mim, então?— Bem, foi o que você fez com meu avô, não foi?— Eu só faço o que é necessário. — Ela disse calmamente, como se uma confissão de assassinato fosse como qualquer discussão mundana. — Você... sua morte não era necessária pra mim. Tentei te afastar com aquele exame falso, mas não é que seu marido parece realmente estar tão apaixonado a ponto de colocar a reputação médica dele em jogo por você?— Se minha morte não era necessária, por que mandou a Genevieve pra aquele quarto?— Porque você se tornou uma pedra no meu caminho. Você e ele, o Arthur. A ideia era eliminar meu irmão, afastar você do Arthur, casá-lo com a Genevieve para que ela pudesse controlá-lo, e eu ficava com tudo. — Fez uma pausa. — Mas aparentemente não tem nada no mundo que afaste vocês dois, tem?— Como você teve coragem? — A pergunta saiu levando minha raiva com el
— O quê? — Perguntei para o Arthur, claramente um passo atrás dele na conclusão.— Ficamos tão desesperados pra entrar na área de embarque que esquecemos da sua restrição em deixar o estado. Quando a passagem no seu nome acusou no sistema, o sistema entendeu que você estava tentando violar a determinação judicial.— Merda, merda!— Ela antecipou nossa jogada. Provavelmente soltou a informação falsa de que estava saindo do país exatamente para isso, para nos fazer correr para o aeroporto, para nos fazer comprar passagens sem pensar nas implicações.— Filha da puta. — Murmurei. Leonora tinha calculado cada passo que nós daríamos com uma precisão que era, objetivamente, impressionante. O que tornava tudo ainda mais frustrante.— Senhora... — O policial começou novamente, agora com menos paciência na voz.Ainda estava parado ali, com o distintivo em mãos, com aquela expressão de quem está ficando progressivamente menos disposto a continuar esperando.— Já estou indo! — Respondi, incapaz d
Eu nunca tinha estado em um aeroporto antes, mas eu imaginava que em condições normais ele já não seria um dos meus lugares favoritos — barulhento, cheio de gente com pressa, com aquela iluminação artificial que não favorecia ninguém e filas em toda parte sem começo nem fim claro.Mas eu uma situação de emergência, como hoje, era ainda pior. Cada pessoa que passava era um possível obstáculo, cada corredor uma possível direção errada, e o ruído de fundo tornava impossível pensar com a clareza que a situação exigia.A informação tinha chegado pelo Eduardo, vinda de um dos seus contatos, que Leonora estava prestes a embarcar em um voo para Portugal. O que fazia muito sentido. Genevieve tinha dado seu depoimento na tarde anterior, Leonora já estava sando da traição e sua melhor opção era fugir do país.Então, fizemos o que nossa ansiedade nos pediu: fomos para o aeroporto. Não que acreditássemos que fossemos resolver algo com as próprias mãos, mas... Tá, eu acreditava que ia resolver com







