MasukConversamos animadamente. Bete e Marta me contam suas vidas como professoras e como se conheceram há mais de 20 anos. Lembro-me imediatamente da minha amiga Vanessa e de como ela vibrou ao ver que decidi terminar com Henrique. Não sem antes querer partir para cima dele e lhe dar uns tabefes quando descobri que ele estava com outra. Eu que não deixei ela me vingar daquele cafajeste.
Vanessa via como eu estava feliz e me esforçando ao máximo para salvar o nosso namoro. Henrique é advogado e tinha arrumado emprego em um grande escritório com filiais espalhadas pelo país e vez por outra, ele precisava viajar para fazer audiências e para atender clientes em outros estados. Ele sempre reclamava de dinheiro e eu, otária, sempre o ajudava em nossas despesas como casal.
Eu sou uma perfeita idiota mesmo! Bancava aquele palhaço e nem me dava conta de que ele deitava e rolava com o meu suado dinheirinho. Bem, pensando sob esse prisma, Marta tem mesmo razão, foi um livramento eu descobrir tudo e terminar com aquele verme.
Quer saber? Estou mesmo me animando em encontrar alguém legal aqui no navio, nem que seja só para dar uns amassos.
— Olha, esse café é mesmo divino! — Estendo o braço para o garçom — Ei, moço! Me traz mais um expresso, por favor?
O garçom pisca para mim com um sorriso simpático.
— É claro, senhorita!
Ele tem um leve sotaque espanhol e o crachá em sua camisa mostra seu nome: Juan.
Em seguida ele vem até mim com uma xícara fumegante de café expresso. Coloco o adoçante e me preparo para dar o primeiro gole quando Bete solta:
— Olha, Marta! O capitão Park! Como ele está lindo!
Eu não me aguento e viro para trás, com a xícara na mão e sentada displicentemente sobre a cadeira alta diante do bar. Tem mistura mais catastrófica do que essa para uma pessoa desastrada como eu? Claro que não. Eu me desequilibro da cadeira e voo, com xícara de café e tudo para o chão, mas para não cair e me estatelar, seguro o braço da primeira pessoa que aparece à minha frente e derramo o café todinho sobre a roupa imaculadamente branca dele.
— Capitão Park!
Marta exclama ao me ver dependurada entre a cadeira e o braço do capitão.
Misericórdia, fiz merda. Eu pulo da cadeira, coloco a xícara sobre o balcão e consigo olhar direito para o estrago que eu fiz.
Ensopei o uniforme do capitão de café. Pior, café expresso quente.
— Meu Deus! Me desculpe! — passo as mãos em alguns guardanapos de papel e tento secar o café derramado em sua camisa.
De repente, ele agarra meu pulso. Olho para cima aturdida e vejo o olhar sombrio do oriental sobre mim. Ele é lindo. Perfeito. Alto, bem mais alto do que eu, uma nanica de 1,60 metro. E agora, com sandálias baixas, percebo como ele é bem maior do que eu. Os óculos de aros pretos finos mostram os olhos frios. Um detalhe chama a minha atenção naquele rosto perfeito: uma fina linha que percorre a lateral da têmpora esquerda, uma pequena cicatriz. Onde eu já vi uma cicatriz parecida com essa? O capitão percebe que estou olhando para ele descaradamente e me solta. Ele vai me xingar.
— Está tudo bem. Acidentes acontecem.
— Eu te queimei, tá doendo? Meu Deus, como sou desastrada!
— É verdade, já tinha percebido isso antes.
É mesmo. Ele que me salvou de eu me estabacar lá fora no porto. Olho para seu belo rosto. Ele está sério, mas seu olhar não é de raiva. Parece um olhar de curiosidade.
— Peço perdão por tê-la assustado. Agora, — ele olha para a própria roupa suja — Vou ter que me trocar.
Mordo os lábios com força.
— Me desculpe. Não foi minha intenção.
— É claro que não.
Ele disse e saiu, acompanhado por mais dois homens uniformizados.
— Meu Pai do Céu… Olha o que eu fiz… Que droga! Estraguei a roupa do homem e agora ele deve estar muito bravo comigo.
Bete se aproxima e afaga meu ombro.
— Não sei não, Márcia. O capitão Park te olhou de um jeito bem diferente, não é, Marta?
A outra amiga se aproxima.
— Também acho. Fora que essa é a terceira vez que fazemos esse cruzeiro e nunca vi o capitão Park de papinho com ninguém.
Olho para as duas mulheres.
— Vocês estão é doidas! Ele deve pedir meu fígado no jantar! Eu estraguei a roupa dele e ainda o queimei!
Marta encolhe os ombros.
— Vai saber. Mas que ele te olhou diferente, olhou.
— Atenção passageiros! Nosso navio vai zarpar em instantes! Querem saber a programação para a nossa primeira noite?
A galera grita esfuziante ao ouvir a voz que surge no alto falante do navio.
— Sejam bem-vindos ao Horizon Star, o navio mais luxuoso da Hanguk Cruise Line. Iniciaremos nossa viagem com muita alegria! Hoje, às 20 horas será o jantar com o capitão, no nosso restaurante Blue Dolphin em que todos estão convidados para um jantar temático com a banda Celebration, com muita música dançante ao vivo!
Aquele anúncio me arrepiou. Um jantar com o capitão! É lógico que não vou perder esse jantar que deve ser delicioso, mas vou me manter à distância dele. Não quero correr o risco de encontrá-lo e estragar tudo de uma vez. Essa é a segunda vez em que literalmente caio sobre ele e não me deixa estabacar no chão. Só passo vergonha.
Volto-me para as duas amigas que estão abertamente flertando com Juan, o barista, em uma conversa pra lá de animada.
— Meninas, com licença.
— Gostei do “meninas”, continue. — Bete brincou.
Tiro um cacho do rosto fingindo displicência.
— Eu vou descansar um pouquinho antes do jantar. Vou subir para o quarto e relaxar um pouco. Ainda estou tensa depois do que houve a pouco.
As duas se entreolham. Marta solta.
— Você é uma jovenzinha muito bobinha. Essas coisas acontecem. Mas vá, descanse um pouco sim. E coloque seu melhor vestido. O jantar com o capitão é um evento oficial dos cruzeiros, você precisa estar belíssima.
— E um dos mais concorridos! A mulherada fica doida para ser sorteada para jantar na mesa do capitão. Já pensou?
Jantar na mesa do capitão? Engulo em seco só em pensar nessa possibilidade. De repente me dá uma vontadezinha de desistir e dormir a noite inteira. Nem respondo mais. Aceno para as mulheres e me dirijo para a minha cabine.
Uma vez lá dentro, fico descalça e sinto o conforto do carpete felpudo sob meus pés. Abro a porta para a varanda e deixo o ar fresco entrar. O navio já zarpou e segue lentamente pelas águas que assumiram agora um tom de azul marinho, quase negro, haja vista já estar escurecendo.
São 18 horas. Eu tenho uma hora para descansar e depois me preparar para o jantar. Vou ou não vou?
Essas inseguranças batem forte em mim. Sempre deixei o Henrique escolher a maioria das coisas que fazíamos juntos. Após dez anos de relacionamento, tomar minhas próprias decisões, fazer minhas próprias escolhas, tem sido algo novo para mim.
É tão estranho estar sozinha também… Mas é motivador. Ser eu mesma sem um homem por perto determinando o que eu devo ou não fazer. Na verdade tenho que admitir que estou bem animada.
E quer saber? Deve ser divertido conquistar alguém como o capitão Park. Experimentar o controle da situação, ser uma mulher sedutora. Estou começando a gostar disso.
Deito-me na cama fofa e aconchegante e ligo a televisão. É lógico que procuro os meus doramas para assistir. Eu amo essas histórias açucaradas, repletas de reviravoltas inesperadas e que têm um casal que vai e volta até o fim da série.
Me remexo na cama. Eu não consigo assistir o episódio de tão ansiosa que estou para vê-lo. O capitão Park não tem só um rosto lindo. Ele possui um ar de superioridade, uma classe que eu nunca vi em homem algum. O Henrique, mesmo sendo advogado, nunca chegará aos pés da elegância do capitão Park.
Meu Deus, estou só pensando nele. Quer saber? Que se dane. Vou tomar um banho e me arrumar para o jantar. Preciso estar deslumbrante.
O vento forte do mar b**e em meu rosto e bagunça os meus cabelos. Fecho os olhos para sentir melhor o perfume salgado e o frescor marinho em minha pele. Park me abraça por trás com suas mãos grandes e fortes e acaricia a minha barriga de seis meses de gravidez com suavidade. Sinto seus dedos deslizando por meu corpo e seus beijos que percorrem minha nuca e descem por minhas costas.Após o nosso casamento, passamos 15 dias viajando com meus pais a bordo. Fizemos um cruzeiro até a Argentina, com direito a vários passeios em terra e retornamos ao Rio de Janeiro para deixá-los em casa.Eu aproveitei o desembarque para visitar a minha ginecologista. A minha menstruação não tinha chegado e eu sentia alguns enjoos diferentes. Primeiro, enjoei do meu creme de cabelo importado e super perfumado que eu amava. Fiquei tão mal por causa disso… Depois, em uma manhã, não suportei sentir o perfume que o Park usava e pelo qual eu era apaixonada. Fiz ele tomar banho para tirar o cheiro e para que eu par
Entro no salão onde dancei tango com Park pela primeira vez. Só que agora, estou sendo conduzida por meu pai ao altar em que sou aguardada por meu noivo, o capitão Park. Quem poderia imaginar que um cruzeiro de sete dias em um navio transformaria a minha vida para sempre? Que uma traição que a princípio parecia ter me destruído, me guiaria até os meus dias de maior felicidade e ao encontro do amor da minha vida?O salão foi organizado com cuidado. As mesas com os convidados, ocupadas por toda a tripulação, estão adornadas com flores brancas e adornos prateados, seguindo o tom das minhas joias e do meu vestido.A Marcha Nupcial começa, e o mundo parece se recolher em silêncio. O corredor se alonga diante de mim como uma ponte entre o passado e o que virá depois. Cada passo que eu dou é uma memória se despedindo, um sonho se cumprindo.E então eu o vejo. Park.De pé, no altar, com aquele porte distinto que sempre o faz parecer parte do mar, inabalável, eterno.Ele usa o uniforme branco
“Park Ji-Hoon”— Patron! Acabou o expediente. O juiz de paz chegou e os seus padrinhos também! É hora do noivo ficar pronto!Ergo os olhos e vejo tudo embaçado. Suspiro cansado. Olho para o relógio e vejo que já são dezessete horas. Estou bastante atrasado. Me levanto de um pulo. Eu fiquei tão concentrado no trabalho que nem me dei conta de que a hora tinha passado tão rápido. Vou tomar um banho e me vestir para o meu esperado casamento. Ser homem é tão mais simples e prático. A Márcia deve estar se arrumando há horas. Estou curioso para vê-la e tê-la definitivamente como minha esposa para sempre em minha vida.Juan e o delegado Cauã serão os meus padrinhos. O primeiro por ser meu amigo fiel e da mais absoluta confiança, o segundo, por ter nos ajudado com eficiência e presteza nas ocorrências no navio, causadas pela maldade da Na-Ri. Ele tem a minha amizade e a minha eterna gratidão.— Se meu padrinho está dizendo, quem sou eu para afirmar o contrário.Levanto-me de trás da minha mesa
“Henrique”Estou há mais de um dia enfurnado neste hotel mequetrefe esperando uma ligação da dona Heloísa. Quando eu dei por mim que ela não estava atendendo às minhas ligações e nem respondendo minhas mensagens, fui lá bater à porta desses velhos malucos, vai que eles tiveram um infarto ou algo do gênero?Mas, nããão! Os velhos safados foram embora e me deixaram aqui e só agora chega a mensagem da dona Heloísa mandando eu voltar para casa, pois ela e o seu Carlos estavam no navio com a Márcia.Eu tô sentindo cheiro de armação por aí. Bem que aquela coreana que trabalha no navio me falou que a Márcia estava se engraçando com o capitão do cruzeiro. Eu deveria ter enchido a cabeça na mãe dela, mas fiquei com vergonha de admitir que era corno.E agora, estou aqui, ferrado de grana e cheio de dívidas. A Márcia sempre me ajudou a pagar as minhas despesas, pois ela ganha bem, é funcionária pública, tem estabilidade. Tem mais é que me ajudar, mesmo. Somos um casal, afinal de contas.Meus curs
A manhã começou agitada por aqui. Tomei o café da manhã na cama com o meu noivo, entre beijos e alguns momentos mais ousados, em tempo recorde. Após um banho quente e relaxante, nos dirigimos cada um para a sua missão: Park trabalharia intensamente na parte da manhã e à tarde passaria o comando do navio para o Imediato, para poder se arrumar para o casamento, enquanto eu, minha mãe e minhas madrinhas, éramos assistidas por Olivia, a estilista do navio, uma americana formada na Escola de Moda Parsons, em Nova Iorque. Ela era a responsável pelo figurino dos atores dos espetáculos diários que aconteciam no teatro do navio.A Olivia tem duas auxiliares que ficam doidas com ela, a Francisca e a Inês, duas portuguesas que são irmãs e aprendizes dela. O português da estilista é perfeito, haja vista trabalhar tanto tempo com duas portuguesas.— Márcia, estes são os vestidos que o ateliê enviou. Três modelos para você escolher. O mesmo vale para vocês três, mãe e madrinhas.A Olivia, sabendo q
“Park Ji-Hoon”A mãe da Márcia me encara de um jeito divertido. Parece que as reservas dela quanto a mim caíram, assim espero.— Que bom que a senhora já compreendeu do que se trata. — Respondo. — Facilita muito as coisas para mim e para a senhorita Márcia.A senhora Heloísa se ajeita na cadeira e olha para a filha.— Márcia, as suas amigas, a Bete e a Marta me contaram sobre o que aconteceu. Eu sinto muito e lamento não ter te escutado. Inclusive, mandei uma mensagem para o Henrique o repreendendo e recomendei que ele retorne para casa, pois não tem mais o que conversar com você.Márcia estende a mão sobre a mesa e segura a mão da minha sogra. Seus olhos estão marejados e ela exibe um sorriso sincero e aliviado no lindo rosto.— Obrigada, mãe, por compreender o que aconteceu.A senhora Heloísa faz um gesto balançando a mão para os lados como se estivesse espantando o passado incômodo que, felizmente, acabou. Ela olha agora para mim e continua seu pensamento.— Capitão Park, vejo que







