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Isadora Alencar aprendeu cedo que algumas decisões mudam a vida antes mesmo de serem tomadas.
O espelho do banheiro refletia uma mulher que ela ainda não conhecia por completo. O vestido preto abraçava suas curvas com precisão calculada, como se tivesse sido feito para provocar perguntas silenciosas. Não era vulgar. Era perigoso. Isadora passou os dedos pela própria cintura, sentindo o tecido deslizar sob a pele quente, e engoliu em seco. Aquela não era mais a garota que chegou a Brasília com uma mala velha e sonhos frágeis demais para sobreviver sozinhos.
O salto alto repousava ao lado da porta, esperando por ela como um aviso. Ao calçá-lo, Isadora sentiu o corpo se ajustar, a postura mudar, o olhar endurecer levemente. Cada centímetro elevado do chão parecia afastá-la de quem fora — e aproximá-la da mulher que estava se tornando.
O celular vibrou sobre a bancada.
Uma mensagem curta. Direta.
O carro está à sua espera.
Isadora respirou fundo. O ar parecia mais denso naquela noite, carregado de expectativa e algo que ela ainda não sabia nomear. Medo? Excitação? Talvez os dois. Desde que aceitara a proposta de Madeleine, tudo dentro dela vivia em um estado constante de alerta — como se cada escolha pudesse levá-la ao prazer ou à ruína.
Ao sair do apartamento, o corredor silencioso amplificou o som de seus passos. Cada batida do salto ecoava como uma confissão. Isadora sentia os olhares imaginários pousarem sobre seu corpo, despindo-a sem tocá-la, antecipando algo que ainda não havia acontecido — mas que já deixava sua pele sensível.
Quando a porta do carro se abriu, o interior escuro e elegante a recebeu como um segredo bem guardado. O cheiro de couro, perfume masculino e poder fez seu estômago revirar. Isadora entrou sem dizer uma palavra, cruzando as pernas devagar, consciente de cada movimento.
Enquanto a cidade começava a se mover ao redor, iluminada por promessas que nem sempre se cumpriam, Isadora entendeu que aquela noite não era apenas mais um trabalho.
Era um rito de passagem.
E, pela primeira vez, ela não sabia se estava pronta para aquilo — ou se desejava demais para recuar.
***
O hotel era silencioso demais para aquela hora da noite.
Isadora sentiu a mudança no ar assim que atravessou o saguão — como se cada passo a levasse mais fundo em algo que não poderia ser desfeito. O elevador subiu lento, claustrofóbico. O homem ao seu lado não disse uma palavra. Alto, impecável, cheiro de poder misturado a algo masculino e quente. O silêncio entre eles não era vazio. Era carregado.
Quando a porta se abriu, ele indicou o caminho com um gesto curto. O quarto era amplo, luz baixa, cortinas fechadas. Isadora sentiu o coração acelerar. Antes que pudesse pensar demais, a porta se fechou atrás deles com um clique seco — definitivo.
Ele se aproximou devagar, avaliando-a como quem escolhe com precisão cirúrgica. Isadora sustentou o olhar, mas sentiu o corpo reagir antes da mente. A pele arrepiou. O calor se concentrou baixo, traiçoeiro.
— Tire o casaco — ele disse, a voz baixa, controlada.
Isadora obedeceu. Cada movimento era consciente. Calculado. O tecido deslizou por seus braços, revelando mais do que pele: revelando intenção. O olhar dele escureceu.
Ele se aproximou até que o espaço entre seus corpos desaparecesse. Não a tocou de imediato. O que fez foi pior — ou melhor. O cheiro dele a envolveu. A presença, esmagadora. Isadora sentiu o próprio corpo responder, a respiração falhar, os músculos cederem sem que ela pedisse.
Quando finalmente a mão dele tocou sua cintura, foi firme. Possessiva. Um toque que não perguntava — afirmava. Isadora fechou os olhos por um segundo, sentindo o choque elétrico subir pela espinha. Aquilo não era delicado. Era intencional.
Os lábios dele roçaram sua orelha, lentos, provocadores. Isadora mordeu o próprio lábio para conter um som que ameaçava escapar. O corpo já não obedecia à razão. Cada nervo estava desperto, exigindo mais.
Ela sentiu as mãos dele explorarem com precisão, como se já soubessem exatamente onde pressionar, onde provocar. O vestido parecia pequeno demais. A pele, sensível demais. Isadora percebeu, com um misto de vertigem e prazer, que estava molhada — e não tentou negar.
Quando ele a conduziu até a cama, não houve resistência. Apenas entrega. O colchão cedeu sob seu peso, e o olhar dele sobre seu corpo foi lento, faminto, quase reverente.
Isadora respirava com dificuldade agora. O mundo havia se reduzido àquele quarto, àquela noite, àquela versão de si mesma que aprendia, com um arrepio perigoso, que o desejo também podia ser poder.
E, naquele momento, ela soube: não havia mais volta.
HelenaOlho para o quarto que passei meus 18 anos, rumo a uma nova jornada em minha vida. Saber que a partir daquele dia serei uma universitária, morando sozinha na capital. Longe do cuidado e amor da minha família. Papai e mamãe sempre foram o meu apoio em todas as decisões que tomei, desde o momento em que passei a entender as coisas da vida. Minhas avós, Érica e Tereza, achavam que seguiria os passos do meu pai, estudando para um dia trabalhar como executiva em algum banco. Mas quando anunciei no jantar de ano novo que começaria a faculdade de direito na Federal, as reclamações em relação a morar sozinha começaram na mesma noite. Minha mãe foi a primeira a apoiar minha decisão, assim como eu, ela sempre me contava que quando era um pouco mais velha que eu, se aventurou em Brasília, onde conheceu meu pai e ficou um ano fora trabalhando na Europa, retornando depois e assumindo a relação com o homem mais importante da minha vida.— Sonhando acordada ou arrependida por que decidiu mora
3 anos depois do primeiro epílogo— Isadora, minha filha, se acalma, Helena foi apenas prestar vestibular, não é o fim do mundo.Iara tentava acalmar a amiga, que estava apreensiva pela demora, e nem Bruno dava sinal de vida. Naquele Domingo, Helena foi para a capital prestar o vestibular para tentar uma vaga na faculdade federal, mesmo com a mãe dizendo que poderia pagar uma faculdade particular. Mas tanto Helena como Bruno tinham a mesma opinião de que a federal seria a melhor opção. Lá existiam bons professores, e a filha queria se formar ali. Isadora sabia como a filha era teimosa já que, ao menos, esse jeito de ser a garota a puxou para ela.— Mãe, não precisa ficar assim que a vaga já é da Helena. — Bernardo assistia série na televisão da sala, enquanto as mulheres estavam sentadas na mesa do jantar. O casal ainda morava na mesma casa que foi comprada 19 anos atrás, quando Isadora engravidou e Bruno foi transferido para Goiânia.— Eu sei disso, meu filho. Mas assim como estou ne
12 anos depois...— Calma, filha. Você está me deixando nervosa desse jeito.Helena estava completando 15 anos naquela noite. A jovem escolheu pela festa de debutante e, claro, Bruno não pensou duas vezes em fazer o gosto da filha mais velha. Helena era a menina dos seus olhos: até Bernardo reclamava que a irmã era a favorita do pai em tudo, mesmo com o pai sempre deixando claro que amava os filhos do mesmo jeito. O casamento de Isadora e Bruno era feliz, verdadeiro e real, como tantos.Isadora vivia uma vida melhor do que ela um dia imaginou viver. Bruno se tornou um diretor financeiro de sucesso, anos depois se tornou Presidente do Banco, o que fez com que o cargo que o marido exercia fosse ainda mais importante do que antes. O medo de alguém descobrir seu passado ainda existia. Na verdade, Isadora sempre dizia para Iara que sua antiga profissão a perseguirá para sempre, mesmo a senhora aconselhando-a esquecer sobre isso. O que importava era a família que ela construiu ao lado de Br
Dezembro 2023Isadora estava sentada junto com os outros formandos. Roberta estava ao seu lado, segurando a mão da amiga.Sentados no salão estavam o marido com Bernardo em seu colo. Seu pequenino estava com 4 meses de vida e era um menino forte e calmo, assim como Helena foi. A filha não queria sair de perto do irmão e não sentia ciúmes do menino. Pelo contrário: Ela não queria largar o garoto por um minuto.Os sogros, os pais e sua irmã, ao lado da sua amiga querida Iara, não disfarçavam a emoção de ver Isadora recebendo seu diploma de contadora naquela noite. Madeleine e Carlos enviaram os parabéns, e a ex-patroa não escondeu o orgulho em ter sua funcionária favorita se formando e seguindo sua vida feliz, ao lado dos filhos e do marido. Carolina também enviou os cumprimentos para a ex-amiga. A relação das duas não era mais a mesma de antes, mas Isadora tentaria perdoar de vez o que houve no passado. Os cunhados a parabenizaram e, enquanto o orador da turma discursava, um filme pass
Agosto de 2023A gravidez de Isadora foi tranquila, mesmo com o acidente envolvendo Isabel que, depois de ter sido praticamente ameaçada por Bruno, aceitou seu novo cargo e voltou de vez para Brasília. Isadora daria à luz a qualquer momento. Ela entrou no nono mês de gestação, e a chegada de Bernardo era esperada por toda a família. Os pais de Bruno haviam chegado para acompanhar o parto uma semana atrás. Mesmo com a gravidez, Isadora continuou indo à faculdade todos os dias, fazendo todos os trabalhos, encerrando o sétimo período com boas notas e um bom desempenho universitário. Ela teria que lidar com o relatório do estágio no último semestre, mas Bruno já havia avisado a esposa que não precisaria se preocupar, que ela se sairia bem.Bruno lia um livro, e o casal decidiu dormir cedo. Isadora saiu do quarto apenas com seu robe de seda e sem nada por baixo.Ela se sentia estranha, mas não falaria para o marido. Queria apenas ter Bruno dentro dela, arrancando gemidos dos seus lábios, m
Três meses depois...Isadora estava entrando no quarto mês de gestação, as aulas na faculdade haviam retornado e seria seu último ano estudando. Helena se adaptou com rapidez à escolinha, e as coisas na casa de Bruno e Isadora melhoravam a cada dia. Isabel não aceitou a transferência e passou a investir cada vez mais pesado em conquistar o amor de Bruno de qualquer jeito. O diretor evitava qualquer contato com ela, mesmo sabendo que poderia dar um basta nos assédios, mas ele não sujaria a carreira da mulher mesmo sabendo do que ela fazia.Naquela tarde Isadora faria um novo ultrassom para — enfim — o casal saber o sexo do bebê, já que das outras vezes, por estar de perninha fechada, não dava para saber. Isadora tinha vindo com Bruno para Goiânia, e o casal voltaria juntos para Anápolis, já que a consulta estava marcada para o finalzinho do dia. Isadora aproveitou para comprar roupinhas para o filho, já sabendo que a mãe e Iara brigam por tantas coisas sem nem saber se era menina ou m







