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Capítulo 2

Autor: Seis Mil
Aquela foi a primeira vez que ouvi sua voz. Era grave, rouca e carregada de um magnetismo natural.

— Estou desabafando. — Respondi, roçando meu rosto em suas costas.

Senti as mãos dele se fecharem em punhos ao lado do corpo, os nós dos dedos ficando brancos.

— Não é... — Começou ele, hesitante.

— O quê?

— Não é assim que se faz para desabafar. — Ele soltou alguns grunhidos abafados, confusos.

— Eu não tenho experiência, então você vai ter que aguentar. — Sussurrei.

Empurrei-o suavemente em direção à cama. Ele ainda usava a focinheira e as correntes prendiam seus pulsos e tornozelos, mas ele não resistiu. Permaneceu dócil, aceitando cada toque meu, enquanto eu beijava meticulosamente cada uma de suas cicatrizes. Seu corpo estava tenso como a corda de um arco prestes a arrebentar, sem saber como reagir àquela estranha forma de "punição".

No momento crucial, porém, ele estendeu a mão e segurou minha cintura com firmeza, interrompendo-me.

— Você tem certeza? — Perguntou, os olhos fixos nos meus.

— O quê?

A voz dele se tornou ainda mais rouca, quase um rosnado contido.

— Sou apenas um híbrido de classe baixa.

Minha resposta foi retomar meus movimentos com impaciência. Ele soltou um gemido baixo e fechou os olhos, seus cílios longos tremendo enquanto se entregava.

...

Na manhã seguinte, a luz do sol entrava pela janela panorâmica, aquecendo a pele. Com o rosto colado aos músculos firmes do braço de Leonardo, tateei embaixo do travesseiro até encontrar meu celular. Havia uma mensagem da minha melhor amiga.

[Onde você se meteu? Minha amiga autista fugiu para casa sozinha de novo?]

Digitei a resposta com preguiça: [Não, comprei um novo híbrido de cão-lobo, do tipo "de alívio". Estive ocupada a noite toda desestressando com ele.]

A resposta dela foi um único ponto de interrogação: [?]

Logo em seguida, veio uma enxurrada de mensagens: [Daniela, que tipo de pessoa você é? Sei que aquele seu híbrido doméstico é um ingrato e te faz sofrer, mas isso não é motivo para pegar um híbrido de saco de pancadas e espancá-lo! Só porque você tem pena de bater no de raça, resolveu descontar no pobre coitado? Se você não fosse minha amiga, eu chamaria a polícia agora mesmo! Estou decepcionada!]

Fiquei atordoada com a acusação.

[Não é nada disso! Eu não bati nele. Como eu poderia bater num cachorrinho?]

Houve uma pausa longa antes que ela digitasse novamente.

[Então... como foi que você "desestressou"?]

[Do jeito que você está imaginando.]

O silêncio digital foi constrangedor. Minha amiga então me enviou um texto explicativo que me gelou o sangue: [Híbridos de 'alívio' ou 'desabafo' fazem parte de uma cadeia ilegal. Eles roubam filhotes ou compram híbridos de baixa qualidade e usam tortura para selecionar os que têm maior resistência física e capacidade de regeneração. Os que sobrevivem à triagem viram sacos de pancadas humanos, vendidos para as pessoas espancarem e aliviarem a raiva. Outros acabam em arenas subterrâneas lutando até a morte. Eles são considerados perigosos e difíceis de domesticar. Mesmo quando resgatados, são doados de graça, e se ninguém os quer, são sacrificados.]

— Se você se arrependeu, eu sei onde aquele vendedor mora. — Disse uma voz profunda atrás de mim.

Assustei-me, desligando a tela do celular apressadamente e me virando para encontrar o olhar opaco de Leonardo. Ele baixou os olhos imediatamente, evitando me encarar.

— Mas ele faz parte de uma organização criminosa. — Continuou ele, em tom baixo. — Provavelmente não vai querer devolver o dinheiro. Mas, se pegarmos ele sozinho, talvez eu consiga...

— Eu não me arrependo. — Interrompi, firme. — Desde que você seja obediente. Só precisa me escutar.

— Beleza. — Concordou ele, num murmúrio quase inaudível.

Sua expressão permaneceu inalterada, mas suas orelhas se moveram levemente. Notei algumas cicatrizes superficiais na pelagem macia e não resisti; estendi a mão para tocá-las. Imediatamente, as orelhas se achataram para trás e ele encolheu os ombros, num reflexo defensivo de quem espera um golpe.

Recolhi a mão, sentindo uma pontada de decepção.

"Poxa, nem este aqui vai deixar eu fazer carinho?", pensei.

— Desculpe, é o hábito. — Disse ele, percebendo minha frustração.

Lentamente, ele relaxou a postura e abaixou a cabeça na minha direção.

— Pode tocar. Se você ainda quiser. — Completou.

Não hesitei. Subi em seu colo, com as mãos apoiadas no peitoral sólido, e comecei a acariciar suas orelhas à vontade. Eram prateadas, macias e quentes. A respiração de Leonardo ficou mais pesada e senti a temperatura do corpo dele aumentar sob o meu toque. Ele inclinou a cabeça para trás, observando-me com aqueles olhos estreitos, cujos cantos agora estavam avermelhados, sem piscar uma única vez.

Engoli em seco, sentindo o clima mudar novamente.

— Podemos "desabafar" mais uma vez? — Perguntei.

...

Ao deixarmos o hotel, não fomos para casa. Levei Leonardo direto para uma clínica veterinária especializada. O médico confirmou que a capacidade de regeneração dele era excelente e que os hematomas desapareceriam logo. O problema real era a desnutrição severa. Ele precisaria de um longo tratamento com suplementos especiais.

Quando vi a conta, percebi a ironia, pois o preço total dos suplementos já ultrapassava o valor que eu havia pago por ele.
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