INICIAR SESIÓNPOV: MARI
Aquele mês de transição atropelou a gente, mas, pela primeira vez, não deixou feridos. Na primeira semana, o modelo híbrido que o Gabriel enfiou goela abaixo do conselho alemão rodou na prática. Ele em Lisboa, eu em São Paulo. Fuso de quatro horas de diferença. A dinâmica mudou. A gente parou de tentar simular uma rotina presencial por vídeo e começou a otimizar. As calls de uma hora, onde os dois ficavam dividindo a tela com planilhas e respondendo e-mails mudos, sumiram. Em vez disso, ele ligava às seis da tarde daqui, dez da noite lá. Dez minutos cravados. Era o tempo que ele precisava debaixo do chuveiro ou encostado na sacada do hotel no Chiado. Dez minutos com a atenção dele cem por cento cravada em mim. Ninguém olhava pro Slack. Ninguém checava notificação. E eu entendi, do jeito mais prático possível, que dez minutos do Gabriel presente e focado valiam infinitamente mais do que três horas dividindo um sofá com um fantasma corporativo. Na segunda semana, a conta da Beatriz Moran liberou o saldo e a agência virou um caos controlado. Fiz as rodadas finais para a primeira vaga sênior. Foram oito horas de entrevistas seguidas. No fim do dia, eu tava com as costas travadas, tomando o resto de um café amargo na minha sala, quando a tela do celular acendeu na mesa. Como foi? Sorri de lado, digitando com uma mão só enquanto esfregava a nuca com a outra. Contratei a terceira. A bolha verde do W******p piscou na hora. A que você mais gostou ou a que era mais qualificada no papel? Eu nem precisei pensar. A que era absurdamente qualificada e que eu também gostei. Bom. Dei uma risada fraca, girando na cadeira executiva. Você sabia que eu ia fazer exatamente isso. Fingiu que perguntou só pra checar. A resposta dele demorou uns cinco segundos. Aprendi a te conhecer. Fiquei encarando o visor do celular. O peito leve. O coração batendo num ritmo tranquilo, sem ansiedade, sem aquele desespero de quem acha que o chão vai sumir a qualquer minuto. Bloqueei a tela, guardei o aparelho no bolso da calça e terminei de arrumar minhas coisas com um sorriso frouxo colado no rosto que a Tati com certeza ia usar pra me zoar amanhã. Na terceira semana, a ponte aérea dele acabou. Sexta-feira. Eu tava trancada na sala de reunião com o time de design há mais de uma hora. Lá fora, na recepção, a cena se desenrolou sem eu ver, mas a Tati me contou cada detalhe depois, com aquele tom de puro deboche. O elevador abriu e o Gabriel saiu. Direto de Guarulhos. Terno sem gravata, mala de bordo na mão, a cara de quem cruzou o oceano na classe executiva mas continuava querendo a própria cama. Tati nem levantou os olhos do teclado quando ele parou no balcão. — Ela tá em reunião — Tati avisou. — Eu sei — a voz dele soou grave no escritório silencioso. — Só vim buscar o casaco que eu deixei aqui na semana passada. Tati parou de digitar. Levantou a cabeça e avaliou o homem de um metro e noventa de cima a baixo. — Não tem casaco nenhum seu aqui. Gabriel não piscou. Olhou pra máquina de expresso no canto da copa. — O café dessa máquina é muito melhor do que a burrada que o estagiário faz lá no meu andar. — Mentira. É a mesma cápsula. E a água daqui tá com gosto de cloro desde ontem. — Eu sei. Tati cruzou os braços, finalmente vencida pela insistência do cara. — Ela termina o alinhamento em vinte minutos, Gabriel. Ele encostou o quadril na bancada, postura de quem era dono do prédio inteiro. — Eu sei. Tati suspirou, levantou e bateu um expresso pra ele. Ele ficou lá. Bebendo a água com cloro e esperando. Vinte minutos cravados depois, eu abri a porta de vidro da sala de reunião, dispensando a equipe criativa. Bati o olho na recepção e travei o passo. Minha respiração engatou. Ele estava encostado na bancada, a camisa branca levemente amassada da viagem, o cabelo fora do lugar. Os olhos escuros me acharam no mesmo segundo. O cansaço no rosto dele pareceu derreter só de me ver. Caminhei até ele, sentindo a sala inteira sumir. — Você tá aqui — falei, a voz saindo mais baixa do que eu planejei. — Vim buscar o meu casaco. Parei na frente dele, perto o suficiente pra sentir o cheiro do perfume amadeirado misturado com aeroporto. Inclinei a cabeça. — Você não deixou casaco nenhum aqui. O canto da boca dele subiu devagar. — Deixei agora. Soltei uma gargalhada no meio da recepção. Tati bufou no fundo da sala, mas eu nem liguei. O apartamento dois andares pra cima finalmente ia voltar a fazer barulho. No fim do mês, a vida já tava nos trilhos de novo. O meu celular tocou num sábado de manhã. Era a Dona Isabel. — Você tá bem — minha mãe soltou assim que eu atendi. Não foi pergunta. Era o radar materno escaneando minha voz em milésimos de segundo. — Tô. — Diferente de antes. Apoiei o celular no ombro enquanto passava manteiga no pão de forma, encostada na ilha da cozinha. — É. Diferente. — Melhor? Eu realmente parei pra pensar. Olhei pro resto da minha vida. Olhei pras brigas, pros e-mails não lidos, pra logística infernal de ter um namorado CEO e uma empresa escalando no mesmo trimestre. — Mais honesto — respondi, pesando a palavra. A minha mãe riu baixinho do outro lado da linha. — É a mesma coisa. Fiquei quieta, deixando a sabedoria de quem tinha vivido o triplo da minha vida assentar. — Você vem pro Rio esse mês? — ela mudou de assunto com a sutileza de um trator. Olhei pro aplicativo do calendário aberto no iPad em cima da bancada. — Vou. Na semana que vem, pro alinhamento de fornecedores. — Traz ele. Virei a cabeça. Gabriel estava do outro lado da cozinha, de costas pra mim, sem camisa, vestindo só uma calça de moletom cinza, focado na missão impossível de regular a moagem do café. — Eu já fui com ele, mãe. O cara é ocupado. — Traz de novo. O Bruno quer reparar um negócio que ficou pendente da última vez que o rapaz pisou aqui em casa. Apertei os olhos, sentindo o instinto de proteção de irmã acender. — Que negócio? O que o Bruno fez? — Ele que conta quando vocês chegarem. Pega o voo de sexta. Beijo. E desligou na minha cara. Fiquei encarando o visor do celular com a boca entreaberta. Gabriel desligou o moedor. O barulho alto cessou. Ele virou pra mim, encostando na pia e cruzando os braços, exibindo os ombros largos e o peitoral desenhado pela luz da manhã. — O que foi? — ele perguntou. — Minha mãe. — Joguei o celular na bancada. — Quer que você desça pro Rio na semana que vem de novo. Meu irmão quer falar alguma coisa com você. Ele não demonstrou surpresa. Não recuou. Não calculou a resposta. Apenas descruzou os braços e veio andando na minha direção, o passo lento e predatório. — Eu tenho um parceiro de negócios no Rio. Semicerrei os olhos, segurando o riso. — Gabriel. Ele parou na minha frente, invadindo o meu espaço pessoal de vez, as mãos segurando a minha cintura por baixo da camiseta velha que eu usava. — É sério. Eu tenho. — Você é muito cara de pau — sussurrei, passando os braços pelo pescoço dele. — Eu sei. — O olhar dele desceu pra minha boca, a voz engrossando. — Sexta à noite a gente desce. E eu, que passei a vida inteira controlando o próprio mapa, só fechei os olhos e deixei ele assumir a direção. Nota da Autora: Eu tô morrendo de amores por esse mês de ajustes deles! 🥺❤️ Alguém mais deu um gritinho quando ele brotou na agência com a desculpa do casaco? Faria Lima romântico existe sim, e a gente pode provar! Eles finalmente aprenderam a não competir com as agendas, mas sim a encaixar as vidas. E agora temos um mistério: o que o Bruno quer "reparar" com o Gabriel no Rio de Janeiro? Vem pedido por aí? Vem aliança de cunhados? Deixem os surtos e as teorias nos comentários, porque o próximo capítulo promete emoção carioca! 👇🔥☀️Nota da Autora ❤️E assim termina a história de Mari e Gabriel.Ou pelo menos a parte deles que vocês puderam ver.Obrigada por cada comentário, cada teoria, cada surto e cada mensagem ao longo dessa jornada. Vocês fizeram Meu CEO Impossível ( Não Estava no Contrato) crescer capítulo após capítulo.Se você gostou dessa história, aproveita para conhecer também meus outros livros aqui na plataforma:📚 Meu Chefe é o Pai do Meu Bebê📚 Capturada pelo Alfa da Floresta Negra📚 O Contrato Dizia Esposa, Ele Entendeu Propriedade📚 O Dono do TigrinhoAgora eu preciso fazer uma pergunta.Porque existe um homem nesta história que muita gente não conseguiu esquecer.Vinícius Serrão.Controlador.Frio.Obcecado por vencer.Acostumado a ter tudo sob controle.E que acabou de perder a única coisa que acreditava que jamais perderia.Mas existe uma história que eu ainda não contei.Uma história mais intensa.Mais sombria.Mais obsessiva.Mais perigosa.E definitivamente mais quente.🔥O problema é
POV: GABRIELO barulho da máquina de expresso cortou o silêncio do apartamento às sete da manhã.A terça-feira começou igual a qualquer outra. Sem viagem marcada. Sem data especial. Sem nenhum aviso no calendário dizendo que aquele dia era diferente.E, ainda assim, era.A prova mais simples de que aquilo que a gente tinha vivido no Rio não tinha sido exceção. Não tinha sido um intervalo bonito dentro da correria. Era a nossa vida. A vida real. A rotina. O que sobrava quando ninguém estava tentando impressionar ninguém.Tirei as duas canecas da máquina.A fumaça subiu devagar. O cheiro do café se espalhou pela cozinha enquanto o ar frio entrava pela fresta da varanda.Mari passou por mim usando calça social de alfaiataria e uma camisa de seda clara, segurando um salto em uma mão e o celular na outra, os olhos correndo por algum e-mail que provavelmente já tinha chegado com problema.Coloquei a caneca dela sobre a bancada.Encostei o quadril no mármore e cruzei os braços.— Eu queria t
POV: MARIO café virtual da minha mãe virou uma intimação irrevogável para um almoço de domingo na casa dela, no Rio de Janeiro.O calor úmido do fim de manhã grudava na roupa quando a gente passou pelo portão.Eu já tinha vindo imaginando a casa cheia de voz, cheiro de comida e minha mãe na cozinha fazendo mil coisas ao mesmo tempo. O que eu não esperava era parar no meio da entrada e encontrar Caetano sentado à mesa da varanda, como se tivesse nascido ali.Ele levantou o copo de cerveja que estava na mão e abriu um sorriso escandalosamente satisfeito.— Até que enfim — ele falou. — Eu já tava achando que a ponte aérea tinha caído.Eu pisquei uma vez, ainda tentando entender como ele tinha chegado antes de mim.Gabriel parou do meu lado. O olhar dele foi de Caetano pra mim e voltou, sem nenhuma pressa.— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, apontando pra ele com a mão livre.— Dona Isabel me adotou faz meia hora — ele respondeu, sem o menor remorso. — E eu aceitei.A risada da m
POV: MARI A agência estava em festa desde o fim da tarde. Salgado frito, espumante aberto, papelão de caixa de entrega, gente falando alto demais. Tudo misturado no andar térreo do sobrado, que naquela noite parecia menor do que era e mais cheio de vida do que em qualquer outro dia. Eu estava na copa, tentando passar cem brigadeiros para bandejas de acrílico sem derrubar nada, quando a Tati entrou com o celular na mão e a playlist estourando baixo no bolso. — Se o próximo estagiário mexer nesse som, eu juro que mato — ela resmungou, já olhando para a tela. — A essa altura, o crime seria deixar tocar Evidências — falei, sem tirar os olhos das forminhas. Ela me lançou um olhar rápido e veio pegar um brigadeiro antes que eu pudesse impedir. — Você tá estranha desde ontem — ela disse, mastigando. Não respondi na hora. Eu ainda estava com aquele abraço do Gabriel preso no corpo. O jeito como ele tinha entrado na minha cozinha, me puxado pra perto e ficado quieto como se estivesse
POV: GABRIEL O despertador vibrou mudo em cima da mesa de cabeceira. Seis da manhã. A claridade ainda era cinza lá fora. Terminei de dar o nó da gravata de frente pro espelho, mas meu olho não saía do reflexo da cama. Mari dormia de bruços. O lençol jogado na altura da cintura, a pele das costas subindo e descendo devagar. O quarto inteiro ainda cheirava a ontem à noite. Peguei a chave do carro. Fui até a porta. Parei com a mão na maçaneta e voltei. Sentei na beira do colchão. O peso fez ela se mexer um pouco, mas não acordou. Afundei a mão no cabelo embaraçado dela e encostei a boca na curva quente do pescoço. Fiquei ali mais tempo do que devia, respirando a pele dela, engolindo a vontade de cancelar a agenda inteira. Levantei de vez. * A sala de reunião do conselho mantinha o ar-condicionado cravado no limite do frio. Eu estava na cabeceira da mesa de vidro fumê. O diretor de operações trocou o slide, e o calendário da operação europeia piscou na parede. — O cronograma por
"Você achou seu lugar." A voz da minha mãe repetiu em loop na minha cabeça. O ar frio do escritório batia nas minhas costas. Minha perna direita, que sempre balançava debaixo da mesa quando a ansiedade atacava, estava fincada no chão. Dura. Estável. Na minha frente, Beatriz arrastou o dedo por cima da planta baixa impressa. — Faria Lima, Mari. Um escritório de verdade. A gente precisa tirar a base daqui se quiser dobrar o faturamento. Você sabe disso. Minha garganta não fechou. Meu estômago não despencou. Apoiei as mãos espalmadas no papel. — Não. Beatriz parou a tampa da caneta no ar. — A gente aluga o galpão da zona sul só para a logística. — A minha voz saiu raspando, mas firme. — A base fica aqui. A gente expande a loja, derruba a parede do fundo. Mas a raiz não sai daqui. O silêncio engoliu a sala por três segundos inteiros antes da Tati encostar no batente da porta. Braços cruzados, aquele meio sorriso de sempre. — Você não precisa escolher entre crescer e f







