LOGINOlhei ao redor procurando Lana. Pensei que talvez… só talvez… pudéssemos trocar de lugar. Mas ela mal me dirigia a palavra desde o dia que ela tentou me matar.
Os corredores estavam silenciosos, como se a casa inteira respirasse por conta própria.
Passei pelos retratos antigos, pelas flores já murchas no vaso de cristal, e me perguntei quando aquele lugar deixara de ser lar. O som de risadas me fez parar. Vinha da sala de música.Aproximei-me com cuidado. A porta estava entreaberta, e por aquele pequeno vão vi Lana, sentada no banco perto da janela, o corpo curvado num jeito elegante e calculado.
Dois rapazes estavam com ela, amigos de infância, rostos que eu conhecia o suficiente para saber o que vinha depois de cada riso, maldade disfarçada de brincadeira.— Mal posso acreditar — um deles disse, rindo alto. — A inútil da sua irmã vai se casar com o Alfa.
— É quase poético — o outro completou. — Uma alma morta ganhando um trono que nem sabe usar.Lana não respondeu.
Apenas cruzou os braços e olhou para o vazio à frente, com um meio sorriso, o tipo de sorriso que esconde desprezo demais para caber numa expressão leve. Ela parecia entediada, ou talvez apenas satisfeita em deixar que os outros dissessem o que ela mesma pensava.— E então, Lana? — um deles insistiu. — Você não se sente mal? Sua irmã morta-viva vai se casar com o Alfa, pensei que gostaria de estar no lugar sendo a rainha.
Ela levantou o olhar, e por um instante, juro que o ar na sala pareceu mudar de temperatura.
A voz dela saiu calma, quase doce, mas cortante como vidro.— Maya não vai viver nem um dia desse casamento, por isso não é algo que eu devesse invejar.
Os dois riram, como se ela tivesse contado a melhor piada da noite.
— Cruel como sempre — disse um deles. — Você não tem pena dela?Lana apenas deu de ombros, um gesto lento, quase elegante.
— Pena é desperdício.
Fiquei ali parada, encostada à parede, sentindo o peito apertar, não de dor, mas de uma estranha lucidez.
Ela estava certa.Talvez eu realmente não vivesse nem um dia daquele casamento, então seria apenas um martírio e morte.
E, se o Alfa era tudo o que diziam, talvez fosse melhor assim. Não queria mudar meu destino encaixando ela, talvez ela acabe sofrendo por minha causa se eu fizesse isso, Não queria ser um nome falado nas costas, nem uma sombra de algo que nunca seria meu, mas não posso fazer nada a não ser aceitar e finalmente ver aquele alfa.Dei um passo para trás, o suficiente para a madeira do piso ranger. Ninguém percebeu.
Afastei-me em silêncio, o coração batendo calmo, como se tivesse desistido até de sentir.Quando alcancei meu quarto, esqueci o motivo que me levara a sair.
Fechei a porta, encostei a testa na madeira e respirei fundo. Depois apenas deixei para lá.Algumas coisas, descobri cedo demais, são mais fáceis de esquecer do que de entender. Comecei a me arrumar para seguir para a mansão Kan com meus pais.
Vesti um traje simples, de tecido leve e sapatilhas brancas. Coloquei uma flor dourada presa ao cabelo apenas para parecer mais agradável.
Disseram que o vestido do casamento fora feito por um homem importante, provavelmente sob as medidas que meus pais forneceram.
Não importava quão luxuoso fosse, o medo me consumia.
Toda a família seguiu para a imponente mansão Kan. Uma comitiva de líderes aguardava ansiosa pelo enlace.
Ao chegarmos, a grandiosidade da propriedade se revelava em um silêncio quase sepulcral.
Apenas empregados e seguranças se moviam pelo local, contrastando com a vastidão vazia da mansão.
A grandiosa estrutura era um verdadeiro labirinto de opulência, adornada
Mas eu não me importo com todo esse luxo, a cada segundo que esse momento se aproxima, mais eu penso no único homem que eu podia tocar sem doer.
O vestido chegou pela manhã, dentro de uma caixa enorme, branca como neve, envolta por fitas prateadas e o selo dourado dos kans, o império do alfa mais temido entre todas as alcateias.
Dizem que ele é cruel, que sua voz pode silenciar um salão inteiro, que o próprio chão se curva sob seus passos. Dizem muitas coisas. Mas eu… eu só sei que, no dia em que ele me tocar, eu vou morrer, e pode ser hoje ou amanha.
Abrir a caixa só por casualidade, O vestido brilha como se tivesse engolido o céu noturno, o tule cravejado de pequenas pedras que refletem a luz como estrelas.
Quando abro a tampa, um perfume doce me invade, misturado ao cheiro de medo que vive dentro de mim há anos. O medo do toque. O medo da dor.
Porque ninguém pode me tocar desde meu nascimento, Nem mesmo o vento parece me alcançar sem me queimar por dentro.
Meu corpo rejeita o contato, minha pele reage com dor a qualquer toque, como se o mundo me lembrasse de que não pertenço a ele. Exceto por ele.
Desde meu nascimento, eu nasci amaldiçoada, com uma adaga magica escondida em meu peito, cravada em meu coração, e nenhuma magia foi possível remover isso, nem minha mãe entende o motivo de eu ter nascido assim e por isso me escondeu para me proteger, ou porque desde meu nascimento, eu só vim abrir os olhos quando eu já estava com quase catorze anos, a adaga reagia a qualquer toque e por isso nem mesmo meus pais podiam me abraçar, mas graças a tentativa de Lana de se livrar de mim, eu tive um martírio e uma benção que me marcou para sempre.
Cap.158 Epilogo.Mas os meninos, com uma serenidade que doía, sussurraram em coro, quase inaudíveis.— Nossa missão está aqui. Somos a ponte para os que ficaram. Nascemos nesse mundo e ficaremos nele ate que compramos nossa missão. — eles disseram em seguida fechando o portal.Soraya observava, com o semblante imutável, e disse, com a voz que carregava certeza.— Vocês fizeram bem. Ainda existem milhares de deusas do tempo, lobos e demais criaturas escondidos neste mundo. Muitos precisam ser retirados com cuidado. Além disso ainda temos seus tios, Cael e Bia estão atrasados — acrescentou ela, tocando o ar como quem chamasse uma ampulheta —, mas virão. Estejam prontos, o portão os levarão ao lugar certo, sempre que vocês encontrar uma nova criatura, o portal os levara para o lugar certo.Ao passar, Kan olhou para trás uma última vez onde o portal se fechou em seguida para as pessoas que o esperavam, era naquele mesmo campo de guerra onde tudo tinha ruído o lugar era diferente do que er
Cap.157Lior respondeu, com serenidade.— Ele está bem. Vive em paz com os lobos e os feiticeiros. Do outro lado, não há mais guerra. Todos cansaram de lutar e decidiram viver juntos, ele ficou surpreso com a fissura, e nos reconheceu, mas o que esta do lado de lá, não pode passar para esse lado, não temos ainda a capacidade de fazer os dois lados funcionarem, então quando a gente passar, esse mundo será apenas uma lenda, ate que a gente domine totalmente esse poder, mas ele mesmo contou que estão vivendo bem, e que ficaram aliviados de parar com as guerras, ainda mais agora que viram o que realmente aconteceu, viu? Eles descobriram que podiam viver em paz.— Viver juntos... — repetiu Kan, quase sem acreditar.— Sim, — completou Noam. — Desde que a deusa Alessa voltou... parece que desse mesmo mundo que estamos, uma deusa da natureza. eles têm reconstruído tudo. O mundo deles é bonito agora, cheio de vida. E... moderno, pai. Parece até mais do que esse.Kan ficou em silêncio por longo
Cap.156O campo de batalha estava imóvel. Após todo o estrondo e revelação.Onde antes o rugido dos lobos e o eco dos feitiços quebravam o céu, agora só restava o som do vento.Cinzas, poeira e sangue se misturavam à terra, e cada sopro de ar parecia carregar o lamento dos que haviam caído.Kan estava de pé, parado diante do ponto onde Maya e Lana haviam desaparecido.Nada restara, nem corpos, nem cinzas. Apenas uma marca profunda no chão, como se o próprio tempo explodido ali.Atrás dele, o exército de lobos e o exército de feiticeiros estavam separados, imóveis, incapazes de lutar, de falar, ou sequer de se encarar.As espadas estavam jogadas, as armaduras quebradas.Era o fim.O vento atravessava o vale, sussurrando como um cântico de despedida.Cada alma que partira parecia estar presente naquele silêncio pesado, naquele arrependimento coletivo que pairava entre os dois mundos.Gabriel se aproximou lentamente, pousando uma mão firme sobre o ombro do irmão.Kan não desviou o olhar
Cap.155— Após a explosão de luz, o mundo pareceu silenciar.O campo de batalha estava imóvel, os exércitos paralisados, e até mesmo as deusas do tempo recuaram, observando o que havia acontecido. Mas então, algo aconteceu.Uma lembrança antiga se projetou diante de todos — um passado que ninguém poderia ignorar — compartilhado como se fosse um aviso, uma memória ancestral gravada no próprio tecido do mundo. Todos puderam sentir aquele segredo sendo implantado em suas mentes, para que jamais pudessem esquecer. Eram lembranças que atravessavam todos os outros mundos.No grande castelo dos originais, o ar estava tenso.O rei original e a rainha original dos feiticeiros e lobos estavam juntos, majestosos, irradiando poder e autoridade.Mas, mesmo assim, a paz não reinava dentro de sua própria casa. Seus filhos, os herdeiros do sangue original, discutiam com fúria.— Não podemos nos unir! — gritou um dos filhos, olhos cheios de ódio e medo. — Isso é impossível! Nossas espécies não devem s
Lana narrando. E foi assim que tudo acabou... usei todo meu esforço para travar o tempo, e agora... o campo de batalha é como um retrato enquanto passo com meu cavalo seguindo em direção aos dois corpos suspenso no ar, em posição de juízo final, um original enfrentando outro quando deveriam estar unidos. Foi assim que o destino mudou. De um lado, o alfa, o homem que desafiava o próprio céu, cercado por deusas que o tempo temia e o poder reverenciava. Do outro, minha irmã, Maya, o último raio de pureza entre os feiticeiros mais poderosos que já caminharam pela terra, foi isso que ela se tornou e era lindo. E entre eles... agora estava eu, a mistura dos dois mundos. A que nasceu fria. A que acreditava que o amor era apenas uma distração para os fracos. O vento cortava o campo de batalha, espalhando o cheiro metálico do sangue e o eco das magias que colidiam. E diante dos meus olhos, o instante se transformou em eternidade, eu queria lembrar de toda essa catástrofe desse jeito, t
Cap.153O vento soprava pelo campo, e as folhas tremiam como se pressentissem a tempestade prestes a desabar.Do lado inimigo, os feiticeiros já se aproximavam, confiantes, sem saber que estavam prestes a enfrentar não apenas um exército de lobos, mas a própria justiça do tempo.Kan fechou os olhos por um instante, sentindo a responsabilidade esmagar seu peito.— Hoje… nós lutamos não apenas pela sobrevivência, mas pelo futuro de todos que amamos. — Sua voz ecoou pelo campo, carregada de autoridade e determinação.As deusas permaneceram imóveis, aguardando o instante exato. Quando retirassem as vendas, nem os ventos, nem a terra, nem a magia seria suficiente para deter o poder do tempo. E naquele momento, Kan sabia que todos, de ambos os lados, teriam que encarar a verdade de sua própria mortalidade.O céu pareceu escurecer ainda mais, como se o mundo inteiro prendesse a respiração, ciente de que a guerra prestes a começar não seria apenas física, seria uma batalha que envolveria dest







