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CAPÍTULO 09 - A PERGUNTA QUE NUNCA FEZ

last update publish date: 2026-07-25 07:44:37

A noite caiu silenciosa sobre a Fazenda Santa Helena.

Depois de um jantar simples preparado por dona Célia, esposa de Anselmo, Aurora e Gustavo decidiram caminhar até o lago. O céu estava completamente limpo, coberto por estrelas, exatamente como Gustavo lembrava da infância.

O vento balançava a água com suavidade.

Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.

Aurora caminhava devagar, segurando nas mãos as cartas de Augusto. Ainda tentava organizar tudo o que havia descoberto desde que chegara à fazenda.

Finalmente, sentaram-se no velho píer de madeira.

O mesmo onde Gustavo costumava pescar quando era menino.

— Faz tempo que o senhor não vinha aqui? — perguntou Aurora.

— Dezoito anos.

— Então dói voltar? — ela olhou para o pai.

— Dói... mas também cura. — sorriu sem olhar para ela.

O silêncio voltou.

Aurora observava o reflexo da lua na água, sentia que havia uma pergunta presa em sua garganta há muitos anos.

Nunca tivera coragem de fazê-la, talvez porque tivesse medo da resposta, talvez porque nunca tivesse encontrado o momento certo.

Até agora.

— Pai... — respirou fundo.

— Hum?

— Posso fazer uma pergunta?

— Você nunca precisou pedir permissão. — sorriu.

— Mas essa é diferente. — abaixou os olhos.

— Então faça. — ele virou o corpo em sua direção.

Aurora demorou alguns segundos, seu coração acelerava. Então, quase em um sussurro, perguntou:

— O senhor já se arrependeu de ter sido meu pai?

O mundo pareceu parar.

Gustavo ficou completamente imóvel, demorou alguns segundos até compreender o que havia acabado de ouvir.

— Aurora...

Ela rapidamente completou:

— Eu sei que parece uma pergunta estranha. — as lágrimas começaram a surgir — Mas... quando eu era pequena, o senhor trabalhava muito. Sempre viajava. Às vezes chegava tarde. Eu via as pessoas dizendo que o senhor era importante, que tinha uma empresa enorme para cuidar... — respirou fundo — E eu sempre pensei... será que, se eu não existisse, sua vida teria sido mais fácil?

Gustavo sentiu um aperto tão forte no peito que precisou fechar os olhos.

Durante dezoito anos, imaginou centenas de perguntas que a filha poderia fazer, mas nunca aquela.

— Olhe para mim. — pediu, segurando delicadamente as mãos dela.

Aurora levantou os olhos, as lágrimas escorriam pelo rosto.

— Escute com muita atenção o que vou dizer. — ele respirou profundamente — Antes de você nascer, eu sabia construir empresas. — fez uma pausa — Depois que você nasceu, aprendi a construir uma família. — Aurora permaneceu em silêncio — Você não tornou minha vida mais difícil. — sorriu com carinho — Você deu sentido à minha vida. — ela começou a chorar, Gustavo continuou — É verdade que trabalhei demais. — abaixou a cabeça — Perdi apresentações da escola, cheguei atrasado em alguns aniversários, desmarquei passeios porque havia reuniões importantes. Essas são escolhas das quais me arrependo profundamente.

— Eu nunca fiquei brava. — disse, apertando a mão dele.

— Mas eu fiquei. — ela o encarou — Porque um pai nunca esquece os momentos que perdeu com a filha. — a voz dele falhou pela primeira vez — Sabe qual é a maior fotografia que falta no álbum da minha vida? — Aurora balançou a cabeça — Uma em que eu estivesse sentado na primeira fila da sua apresentação de balé.

— O senhor lembra disso? — arregalou os olhos.

— Eu lembro de todas as vezes que falhei. — sorriu triste.

— Eu também lembro. — disse, enxugando as lágrimas.

— Eu sei. — ele abaixou a cabeça.

— Mas também lembro que, quando cheguei em casa, o senhor estava me esperando com um buquê de flores e ainda me fez dançar na sala. — lembrou, sorrindo.

— Você estava usando a sapatilha. — riu entre as lágrimas.

— E o senhor pisava no meu pé o tempo inteiro.

Os dois riram, o peso daquela lembrança parecia menor agora.

— Sabe por que eu nunca fiquei triste? — perguntou, segurando o rosto do pai.

— Por quê?

— Porque, mesmo quando o senhor errava, eu nunca duvidei que era amada. — Gustavo não conseguiu conter as lágrimas, ela continuou — O senhor pode não ter estado em todos os momentos... — sorriu — Mas, quando estava, fazia cada minuto valer por um dia inteiro.

O empresário respeitado, admirado por milhares de funcionários, desapareceu naquele instante.

Ali havia apenas um pai, um homem emocionado diante da filha.

— Obrigado. — ele a abraçou com força.

— Pelo quê? — sorriu.

— Por nunca medir meu amor pelos meus erros.

— Aprendi isso com a mamãe. — disse, fechando os olhos.

Os dois ficaram abraçados por um longo tempo.

O vento soprava suavemente sobre o lago.

Depois de alguns minutos, Aurora quebrou o silêncio novamente.

— Posso fazer mais uma pergunta?

— Acho que essa viagem vai ser cheia delas. — sorriu.

— O senhor perdoou o vovô completamente?

A expressão de Gustavo mudou, ele olhou para o céu estrelado e demorou para responder.

— Durante muito tempo, achei que sim. — respirou fundo — Mas voltar para esta fazenda me fez perceber que ainda existem feridas que nunca tive coragem de tocar.

— Então talvez essa jornada não seja só para mim. — Aurora segurou sua mão.

Gustavo olhou para a filha, ela tinha os olhos de Maytê. Mas, naquele instante, havia neles uma maturidade que ele nunca havia percebido.

Ela sorriu.

— Talvez o vovô tenha preparado tudo isso porque sabia que algumas respostas o senhor só conseguiria encontrar comigo ao seu lado.

Gustavo sentiu um nó na garganta.

Pela primeira vez desde o início da viagem, compreendeu que Augusto não havia deixado um caminho apenas para Aurora.

Também havia deixado uma oportunidade para que ele encerrasse, definitivamente, o capítulo mais doloroso de sua própria vida.

Enquanto voltavam lentamente para a casa principal, Gustavo passou o braço sobre os ombros da filha.

Aurora encostou a cabeça nele, exatamente como fazia quando era criança.

Naquela noite, nenhum dos dois encontrou todas as respostas, mas encontraram algo ainda mais importante.

A certeza de que, independentemente do passado, caminhariam juntos até o fim daquela jornada e isso era suficiente para enfrentar qualquer verdade que ainda estivesse escondida nas cartas de Augusto Ferraresi.

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