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Capítulo 4

Autor: Seis Mil
De repente, a expressão de culpa tomou conta do rosto da minha mãe. Ela se virou e, num movimento brusco, estalou um tapa no rosto de Renata.

— Mamãe! Você me bateu? — Renata levou a mão à bochecha, os olhos instantaneamente marejados. — Você tem noção do que eu passei nesses dez dias? Volto para casa e é assim que você me recebe?

— E você parou para pensar em como a Daniela viveu durante dezoito anos? — Minha mãe puxou meu pai, que já tentava consolar a caçula, e decretou com firmeza. — Se você não for capaz de aceitar sua irmã, então não merece ser minha filha!

A partir daquele dia, Renata parou de me confrontar abertamente. Pouco tempo depois que ela devolveu Samuel para mim, ele passou pela transformação. Tornou-se um homem de cabelos negros cacheados e olhos amendoados, com o canto externo levemente caído, evocando a doçura de um cão.

Ele tombou a cabeça para o lado, me observando com curiosidade, e pronunciou seu primeiro nome após a forma humana:

— Renata?

— Sou a Renata! — Minha irmã surgiu de trás de mim, atropelando-me para pular nos braços dele. — Samuel! Você se lembra de mim! Lembra de quando moramos na rua e enfrentamos o mundo juntos?

— Lembro sim. — Samuel a segurou com firmeza, e eu podia jurar que vi uma cauda imaginária abanando de felicidade. — Guardei cada detalhe sobre a Renata.

Meus pais suspiraram e me abraçaram de lado, num consolo mudo. Quando Samuel finalmente entendeu que eu era sua verdadeira dona, ficou amuado por dias. Tive que mimá-lo e agradá-lo de todas as formas possíveis até que ele aceitasse a realidade, ainda que a contragosto.

Mesmo assim, ele mantinha suas barreiras, tais como se recusar a abanar o rabo para mim, não me deixar tocar em suas orelhas e jamais me esperar chegar em casa, ao contrário dos outros híbridos. Ele só reagia aos passos de Renata. Só esperava por ela.

No começo, eu assistia a essas interações com o coração apertado, sentindo-me excluída. Mas, com o tempo, a indiferença tomou conta. Afinal, as despesas exorbitantes de Samuel eram pagas mensalmente na minha conta, assim como a culpa silenciosa dos meus pais, que se convertia em transferências bancárias generosas.

O problema surgiu recentemente. Comecei a ter espinhas e, após um check-up, percebi que meu corpo tinha necessidades fisiológicas que estavam sendo negligenciadas. Samuel não me deixava tocá-lo. Leonardo apareceu na hora certa, e eu não tinha motivos para recusar.

...

— Durma comigo esta noite, tudo bem? — Perguntei, guiando Leonardo pela mão em direção ao meu quarto. — Amanhã levo você para comprar roupas decentes.

Ele hesitou, olhando para o corredor escuro.

— Ele não vai se importar?

— Ele quem?

— O Samuel. — Leonardo baixou o olhar para mim, sério. — Híbridos de cão-lobo costumam ser muito territoriais.

— Não se preocupe, ele não gosta de dormir comigo. — Respondi com um dar de ombros.

Leonardo pareceu ponderar algo e apertou minha mão com um pouco mais de força.

— Então... vai precisar de mim esta noite?

— Como assim?

As pontas das orelhas dele ficaram vermelhas.

— Para... aliviar a tensão.

— Quero, mas minhas pernas estão doendo muito. — Confessei.

— Tenho bastante resistência. — Ele garantiu, com a voz rouca. — Você pode ficar deitada.

— Então, por favor, vou aceitar.

— Não é incômodo nenhum.

...

— Daniela.

Na manhã seguinte, saí do quarto no exato momento em que Samuel aparecia no corredor. Ele franziu a testa ao me ver, com aquela expressão habitual de reprovação.

— Por que você ficou falando sozinha ontem à noite? Ficou gemendo e resmungando, sabia que isso incomoda? É muito barulho.

Não me irritei. Mantive a calma e respondi com um sorriso polido:

— Desculpe, Samuel. Vou tentar ser mais silenciosa da próxima vez.

O tom dele suavizou, transformando-se numa curiosidade ranzinza.

— Você teve pesadelo? Parecia que estava chorando.

"Chorando de prazer.", pensei, mas guardei para mim.

— Se você tiver pesadelos, pode me chamar para...

A frase foi cortada pela voz de Renata.

— Samuel! Não estou achando meu chinelo!

— Não ande descalça! — Samuel interrompeu a conversa comigo e marchou em direção ao quarto de Renata, voltando segundos depois com ela no colo. — Sua bobinha, se você estava no quarto, como os chinelos estariam na sala?

— É que ontem eu estava morrendo de sono e você me levou no colo para a cama, lembra? — Ela respondeu, manhosa.

Samuel se sentou no sofá com ela no colo, procurou os chinelos de coelhinho e, segurando o tornozelo dela com delicadeza, calçou-os pacientemente. Só depois de garantir que a "princesa" estava devidamente calçada é que ele subiu as escadas em direção ao banheiro. Ele era, sem dúvida, o híbrido de serviço perfeito; o único detalhe era que seu serviço não era dedicado a mim.

— Daniela, coloquei minhas roupas no cesto, não esqueça de levar para a lavanderia. — Ele avisou ao passar por mim no corredor.

De repente, ele estancou.

— Que cheiro é esse?

Franzi o cenho, sem entender.

— O quê?

Num movimento rápido, ele se aproximou, segurou minha cintura com firmeza e enterrou o rosto na curva do meu pescoço, inspirando profundamente. Quanto mais ele cheirava, mais seus dedos apertavam minha pele, demonstrando uma tensão crescente.

— Daniela... — Ele rosnou baixo, os olhos escurecendo. — Por que você está com o cheiro de outro macho?

Fiquei em silêncio, sustentando seu olhar.
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