Home / Romance / MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ / Capítulo 4 — A proximidade

Share

Capítulo 4 — A proximidade

Author: A.C. Borges
last update publish date: 2026-01-01 07:35:14

Sexta-feira, dez da noite, e o andar executivo da Romano Group parece uma cidade fantasma.

As luzes ficam mais frias, o corredor mais comprido, e o silêncio vira uma coisa que aperta o ouvido.

Lá fora, Porto Sereno segue viva, barulhenta, brilhando pela janela com a Orla do Farol lá embaixo, mas aqui dentro tudo é controle.

Eu estou sentada com o notebook aberto, planilhas e relatórios espalhados numa mesa que custa mais do que o meu carro velho que eu nem tenho.

O prazo do primeiro relatório do Projeto Romano é absurdo, e eu estou fazendo o que sempre fiz na vida: correndo atrás antes que alguém venha me empurrar.

Eu esfrego o olho, respiro fundo e volto pros números.

— Isso aqui está errado. — Augusto diz, sem levantar a voz.

Ele está do outro lado da mesa, manga da camisa dobrada, paletó jogado na cadeira, como se a única concessão humana dele fosse admitir que também sente calor.

A caneta dele b**e de leve no papel, num ritmo irritante.

Eu olho pro que ele aponta e sinto a primeira pontada de raiva.

— Não está errado. — eu respondo.

— Está incompleto.

— O setor não mandou o detalhamento por centro de custo.

Ele levanta os olhos, devagar, como se eu tivesse cometido um crime por corrigir o CEO.

Só que ele não me corta.

— Então você vai conseguir. — ele diz.

Não é pergunta. É ordem.

Eu poderia dizer “não dá”, mas eu aprendi que “não dá” é frase de quem pode se dar ao luxo de recusar.

Eu abro o e-mail de novo, procuro anexos, ligo pro ramal que ainda atende, e começo a fazer o que precisa ser feito.

A cada ligação, eu sinto o enjoo se aproximar, quieto, tentando ganhar espaço.

Não é drama.

É físico.

E é isso que me irrita mais.

Eu consigo os dados depois de insistir três vezes, e quando coloco tudo na planilha, eu sinto uma vitória pequena, daquelas que ninguém aplaude.

Eu vou falar com o Augusto, mas o ar dá uma volta dentro de mim e eu preciso segurar na beirada da mesa.

Tontura.

Um calor subindo pela nuca.

Aquela sensação de que eu vou apagar e virar fofoca no primeiro mês de trabalho.

Eu endireito a coluna, prendo o cabelo mais firme e tento fingir normalidade.

Só que fingir não engana o homem que vive procurando falha.

— Você está pálida. — Augusto diz, e a voz dele sai mais baixa.

Eu sinto o olhar dele em mim, não como chefe avaliando entrega, mas como alguém que percebeu uma coisa fora do lugar.

— Eu estou cansada. — eu respondo, simples.

— Foi uma semana longa.

Ele levanta, e o movimento dele é tão seguro que chega a dar raiva.

Vai até um frigobar discreto, pega uma garrafinha de água e coloca na minha frente.

— Beba.

— E respire.

Eu odeio que ele acerte.

Odeio precisar aceitar qualquer coisa dele, até uma água.

Mas eu bebo, porque eu não sou burra.

A água desce e meu estômago revira um pouco, só que melhora o suficiente pra eu continuar.

Eu termino de ajustar o relatório, envio os anexos, reviso o texto duas vezes e deixo pronto pra primeira hora da manhã.

Quando fecho o notebook, eu sinto a exaustão bater de verdade, como se o corpo tivesse aguentado por teimosia e agora cobrasse o preço.

— Pronto. — eu digo, e minha voz sai mais fraca do que eu queria.

Augusto olha o horário no relógio suíço e depois olha pra mim.

Por um segundo, parece que ele vai dizer alguma coisa que eu não vou gostar.

Mas ele só fala:

— Eu levo você.

Eu rio, sem humor.

— Não precisa.

— Eu pego ônibus.

— A essa hora? — ele pergunta, e eu noto um fio de irritação.

— Não seja orgulhosa.

A palavra me acerta como se ele soubesse que é exatamente isso que me mantém de pé.

Eu engulo em seco e levanto a bolsa.

— Eu não sou orgulhosa.

— Eu sou cuidadosa.

— E eu não misturo trabalho com… — eu paro, porque qualquer coisa que eu diga depois disso soa errado.

Ele se aproxima um passo.

Não invade meu espaço, mas deixa claro que pode, se quiser.

— Com o quê? — ele pergunta.

Eu prendo o ar.

A voz dele, tão perto, faz meu corpo lembrar de coisa que eu não tenho direito de lembrar.

Eu desvio o olhar.

— Com favor. — eu respondo.

— Eu não aceito favor.

Augusto fica um segundo em silêncio, e eu quase consigo ver a paciência dele sendo testada.

Só que, em vez de explodir, ele faz pior: ele decide.

— Isso não é favor. — ele diz.

— É logística.

— Eu não vou deixar minha funcionária pegar ônibus dez da noite.

“Minha.”

Eu odeio a palavra e o jeito como ela escapa da boca dele sem esforço.

Mas eu estou fraca.

E eu odeio, mais ainda, a possibilidade de passar mal no ponto e alguém me reconhecer ou me filmar e virar história.

— Tudo bem. — eu cedo, seca.

— Só me deixa na esquina.

O olhar dele escurece um pouco, como se eu tivesse colocado uma barreira que ele não aceita bem.

Mas ele não discute.

O elevador desce com um silêncio pesado.

Eu fico de frente pro espelho, olhando meu próprio rosto, tentando checar se alguém consegue ver o segredo na minha pele.

Augusto fica ao meu lado, mãos nos bolsos, como se aquilo fosse normal, como se a noite não tivesse cheiro de perigo.

A garagem está quase vazia.

O SUV preto dele parece um bicho pronto pra correr.

Eu entro no banco do passageiro com cuidado, fecho a porta, e o carro vira outra bolha: couro, perfume discreto, silêncio controlado.

Ele liga o motor e sai da garagem como se não houvesse obstáculo nenhum no mundo.

Eu encosto a cabeça no vidro e olho Porto Sereno passando.

As ruas iluminadas perto da Orla, as avenidas bonitas, depois o asfalto começando a piorar, as fachadas mudando, e a cidade real aparecendo.

Eu sinto o olhar dele em mim uma vez, duas.

Eu não viro.

Eu fico quieta, porque se eu abrir a boca eu posso dizer coisa errada.

— Você mora longe. — ele comenta, neutro.

— É a cidade. — eu respondo.

Ele não ri.

Ele só dirige, como se estivesse recalculando alguma coisa que não é rota.

Quando o carro entra na Várzea Clara, a diferença é nítida.

Rua mais estreita, som de televisão alta, cheiro de fritura e conversa na calçada, gente que olha pro carro preto e reconhece que aquilo não é dali.

Eu sinto um incômodo na pele, como se eu tivesse trazido um holofote pro meu bairro.

Ele para em frente ao meu prédio simples, e por um momento eu penso que ele vai fazer cara de nojo.

Mas ele não faz.

Ele só observa.

E essa observação é mais perigosa do que qualquer desprezo.

— Você mora aqui? — ele pergunta.

— Moro. — eu respondo, já defensiva.

— Problema?

Augusto me encara como se eu tivesse tirado a luva e mostrado a mão.

Ele hesita um segundo, e eu juro que é a primeira hesitação real que eu vejo nele.

— Não. — ele diz.

— Só… não combina com você.

Eu solto uma risada curta, amarga.

Eu não sei de onde vem essa mania da elite de achar que a gente tem cara de endereço.

— O senhor não me conhece. — eu falo, firme.

Ele fica quieto.

A mão dele segura o volante com força, como se ele estivesse segurando o próprio instinto.

Quando ele responde, é mais baixo do que antes.

— Não. — ele admite.

— Mas eu quero.

Meu estômago aperta, e dessa vez não é enjoo.

É alerta.

Eu pego minha bolsa, abro a porta rápido e desço antes que eu faça qualquer coisa burra.

— Boa noite, Sr. Romano. — eu digo, formal, como se formalidade fosse distância.

— Boa noite, Lavínia. — ele responde, e meu nome na voz dele parece uma promessa que eu não aceitei.

Eu atravesso a rua, subo os degraus, e sinto o olhar dele nas minhas costas até eu abrir o portão.

Eu entro e não olho pra trás.

Se eu olhar, eu cedo.

Lá dentro, Sueli está na sala, assistindo televisão com volume baixo.

Ela olha pra mim e vê na hora: eu estou mexida.

— Você demorou. — ela diz, sem acusar.

— Fechamento. — eu respondo.

— Chefe.

Sueli faz aquele “hm” de quem não compra desculpa fácil, mas também não força verdade.

Eu vou direto pro banheiro, fecho a porta e encaro meu reflexo.

Eu puxo ar, apoio as mãos na pia e penso: isso vai dar ruim.

Porque ele viu onde eu moro.

E homem como Augusto Romano não esquece.

☆⁠▽⁠☆

Ele fica parado com o carro ligado por alguns segundos depois que eu entro.

Não é hesitação de quem está perdido.

É o silêncio de quem está decidindo.

Quando ele finalmente arranca, o caminho até a Colina do Mirante parece mais curto do que deveria.

A cobertura dele é vidro e automação, e ainda assim, quando ele entra, a solidão b**e primeiro do que qualquer luz.

Ele j**a a chave numa bancada, afrouxa a gravata, e vai direto pro escritório.

Vicente aparece na porta como se sempre estivesse ali.

— Chefe.

— Alguma coisa?

Augusto não olha pra ele.

— Investiga ela. — ele diz, sem emoção.

— Discreto.

— Quero saber tudo.

Vicente não reage, mas eu imagino o pensamento passando por trás dos óculos: lá vem.

Ele só responde, como sempre.

— Feito.

Augusto fica sozinho, encarando a cidade pela janela.

E, pela primeira vez desde que eu o vi, eu tenho certeza de uma coisa: ele não vai me deixar em paz.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ   CAPÍTULO 180 — A CHAVE

    Moema Andrade | Apartamento de Pinheiros — 8 meses depois O apartamento tinha cheiro de café e domingo. Não era metáfora. Era literal. Lucas fazia café antes de qualquer coisa — forte, do pote que ele tinha descoberto sem perguntar que era o jeito que ela preferia. O cheiro ficava pelas paredes até o meio da tarde. Ela tinha passado anos acordando pro cheiro de hospital. Antisséptico, plástico, urgência. Agora acordava pra isso. Oito meses. O lugar tinha vida nas costuras agora. O isqueiro da Priscila que ficou numa visita e ninguém devolveu. A foto torta do Matt no corredor, enquadrada errado de propósito porque ficou melhor assim. Os livros numa ordem que levou quarenta minutos de explicação pra fazer sentido. A cadeira nova que ela comprou sem consultar ninguém, e que Lucas tinha verificado a estabilidade estrutural antes de sentar — o que ela achou irritante num primeiro segundo e completamente certo no segundo. Coisas que não foram decididas. Só foram ficando. Ela estava n

  • MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ   CAPÍTULO 179 — ESTANTES

    Lucas Falcão | Domingo — Apartamento de Pinheiros Ele acordou antes dela. Isso não era novidade — acordava antes de todo mundo, sempre tinha acordado, o tipo de coisa que anos de operação gravam no corpo e não saem só porque a situação mudou. Mas dessa vez ficou parado. Não foi pro celular, não foi verificar janela, não foi fazer nada. Só ficou olhando o teto. A janela ainda estava aberta da noite anterior. São Paulo de domingo de manhã tinha um barulho diferente do resto da semana — mais lento, mais espaçado, como se a cidade respirasse num ritmo que ela mesma não sabia que tinha. Moema dormia de lado, o cabelo no rosto, a respiração funda. Ele saiu da cama sem fazer barulho. Foi pra cozinha, fez café, ficou na varanda com a xícara enquanto a cidade acordava devagar lá embaixo. O apartamento tinha coisas que não foram planejadas. O isqueiro da Priscila que ficou numa visita e ninguém devolveu. A foto que o Matt tinha enquadrado e pendurado na parede do corredor sem pedir — os

  • MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ   CAPÍTULO 178 — A NOITE DO CASAMENTO

    Moema Andrade | Noite — Apartamento de Pinheiros Todo mundo foi embora por volta das dez. Lavínia foi primeiro — a Clara tinha passado das duas horas do limite de boa vontade e estava naquele estágio de cansaço de bebê onde qualquer coisa virava motivo de choro iminente. O Augusto pegou ela no colo, a menina encostou a cabeça no ombro dele com aquele abandono total de quem confia sem reserva, e apagou quase imediatamente. Lavínia abraçou Moema na porta, rápido, firme. — Semana que vem — ela falou. Não era convite. Era programação. — Semana que vem — Moema confirmou. Isabela saiu logo depois, ainda com a mala de mão, pegando Uber direto pro hotel porque o voo de volta era cedo. Parou na porta, olhou pra Moema, depois pra Lucas que estava na cozinha lavando xícara que ninguém tinha pedido pra ele lavar. — Ele lava louça — ela falou baixinho pra Moema com a voz de quem está documentando dado importante. — Lava. — Espontaneamente. — Sempre. Isabela ficou em silêncio com aquela

  • MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ   CAPÍTULO 177 — O CASAMENTO

    Lucas Falcão | Sábado — Cartório O terno estava sem gravata. Matt tinha tentado. Apareceu no apartamento na sexta com uma gravata azul-escura numa caixinha como se fosse presente e não tentativa de negociação. Lucas olhou pra gravata. Olhou pro Matt. Matt guardou a caixinha no bolso com a dignidade de quem perdeu batalha mas não vai comentar. O cartório era menor do que Lucas imaginava — sala retangular, duas fileiras de cadeiras, mesa na frente onde o juiz de paz já estava de pé com ar de quem faz isso seis vezes por sábado e ainda assim parecia presente. Alguém tinha colocado flores brancas num vaso. Simples. Certo. Lucas chegou primeiro. Ficou parado na entrada olhando o espaço — avaliando como sempre fazia, hábito que não ia embora, mas dessa vez não era perímetro. Era só o lugar onde ia acontecer a coisa mais permanente que ele já assinou o nome. Priscila chegou na segunda fileira, sentou, cruzou os braços. Pronto. Era Priscila. Dra. Renata apareceu sem ser chamada. Eu ouvi

  • MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ   CAPÍTULO 176 — CAIO CONVIDADO

    Moema Andrade | Quarta-feira — Apartamento de PinheirosEla ligou no meio da semana sem avisar.Não foi planejado. Estava saindo do plantão, chave na mão, esperando o elevador, e o nome do Caio apareceu na cabeça do jeito que às vezes aparecia — sem motivo óbvio, sem gatilho claro, só lá.Discou antes de pensar muito.Caio atendeu no primeiro toque.— Moema.— Você vai à cerimônia?Silêncio.— Você me convidou?— Agora sim.Ele ficou quieto. Ela entrou no elevador, segurou a porta aberta com o pé enquanto esperava ele responder.— Quando é?— A gente ainda tá decidindo. Vai ser pequeno.— Eu apareço pequeno.— Caio.— Hm.— Vai ter que falar com o Matt. — Ela soltou a porta, o elevador começou a subir. — Ele vai querer te interrogar.— Eu sobrevivi ao André.— Matt é mais difícil.Uma coisa do outro lado da linha. Não exatamente risada — mais próximo de reconhecimento, aquele som que sai quando alguém diz uma verdade que a gente já sabia mas não tinha ouvido em voz alta ainda.— Ele s

  • MEU CHEFE É O PAI DO MEU BEBÊ   CAPÍTULO 175 — DONA IRACEMA APROVA

    Lucas Falcão | Sábado — AsiloO asilo estava com um cheiro de almoço sendo preparado e a lugar limpo. Lucas conhecia esse cheiro — anos entrando em lugares onde pessoas velhas esperavam visita que não vinha. Esse era diferente. As enfermeiras conheciam os nomes. A televisão no corredor estava no volume que alguém tinha ajustado pra uma pessoa específica, não pro corredor inteiro.Moema tinha escolhido bem.O quarto da Dona Iracema ficava no segundo corredor à esquerda. Ela sabia porque tinha contado os passos na primeira visita e memorizou. Lucas andou do lado dela, meio passo atrás.A porta estava aberta.Dona Iracema estava na poltrona perto da janela com um livro no colo que provavelmente não estava lendo, olhando pro jardim com a expressão de quem está pensando em outra coisa completamente.Dia bom. Lucas viu antes de entrar — a postura, o jeito que os ombros estavam assentados, o queixo erguido. Tinha aprendido a diferença nas últimas semanas.— Mãe. — Moema bateu de leve no bat

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status