FAZER LOGINAlguns dias antes…
Connor
Alguns dias antes…O cheiro da lenha queimando se misturava ao aroma de pão fresco naquela manhã, mas não era o calor da padaria que me deixava inquieto. Era o vento. Ele soprava diferente. Mais frio, mais silencioso. Como se até a floresta estivesse prendendo a respiração... ou escondendo um segredo antigo.Minha tarefa de hoje era ajudar na padaria da alcateia. Estava empilhando sacos de farinha nos fundos quando ouvi meu nome ser chamado: — Connor! — Era o Erik, meu amigo de infância. Estava pálido, ofegante. — Precisamos conversar. Agora. Larguei tudo sem pensar duas vezes e o segui até o celeiro, onde ninguém poderia nos ouvir. — O que aconteceu? — perguntei, com o coração acelerado. — A patrulha dos arredores voltou ontem à noite… ou o que restou dela. — A voz de Erik vacilou. — Apenas três sobreviveram. Um deles sem uma perna. Outro sem um braço. — Como assim? O que fizeram com eles? — Falaram em bruxas… mas também em lobos. Tudo está confuso. Sangue, gritos… eles não conseguiram explicar, o pavor os domina. O Alpha convocou uma reunião de emergência.Um arrepio gelado percorreu minha espinha.O Alpha da alcateia era um homem de poucas palavras, severo e rude. Muitos o chamavam de “Demônio dos Lobos”. Nunca gostei do apelido. Sempre o vi como um homem justo, alguém que cuidava dos seus. Alguns diziam que ele escondia a verdadeira face, principalmente de mim. A de um homem ambicioso, que não mede consequências para tomar o que deseja. Olhei para Erik, sentindo o peso do que estava por vir:— Isso é impossível. As bruxas estão confinadas no Círculo Sombrio há anos. Elas não têm poder fora dali. Só podem ser lobos… mas de que alcateia? Quem ousaria nos enfrentar? Enfrentar os Pelo Negro?Espiei pela fresta do celeiro. A praça estava cheia de gente sorrindo, vivendo… sem imaginar que a morte marchava em sua direção.Erik seguiu meu olhar e disse:— Alguns querem evacuar. Outros querem lutar. Ninguém sabe de quem ou de onde eles virão… só que estão vindo. E rápido.Assenti, perdido nos próprios pensamentos. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele falou:— Vamos logo. O Alpha está... diferente. Mais nervoso.Suspirei. O Alpha nervoso nunca era bom sinal.Seguimos apressados, tentando entender o caos que se aproximava.— E se a gente não sobreviver? — ele perguntou, em voz baixa.Foi naquele instante que percebi: eu nunca fui um guerreiro. Meu pai sempre me criticou por isso. Mas sou bom em ouvir. Em observar. Em desaparecer sem ser notado.Talvez estivesse na hora de ser outra coisa.
Um fantasma.
Um espião.
… Na reunião, sentei-me ao lado do meu pai. Ali estava o Alpha. Ele, com a voz firme, o olhar em brasa:— Os anos de paz acabaram. Estamos sendo atacados. — O salão silenciou. — Segundo minhas fontes, o ataque veio da alcateia Vale Verde.— Mas… por quê? O que eles querem? — perguntei, sem conseguir me conter.O olhar duro do meu pai me atravessou como uma lâmina.— O que acha que eles querem? Nossas terras. Nossas mulheres. Nossos frutos. Eles querem tudo. Mas esta alcateia tem um Alpha. E ela não será tomada! A sala explodiu em gritos de guerra. Punhos cerrados. Fúria nos olhos.Mas eu vi o que ninguém mais parecia ver. Algo naquela fúria parecia... ensaiado. Uma faísca proposital para incendiar uma guerra.Sem contar que o nome diz tudo, Vale Verde, eles são bem mais prósperos que nós.Depois da reunião, fui até meu Alpha, sem esperar permissão:— Me deixe investigar antes de qualquer decisão. Não podemos agir baseados em suposições. Muitas vidas serão perdidas, de ambos os lados, se estivermos errados.— Você é bom demais, Connor. Precisa ser mais firme se quiser ser meu sucessor um dia.— Não é sobre firmeza. É sobre justiça. E se vidas estão em risco, eu me importo. Você deveria se importar também. É o seu povo.Ele me encarou por um tempo. Algo escuro passou em seu olhar. Rápido, mas eu vi. Caminhando até o cantil de água, ele respondeu:— Vá até Vale Verde. Observe. Descubra o que tramam. E volte… só com a verdade.Mas o que ele não disse… é que, se a verdade não servisse aos seus planos, ele mesmo a enterraria. …Naquela mesma noite, escrevi um bilhete simples, mas carregado de sentimento, para minha irmã Egohen, que vivia com a alcateia Pelo Branco, é nossa aliada. Aliança forçada, porque minha irmã foi dada como moeda de troca."Se algo me acontecer, não me procure. Apenas viva. E lembre-se de que eu te amo."“Em uma investigação, tudo pode acontecer.” pensei enquanto dobrava o bilhete.Preparei a mochila. Peguei o mapa. Precisava sair antes que a noite caísse. ...Fazia dois dias que eu estava instalado nos fundos da padaria de um primo distante, na cidade vizinha de Vale Verde. Ele era humano, mas havia nele um traço antigo. Um instinto adormecido, um sexto sentido que nunca se desenvolveu por completo. O laço com o lobo era fraco, quase esquecido nas gerações passadas. Por isso, nunca se transformou. Ainda assim... ele reconhecia o que eu era.Desconfiava da minha natureza, mas nunca teve coragem de perguntar.Ali, decidi agir com cautela: trabalhar, conquistar confiança, observar.Aprender os caminhos do lugar. Entrar e sair sem ser percebido.Os empregados acabam ouvindo os segredos mais sombrios dos patrões.E eu estava disposto a escutar cada um deles, por mais sombrios que fossem.Ontem, pela manhã, caminhei pelos arredores da vila. Tudo parecia calmo.À tarde, desenhei um mapa para me guiar com mais segurança.Hoje, acordei cedo. Meu primo foi à capital buscar suprimentos para a padaria, então ficou por minha conta abrir o lugar. Algo mudou. O ar estava mais leve.A luz atravessou a vitrine e, como se respondesse a um chamado antigo, senti Brutus, meu lobo, murmurar dentro de mim, vindo das profundezas da alma:‘Nossa parceira.’Fiquei paralisado.
Querido(a) leitor(a),Quero agradecer primeiramente a Deus por me permitir escrever mais uma história.Também quero deixar aqui meu mais sincero agradecimento por ter caminhado comigo pelos capítulos de Luna Perdida: A Escrava do Inimigo. Cada capítulo escrito carregou uma parte de mim, mas foi você, com sua leitura e emoção, que deu vida a esta história.Peço desculpas por eventuais falhas nas postagens. Conciliar o trabalho, a casa e a família muitas vezes foge do nosso planejado, e ainda enfrentei dias em que minha doença (Lúpus) resolveu se manifestar, tornando impossível escrever. Mesmo assim, segui em frente, porque histórias como esta merecem um final feliz.Um agradecimento especial à amiga, beta e escritora Flávia Saldanha, que esteve ao meu lado durante todo o processo, oferecendo sua ajuda, apoio e incentivo. Sua presença fez toda a diferença nesta jornada.Agradeço também à minha família, que sempre acreditou em mim e apoiou meu sonho, estando comigo nos momentos de inspira
HoopHoje, Aurora completa quatro anos e será sua primeira transformação! O costume é fazer a primeira transformação no início do dia, para que a primeira transformação seja iluminada pelos raios de sol, e quando voltar à forma humana, a lua a abençoa com a vida longa de um transmorfo.O vento da manhã acariciava a clareira, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das flores silvestres que se misturavam ao perfume do novo dia. Os raios de sol, ainda tímidos, caíam sobre nós como um manto dourado, iluminando cada rosto com delicadeza. Pela primeira vez em anos, senti estarmos exatamente onde deveríamos estar.Connor estava ao meu lado, segurando minha mão com firmeza. Seu olhar estava profundo, carregado de amor e proteção. Aurora estava à nossa frente, os olhos brilhando de emoção e ansiedade. Ela respirava fundo, ansiosa pela sua primeira transformação.— Mamãe, acha que consigo? — Aurora perguntou, a voz trêmula de emoção.Eu sorri, apertando sua mão. — Você vai conseguir. Só
Hoop. ‘Oi, Hoop, quanto tempo!’ Cristal?’ pergunto, surpresa. ‘Sua família está crescendo… e com ela eu voltarei para sua vida, não como sua, mas como a loba de sua filha! Prometo cuidar dela como cuidei de você!’ Não tive tempo de responder, acordei com o sol ainda se escondendo atrás das árvores quando, com um leve desconforto na barriga. Isso foi um sonho? Ou uma visão? Coloco as mãos sobre minha barriga, a sensação persistia, e algo dentro de mim parecia diferente. Algo que eu ainda não sabia explicar. Decidi, então, procurar a xamã. Se havia alguém que poderia me dar respostas sem julgamento, era ela. Caminhei até a clareira onde ela me esperava, sentindo cada passo mais ansioso que o anterior. — Hoop, minha filha — disse a xamã, com aquele sorriso sereno que sempre me acalmava. — Vejo preocupação em seus olhos. O que a traz até mim tão cedo? Respirei fundo e toquei minha barriga, sentindo uma mistura de medo e esperança. — Preciso saber... algo dentro de mim mud
Hoop A celebração aconteceu sob a Lua cheia, que reinava alta e imponente no céu como se tivesse sido convocada especialmente para aquele momento único da nossa vida. O círculo sagrado brilhava com a dança das tochas e dos cristais espalhados pela relva, refletindo a luz prateada que parecia abençoar nossa união. Nossa alcateia não estava sozinha; aliados de outros clãs, o conselho e seus acompanhantes cercavam o círculo, todos em silêncio, como se até mesmo o vento tivesse parado para ouvir o que estava prestes a acontecer. A xamã surgiu no centro, envolta em mantos prateados que refletiam a luz da Lua, como se a própria Deusa a tivesse vestido. Seus passos eram lentos, quase etéreos, e quando ela ergueu os braços, o ar pareceu vibrar, carregado de energia. Sua voz, firme e, ao mesmo tempo, doce, ecoou pelo campo. , Seus cantos não eram apenas sons: eram ventos, eram águas, eram fogo e terra. Cada palavra tinha peso, cada verso era uma invocação que nos envolvia por dentro. Eu pod
Connor A Lua mal havia tomado o céu quando senti algo estranho percorrer meu corpo. Estava entre os convidados, ouvindo conversas que não me interessavam, quando o elo me puxou de repente. Era como se um fio invisível me chamasse, ardendo no fundo do peito. ‘Ela precisa de nós’ a voz de Brutus rugiu dentro da minha mente. ‘Hoop está na tenda, se preparando’ retruquei, tentando controlar a ansiedade que crescia. ‘Ela está bem.’ ‘Não está.’ O lobo insistiu, firme, quase impaciente. ‘O coração dela não está em paz. Vá até ela.’ Meu corpo inteiro vibrava. O cheiro da noite parecia pesado demais, os sons ao redor abafados. Eu não conseguiria respirar em paz enquanto não a visse. Brutus estava certo. Não havia razão, não havia protocolo que segurasse meu instinto. Meus passos foram firmes e rápidos até a tenda. E quando me aproximei, ouvi a voz dela. Forte. Dolorida. — Naquele dia, Tom, eu perdi tudo o que acreditava ser importante. Fiquei destruída por dentro e por fora. E com essa
HoopO cheiro de flores silvestres misturado ao das tochas queimando folhas de alecrim preenchia o ar da tenda. Eu estava sentada diante de um espelho antigo, observando meu reflexo com um misto de incredulidade e gratidão. Nunca pensei que viveria este dia. O dia em que meu nome e o de Connor, o filho do inimigo do meu pai, seriam unidos diante da Deusa, diante da alcateia, diante de todos.Minhas mãos tremiam levemente enquanto ajeitava a coroa de cristais e folhas no cabelo. O tecido branco que cobria meu corpo parecia brilhar à luz das tochas, e mesmo assim, por dentro, eu ainda sentia as cicatrizes que ninguém via. Eu não era a mesma Hoop de tempos atrás. Eu tinha rachaduras, marcas, perdas que o tempo jamais apagará. Mas hoje... hoje eu estava em pé.E foi nesse momento, quando meu coração se enchia de expectativa pelo futuro, que o passado decidiu entrar.A voz dele cortou o silêncio da tenda como uma lâmina.— Hoop...Meu corpo inteiro ficou rígido. Eu conhecia aquele timbre.







