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Capítulo 3

Autor: Seis Mil
— Não preciso disso. — Leonardo segurou meu dorso com firmeza, impedindo meu movimento, e seus olhos transmitiam uma urgência contida. — Posso comer qualquer coisa, não há necessidade de gastar tanto dinheiro comigo. Eu não vou morrer de fome.

Ele não fazia ideia de que aquela quantia, para Samuel, representava apenas os gastos mensais com petiscos triviais.

— Não se preocupe com isso. — Afastei sua mão com suavidade e acariciei sua cabeça, apresentando-lhe a nova coleira e o açaimo que acabara de escolher. — Você gostou?

Era uma coleira de metal escuro, fina e elegante, acompanhada por um açaimo preto feito sob medida. Honestamente, minha vontade era não obrigar Leonardo a usar nada daquilo, mas o veterinário fora irredutível. Segundo o doutor, não devíamos nos deixar enganar pela aparência humanizada de uma fera selvagem; um único descuido e ele poderia estraçalhar meu pescoço. Resignada, tentei ao menos selecionar os modelos mais confortáveis disponíveis na loja.

Enquanto removia o dispositivo antigo, o médico lançou uma pergunta direta a Leonardo:

— Você era do tipo que servia para desabafos ou para rinha?

Leonardo abaixou a cabeça ainda mais, respondendo com a voz abafada e rouca:

— Fiz as duas coisas.

— Isso explica muita coisa. — O veterinário estendeu o açaimo velho em minha direção, apontando para as marcas de desgaste. — Veja esta marca de dentes. Ele deve ter mordido isso com toda a força quando a dor se tornou insuportável.

Houve um breve silêncio antes de Leonardo murmurar:

— Isso foi ontem à noite.

Meu corpo enrijeceu num instante. O médico, distraído, perguntou enquanto anotava algo na prancheta:

— Foi na arena de luta?

— Não. — Leonardo ergueu os olhos, fixando-os nas minhas costas com uma intensidade dolorosa. — Foi... quando me usavam para aliviar a tensão.

...

Chegamos em casa já de madrugada. Meus pais dormiam profundamente e, muito provavelmente, Samuel estava aninhado no quarto da minha irmã. A única recepção que tive foi a luz fria e impessoal da lâmpada fluorescente no hall de entrada.

— Pode entrar. — Convidei, chutando os saltos altos para longe e me virando para Leonardo.

A luz branca delineava o arco alto de suas sobrancelhas e projetava sombras em seu perfil rígido. Ele permaneceu imóvel na soleira da porta, o olhar fixo em uma coleira antiga largada no chão.

Apanhei o objeto e expliquei, sentindo um gosto amargo na boca:

— Essa é do Samuel.

Samuel era o híbrido de cão de serviço que meus pais me deram como compensação. Uma tentativa de reparar os dezoito anos em que me perderam. Eu havia desaparecido aos cinco anos e só fui reencontrada aos vinte e três. Ao retornar para o que deveria ser meu lar, descobri que meus pais, devastados pela minha perda, haviam adotado uma menina no orfanato, Renata Amaral.

Ela fora adotada ainda bebê e agora tinha dezessete anos. Minha aparição repentina causou um terremoto emocional. Renata não conseguia aceitar o fato de ser adotada e reagiu de forma explosiva, histérica, atirando em mim tudo o que suas mãos alcançavam.

— Saia daqui! Eu sou a filha do papai e da mamãe! — Ela gritava, com o rosto retorcido de ódio e medo. — Por que você veio roubar meus pais? Esta é a minha casa! Sua mendiga suja, vá embora!

Minha mãe correu para abraçá-la, sussurrando consolos com aquela voz doce que eu mal lembrava:

— Não chore, querida. Você sempre será nossa filha. A volta da Daniela não muda o amor que sentimos por você. Nós vamos continuar te amando, amaremos as duas igualmente.

Meu pai, por sua vez, colocou-se à minha frente como um escudo, mas seu tom era de resignação:

— Sua mãe mimou demais a Renata, ela tem esse temperamento difícil. Você é seis anos mais velha, Daniela... Tente ser compreensiva e relevar as atitudes dela no dia a dia, por favor.

Eu deveria ter ficado magoada, mas já tinha vinte e três anos. A fase de implorar por afeto parental ficara para trás, superada durante as noites solitárias e difíceis que vivi longe dali. Agora, eu estava na fase de desejar segurança financeira. Por isso, baixei os olhos e deixei que as lágrimas de vitimização escorressem pelo meu rosto no momento exato.

— Eu entendo, papai. — Respondi, com a voz embargada.

A demonstração de fragilidade funcionou. A mesada depositada em minha conta bancária aumentava a cada mês.

No meu primeiro aniversário na casa nova, meus pais me presentearam com Samuel, um híbrido de cão-lobo de linhagem nobre, avaliado em milhões. Na época, ele ainda era apenas um filhote não transformado.

— A Daniela é muito introvertida. — Disseram eles. — Demos o cachorrinho para ver se ela se torna mais alegre e ativa.

Renata chorou tanto que parecia que ia desidratar.

— Por que só a Daniela ganha presente? Vocês prometeram não ter favoritos! Ele é meu!

Numa atitude impulsiva, ela agarrou Samuel e correu porta afora, desaparecendo na noite. A festa de aniversário acabou ali. O presente sumiu. Meus pais ficaram desesperados, chorando pelos cantos, e eu, para manter meu papel, juntei-me ao coro:

— Desculpe, papai, mamãe. A culpa é toda minha. Forcei a Renata a fugir.

A situação só se resolveu mais de dez dias depois, numa tarde qualquer, quando os dois apareceram na porta de casa, sujos e famintos.

— Papai, mamãe, estou com tanta fome... Eu errei, prometo nunca mais fugir. — Choramingou Renata.

Meus pais correram para abraçá-la, e os três desabaram num choro coletivo de alívio. Só depois que as lágrimas secaram é que minha mãe olhou para trás e pareceu se lembrar da minha existência deslocada naquele cenário familiar.
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Último capítulo

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