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CAPÍTULO 40 - PROMESSA NO SILÊNCIO

last update Fecha de publicación: 2025-12-14 20:19:50

O barulho da ambulância improvisada — a caminhonete velha adaptada da cidade — quebrou a manhã como um trovão fora de hora. O veterinário que sempre ajudava a fazenda veio junto, mas dessa vez não era animal que ele avaliaria. Seu olhar recaiu sobre o corpo frágil de Seu Anselmo.

— Ele precisa ser internado, Isa. — disse com firmeza, após examinar o velho na sala — Não é só cansaço. O coração dele está gritando há tempos.

A frase caiu como um golpe. Isabella sentiu as pernas fraquejarem e Rafae
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  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 150 - O QUE NUNCA SE PERDE

    A noite caiu devagar, como se soubesse que aquele era um momento que não devia ser apressado. A casa estava cheia de silêncio — um silêncio carregado, pulsante, desses que antecedem algo definitivo. Não havia tristeza ali. Havia intensidade.Isabella estava sentada na varanda, as mãos apoiadas no colo, olhando o céu como fizera tantas vezes ao longo da vida. As estrelas surgiam uma a uma, tímidas, mas constantes. O vento trazia um cheiro distante de terra molhada, mesmo tantos anos depois da fazenda ter ficado para trás. Algumas raízes nunca soltam o mundo completamente.Rafael apareceu atrás dela, sem fazer barulho. Sentou-se ao seu lado, como sempre fazia, e por um instante nenhum dos dois falou. Não precisavam. O tempo os ensinara que há sentimentos grandes demais para caberem em palavras imediatas.— Ela vai amanhã. — Isabella disse por fim, a voz firme, mas atravessada por algo fundo.Rafael assentiu devagar.— Vai. — respondeu — E vai voltar diferente. Como todos nós voltamos.I

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 149 - RAÍZES QUE ANDAM

    Clara abriu o diário com cuidado, como se o papel pudesse se assustar com movimentos bruscos. A capa azul já não era nova; havia marcas de dedos, uma dobra antiga no canto, um adesivo desbotado que ela colara anos atrás sem saber por quê. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e respirou fundo antes de escrever. Não porque faltassem palavras — mas porque havia muitas.“Hoje eu senti vontade de lembrar.”Escreveu devagar, a letra um pouco torta no começo, como sempre ficava quando algo dentro dela se mexia. A casa estava silenciosa naquela tarde. A mãe organizava papéis na sala, o pai falava baixo ao telefone no escritório. Clara gostava daquele silêncio — não o de ausência, mas o de pertencimento. Ainda assim, havia um ruído dentro dela, feito vento antes da chuva.“Minha infância não foi barulhenta. Foi espaçosa.”Sorriu sozinha.Lembrou-se da fazenda como quem lembra de um cheiro. Não vinha inteira, não vinha em imagens perfeitas — vinha em sensações. O chão frio pela manhã, o sol esqu

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    A casa estava silenciosa naquela noite. Não o silêncio vazio, mas aquele que só existe quando tudo está no lugar certo. Isabella apagou a última luz da cozinha, caminhou devagar pelo corredor e parou à porta do quarto de Clara. A menina — já não tão menina — dormia de lado, livros espalhados pela escrivaninha, um caderno aberto com anotações do vestibular, o abajur ainda aceso por descuido.Isabella entrou sem fazer ruído e apagou a luz. Ficou ali alguns segundos, observando o contorno do rosto da filha na penumbra. Era impossível não ver, naquele traço mais firme do que antes, o bebê que um dia coube inteiro em seus braços. O tempo não havia pedido permissão. Apenas passara — e levara consigo versões antigas de todos eles.Fechou a porta com cuidado e seguiu para a varanda.Rafael estava sentado ali, em silêncio, olhando o céu. O violão repousava ao lado da cadeira, intocado. Isabella sentou-se ao lado dele, encostando o ombro no dele como fizera tantas vezes ao longo dos anos.— Tá

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    O camarim cheirava a madeira antiga, spray de cabelo e nervosismo contido. Rafael estava sentado diante do espelho, o violão apoiado entre as pernas, os dedos pousados nas cordas sem pressa. Do lado de fora, o som da plateia já formava um corpo próprio — vozes misturadas, passos, expectativa. O último show da turnê sempre tinha um peso diferente. Não era despedida ainda, mas também não era apenas continuidade.Isabella estava sentada no sofá estreito, folheando distraidamente o programa do espetáculo. Clara, mais afastada, mexia no celular, fingindo desinteresse — fingimento que Rafael conhecia desde o nascimento dela.— Tá nervoso? — Isabella perguntou, sem levantar os olhos.— Não. — respondeu, sorrindo de canto — Tô inteiro.Ela entendeu. Inteiro era mais do que pronto. Era alinhado.Clara levantou o olhar.— Pai… — hesitou — É verdade que esse é o último mesmo?Rafael virou-se para ela, sério e tranquilo.— É o último dessa fase.Ela assentiu, absorvendo.— E depois?Ele respirou

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 146 - O TEMPO QUE ANDA SOZINHO

    Rafael acordou antes do sol naquele dia, não por barulho, nem por compromisso — acordou porque o pensamento não dormira. Ficou alguns minutos deitado, olhando o teto, ouvindo a respiração da casa. Isabella dormia ao seu lado, tranquila, como quem já aprendera a confiar no fluxo das coisas. Ele invejou, com carinho, aquela serenidade.Levantou-se devagar, vestiu a camisa velha e saiu para a varanda. O céu ainda estava indeciso entre a noite e o dia, pintado de tons pálidos. O cheiro de terra úmida trouxe lembranças antigas, mas foi outra imagem que insistiu em ocupar seu peito: Clara pequena, correndo desajeitada pelo terreiro, caindo, levantando, rindo sem medo do chão. Agora ela falava de cidade, de amigos, de outros mundos.Rafael sentou-se no degrau mais baixo da varanda e passou a mão pelo rosto, não havia dor ali, havia deslocamento. Como quando a música muda de tom sem aviso, e o músico precisa acompanhar para não desafinar.— Quando foi que você ficou grande assim? — murmurou p

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 145 - ENTRE O CAMPO E O MUNDO

    A manhã começou com o cheiro de pão assando e o som distante de Clara conversando sozinha no quintal, como fazia quando estava pensando demais para a própria idade. Isabella percebeu antes mesmo do pedido, mães aprendem a reconhecer quando o silêncio vem carregado de intenção.Clara entrou na cozinha arrastando a cadeira e sentou-se à mesa, o queixo apoiado nas mãos.— Mãe…Isabella continuou mexendo o café, fingindo desatenção.— Quando começa assim, geralmente vem coisa grande depois.— Não é grande. — Clara disse rápido — É… importante.Isabella virou-se, apoiou o quadril na pia e cruzou os braços, já sorrindo.— Diga, dona importância.Clara respirou fundo, como se estivesse prestes a anunciar algo histórico.— Eu queria voltar pra cidade grande. Pelo menos por um tempo.Isabella arqueou a sobrancelha.— Voltar… como assim?— Pra BH. — explicou — Tô com saudade da escola, das meninas, da rotina. Aqui é bom, mas… — ela deu de ombros — Às vezes parece que o mundo fica pequeno.Isabe

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