FAZER LOGINEDILENA NARRANDO:
A música vibrava através das paredes do banheiro, abafando qualquer tentativa de silêncio. Marília me ajudava a colocar a camiseta encharcada sob o secador de mãos fixo na parede, mas a verdade era que eu nem ligava mais para o tecido molhado grudado em mim. Minha mente estava fervendo com as palavras daquele estranho. Ele era diferente de tudo o que eu tinha visto até agora: alto, musculoso, com tatuagens que escapavam do colarinho e olhos verdes que pareciam atravessar qualquer defesa. E aquele sotaque... Mexicano, talvez? Sedutor demais para ser ignorado. — O que aquele cara estava te falando? — perguntou Marília, com o tom preocupado de sempre. — Ele quer me pagar uma bebida — respondi, tentando soar casual enquanto secava o a camiseta. — Disse que comprava outra camiseta, queria se desculpar... Enfim, o que você achou dele? Um gato, né? Marília bufou, cruzando os braços. — Sim, um gato. Mas, Lena, você não viu os seguranças ao redor dele? Homens armados. Ele parece perigoso, talvez até um mafioso. Dei um sorriso de canto, ignorando o alerta dela. O som do secador de mãos preenchia o espaço, mas a ideia que passava pela minha cabeça era ainda mais barulhenta. — Será que encontrei a pessoa perfeita? Alguém que não vai ter medo do Dmitri? — Não seja maluca! — Marília arregalou os olhos, praticamente me sacudindo pelo braço. — Se ele for mesmo um mafioso, é melhor você ficar com o Isaac. Pelo menos ele é previsível. Revirei os olhos. — Nem morta! Já disse mil vezes que não vou casar com o Isaac. Dmitri pode me obrigar a muitas coisas, mas isso não está na lista. Agora... aquele loiro… Ela suspirou, exasperada. — Lena, espero que você não esteja pensando no que eu acho que está. Puxei a camiseta de volta e a ajeitei no corpo. Ainda estava úmida, mas já dava para sair do banheiro. — Ah, Marília, relaxa. Eu só volto para casa depois de encontrar o meu marido, e você vai me ajudar. — Lena, isso é loucura! — Ela me seguiu, praticamente tropeçando nos próprios pés enquanto eu a arrastava para fora do banheiro. Claro que era loucura. Mas Dmitri não me deixava escolha. De todos que observei naquela noite, o único que chamou minha atenção foi esse loiro misterioso... Ele era diferente. E, por algum motivo, achei que ele talvez pudesse ser a chave para minha liberdade. Voltar para o salão da boate era como atravessar uma tempestade de sons e luzes. As batidas da música pulsavam no chão sob os meus pés, e as luzes piscavam em sincronia com o ritmo. Mesmo assim, meu foco estava no camarote superior, onde o homem loiro, estava no centro de tudo. Ele parecia comandar a festa, cercado por mulheres que riam alto e outros homens que brindavam como se fossem donos do mundo. Puxei Marília pela mão enquanto cruzávamos o salão. Ela estava relutante, mas sabia que não ia conseguir me deter. Quando chegamos à entrada VIP, o segurança nos barrou imediatamente, cruzando os braços como se estivéssemos tentando entrar em um cofre. — Não podem passar sem pulseira. Antes que eu pudesse argumentar, vi Guero nos notar. Ele ergueu o copo, sorrindo de forma despreocupada, e fez um sinal com a mão. O segurança deu um passo para trás, abrindo caminho como se tivéssemos acabado de ganhar um passe mágico. Marília me lançou um olhar de alerta, mas eu apenas sorri, ajeitando a camiseta ainda ligeiramente úmida. Quando entramos no camarote, Guero se aproximou com um sorriso fácil, os braços abertos como se fosse nos receber com um abraço. Seu perfume amadeirado, misturado ao aroma do uísque que ele segurava, era inebriante. — Ah, você conseguiu se secar bem. Nem parece que estava molhada — ele disse, com a voz grave cortando o som ambiente enquanto os olhos verdes avaliavam cada detalhe meu. — Bom, o cheiro de uísque ainda ficou. E a mancha também — respondi, gesticulando para minha camiseta. Ele riu, e a risada era grave, quase musical. — Eu prometo que vamos resolver isso. Mas aceite minhas desculpas sinceras. Antes que eu pudesse responder, ele segurou minha mão e a beijou. Não era um beijo comum. Foi lento, controlado, como se quisesse que eu sentisse cada segundo daquele contato. Minha pele parecia pegar fogo, mas fiz o possível para não demonstrar. — Seu nome é…? — perguntei, tentando recuperar o controle da situação. — Pode me chamar de Guero. E você? — Ele inclinou a cabeça, com os olhos fixos nos meus como se mais nada no mundo existisse. — Edilena. E essa é minha prima, Marília — disse, puxando Marília para a conversa. Marília deu um sorriso tímido enquanto ele se virava para cumprimentá-la. — Marília, muito prazer — disse ele, beijando o rosto dela com a mesma elegância calculada. — Prazer... — Marília respondeu, desviando o olhar, claramente desconfortável. Entramos no camarote de Guero, o espaço era maior do que eu imaginava, decorado com sofás de couro branco e uma mesa central repleta de garrafas de bebidas caras, copos de cristal e bandejas. Mas o que chamava mais atenção não eram os acessórios de luxo, e sim, sacos plásticos com maconha, comprimidos coloridos espalhados como doces e carreiras de pó branco cuidadosamente alinhadas. Marília e eu trocamos um olhar tenso, e eu precisei respirar fundo para não deixar a expressão de desconforto transparecer. Guero, por outro lado, parecia absolutamente à vontade, como se estivesse em seu reino pessoal. — Venham, bebam o que quiserem. Fiquem à vontade — disse ele, apontando para a mesa enquanto fazia um gesto amplo. Seu sorriso despreocupado contrastava com o caos controlado ao nosso redor. Enquanto ele falava com um dos homens do camarote, um garçom surgiu quase instantaneamente, trazendo uma rodada de tequila. — Vamos, um brinde! — disse Guero, entregando os copos para mim e para Marília. O líquido dourado reluziu sob as luzes do camarote, e a energia no ar era intensa, quase palpável. Eu sabia que recusar o brinde seria estranho, então virei o copo em um único movimento, sentindo a tequila queimar minha garganta. Guero riu, claramente satisfeito, e encheu os copos novamente. — Mais uma! Não vamos parar agora! — insistiu ele, enquanto levantava o segundo copo. Dessa vez, virei mais devagar, sentindo o calor subir pelo meu rosto. Marília estava ao meu lado, tentando sorrir enquanto acompanhava o ritmo. Guero, entretanto, não parava. Ele tomou dois comprimidos da mesa e os engoliu com um gole de tequila, o sorriso em seu rosto ficando mais largo e os olhos mais brilhantes. Ele parecia estar em um estado de euforia que só crescia. — Vocês precisam experimentar. Isso aqui vai fazer a noite de vocês ficar ainda melhor — disse ele, estendendo a mão para os comprimidos. Eu balancei a cabeça, recusando com um sorriso forçado. — Não, obrigada. Não é a minha vibe. Marília fez o mesmo, cruzando os braços como se quisesse reforçar sua decisão. Guero deu de ombros, ainda sorrindo. — Como quiserem, mas estão perdendo. Eu conhecia ecstasy melhor do que queria. Meus irmãos eram praticamente especialistas em fabricar e distribuir aquilo na região. O dinheiro deles vinha desse tipo de coisa, mas eu sempre mantive distância, mesmo quando era tentador. Marília também sabia disso, e provavelmente sentia o mesmo desconforto que eu naquele momento. Apesar da atmosfera de hedonismo no camarote, algo na atitude de Guero me mantinha alerta. Ele era carismático, mas havia algo perigoso por trás daquele sorriso descontraído. Talvez fosse o modo como ele parecia sempre estar no controle, ou talvez fosse o contraste entre seu comportamento leve e os seguranças que permaneciam à vista, observando cada movimento ao redor. Naquele momento, percebi que estava fazendo uma aposta perigosa, mas Dmitri havia me forçado a entrar nesse jogo. E se Guero era a minha chance de escapar, eu precisava descobrir como usá-lo sem ser usada primeiro.EDILENA NARRANDO:EPÍLOGONossa lua de mel foi como um sonho. Viajamos para as Ilhas Cayman, para uma área privativa onde apenas dois funcionários estavam à nossa disposição, um casal simpático que preparava nossas refeições e cuidava de tudo o que precisássemos.O cenário era paradisíaco. O mar cristalino, a areia branquinha e as noites iluminadas pela lua tornavam tudo ainda mais perfeito. Eu e Güero nos pertencíamos de todas as formas possíveis. Fizemos amor na praia, no mar, no bangalô… todos os dias, como se o tempo fosse insuficiente para saciar o desejo que sentíamos um pelo outro.Eu estava viciada nele.Foi tanta intensidade que, quando percebi, havia esquecido de tomar meu anticoncepcional. Com os analgésicos e remédios que tomei após o acidente, minha cabeça estava uma bagunça, e esse detalhe simplesmente escapou. Mas o resultado daquela paixão avassaladora veio no mês seguinte, quando comecei a sentir enjoos matinais constantes.Minha mãe foi a primeira a suspeitar.— Filh
EDILENA NARRANDO:Eu só acreditei que realmente estava me casando com Güero quando dei o primeiro passo naquela passarela branca, estendida pelo jardim da fazenda. O sol se punha no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados e dourados, e o vento soprava suavemente, fazendo as pétalas das flores brancas dançarem ao redor dos convidados.Minha mãe segurava meu braço com firmeza, com o olhar carregado de emoção. Eu vestia um longo vestido justo até a cintura, com uma saia volumosa que me fazia sentir uma verdadeira princesa. As mangas eram de renda delicada, e o decote realçava minha silhueta com elegância. Nas mãos, um buquê de rosas brancas e cor-de-rosa, cujas pétalas exalavam um perfume suave. Meus cabelos estavam presos em cachos bem-feitos, e no topo da cabeça, repousava a tiara de diamantes que minha sogra me presenteou, um símbolo de acolhimento na família Rodríguez.E então, eu o vi.Güero me esperava no altar, de pé, impecável em seu terno branco, combinando com a cerimôni
GUERO NARRANDO:Eu não podia mais negar.Edilena mudou tudo em mim.Dizer isso em voz alta foi como tirar um peso dos ombros. Nunca fui o tipo de homem que falava sobre sentimentos, mas, com ela, tudo era diferente. Estava completamente louco e fascinado por aquela morena. Nem fodendo eu deixaria ela escapar.Sem pensar duas vezes, a pedi em casamento. Porque não me imaginava ao lado de mais ninguém.Dois meses. Esse foi o tempo que tivemos para organizar a cerimônia. Decidimos que seria na fazenda dos meus pais, um evento apenas para a família, o que já era muita gente. Meus avós paternos, maternos, tios, tias, primos e primas… Edilena ficou surpresa com o tamanho da lista, mas minha mãe fez questão de convidar todo mundo.Dessa vez, meus pais estariam presentes. E estavam felizes por isso, ainda mais por ser na fazenda, onde minha família sempre se reunia para grandes momentos.Antes de viajarmos, levei Celina comigo até a V&F Royal, a joalheria da minha prima Victoria. O prédio com
GUERO NARRANDO:Levantei tossindo, olhando para os destroços em chamas.Cadê Edilena?O cheiro de pólvora ainda impregnava o ar depois da explosão da Range Rover. Meu peito subia e descia rápido, com os olhos varrendo a cena caótica ao nosso redor. Eu só queria uma porra de um sinal de onde Edilena estava.Foi quando Igor se aproximou correndo, a expressão sombria.— Tem uma testemunha. — Ele arfou. — Disse que viu uma mulher e dois homens correndo pra floresta.Meu coração disparou.— VAMOS!Sem perder tempo, todos nós sacamos as armas que caíram e corremos em direção à densa mata que se estendia à nossa frente. Era como mergulhar direto na boca do inferno. O barulho dos nossos passos esmagando folhas secas e galhos ecoava, misturado ao farfalhar da vegetação sendo rasgada enquanto avançávamos. O sol filtrava entre as árvores altas, criando sombras traiçoeiras.Nacho ia na frente, olhos atentos ao chão, lendo os rastros como um maldito predador. De repente, ele parou.— Sangue. — Apo
GUERO NARRANDO:O maldito Dmitri teve a coragem de vir até minha cidade. Ele não só conseguiu encontrar os mercenários que contratei para roubar o dinheiro do ecstasy como também teve a audácia de levar Edilena.Quando meu celular tocou e vi o nome dela na tela, meu coração acelerou. Atendi, mas a voz do desgraçado me recebeu do outro lado da linha. No momento em que a chamada caiu, soquei o volante com força, sentindo o sangue ferver.— Que porra foi essa? — Nacho perguntou do banco do passageiro, franzindo a testa.— Dmitri. — Cuspi o nome como um veneno. — O filho da puta tá com a Edilena.Me virei para Igor no banco de trás, cerrando os punhos.— Você sabia que aquele desgraçado tava no México?— Claro que não, Guero! Se soubesse, já teria te avisado.Nacho puxou o telefone do bolso.— Olha pra frente, carajo, ou vamos bater!Voltei minha atenção para a avenida, respirando fundo para conter a raiva que fervia dentro de mim.— Puxa agora o rastreamento da Range Rover da Edilena! —
EDILENA NARRANDO:O celular começou a vibrar no console. Marilia.— Olha aí a puta grávida… — Dmitri riu, debochado.Meu corpo inteiro gelou. Ele sabia.— Como você entrou no meu carro, Dmitri?— Sou bandido, porra. Acha que nunca roubei um carro? Tenho chave mestra pra isso, sua burra.Ele soltou meus cabelos com força, me empurrando contra o encosto do banco.— Acho que tá na hora da gente avisar seu maridinho… — Ele manteve a arma firme contra minha cabeça. — Me dá seu telefone, agora.Hesitei por um segundo, mas o clique da arma engatilhando fez meu sangue congelar.Com as mãos trêmulas, peguei o celular no console e entreguei a ele. Dmitri procurou o nome de Guero na lista de contatos e apertou para ligar, colocando no viva-voz.Meu peito subia e descia rapidamente, minha respiração errática. Cada segundo parecia uma eternidade enquanto o telefone chamava.Dmitri sorriu de lado, com o olhar cruel.— Vamos ver se ele atende, né? Quero ouvir a voz desse desgraçado antes de botar







