ANMELDENHoop
O topo da montanha da minha alcateia sempre foi meu lugar favorito. Sento ali, sozinha, contemplando a lua. A brisa suave da noite acaricia meu rosto, trazendo consigo uma sensação de paz.
De repente, sinto uma presença. Olho ao redor, mas não há ninguém. Voltando-me para a lua, uma voz ecoa com a brisa:
“Uma mãe nunca desiste ou abandona seus filhos… Você é forte, Hoop, e não deve se esconder! Mas o que procura não está entre essas paredes, nem entre os muros de proteção. Pense que não é uma punição e sim um amadurecimento. Seja forte, criança, você terá muitas provações para se tornar quem deve ser.”
As palavras ressoam profundamente em meu coração. Abro os olhos assustada, olhando ao redor… continuo em meu quarto… volto o olhar para a lua e sinto a certeza de que não foi um sonho, e que eu precisava ir atrás do meu destino.
Tomei a decisão mais difícil da minha vida. Na calada da noite, partiria para bem longe de tudo o que já amara na vida.
Agora, seria uma nova mulher. Agora, eu não seria mais Hoop Kristyn e sim Crystal.
Em um impulso silencioso, visto uma calça escura, uma camiseta simples, um moletom preto com capuz e tênis. Faço uma mala pequena, apenas com o essencial.
Caminho com determinação até o escritório do meu pai. Ao abrir o cofre, minhas mãos tremem. Pego em dinheiro o que julgo suficiente, sem contar, sem pensar muito.
De volta ao quarto, escrevo uma carta breve. Dobro com cuidado e a deixo sobre o travesseiro, como uma despedida sussurrada.
Pai,
Se esta carta chegar até você, é porque meu coração não encontrou forças para dizer adeus olhando nos seus olhos. Eu tentei... juro que tentei ser forte, mas há dores que nem mesmo a loba mais corajosa consegue suportar sem fraquejar. Imagine eu que nem loba tenho mais.
Desde pequena, quando me aninhava no seu colo nos dias de tempestade, eu sabia que ali era meu abrigo. Você foi meu porto seguro, meu escudo, minha rocha e sempre será.
Não pense que foi fácil tomar essa decisão, porque não foi. Eu o amo mais que tudo e amo nossa alcateia com a minha vida, mas sinto como se fosse um peso para todos, um monstro indesejado.
Você me ensinou a ser firme, a lutar, a nunca abaixar a cabeça. Mas também me ensinou a amar com o peito aberto, mesmo quando isso nos deixa vulneráveis.... Hoje, carrego em mim as cicatrizes da guerra, da perda, da rejeição… e sei que tudo isso também feriu você, mesmo que tenha escondido atrás do seu olhar forte.
Pai, me perdoa por não conseguir continuar ao seu lado neste momento tão difícil. Não porque deixei de amar, mas porque preciso me reencontrar. Preciso entender quem sou, o que restou de mim… e se ainda há algo da filha que você criou com tanto amor dentro desta casca marcada por maldição e dor.
Já sinto falta do seu abraço. Do seu cheiro. Da sua voz dizendo que tudo vai ficar bem, mesmo quando tudo desmoronava. Sua presença era meu fôlego. Agora, estou tentando respirar sozinha, está difícil, é como se o ar faltasse a cada passo.
Não quero que me veja como uma covarde, e sim como alguém que precisa se reconstruir antes de voltar para casa.
Se eu não voltar... saiba que você foi o melhor pai que a deusa da lua poderia me dar. Que cada escolha minha, mesmo as erradas, foram feitas com amor. E que, até o fim, meu coração vai te pertencer.
Com amor eterno, Sua filha, Hoop Kristyn
***
A noite envolve a casa em silêncio, e o som dos meus passos ecoa como um sussurro de despedida. Cada movimento é carregado de emoção, um misto de medo e determinação. Ao fechar a porta atrás de mim, sinto o peso da minha decisão, mas também a liberdade que ela traz.
Olho uma última vez para casa. Cada canto guarda uma lembrança, agora pesada como correntes de aço presas ao peito. Respiro fundo. Já não há mais lugar para mim ali.
Lá fora, o mundo me aguarda com seus desafios e descobertas. Eu sei que o caminho será difícil, mas estou pronta para enfrentá-lo. Com a lua como testemunha, dou o primeiro passo em direção ao desconhecido, guiada pela esperança de encontrar meu verdadeiro destino.
***
Esgueiro-me pelas sombras, evitando as escoltas noturnas. O frio da madrugada corta minha pele, mas o calor da dor que queima em meu peito é mais forte. Sigo até a cerca da divisa… e então vejo uma silhueta pequena, sentada ao pé de uma árvore, como se me esperasse.
— Meg?! — pergunto confusa ao reconhecer minha amiga.
— Eu tinha certeza de que tentaria fugir — diz Meg, com a voz firme.
— O que está fazendo aqui? Vá embora!
— Não. Eu vou com você — rebate determinada.
— Está louca?! Você não vai comigo. Tem uma vida na alcateia.
— E você também, se não se lembra, você é a Luna agora!
— Tinha, Meg. A Crystal se foi, humana não pode ser Luna. — Minha voz falha e Meg leva a mão à boca, surpresa. — Sou uma humana inútil agora.
— Então, agora precisa mais ainda de mim. Como vai se virar sozinha sem sua loba?
— Meg, não. Como Luna, eu te proíbo de me seguir — digo firme, tentando persuadir minha amiga, mas, no fundo, estou com medo e adoraria que Meg fosse.
— Não tenho medo desse tom e acabou de dizer que não é Luna. — Meg debocha, o que me faz revirar os olhos. — E sou a mais forte agora. — Ela cruza os braços, desafiadora.
Reviro os olhos novamente. Conheço aquele olhar. Meg não desistiria e eu agradeço internamente.
— Vai ser por sua conta e risco — resmungo, mas, no fundo, um sorriso brinca em meus lábios. Estou feliz. Feliz por estar com minha amiga, mesmo que o destino seja o desconhecido.
Nenhuma de nós jamais havia saído da aldeia da alcateia.
Meg apenas sorri, cúmplice, e se levanta sem hesitar.
Naquele sorriso há determinação e lealdade. Há amor. Há lar.
Querido(a) leitor(a),Quero agradecer primeiramente a Deus por me permitir escrever mais uma história.Também quero deixar aqui meu mais sincero agradecimento por ter caminhado comigo pelos capítulos de Luna Perdida: A Escrava do Inimigo. Cada capítulo escrito carregou uma parte de mim, mas foi você, com sua leitura e emoção, que deu vida a esta história.Peço desculpas por eventuais falhas nas postagens. Conciliar o trabalho, a casa e a família muitas vezes foge do nosso planejado, e ainda enfrentei dias em que minha doença (Lúpus) resolveu se manifestar, tornando impossível escrever. Mesmo assim, segui em frente, porque histórias como esta merecem um final feliz.Um agradecimento especial à amiga, beta e escritora Flávia Saldanha, que esteve ao meu lado durante todo o processo, oferecendo sua ajuda, apoio e incentivo. Sua presença fez toda a diferença nesta jornada.Agradeço também à minha família, que sempre acreditou em mim e apoiou meu sonho, estando comigo nos momentos de inspira
HoopHoje, Aurora completa quatro anos e será sua primeira transformação! O costume é fazer a primeira transformação no início do dia, para que a primeira transformação seja iluminada pelos raios de sol, e quando voltar à forma humana, a lua a abençoa com a vida longa de um transmorfo.O vento da manhã acariciava a clareira, trazendo consigo o cheiro da terra molhada e das flores silvestres que se misturavam ao perfume do novo dia. Os raios de sol, ainda tímidos, caíam sobre nós como um manto dourado, iluminando cada rosto com delicadeza. Pela primeira vez em anos, senti estarmos exatamente onde deveríamos estar.Connor estava ao meu lado, segurando minha mão com firmeza. Seu olhar estava profundo, carregado de amor e proteção. Aurora estava à nossa frente, os olhos brilhando de emoção e ansiedade. Ela respirava fundo, ansiosa pela sua primeira transformação.— Mamãe, acha que consigo? — Aurora perguntou, a voz trêmula de emoção.Eu sorri, apertando sua mão. — Você vai conseguir. Só
Hoop. ‘Oi, Hoop, quanto tempo!’ Cristal?’ pergunto, surpresa. ‘Sua família está crescendo… e com ela eu voltarei para sua vida, não como sua, mas como a loba de sua filha! Prometo cuidar dela como cuidei de você!’ Não tive tempo de responder, acordei com o sol ainda se escondendo atrás das árvores quando, com um leve desconforto na barriga. Isso foi um sonho? Ou uma visão? Coloco as mãos sobre minha barriga, a sensação persistia, e algo dentro de mim parecia diferente. Algo que eu ainda não sabia explicar. Decidi, então, procurar a xamã. Se havia alguém que poderia me dar respostas sem julgamento, era ela. Caminhei até a clareira onde ela me esperava, sentindo cada passo mais ansioso que o anterior. — Hoop, minha filha — disse a xamã, com aquele sorriso sereno que sempre me acalmava. — Vejo preocupação em seus olhos. O que a traz até mim tão cedo? Respirei fundo e toquei minha barriga, sentindo uma mistura de medo e esperança. — Preciso saber... algo dentro de mim mud
Hoop A celebração aconteceu sob a Lua cheia, que reinava alta e imponente no céu como se tivesse sido convocada especialmente para aquele momento único da nossa vida. O círculo sagrado brilhava com a dança das tochas e dos cristais espalhados pela relva, refletindo a luz prateada que parecia abençoar nossa união. Nossa alcateia não estava sozinha; aliados de outros clãs, o conselho e seus acompanhantes cercavam o círculo, todos em silêncio, como se até mesmo o vento tivesse parado para ouvir o que estava prestes a acontecer. A xamã surgiu no centro, envolta em mantos prateados que refletiam a luz da Lua, como se a própria Deusa a tivesse vestido. Seus passos eram lentos, quase etéreos, e quando ela ergueu os braços, o ar pareceu vibrar, carregado de energia. Sua voz, firme e, ao mesmo tempo, doce, ecoou pelo campo. , Seus cantos não eram apenas sons: eram ventos, eram águas, eram fogo e terra. Cada palavra tinha peso, cada verso era uma invocação que nos envolvia por dentro. Eu pod
Connor A Lua mal havia tomado o céu quando senti algo estranho percorrer meu corpo. Estava entre os convidados, ouvindo conversas que não me interessavam, quando o elo me puxou de repente. Era como se um fio invisível me chamasse, ardendo no fundo do peito. ‘Ela precisa de nós’ a voz de Brutus rugiu dentro da minha mente. ‘Hoop está na tenda, se preparando’ retruquei, tentando controlar a ansiedade que crescia. ‘Ela está bem.’ ‘Não está.’ O lobo insistiu, firme, quase impaciente. ‘O coração dela não está em paz. Vá até ela.’ Meu corpo inteiro vibrava. O cheiro da noite parecia pesado demais, os sons ao redor abafados. Eu não conseguiria respirar em paz enquanto não a visse. Brutus estava certo. Não havia razão, não havia protocolo que segurasse meu instinto. Meus passos foram firmes e rápidos até a tenda. E quando me aproximei, ouvi a voz dela. Forte. Dolorida. — Naquele dia, Tom, eu perdi tudo o que acreditava ser importante. Fiquei destruída por dentro e por fora. E com essa
HoopO cheiro de flores silvestres misturado ao das tochas queimando folhas de alecrim preenchia o ar da tenda. Eu estava sentada diante de um espelho antigo, observando meu reflexo com um misto de incredulidade e gratidão. Nunca pensei que viveria este dia. O dia em que meu nome e o de Connor, o filho do inimigo do meu pai, seriam unidos diante da Deusa, diante da alcateia, diante de todos.Minhas mãos tremiam levemente enquanto ajeitava a coroa de cristais e folhas no cabelo. O tecido branco que cobria meu corpo parecia brilhar à luz das tochas, e mesmo assim, por dentro, eu ainda sentia as cicatrizes que ninguém via. Eu não era a mesma Hoop de tempos atrás. Eu tinha rachaduras, marcas, perdas que o tempo jamais apagará. Mas hoje... hoje eu estava em pé.E foi nesse momento, quando meu coração se enchia de expectativa pelo futuro, que o passado decidiu entrar.A voz dele cortou o silêncio da tenda como uma lâmina.— Hoop...Meu corpo inteiro ficou rígido. Eu conhecia aquele timbre.







