MasukO quarto é pequeno, extremamente limpo e aconchegante. Logo à esquerda, há um banheiro com um espelho sobre a pia que mostra minha cara de cansada.
Olho para o chuveiro e ele me chama. Estou acabada, suja e empoeirada após uma viagem de seis horas de ônibus do Rio de Janeiro até o Porto de Santos. Exaustão é o meu nome. Arranco minhas sandálias e massageio meus pés que estão vermelhos após tanto tempo calçados. Coloco minha calça jeans e minha camiseta dos Ramones no cabide do armário que fica do lado direito da cama e me enfio debaixo da ducha quente e relaxante.
Deixo a água cair sobre minha cabeça enquanto massageio devagar meus longos cabelos loiros. Vou separando e desembaraçando os cachos enquanto relaxo.
Me lembro então da última vez em que pus meus olhos sobre Henrique, faltando exatamente uma semana para o nosso casamento.
Segundo ele, uma viagem a trabalho o fez ficar um fim de semana inteiro em São Paulo, aproveitei então para fazer uma mini despedida de solteira e fui para a praia com minha melhor amiga, Vavá.
Fomos para uma pousada em Itaipu, uma cidade distante da minha casa na Barra da Tijuca.
Qual não foi a minha surpresa quando me deparei com o Henrique, meu noivo, agarrado com uma morena bunduda na praia, de frente para a pousada em que eu estava.
Não fiz escândalo, não derramei uma única lágrima, mas fiz questão de que ele me visse bem diante dele.
E agora, cá estou, aproveitando o cruzeiro da minha Lua de Mel comigo mesma, minha melhor companhia.
Saio do banheiro e sinto um desconforto na barriga, estou com fome. Antes, porém, organizo sobre a cômoda minhas caixas de remédios que não podem faltar em uma viagem. Sim, tenho ansiedade generalizada e sou hipocondríaca diagnosticada por psiquiatra.
Visto meu roupão personalizado com meu nome e enrolo meus cabelos na toalha e abro a janela que dá acesso para a pequena varanda da minha cabine.
O sol está em declínio, são 16 horas e uma bela luz dourada se deita sobre o pedaço de mar que consigo ver da varanda que dá para o Porto de Santos. Meu navio sairá às 18 horas.
Olho lá para baixo e tenho a visão da piscina e de um deck com várias mesas e guarda-sóis. As pessoas ainda estão entrando. Algumas estão com as malas ao lado bebendo drinks e conversando.
E por falar em malas, preciso ver uma coisa bem importante. Meu diário. Na verdade, a lista que anotei nele. A lista da minha nova vida. Não que eu seja a pessoa mais organizada do planeta, mas o término repentino com Henrique, me fez pensar em minha vidinha de merda e nas coisas que eu quero mudar para ontem!
Abro meu diário e passo os olhos pela lista:
1- Me divertir muito. (como o palhaço do Henrique me enganava, eu ficava os finais de semana em casa esperando o “Príncipe Encantado” fake me tirar do castelo.)
2- Conquistar alguém. (Lógico. Quando eu comecei a namorar o Henrique, ele andava atrás de mim e eu meio que comecei a namorá-lo pois não conhecia mais ninguém. Eu era muito novinha! Tinha 17 anos. Agora eu quero entregar meu coração para alguém que eu queira desde o início.)
3- Mudar de profissão. (Não aguento mais ser professora. Eu trabalho muito, me estresso em sala de aula e nas escolas e a grana não compensa. Estou aberta a todas as possibilidades.)
4- Ser mãe. (Já tenho 27 anos, né?)
5- Viajar (Eu não saio de casa. É de casa para o trabalho e do trabalho para casa)
6- Escrever um livro. (Não faço ideia do que vou escrever, mas esse diário é um bom começo. Posso escrever um “Guia de sobrevivência para mulheres traídas”)
7- Voltar a estudar. (Qualquer coisa. Estou cansada da pedagogia. Será que eu sirvo para ser turismóloga?)
8- Perder peso. (Eu sei que preciso, mas é tão difícil… dessa vez eu vou conseguir!)
9- Sair da casa dos meus pais. (Eu tenho que morar sozinha e ter o meu espaço. Eu iria me mudar para o apartamento do Henrique… Mas houve uma pequena mudança de planos.)
10- Parar de gastar em bobagens. (Eu me comprometo! Vou gastar com o necessário. Chega de perfumes por um tempo. Tenho 60 frascos no armário!)
E eu tenho que fazer tudo isso nos próximos 90 dias. Chega de procrastinar. De agora em diante eu sou uma nova mulher! Uma mulher cansada de tantos baques na vida.
Coloco meu diário de volta na mala. Que preguiça. A cama me chama. Quer saber? Vou tirar um cochilo antes do jantar. Toc toc toc. Batem à porta. São as duas amigas sorridentes, Bete e Marta. Elas nem me dão oportunidade de dizer alguma coisa.
— Márcia, vamos tomar um café. Você está com uma carinha cansada. Precisa estar alerta para o jantar, não é mesmo, Marta?
A amiga anuiu com a cabeça.
Eu ainda tento bocejar para mostrar a elas que preciso dormir, mas elas são incisivas.
— Olha como ela está cansadinha, Bete! — Uma cutuca a outra e ambas me olham da cabeça aos pés.
— Já que está de banho tomado, para se arrumar é um pulo. A gente fica te esperando aqui na porta. Vai lá se arrume logo.
Fizeram um gesto engraçado com as mãos me enxotando como se eu fosse uma galinha. Encolho os ombros.
— Tá bom. Já volto, não saiam daqui.
— Não iremos a lugar algum sem você, filhinha!
Lógico que não. Pelo visto, arrumei duas tias para cuidarem de mim. Tanto faz. Encosto a porta da cabine e entro no banheiro. Bem, vamos ajeitar essa cara, não é?
Finalizo meus cachos, passo uma maquiagem leve e parto para as roupas. Bem, está quente e iremos para apenas um café. Escolho um vestidinho curto azul, rodado e estampado com estrelas do mar e algumas conchas. Coloco acessórios no mesmo estilo e uma sandália baixa dourada. Pronta para estrear no navio.
Abro a porta para sair e ouço as duas amigas fazerem aquele estardalhaço.
— Olha que linda!
— E essas coxas grossas, hein? Que arraso!
Sorrio sem graça. Tenho certeza de que minhas bochechas estão vermelhas.
Agora é a minha vez de puxar assunto com elas.
— Me falem de vocês. É o primeiro cruzeiro que fazem?
— Já é a terceira vez neste navio. — Se adianta Marta. — Nós amamos um bom cruzeiro. Tem piscina, sol, cassino e uns bonitões de outros estados e outras nacionalidades. Perfeito para nós!
Arregalo os olhos.
— Caramba! Vocês gostam mesmo de um navio hein? Não enjoam não?
Bete abraça a amiga com carinho.
— Somos professoras aposentadas. Eu sou viúva e a Marta é separada há 10 anos. Então, como duas garotas solteiras, precisamos nos divertir, não é?
— Olha que coincidência, sou professora também, lá no Rio de Janeiro.
As duas falam juntinhas:
— As professoras são as melhores!
— Bem, então estou em casa. Vocês vão me guiar e me ensinar todas as manhas do navio. É minha primeira vez e estou meio perdida.
— Conte conosco! — Bete responde e uma ruga se forma entre suas sobrancelhas. — Não querendo ser indiscreta mas já sendo… O que houve com você, minha querida? Que dor de cotovelo é essa que você quer curar? Não é muito novinha para carregar essa mágoa, não?
Marta já olha para a amiga de cara feia, mas logo me manifesto para apaziguar as duas, que pelo jeito, adoram uma discussão.
— Imagina, sem problemas. — Respondo enquanto paramos diante do elevador cujas portas são espelhos e admiro como estou bonita. — Esta viagem era para ser a minha Lua de Mel, só que encontrei meu noivo me traindo com outra, domingo passado. Os dois pombinhos curtindo uma praia como se fossem um casal feliz e descompromissado. Fiz questão que ele me visse e terminei ali mesmo.
As duas sacodem as cabeças para os lados.
— Que absurdo! — Diz Bete.
— Quer saber, Márcia? Foi livramento! Deus te mostrou o canalha que ele é. — Se manifesta Marta.
Consinto com a cabeça e um sorriso jururu.
— De fato. O nosso relacionamento já não andava muito bem das pernas. — As portas do elevador se abrem e entramos. Marta seleciona o térreo. — Eu meio que insisti em um namoro que não tinha mais salvação. E agora, estou pronta para uma nova vida. Quero conhecer gente e aproveitar a minha liberdade.
— É assim que se fala! — Bete dá uns pulinhos. — E sinto que você vai conhecer alguém bem interessante neste navio. Olha como estou arrepiada! — diz mostrando o braço fino repleto de pulseiras coloridas.
Rio da reação das mulheres. As portas do elevador se abrem novamente e mais pessoas entram, nos forçando a silenciar por alguns instantes.
Quando as portas se abrem por fim, já é o térreo e estamos no saguão principal, onde há lojas, um bar enorme repleto de garrafas de bebidas que nunca imaginei existir e pessoas felizes e sorridentes circulando para todas as direções.
As amigas se direcionam para o balcão do bar.
— O café expresso daqui é o melhor! — Afirma Bete sorridente. — Já o café da manhã a gente toma lá no bandejão, mas é melhor não comer agora, pois o jantar será nos restaurantes temáticos.
— Sendo assim, vou na onda de vocês! — Faço sinal para o garçom — Três expressos duplos, por favor!
O vento forte do mar b**e em meu rosto e bagunça os meus cabelos. Fecho os olhos para sentir melhor o perfume salgado e o frescor marinho em minha pele. Park me abraça por trás com suas mãos grandes e fortes e acaricia a minha barriga de seis meses de gravidez com suavidade. Sinto seus dedos deslizando por meu corpo e seus beijos que percorrem minha nuca e descem por minhas costas.Após o nosso casamento, passamos 15 dias viajando com meus pais a bordo. Fizemos um cruzeiro até a Argentina, com direito a vários passeios em terra e retornamos ao Rio de Janeiro para deixá-los em casa.Eu aproveitei o desembarque para visitar a minha ginecologista. A minha menstruação não tinha chegado e eu sentia alguns enjoos diferentes. Primeiro, enjoei do meu creme de cabelo importado e super perfumado que eu amava. Fiquei tão mal por causa disso… Depois, em uma manhã, não suportei sentir o perfume que o Park usava e pelo qual eu era apaixonada. Fiz ele tomar banho para tirar o cheiro e para que eu par
Entro no salão onde dancei tango com Park pela primeira vez. Só que agora, estou sendo conduzida por meu pai ao altar em que sou aguardada por meu noivo, o capitão Park. Quem poderia imaginar que um cruzeiro de sete dias em um navio transformaria a minha vida para sempre? Que uma traição que a princípio parecia ter me destruído, me guiaria até os meus dias de maior felicidade e ao encontro do amor da minha vida?O salão foi organizado com cuidado. As mesas com os convidados, ocupadas por toda a tripulação, estão adornadas com flores brancas e adornos prateados, seguindo o tom das minhas joias e do meu vestido.A Marcha Nupcial começa, e o mundo parece se recolher em silêncio. O corredor se alonga diante de mim como uma ponte entre o passado e o que virá depois. Cada passo que eu dou é uma memória se despedindo, um sonho se cumprindo.E então eu o vejo. Park.De pé, no altar, com aquele porte distinto que sempre o faz parecer parte do mar, inabalável, eterno.Ele usa o uniforme branco
“Park Ji-Hoon”— Patron! Acabou o expediente. O juiz de paz chegou e os seus padrinhos também! É hora do noivo ficar pronto!Ergo os olhos e vejo tudo embaçado. Suspiro cansado. Olho para o relógio e vejo que já são dezessete horas. Estou bastante atrasado. Me levanto de um pulo. Eu fiquei tão concentrado no trabalho que nem me dei conta de que a hora tinha passado tão rápido. Vou tomar um banho e me vestir para o meu esperado casamento. Ser homem é tão mais simples e prático. A Márcia deve estar se arrumando há horas. Estou curioso para vê-la e tê-la definitivamente como minha esposa para sempre em minha vida.Juan e o delegado Cauã serão os meus padrinhos. O primeiro por ser meu amigo fiel e da mais absoluta confiança, o segundo, por ter nos ajudado com eficiência e presteza nas ocorrências no navio, causadas pela maldade da Na-Ri. Ele tem a minha amizade e a minha eterna gratidão.— Se meu padrinho está dizendo, quem sou eu para afirmar o contrário.Levanto-me de trás da minha mesa
“Henrique”Estou há mais de um dia enfurnado neste hotel mequetrefe esperando uma ligação da dona Heloísa. Quando eu dei por mim que ela não estava atendendo às minhas ligações e nem respondendo minhas mensagens, fui lá bater à porta desses velhos malucos, vai que eles tiveram um infarto ou algo do gênero?Mas, nããão! Os velhos safados foram embora e me deixaram aqui e só agora chega a mensagem da dona Heloísa mandando eu voltar para casa, pois ela e o seu Carlos estavam no navio com a Márcia.Eu tô sentindo cheiro de armação por aí. Bem que aquela coreana que trabalha no navio me falou que a Márcia estava se engraçando com o capitão do cruzeiro. Eu deveria ter enchido a cabeça na mãe dela, mas fiquei com vergonha de admitir que era corno.E agora, estou aqui, ferrado de grana e cheio de dívidas. A Márcia sempre me ajudou a pagar as minhas despesas, pois ela ganha bem, é funcionária pública, tem estabilidade. Tem mais é que me ajudar, mesmo. Somos um casal, afinal de contas.Meus curs
A manhã começou agitada por aqui. Tomei o café da manhã na cama com o meu noivo, entre beijos e alguns momentos mais ousados, em tempo recorde. Após um banho quente e relaxante, nos dirigimos cada um para a sua missão: Park trabalharia intensamente na parte da manhã e à tarde passaria o comando do navio para o Imediato, para poder se arrumar para o casamento, enquanto eu, minha mãe e minhas madrinhas, éramos assistidas por Olivia, a estilista do navio, uma americana formada na Escola de Moda Parsons, em Nova Iorque. Ela era a responsável pelo figurino dos atores dos espetáculos diários que aconteciam no teatro do navio.A Olivia tem duas auxiliares que ficam doidas com ela, a Francisca e a Inês, duas portuguesas que são irmãs e aprendizes dela. O português da estilista é perfeito, haja vista trabalhar tanto tempo com duas portuguesas.— Márcia, estes são os vestidos que o ateliê enviou. Três modelos para você escolher. O mesmo vale para vocês três, mãe e madrinhas.A Olivia, sabendo q
“Park Ji-Hoon”A mãe da Márcia me encara de um jeito divertido. Parece que as reservas dela quanto a mim caíram, assim espero.— Que bom que a senhora já compreendeu do que se trata. — Respondo. — Facilita muito as coisas para mim e para a senhorita Márcia.A senhora Heloísa se ajeita na cadeira e olha para a filha.— Márcia, as suas amigas, a Bete e a Marta me contaram sobre o que aconteceu. Eu sinto muito e lamento não ter te escutado. Inclusive, mandei uma mensagem para o Henrique o repreendendo e recomendei que ele retorne para casa, pois não tem mais o que conversar com você.Márcia estende a mão sobre a mesa e segura a mão da minha sogra. Seus olhos estão marejados e ela exibe um sorriso sincero e aliviado no lindo rosto.— Obrigada, mãe, por compreender o que aconteceu.A senhora Heloísa faz um gesto balançando a mão para os lados como se estivesse espantando o passado incômodo que, felizmente, acabou. Ela olha agora para mim e continua seu pensamento.— Capitão Park, vejo que







