FAZER LOGIN— Como você sabe que eu gosto assim?
A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar.
Dominic continuou olhando para a rua.
Por alguns segundos, tive a impressão de que ele havia ficado tenso.
Foi rápido.
Tão rápido que talvez eu tivesse imaginado.
Então ele sorriu.
Calmo.
Tranquilo.
— Sorte.
Sorte.
Fiquei olhando para ele.
Depois para o copo nas minhas mãos.
Café duplo.
Pouco açúcar.
Canela.
Exatamente como eu gostava.
Não era apenas parecido.
Era o meu pedido.
O mesmo que eu fazia praticamente todos os dias.
Apertei os lábios.
— Você chama isso de sorte?
Ele deu de ombros.
— Às vezes algumas coisas simplesmente acontecem.
Olhei pela janela.
A avenida estava cheia.
Carros buzinavam.
Motos passavam entre as faixas.
Pessoas atravessavam a rua com pressa.
Tudo parecia normal.
E, ainda assim, alguma coisa naquele homem não parecia.
Talvez fosse apenas a situação.
Eu estava atrasada para uma reunião importante, meu carro tinha decidido me abandonar justamente naquela manhã e, de repente, um desconhecido apareceu oferecendo uma carona.
E agora ele tinha exatamente o café que eu gostava.
Coincidência.
Era só isso.
Tinha que ser.
Levei o copo aos lábios.
O café estava perfeito.
Fechei os olhos por um segundo.
— Isso é assustador.
Ele lançou um rápido olhar para mim.
— O café?
Ri.
— O fato de você ter acertado exatamente o meu pedido.
— Então pelo menos acertei alguma coisa hoje.
— Você parece muito tranquilo para alguém que acabou de conhecer uma mulher que entrou no seu carro.
— Você parece muito tranquila para alguém que acabou de entrar no carro de um estranho.
Olhei para ele.
— Eu não estou tranquila.
Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.
— Eu percebi.
Não consegui evitar uma risada.
Ele tinha uma maneira estranha de fazer as coisas parecerem simples.
E isso me incomodava.
Ou talvez fosse justamente o contrário.
Talvez eu gostasse.
Olhei novamente para o café.
— Você realmente ia entregar isso para alguém?
Ele hesitou por um instante.
— Ia.
— E essa pessoa desistiu?
— Mais ou menos.
Arqueei uma sobrancelha.
— Mais ou menos?
Ele sorriu.
— A reunião foi cancelada.
Não sabia por que aquela resposta me fez sorrir.
Talvez porque tudo nele parecesse ter uma explicação pronta.
Talvez porque eu estivesse procurando alguma coisa estranha onde não existia.
Ou talvez porque fosse mais fácil acreditar que aquilo era apenas uma coincidência.
Encostei a cabeça no banco.
O ar-condicionado estava agradável.
O interior do carro era silencioso e confortável.
Muito diferente da confusão que eu tinha deixado para trás.
Por alguns segundos, lembrei da minha mãe.
Não aceite carona de estranhos.
Se ela soubesse onde eu estava naquele momento, provavelmente teria uma crise.
Olhei de lado para Dominic.
Ele dirigia com as duas mãos no volante.
Sem movimentos bruscos.
Sem acelerar demais.
Sem tentar puxar conversa a todo instante.
Parecia completamente concentrado na estrada.
— Minha mãe ficaria horrorizada se soubesse que eu fiz isso.
Ele sorriu.
— Aceitar a carona?
— Principalmente de você.
— Eu deveria me sentir ofendido?
— Talvez.
Ele riu.
— Posso perguntar por quê?
— Ela sempre dizia que homens desconhecidos oferecendo carona eram problema.
— Sua mãe parece uma mulher inteligente.
— Ela é.
— Então talvez você devesse ter escutado.
Olhei para ele, surpresa.
— Você está me dizendo para sair do seu carro?
Ele riu.
— Não. Só estou dizendo que ela provavelmente tem razão.
— Pelo menos você é honesto.
As palavras escaparam.
Assim que as pronunciei, fiquei em silêncio.
Dominic também.
Não sabia por que aquela palavra pareceu importante.
Honesto.
Era estranho dizer aquilo para alguém que eu conhecia havia menos de vinte minutos.
Ele finalmente olhou para mim.
Um segundo.
Talvez dois.
Então voltou a atenção para a rua.
— Tento ser.
A resposta foi simples.
Mas alguma coisa nela ficou na minha cabeça.
Tento ser.
Não sou.
Tento.
Talvez eu estivesse exagerando.
Eu estava cansada.
Atrasada.
Nervosa.
E provavelmente procurando significado demais em uma conversa banal.
Olhei novamente pela janela.
Precisava chegar ao trabalho.
Era só isso.
Quando percebi, já estávamos próximos ao meu escritório.
A reunião começaria em poucos minutos.
Meu coração acelerou novamente.
Dessa vez, não por causa de Dominic.
Ou pelo menos era o que eu preferia acreditar.
— É ali.
Apontei para o prédio.
Ele reduziu a velocidade.
— Onde exatamente?
— Pode parar na entrada.
Ele estacionou próximo à calçada.
Peguei minha bolsa.
Antes de abrir a porta, olhei para o copo nas minhas mãos.
Ainda havia um pouco de café.
— Obrigada.
— Pelo café ou pela carona?
— Pelos dois.
Ele sorriu.
— Então foi uma boa manhã.
Sorri de volta.
— Apesar do pneu.
— Principalmente por causa do pneu.
Revirei os olhos.
— Não começa.
Ele riu.
Abri a porta.
O ar quente da rua entrou imediatamente no carro.
Antes de sair, parei.
Não sabia exatamente por quê.
Talvez porque não gostasse de ir embora sem dizer alguma coisa.
— Dominic?
— Sim?
— Eu posso pagar um café para você algum dia.
Ele levantou levemente as sobrancelhas.
— Pode?
— Posso.
— Isso é um convite?
Sorri.
— É uma forma de agradecer.
— Então aceito.
A resposta veio rápido demais.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
— Você nem pensou.
— Eu pensei.
— Por quanto tempo?
Ele sorriu.
— O suficiente.
Balancei a cabeça, divertida.
— Certo.
Saí do carro.
Fechei a porta.
Dei alguns passos em direção à entrada do prédio antes de olhar para trás.
O carro ainda estava parado.
Dominic estava me observando.
Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu.
Eu sorri também.
Então virei e entrei.
Passei o resto da manhã tentando me convencer de que não estava pensando nele.
Não funcionou.
Durante a reunião, enquanto meus colegas discutiam números e projeções, minha mente voltava para a mesma pergunta.
Como ele sabia?
Não fazia sentido.
Talvez tivesse sido uma coincidência.
Talvez ele realmente tivesse comprado aquele café para outra pessoa.
Talvez aquela pessoa também gostasse exatamente do mesmo pedido.
Era possível.
Claro que era.
Pouco provável.
Mas possível.
E eu precisava acreditar nisso.
Porque a alternativa era muito mais estranha.
Passei os dedos pela borda da minha xícara enquanto fingia prestar atenção à apresentação na tela.
Foi então que percebi que ainda estava segurando o copo térmico que Dominic tinha me dado.
Olhei para ele.
O cheiro de canela ainda estava ali.
Sorri sem perceber.
— Aléxia?
Levantei a cabeça.
— Desculpa.
Meu colega me encarava.
— Você concorda com a projeção?
Pisquei algumas vezes.
— Sim.
Ele franziu a testa.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Não tinha.
Mas isso não importava.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, havia alguma coisa acontecendo na minha vida que não tinha relação com trabalho.
E eu ainda não sabia se aquilo era uma coisa boa.
No fim do expediente, peguei o celular antes mesmo de sair do escritório.
Não havia nenhuma mensagem nova.
Por algum motivo, senti uma pequena decepção.
Parei.
Franzi a testa.
Por que eu estava esperando uma mensagem dele?
Eu mal conhecia aquele homem.
Dominic não tinha meu número.
Não sabia onde eu trabalhava.
Não tinha motivo para me procurar.
E, ainda assim, parte de mim esperava que ele aparecesse de alguma forma.
Balancei a cabeça.
— Ridículo.
Guardei o celular na bolsa.
Talvez fosse melhor esquecer aquela manhã.
Era apenas uma carona.
Um café.
Uma conversa agradável.
Nada além disso.
Eu tinha outras coisas para pensar.
Mas, enquanto caminhava até o elevador, uma frase dele voltou à minha cabeça.
"Algumas coisas simplesmente acontecem."
Sorri sozinha.
Talvez fosse verdade.
Talvez algumas pessoas realmente aparecessem no momento certo.
Talvez aquele encontro tivesse sido apenas uma coincidência.
Eu ainda não sabia.
Só sabia de uma coisa.
Quando as portas do elevador se fecharam, eu olhei para o reflexo no espelho.
E percebi que estava sorrindo.
Por causa de um homem cujo sobrenome eu mal conhecia.
Por causa de uma carona que eu quase não aceitei.
Por causa de um café que, de alguma forma, tinha o gosto exato de uma manhã que eu ainda não conseguia esquecer.
E aquilo deveria ter me assustado.
Mas não assustou.
Pelo contrário.
Pela primeira vez naquela semana, eu estava curiosa para saber o que aconteceria depois.
Talvez algumas pessoas realmente aparecessem na nossa vida no momento certo.
Talvez algumas coincidências fossem apenas isso.
Coincidências.
E, naquele momento, eu preferi acreditar que era exatamente isso...
As semanas seguintes ao julgamento trouxeram uma sensação estranha para Dominic.A de não ter mais nenhuma sombra pairando sobre os próprios passos.Ele se pegava, várias vezes ao dia, esperando por uma ligação urgente.Uma notícia ruim, algum sinal de que o perigo ainda espreitava em algum canto.Mas os dias passavam, tranquilos, e aos poucos ele começava a aceitar que aquela paz era real.Na Vance Holding, a rotina também mudava.Henrique entrou em sua sala numa manhã, carregando a agenda semanal, mas com uma expressão diferente da habitual.— Senhor Vance, reparei uma coisa.Dominic ergueu os olhos do computador.— O quê?— Você tem chegado mais tarde ultimamente.E saído mais cedo.Henrique não conseguiu esconder um pequeno sorriso.— Nunca pensei que veria isso.Dominic riu, um som leve que, meses atrás, seria impensável durante o expediente.— Estou aprendendo que a empresa consegue sobreviver sem mim controlando cada minuto do dia.— E Aléxia?— Ela tem uma reunião importante h
O dia do julgamento chegou mais rápido do que Dominic esperava.Ele acordou cedo, o terno escuro já separado sobre a cadeira, exatamente como Henrique havia deixado na noite anterior.Aléxia, ainda deitada ao seu lado, abriu os olhos ao sentir o colchão se mexer.— Já vai?— A audiência é às nove.Ele se sentou na beira da cama, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.Ela se aproximou, encostando a cabeça em seu ombro.— Como você está se sentindo?Dominic pensou por um instante antes de responder, com uma sinceridade que ainda estava aprendendo a praticar.— Nervoso.Mas de um jeito diferente de antes.Não é medo de encontrá-lo.É a estranha sensação de que, depois de hoje, essa história finalmente vai ter um ponto final de verdade.Aléxia segurou sua mão.— Eu vou com você.— Você não precisa.— Eu sei que não preciso.Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas firme.— Mas eu quero.Você esteve ao meu lado em cada momento difícil que enfrentamos juntos, mesmo quando
Três semanas se passaram desde aquela noite na casa isolada, e a vida, aos poucos, começava a encontrar um novo ritmo.Dominic e Aléxia ainda estavam reconstruindo pedaços da confiança que tinha sido abalada, mas cada dia trazia um passo a mais nessa direção.Numa manhã de sábado, Aléxia acordou no apartamento dele, a luz do sol entrando pelas cortinas semiabertas.Esticou o braço, sentindo o lado da cama vazio, ainda quente.Encontrou Dominic na cozinha, tentando, sem muito sucesso, preparar panquecas.— Isso deveria estar redondo? — perguntou ela, encostada no batente da porta, tentando segurar o riso.Ele olhou para a panqueca deformada na frigideira, um pouco derrotado.— Estou interpretando "redondo" de forma bem livre hoje.Aléxia riu, aproximando-se e roubando um beijo antes de pegar a espátula de suas mãos.— Deixa que eu termino.Você cuida do café.Trabalhando juntos, entre risadas e pequenas provocações, terminaram o café da manhã, sentando-se na varanda para aproveitar a m
Dominic passou a tarde inteira organizando os pensamentos, tentando encontrar as palavras certas para o que precisava dizer.Dessa vez, não havia prazo.Não havia ameaça pairando sobre a conversa.Só ele, escolhendo, finalmente, contar tudo por vontade própria.Ligou para Leandro pedindo o mesmo lugar tranquilo de antes — a pequena casa isolada, cercada por árvores, longe do barulho da cidade.— De novo? — perguntou Leandro, um leve tom de curiosidade na voz.— De novo.Mas dessa vez é diferente.Dessa vez eu escolhi.Leandro não fez mais perguntas, apenas providenciou tudo com a mesma discrição de sempre.Ao entardecer, Dominic mandou a mensagem para Aléxia."Posso te buscar às sete? Não é urgência. É só... a hora certa, finalmente."A resposta dela veio poucos minutos depois."Estarei pronta."Às sete em ponto, ele parou o carro em frente ao prédio dela.Aléxia desceu, vestindo um casaco simples, o rosto carregando uma mistura de curiosidade e calma que ele não esperava encontrar.—
Dominic ligou para o pai assim que Álvaro foi levado pela polícia.A ligação demorou a ser atendida, cada segundo de espera parecendo carregar dezoito anos de silêncio entre os dois sobre aquele assunto.— Filho?A voz de Richard Vance soou tensa, quase temendo o motivo daquela ligação tão cedo pela manhã.— Pai.Dominic respirou fundo, sentindo o peso das palavras antes mesmo de dizê-las.— Acabou.Álvaro foi preso.Do outro lado da linha, um silêncio longo se instalou.Quando Richard finalmente falou, sua voz saiu embargada, algo que Dominic raramente ouvia vindo dele.— Depois de todos esses anos...— Depois de todos esses anos — Dominic confirmou, sentindo os próprios olhos arderem.— Você está bem? — perguntou o pai, a preocupação evidente mesmo através do telefone.— Estou.Cansado, mas estou.Richard ficou em silêncio por um instante, como se sentisse que havia mais alguma coisa por trás daquele cansaço.— Isso tudo começou por causa de uma mulher, não foi?Dominic hesitou, sur
A propriedade rural ficava isolada, cercada por plantações abandonadas e uma mata baixa que crescera livre havia anos.Quando as viaturas chegaram, o silêncio da madrugada foi quebrado apenas pelo som de botas pisando na terra seca.Dominic observava tudo a uma distância segura, ao lado de Leandro, o coração batendo com uma mistura de urgência e um cansaço que parecia acumulado de dezoito anos inteiros.— Equipe posicionada — informou um dos agentes pelo rádio.Leandro levou a mão ao fone.— Confirma visual do alvo?— Positivo.Ele está na varanda da casa principal.Sozinho.Dominic sentiu o peito apertar.— Deixem-me falar com ele antes.Leandro se virou, surpreso.— Isso não estava nos planos.— Eu sei.Dominic já estava saindo do carro.— Mas eu preciso disso.Preciso olhar para ele uma última vez, sabendo que, dessa vez, ele não vai poder fugir.Leandro hesitou, depois assentiu, avisando a equipe pelo rádio para manter distância, mas ficar pronta para qualquer movimento.Dominic c







