FAZER LOGINAtravessei a porta do meu apartamento puto, como quem foge de um incêndio que já virou cinza por dentro.
Fechei a porta com força demais. Joguei as chaves longe. O silêncio me recebeu como sempre: grande, frio, indiferente. Um silêncio que não perguntava nada, mas cobrava tudo. A frase ainda ecoava na minha cabeça, martelando sem piedade. “Seus pais morreram.” Não foi o que ela disse. Foi como disse. Foi quem disse. Porque porra, ela estava lá, ela viu os últimos dias deles, os últimos momentos. Ela estava lá! Caralho eu tinha uma consideração absurda por ela, por tudo que fez por mim, por eles. Mas agora, vejo que era cegueira minha, ela só tinha seus interesses amorosos, estava pouco se fudendo pra minha dor. Disse aquilo como se fosse um detalhe descartável. Como se não tivesse sido o momento exato em que tudo em mim desabou e nunca mais se reconstruiu do mesmo jeito. Peguei a garrafa antes mesmo de pensar. O álcool desceu rasgando a garganta, queimando, mas não limpando nada. Nunca limpava. Só espalhava os cacos por dentro. Olhei ao redor. Aquele apartamento nunca foi um lar depois deles. Era grande demais para um homem só. Fria demais. Um lugar onde ninguém esperava meu retorno, onde ninguém percebia minha ausência. — INFERNO!!! Atirei a garrafa na parede. O estalo do vidro se partindo me arrancou um suspiro torto. Depois outro objeto. Outro. Não era raiva. Era excesso. Um corpo que já não tinha onde guardar tanta coisa não dita. Passei a mão pelo rosto, sentindo a barba áspera, os olhos ardendo. Caminhei até a mesinha e peguei o porta-retrato. Eles. Sorriam ali como se o mundo ainda fosse inteiro. Apertei o quadro contra o peito, os dedos tremendo, o maxilar travado. Não chorei. Não sabia mais como. O choro tinha secado junto com o resto quando eu precisei aprender a sobreviver sozinho. Sozinho. Era isso que eu era. Destruído, acabado. Um merda quebrado. E foi ali, naquele fundo do poço sujo de cacos e silêncio, que a decisão se assentou em mim com um peso definitivo. Eu ia casar! Não porque quisesse. Não porque sentisse algo. Mas porque era o último fio que me ligava a eles. À vontade deles. Ao que restou da minha família. E talvez… porque era mais fácil aceitar um acordo do que continuar sentindo esse nada. Entrei no banheiro e afoguei todos os meus sentimentos como sempre fazia. Ocultados, escondidos e enfiados no fundo da minha alma quebrada.. Na manhã seguinte, bati na casa do meu padrinho com a cabeça pesada e o corpo ainda latejando. Pedi para chamarem a Lara. Ela apareceu descendo as escadas, envolta num roupão claro, cabelo bagunçado, rosto limpo de qualquer maquiagem. Tinha algo nela que sempre me desarmava sem que eu soubesse explicar. Talvez fosse a calma. Talvez fosse o jeito distante. Eu já nem sei mais o que sentia, tão pouco indentificar a confusão que ela me causava. — O que você tá fazendo aqui? perguntou, surpresa. — Quero acertar tudo antes desse casamento. Ela cruzou os braços, me analisando. — Acertar o quê, exatamente? Olhei em volta. Sem funcionários, sem o meu padrinho, só nós. — Escuta Lara, eu sei que essa promessa foi feita a muitos anos, que não foi uma escolha nossa, mas eu tô disposto a fazer ela entendeu? Ela franze o cenho. — Você bebeu? Está bêbado Gabriel? — Esse não é ponto, eu quero falar de regras. falei. Ela respirou fundo, como se já esperasse por aquilo. — Eu aceitei vim pra cá, vou trazer minhas coisas depois desse casamento, mas eu sei que você também deve pensar como isso vai funcionar depois desse casamento. Ela acena levando os cabelos atrás da orelha. — Tem alguma exigência? Ela acena me olhando firme nos olhos. — Eu quero liberdade. Não quero ser controlada. Não quero alguém me dizendo o que posso ou não fazer. Assenti sem hesitar. — Tudo bem. Ela franziu o cenho. Talvez esperasse resistência. Talvez estivesse acostumada a homens tentando dominar espaços que não eram deles. — Não vou te cobrar nada. Ela acena sentando, a perna passa por cima da outra. Observo seu movimento e a mente vai direto pra minha liberdade. — Tenho minha liberdade, minhas noites... Se eu fizer sem você saber, não te atinge. respondi. — Você pode fazer o mesmo. Os olhos dela endureceram. — Está falando de mulheres? Isso é impossível. — Não é! retruquei, sentindo um incômodo estranho crescer no peito. — É só não misturar as coisas. — Eu não vou ser motivo de piada. Não vou ser envergonhada. — Eu não vou prometer ficar três anos sem sexo, você me entendeu agora? falei, a voz mais dura do que pretendia. — Não prometo o que não posso cumprir. A vida que eu levava era vazia, sim. Mas era minha. Era o único jeito que encontrei de continuar respirando sem sentir demais. E eu não estava disposto a abrir mão disso por um acordo que nunca pedi. — O problema é seu! ela disse, firme. Aquilo me irritou. — Por que você tá fazendo isso, Lara? perguntei, finalmente. — Você podia dizer não. Seu pai jamais te obrigaria. Ela me olhou de um jeito diferente. Mais profundo. Mais escuro. Como se guardasse algo que eu não alcançava. — Minhas motivações não são da sua conta. Eu tô fazendo o que os nossos pais queriam. Nossos pais. Um sorriso irônico quase saiu dos meus lábios. Aquilo não fazia sentido. — Você nem me conhece. rebati. — Que tipo de submissão cega é essa? Ela sustentou meu olhar sem piscar. — Ou você faz isso direito. disse —Ou fica sem o acordo. Passei a mão pelos cabelos, sentindo a frustração me corroer. — Você sabe que eu posso perder o que é pra ser meu se isso não acontecer. — E eu não ganho nada. ela respondeu, sem vacilar. — Mesmo assim, estou aqui. Aquilo me confundiu mais do que qualquer ameaça. Por quê? Por que alguém faria isso sem ganhar nada? Ela pareceu repensar, olhou em volta e soltou um suspiro rápido. — Tudo bem.. Olhei pra ela sem compreender e ela completou: — Não vou te cobrar fidelidade. Mas não me cobre nada também. Eu não quero que me controlem, quero minha liberdade, mas faça bem longe de mim. Beleza, isso era um bom começo. — Mas tem uma condição. — Qual? Ela me encarou como se estivesse cravando algo invisível em mim. — Promete que não vai se apaixonar por mim. Soltei um riso curto, desacreditado. Se apaixonar? Rsrs... Que porra era aquela? — Isso não vai ser difícil. Ela pressionou os lábios, como se aquela resposta confirmasse algo que só ela sabia. — Te vejo na cerimônia, então. Levantou e subiu as escadas e me deixou ali, parado com condição me querendo fazer rir. Se apaixonar? Isso seria fácil de mais. ..Tomei um banho, tirei a barba, escolhi a melhor roupa. Esperei por esse dia, quando não dói mais, quando a superação chegasse e ela chegou, demorou... Demorou muito, eu precisei ser forte, mais ela chegou. Porque como dizem por aí, tudo passa. Dirigi em silêncio. O cemitério estava calmo. Como sempre. Fiquei diante do túmulo por alguns segundos antes de falar. Antes de ter coragem pra isso. Fazia muito tempo que não vinha aqui. — Oi… Minha voz saiu baixa. — Faz tempo que eu não venho aqui, mas acho que hoje é um dia que eu queria muito falar... Coloquei o buquê de flores sobre a lápide. Dei um meio sorriso, meio triste, meio aliviado. Até feliz. — Levei muito tempo pra aprender a viver de novo... confessei como se ela pudesse realmente me ouvir. — Mas você sempre soube que eu seria feliz… mesmo quando eu não sabia como seguir. O vento passou leve, quase respeitoso. — Obrigado... continuei. — Por ter me destinado a felicidade assim... Passei a mão pelo rost
Sugeri a clínica. Exame de sangue. Verdade nua e crua. A coleta foi rápida demais pra algo tão grande. O resultado só sairia à tarde. No carro, o silêncio pesava. Até ela virar pra mim. — Gabriel… se eu estiver grávida… eu tô com medo. Essa doença já tirou tanta coisa de mim. E se tirar isso também? E se eu perder? Apertei a mão dela com força. Ouvir aquilo me penetrou em um lugar que eu não acessava a um bom tempo, desde o dia que ela passou mal na minha frente. No medo. — A gente vai fazer isso junto. Não existe você sozinha nisso. Respirei fundo antes de continuar. — Você passou a vida inteira olhando só pro negativo. E quando, por um segundo, você olhou pro lado positivo… nos fez viver tudo isso. Tudo o que somos hoje. Ela suspirou olhando pra baixo, nervosa, as mãos uma na outra. Toquei seu rosto devagar, fazendo ela me olhar de novo. Nossa... Linda, muito mais linda daquele jeito. Seu medo inocente me deixava louco. — É só isso que eu te peço, meu amor. Pensa p
Mas então ela enrijeceu. Se afastou de repente. Os olhos arregalados, intensos. — Não… não… Meu coração disparou. — O que foi? perguntei, já em alerta. Ela me empurrou de novo, com urgência. — Eu vou vomitar! Mal deu tempo. Ela quase me derrubou do sofá e correu em direção ao banheiro. Fui atrás no mesmo instante. Ela se curvou diante do vaso, os cabelos longos caindo pra frente. Segurei tudo com cuidado, afastando do rosto dela. Esperei. Em silêncio. Quando terminou, parei ao lado, passando a mão nas costas dela. — Respira… devagar ... pedi. — Você tá bem? Ela assentiu, ainda ofegante. Mas algo estava errado. — Isso não é normal. falei, já sentindo o estômago afundar. — Os remédios não dão esse efeito agora. Ela me olhou, cansada. — Eu sei. Foi isso que me gelou. — Vou ligar pro Cristian. — Gabriel, não precisa… ela tentou. — Não quero voltar pro hospital. Se acharem que eu regredi… Segurei o rosto dela com firmeza, mas com carinho. — Olha pra mim
LARA: DIAS DEPOIS: Percebi que o hospital tinha mudado quando não senti o peito apertar ao atravessar as portas de vidro. Não era o lugar. Era eu. Segurei a mão do Gabriel com naturalidade, como se aquilo sempre tivesse sido simples. Ele me apertou de leve os dedos, um gesto silencioso de “estou aqui”, e caminhamos até a sala de espera. Não havia pressa. Não havia urgência. Pela primeira vez, eu não me sentia uma visitante temporária da própria vida. Cristian nos recebeu com um sorriso aberto, diferente daquele profissional, contido, que eu conhecia tão bem. — Vocês estão ótimos... disse antes mesmo de olhar os exames. — E isso não é só impressão. Sentamos. Ele analisou os resultados com calma, fez algumas perguntas de praxe, ajustou um horário de medicação, nada que soasse como sentença. — A resposta continua positiva... explicou. — Seguimos com acompanhamento, mas vocês já sabem… estamos em outro lugar agora. Assenti. Eu sentia isso no corpo. No jeito como re
Nossa... como era bom estar aqui, nessa cidade, nesse tempo mais quente. Chegar em casa me fazia sentir tanto alívio, eu sei que ainda não acabou, mas era um começo incrível pra mim. Eles retiravam as malas do carro, fui até o porta malas com um sorriso pequeno. — Eu pego. Peguei uma das malas e entramos pra dentro. Ah meu Deus, meu lar... — Eu vou pedir pra ajeitarem alguma coisa pra gente comer. Minha mãe disse sorrindo. — Vamos levar as malas pro quarto. Subimos com as malas. O quarto ainda tinha cheiro de casa quando me joguei sobre a cama e me deitei. Não era o aroma neutro de hospital, nem o frio dos lençóis sempre trocados. Era meu. Nosso. Gabriel fechou a porta com cuidado, como se o mundo lá fora ainda pudesse me assustar. — Vem aqui.. Ele sorriu deitando por cima de mim. — Gosto de te ver assim. Abrir um sorriso com tanta satisfação — Você... Pensa em voltar pra casa? — Só se for com você. Olho dos olhos pra boca dele. Tão apetitosa. — Eu acho.
LARA: ALGUNS DIAS DEPOIS... O tempo aqui estava mais longo do que eu gostaria, meus pais voltaram porque problemas estavam precisando ser resolvidos na empresa. Minha mãe ficou em conflito de ficar comigo ou ir, mas eu quase implorei pra ela ir com meu pai. Não que eu não goste de estar aqui com ela, pelo contrário, eles me davam tanto apoio, mas ela ficaria sozinha. Eu vivia dormindo, o Gabriel sempre comigo, e quanto eu tinha lucidez era dedicado a passar o pouco do tempo que eu tinha com ele. Ela acabou entendendo, mais me liga todos só dias e me perguntando cada momento de estou bem. E eu estava. Por incrível que pareça. Mesmo com todos os efeitos, mesmo com toda exaustão e tantas idas só hospital, eu estava bem, de verdade. Naquele dia, estava em mais uma visita ao hospital, o médico responsável pelos testes dos medicamentos pediu pra falar comigo. Fiquei tão nervosa, mas não sabe o tamanho do alívio quando ouvir, ali sentada naquelas cadeiras, diante dele, com a mã







