FAZER LOGINCrystal (Hoop)
Caminhávamos para longe dos muros da alcateia. Eu e Meg, já fora do alcance dos patrulheiros noturnos. Ela mordeu uma maçã e me entregou outra.
— E agora? Para onde vamos? — perguntou.
— Ainda não sei — murmurei, com os olhos no chão. — Só quero ficar o mais longe possível daqui. De toda essa dor.
Ela me olha com semblante triste. Se fosse outra pessoa eu me incomodaria, mas é Meg, minha melhor amiga e irmã... sei que ela sente a minha dor, assim como eu sinto a dela quando algo acontece.
— Depois que te deixei no quarto... fui falar com o Tom — diz, encarando o nada.
Suspirei.
— Não devia ter feito isso.
— Devia, sim. Ele foi um babaca escroto com você. E outra, você teria feito o mesmo.
Não respondi, pois eu teria mesmo.
As palavras dela ecoaram dentro de mim. A decepção era um nó na garganta, mas… o que eu podia fazer? Minha aparência assustava até as crianças. Não dava para culpá-lo por proteger a alcateia.
O silêncio se fez pesado. Até que Meg o quebrou, num tom quase sussurrado:
— Como é... não sentir sua...?
Levantei os olhos para ela, sentindo o peso daquela pergunta.
— Minha loba?
Ela apenas confirma com a cabeça.
— É como se tivesse perdido uma parte de mim. Como estar incompleta o tempo todo. Triste. Doloroso. Solitário.
— Sinto muito — murmurou, com uma sinceridade que me tocou.
O clima está tenso, então decido mudar de assunto.
— Estava pensando em mudar de nome. Crystal. Em homenagem a ela. O que acha?
— Amei a ideia. Vou mudar o meu também. Sempre gostei de Melanie — Meg fala, com um sorriso que me fez querer abraçá-la.
— Então está decidido. Somos oficialmente batizadas pela lua nova — declaro, apontando para a lua tímida no céu. — Mas só usaremos nossos nomes verdadeiros quando estivermos sozinhas.
Meg assentiu, mas seu olhar ficou sério.
— Por que a deusa fez isso com você? — sua voz era mais dor do que pergunta. — Você sempre foi tão leal à alcateia… aos costumes antigos. Sempre focada, disciplinada, treinava para ser Luna. A mais comprometida, a que mais incentivava a seguir as tradições que muitas alcateias nem sequer conhecem...
— Tem coisas que não têm resposta, Meg. Talvez eu precise passar por isso. Ou... não sei. Tento não pensar.
Ela mordeu os lábios, os olhos ainda cheios de indignação.
— E quanto ao seu rosto? — perguntou, hesitante. — Os humanos não vão entender. Alguns podem apoiar as bruxas… mas outros vão te condenar só por existir.
— Usei maquiagem para disfarçar. Mesmo com ela, eu consigo ver as marcas da maldição… — puxei o capuz para trás. — Você consegue ver?
Meg me olhou com atenção e carinho.
— Não. Você está linda. Como sempre foi.
Tentei sorrir, mesmo sabendo que, por baixo da pintura, ainda era uma aberração.
Caminhamos por quilômetros até avistarmos uma pequena cidade. O cansaço pesava em mim. Minha força de loba se foi com a Cristal, e a fragilidade humana me castigava a cada passo. Mas o silêncio da estrada me acolhia mais do que o barulho dentro da minha mente.
— Acho melhor comprarmos algo para comer e seguirmos viagem. Essa cidade é muito próxima da alcateia. Assim que perceberem nosso sumiço, meu pai vai mandar soldados atrás de nós — falei, observando os arredores.
— Concordo. Olha, tem uma padaria abrindo ali — disse Meg, apontando.
Entramos. Um homem alto, moreno, de olhos azuis intensos, nos atendeu com um sorriso gentil. Havia algo nele… calmo, acolhedor. Um contraste gritante com o caos que eu carregava por dentro.
…
Connor
Duas mulheres entraram na padaria naquela manhã silenciosa, mas apenas uma prendeu minha atenção.
Ela era como o céu antes da tempestade: silenciosa, intensa, quase irreal. Os cabelos loiros, dourados como o sol em sua última luz, caíam em ondas soltas, escondendo parte do rosto. E os olhos… pela deusa da Lua, aqueles olhos! Um tom amarelo-esverdeado impossível de esquecer.
Meu coração disparou. Senti, com uma certeza que não vinha da razão, que ela era minha. Minha parceira. Minha metade. Quis dizê-lo em voz alta, sem medo, sem reservas. Como se meu lobo gritasse, enfim, por algo que nunca soube que esperava.
Brutus rugiu dentro de mim, não em alerta, mas em êxtase.
‘É ela.’‘Ela é nossa.’Mas a euforia virou confusão.
‘Não sinto a loba dela. Como isso é possível? Ela é nossa, mas está... vazia'… murmurou Brutus, inquieto.Tentei manter o foco.
‘Talvez você esteja empolgado demais, Brutus.’ Tentei brincar, disfarçando a angústia que me apertava o peito. Mas a dúvida persistia. E o vazio também.Ela não reagia. Não me olhava como quem reconhece um elo sagrado entre almas. Nenhum sinal. Nenhuma conexão. E, pior, eu não sentia o cheiro da loba nela. Só um traço fraco, distante, quase imperceptível. Aquela essência que deveria gritar dentro de mim... simplesmente não estava lá.
‘Isso não faz sentido.’ Brutus resmungou, cada vez mais inquieto.
A observei em silêncio. Os dedos dela tremiam. O olhar era atento, como quem esperava o pior a qualquer momento. Assombrado. Quando estendi o pacote com os produtos, ela evitou qualquer contato visual. Capuz puxado para frente, cabelo cobrindo o rosto, a cabeça baixa como se o mundo lá fora fosse perigoso demais.
Mas por que uma garota tão linda se esconderia assim?
Tudo dentro de mim queria tocá-la. Afastar as madeixas douradas, olhar dentro dos olhos dela e reivindicar o que era meu por direito. Mas como fazer isso, se ela sequer me reconhecia?
Movido por um impulso incontrolável, toquei seu braço com suavidade. A pele dela era gelada, não quente como a de uma loba.
— Qual o seu nome? — perguntei.
Ela hesitou, depois respondeu:
— Crystal. E o seu? — Connor. — É um prazer te conhecer, Connor. Mas precisamos ir agora.— Para onde vão? — arrisquei perguntar, mesmo sem saber por quê.
— Não te interessa, grandão — disse a amiga, ríspida, puxando-a para fora.
Crystal.
O nome ficou ecoando na minha mente. Soava certo e errado ao mesmo tempo. Havia algo ali, algo fora do lugar. Eu não sabia o quê, nem o porquê, mas meu instinto gritava que tinha algo muito, muito errado.
Ela se afastou. E Brutus rosnou dentro de mim, furioso:
‘Você deixou nossa parceira ir embora!’
‘O que poderia fazer? Ela não nos reconheceu e temos uma missão, lembra? Uma alcateia inteira depende de nós’
‘Mas ela é nossa parceira!’
E então, silêncio. Brutus se calou abruptamente, rompendo o elo mental com uma força que doeu mais do que deveria.
Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Eu tinha um dever. Um compromisso com minha alcateia.
E Crystal, se é que esse era mesmo seu nome, não me reconheceu.
Ou talvez… talvez tenha reconhecido, mas não soube como reagir.Querido(a) leitor(a),Quero agradecer primeiramente a Deus por me permitir escrever mais uma história.Também quero deixar aqui meu mais sincero agradecimento por ter caminhado comigo pelos capítulos de Luna Perdida: A Escrava do Inimigo. Cada capítulo escrito carregou uma parte de mim, mas foi você, com sua leitura e emoção, que deu vida a esta história.Peço desculpas por eventuais falhas nas postagens. Conciliar o trabalho, a casa e a família muitas vezes foge do nosso planejado, e ainda enfrentei dias em que minha doença (Lúpus) resolveu se manifestar, tornando impossível escrever. Mesmo assim, segui em frente, porque histórias como esta merecem um final feliz.Um agradecimento especial à amiga, beta e escritora Flávia Saldanha, que esteve ao meu lado durante todo o processo, oferecendo sua ajuda, apoio e incentivo. Sua presença fez toda a diferença nesta jornada.Agradeço também à minha família, que sempre acreditou em mim e apoiou meu sonho, estando comigo nos momentos de inspira
HoopHoje, Aurora completa quatro anos e será sua primeira transformação! O costume é fazer a primeira transformação no início do dia, para que a primeira transformação seja iluminada pelos raios de sol, e quando voltar à forma humana, a lua a abençoa com a vida longa de um transmorfo.O vento da manhã acariciava a clareira, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das flores silvestres que se misturavam ao perfume do novo dia. Os raios de sol, ainda tímidos, caíam sobre nós como um manto dourado, iluminando cada rosto com delicadeza. Pela primeira vez em anos, senti estarmos exatamente onde deveríamos estar.Connor estava ao meu lado, segurando minha mão com firmeza. Seu olhar estava profundo, carregado de amor e proteção. Aurora estava à nossa frente, os olhos brilhando de emoção e ansiedade. Ela respirava fundo, ansiosa pela sua primeira transformação.— Mamãe, acha que consigo? — Aurora perguntou, a voz trêmula de emoção.Eu sorri, apertando sua mão. — Você vai conseguir. Só
Hoop. ‘Oi, Hoop, quanto tempo!’ Cristal?’ pergunto, surpresa. ‘Sua família está crescendo… e com ela eu voltarei para sua vida, não como sua, mas como a loba de sua filha! Prometo cuidar dela como cuidei de você!’ Não tive tempo de responder, acordei com o sol ainda se escondendo atrás das árvores quando, com um leve desconforto na barriga. Isso foi um sonho? Ou uma visão? Coloco as mãos sobre minha barriga, a sensação persistia, e algo dentro de mim parecia diferente. Algo que eu ainda não sabia explicar. Decidi, então, procurar a xamã. Se havia alguém que poderia me dar respostas sem julgamento, era ela. Caminhei até a clareira onde ela me esperava, sentindo cada passo mais ansioso que o anterior. — Hoop, minha filha — disse a xamã, com aquele sorriso sereno que sempre me acalmava. — Vejo preocupação em seus olhos. O que a traz até mim tão cedo? Respirei fundo e toquei minha barriga, sentindo uma mistura de medo e esperança. — Preciso saber... algo dentro de mim mud
Hoop A celebração aconteceu sob a Lua cheia, que reinava alta e imponente no céu como se tivesse sido convocada especialmente para aquele momento único da nossa vida. O círculo sagrado brilhava com a dança das tochas e dos cristais espalhados pela relva, refletindo a luz prateada que parecia abençoar nossa união. Nossa alcateia não estava sozinha; aliados de outros clãs, o conselho e seus acompanhantes cercavam o círculo, todos em silêncio, como se até mesmo o vento tivesse parado para ouvir o que estava prestes a acontecer. A xamã surgiu no centro, envolta em mantos prateados que refletiam a luz da Lua, como se a própria Deusa a tivesse vestido. Seus passos eram lentos, quase etéreos, e quando ela ergueu os braços, o ar pareceu vibrar, carregado de energia. Sua voz, firme e, ao mesmo tempo, doce, ecoou pelo campo. , Seus cantos não eram apenas sons: eram ventos, eram águas, eram fogo e terra. Cada palavra tinha peso, cada verso era uma invocação que nos envolvia por dentro. Eu pod
Connor A Lua mal havia tomado o céu quando senti algo estranho percorrer meu corpo. Estava entre os convidados, ouvindo conversas que não me interessavam, quando o elo me puxou de repente. Era como se um fio invisível me chamasse, ardendo no fundo do peito. ‘Ela precisa de nós’ a voz de Brutus rugiu dentro da minha mente. ‘Hoop está na tenda, se preparando’ retruquei, tentando controlar a ansiedade que crescia. ‘Ela está bem.’ ‘Não está.’ O lobo insistiu, firme, quase impaciente. ‘O coração dela não está em paz. Vá até ela.’ Meu corpo inteiro vibrava. O cheiro da noite parecia pesado demais, os sons ao redor abafados. Eu não conseguiria respirar em paz enquanto não a visse. Brutus estava certo. Não havia razão, não havia protocolo que segurasse meu instinto. Meus passos foram firmes e rápidos até a tenda. E quando me aproximei, ouvi a voz dela. Forte. Dolorida. — Naquele dia, Tom, eu perdi tudo o que acreditava ser importante. Fiquei destruída por dentro e por fora. E com essa
HoopO cheiro de flores silvestres misturado ao das tochas queimando folhas de alecrim preenchia o ar da tenda. Eu estava sentada diante de um espelho antigo, observando meu reflexo com um misto de incredulidade e gratidão. Nunca pensei que viveria este dia. O dia em que meu nome e o de Connor, o filho do inimigo do meu pai, seriam unidos diante da Deusa, diante da alcateia, diante de todos.Minhas mãos tremiam levemente enquanto ajeitava a coroa de cristais e folhas no cabelo. O tecido branco que cobria meu corpo parecia brilhar à luz das tochas, e mesmo assim, por dentro, eu ainda sentia as cicatrizes que ninguém via. Eu não era a mesma Hoop de tempos atrás. Eu tinha rachaduras, marcas, perdas que o tempo jamais apagará. Mas hoje... hoje eu estava em pé.E foi nesse momento, quando meu coração se enchia de expectativa pelo futuro, que o passado decidiu entrar.A voz dele cortou o silêncio da tenda como uma lâmina.— Hoop...Meu corpo inteiro ficou rígido. Eu conhecia aquele timbre.







