Home / Romance / Marcada Pelo Tio do Meu Noivo / A Mulher do Meu Sobrinho

Share

A Mulher do Meu Sobrinho

Author: Ivi Santiago
last update publish date: 2025-05-29 08:28:33

Dante Tavares

O sol queimava alto quando recebi a ligação: meu jatinho estava com problemas técnicos e só decolaria na manhã seguinte.

Suspirei, impaciente.

Não era a cidade que me irritava — era o que ela me lembrava: pequenas ambições, gente que queria parecer grande demais, e familiares que só sabiam sugar. Mas já que estava ali, decidi fazer o que nunca fazia: visitar meus negócios. A maioria deles tocados por meu irmão e meu sobrinho Enzo. Eu observava de longe, sempre atento, mas raramente colocava os pés. Não gostava de misturar presença com confiança.

Hoje, no entanto, senti vontade de aparecer.

Primeiro fui ao armazém de exportação, depois à loja de vinhos artesanais — estavam em ordem. Nada fora do esperado. Mas foi ao final da tarde que decidi passar pelo restaurante recém-reformado, o mais rentável da rede. O boato de que a nova chefe de cozinha era excelente tinha chegado até mim, e como o próprio Enzo estava supervisionando o lugar de perto, achei conveniente verificar.

Não esperava nada além de um jantar agradável.

Fui recebido com a deferência de sempre. O gerente quase tropeçou nas palavras tentando me agradar. Me ofereceram a mesa mais reservada. A decoração era bonita, minimalista, com um toque de charme rústico. A comida, de fato, estava impecável, embora eu tenha comido pouco — hábito de quem confia mais no controle do que no prazer.

— O chef responsável poderia vir cumprimentá-lo, senhor Tavares — sugeriu o gerente, ansioso para impressionar.

Ergui o olhar. Algo em mim despertou ali. Curiosidade? Desconfiança? Não soube dizer.

— Quem está à frente da cozinha?

— A senhorita Isadora Alencar. Jovem, mas talentosíssima. Recém-formada, porém já é considerada uma promessa. Seu sobrinho, doutor Enzo, confiou a ela a liderança da equipe.

Enzo.

É claro.

A resposta foi como um corte seco. Um nome que ultimamente vinha se perdendo em devaneios românticos, mais do que negociais. Um nome que, ao ser associado à palavra “chef”, me fez franzir o cenho.

Recém-formada e no comando?

Não. Aquilo não fazia sentido.

Eu sabia como esse meio funcionava. Jovens assim não conquistavam nada sem pagar um preço. E conhecendo Enzo como eu conhecia — impulsivo, crédulo, carente de atenção — não me surpreenderia se ele estivesse confundindo paixão com talento.

— Onde está ela? — perguntei, já me levantando.

— Ah… está no andar superior, supervisionando os pedidos e organizando a equipe para o segundo turno.

— Quero conhecê-la.

Subi os degraus de mármore sem pressa, mãos nos bolsos, olhos atentos. A cada passo, um incômodo crescia dentro de mim. Algo irracional. Uma expectativa que não tinha nome, não fui para departamento algum, conhecia bem o meu sobrinho. 

Mas assim que pisei no último degrau, ouvi.

A voz.

Baixa, rouca. Um gemido abafado.

O tempo parou.

Aquela voz. Aquela maldita voz.

Era ela.

O corpo da mulher da noite anterior ressurgiu diante dos meus olhos como um raio. A pele quente. Os olhos perdidos. Os lábios entreabertos. O silêncio daquela noite — e o pecado que nós compartilhamos sem nunca pronunciar um nome.

E então, outra vez, o som. O gemido dela. Mais forte. Mais sincero.

Senti meu corpo reagir antes mesmo de compreender o que via. O pau enrijeceu sob o tecido da calça, traindo qualquer esforço que fiz para manter o controle. Não era o toque do meu corpo nela. Era o de outro. E mesmo assim, ela gemia.

Me aproximei, silencioso. A porta entreaberta me deu a visão completa do que eu jamais quis ver — e jamais deixaria de lembrar.

Ela e Enzo.

Enzo sobre ela.

As mãos dele em seu quadril, o rosto enterrado no pescoço dela. E ela… entregue. Mas os olhos dela estavam abertos. E me viram.

Ela estava parada, como se fosse obrigada a aquilo.

Os corpos ainda colados, mas os olhos... só meus.

Nos encaramos.

Ela gemia.

E aquele som me levava de volta à maldita noite em que me tornei seu erro.

O tempo congelou. O ar ficou rarefeito. O nó se formou em minha garganta. 

Era o reconhecimento. A mesma mulher. A mesma boca. O mesmo fogo.

E então ouvi Enzo.

— Essa boceta é minha, não é? — ele sussurrou, sem saber que eu estava ali. — Só minha.

Ela não respondeu. Mas os olhos dela me diziam outra coisa. Ela queria negar, mas não podia.

Eu era uma cicatriz nela. E ela, uma maldição em mim.

Tentei me afastar antes que Enzo percebesse, mas era tarde. Ela parecia incrédula por perceber que havia se dado mal em sua farsa, seu rosto empalideceu ao ouvir ele me chamar de tio.

— Tio! Que surpresa boa — disse, sorrindo como um menino. — Quero que conheça alguém muito especial.

E então ela olhou para o chão, como se buscasse fugir. Vestida, mas abatida. Os olhos evitaram os meus. O rosto corado.

— Essa é a Isadora… minha noiva.

Noiva.

O sangue ferveu.

Ela me olhou, brevemente. Tentou me olhar, mas o gesto morreu pela vergonha, ao menos isto ainda tinha.

— Senhor Tavares… prazer. — A voz vacilou.

— O prazer é todo seu. — Respondi seco.

Ela abaixou a cabeça. E sumiu escada abaixo, como quem foge de um crime recém-cometido.

Esperei até que estivesse fora do alcance, então me virei para Enzo.

— Sua noiva está à frente da cozinha?

— Sim. Ela é incrível, você vai ver… inovadora, dedicada. A equipe adora ela.

— E essa liderança… é por capacidade ou por causa de você?

Enzo arregalou os olhos, surpreso com o tom.

— O quê?

— Estou perguntando se está abusando do poder que lhe dei — repeti, firme. — Ou se está apaixonado demais para enxergar que talvez esteja dando a uma mulher bonita o que ela não conquistou por mérito.

Ele franziu a testa, desconfortável.

— Isadora é talentosa. Se não fosse, eu jamais colocaria o restaurante nas mãos dela. Não misture as coisas.

— Não sou eu quem está misturando — murmurei, olhando para a porta por onde ela havia desaparecido. — Mas talvez um dia você descubra quem está ao seu lado. E quanto custa a cegueira.

Enzo ficou em silêncio.

E eu, por dentro, ardi.  Não apenas pelo ciúme. Mas pelo perigo real de perder o controle, porque ela não era só a mulher do meu sobrinho, ela era a mulher que eu provei.

E que agora, por mais errado que fosse, eu queria de novo.

A noite caiu sobre a cidade com um peso estranho, como se carregasse nas sombras o reflexo daquilo que vi — e desejei — horas antes.

Voltei para o hotel, mas não consegui relaxar. Tirei o paletó, desabotoei a camisa até o peito e caminhei até o bar. Whisky. Uma dose. Depois outra. E nem assim a lembrança dela desaparecia.

Isadora.

Ela. A mulher que gemeu em meus braços sem saber quem eu era.

A mulher que agora gemia sob o corpo do meu sobrinho.

Me joguei no sofá de couro, encarando o teto. Cada detalhe dela invadia minha mente. Os cabelos desgrenhados. O gosto na minha boca. A forma como os olhos se abriram quando nos encaramos hoje. Ela sabia. Ela lembrava.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Marcada Pelo Tio do Meu Noivo   EPÍLOGO

    ISADORA TAVARES Se alguém me dissesse anos atrás que eu terminaria assim — deitada num campo florido, com um bebê mamando em meu peito, outro chutando o barrigão e o mais velho correndo atrás do pai no meio do pomar — eu teria rido. Ou chorado. Talvez os dois.Mas aqui estou.Vivendo uma paz que parecia impossível.Sendo chamada de “mamãe” vinte vezes por hora.Amada de um jeito que ainda me parece surreal.Dante construiu uma casa com as próprias mãos — ou melhor, com a força da vontade dele. Longe da cidade, do concreto, dos contratos. Uma casa com varanda de madeira, balanço de corda e cheiro de bolo toda tarde.Ele diz que foi aqui que descobriu o que era viver.E eu? Eu só posso agradecer.O restaurante cresceu tanto que agora tenho uma equipe que cuida de tudo, enquanto eu me divido entre panelas e fraldas. Ainda escrevo receitas de madrugada, ainda sonho alto, ainda brigo com os fornecedores quando atrasam os morangos. Mas agora eu volto pra casa com o coração cheio, sabendo q

  • Marcada Pelo Tio do Meu Noivo   Eu era dela

    DANTE TAVARESAlgumas coisas a gente só entende quando o silêncio vira casa, e o colo vira mundo.Eu passei a vida toda achando que felicidade era poder. Era dinheiro, era controle, era sentar à frente de uma mesa cercada por homens que tremiam ao ouvir meu nome.Eu me enganei.Hoje, minha mesa é o tapete da sala, forrado com brinquedos, uma mamadeira de um lado, e o corpinho sonolento do Lorenzo no meu colo. Ele resmunga, procura o peito, mesmo depois de já ter mamado. E quando Isadora passa, com aquele vestido leve e os cabelos presos de qualquer jeito, ele se agita, como se o mundo só fizesse sentido se ela estivesse por perto.E faz.Ela é o norte de tudo que eu me tornei. É a raiz do homem que renasceu depois da escuridão.Eu deixei o trabalho. Assinei as transferências, entreguei as ações aos funcionários mais leais. Cada negócio, cada contrato, cada sala escura — ficou no passado. Pela primeira vez, não me doeu abrir mão de nada. Não era perda. Era libertação.Porque o que eu c

  • Marcada Pelo Tio do Meu Noivo   Só isso...

    ISADORA ALENCARO cheiro de pólvora ainda impregnava minhas narinas.Meus dedos tremiam ao redor da arma. Ela pesava como chumbo na minha mão, como se fosse um fardo do qual eu nunca mais conseguiria me livrar. Meus olhos fixos em Enzo, que cambaleava para trás, a mão tentando alcançar o ombro ensanguentado.Ele caiu sobre a cama como um boneco de pano — fraco, derrotado, humano.A respiração me faltou. O quarto girou.— Meu Deus… — sussurrei, a voz fraca, como se eu fosse outra pessoa. — Eu… eu só…O som do meu próprio coração abafava tudo. Era como um tambor em guerra, ensurdecedor. O gosto metálico na boca, a garganta seca, as pernas quase cedendo.E então, braços.Os braços dele.Dante.Seu corpo colidiu com o meu num abraço feroz. Seus olhos buscaram os meus com desespero e ternura, como se quisesse me reconstruir só com o olhar.— Tá tudo bem, amor. Tá tudo bem... — ele murmurava, sua voz rasgando minha alma como uma canção de acalanto e dor. — Você só se defendeu. Você salvou a

  • Marcada Pelo Tio do Meu Noivo   Amava a mim.

    DANTE TAVARES— Isso não é assunto para o momento, Álvaro. — Falei com calma, com a frieza que aprendi a dominar ao longo dos anos, tentei me afastar, ainda de mãos dadas com Isadora, quando ele me segurou pelo braço. — E quando será? Quando formos expulso deste lugar? Ao menos a mansão não vai nos tomar não é?—Como você tem a coragem de me abordar com essa conversa, no velório do nosso pai?Ele nem pestanejou. Mantinha o mesmo olhar cínico de sempre, aquele que só me despertava nojo.— Acontecendo, acontece com todos, irmão. É só a vez dele — disse, dando de ombros, como se falasse de qualquer coisa, menos da morte do homem que nos colocou no mundo.— E quando for a sua vez, quer que eu diga isso também? — retruquei, mantendo a voz baixa, mas firme, letal. — Ou vai querer que alguém chore por você?Enzo apenas observava, agora sentado num canto, cabeça baixa, os olhos vermelhos de chorar. Estava destruído… mas distante. Desligado do mundo. Álvaro sempre fora a raiz mais fraca da fam

  • Marcada Pelo Tio do Meu Noivo   Negócios

    Isadora AlencarEu sempre vi um Dante forte. Rígido. Incurvável. Ele se escondia atrás de uma postura impenetrável, mas seus olhos… ah, os olhos dele sempre o entregaram. Ou talvez fosse apenas eu que tivesse atravessado as barreiras que ele tentava manter de pé — muros que ele mesmo já não conseguia sustentar diante de mim.E quando ele desabou no meu ombro, entre soluços sufocados e perguntas sem resposta, algo em mim mudou. Foi ali que eu compreendi. A dor do filho esquecido, apagado da memória de um pai que, ao reconstruir sua vida, deixou-o à margem. Um menino deixado de lado quando o pai se casou de novo, quando formou outra família — e ignorou a que já existia.Entendi o porquê da frieza, da inacessibilidade. Entendi o vazio nos olhos do homem que foi o primeiro a tocar minha alma e meu corpo de maneira tão brutal e intensa. Entendi por que só o conheci vestida como uma prostituta em um quarto de hotel, confundindo-o com o meu ex-noivo. Entendi por que o nome "Dante" nunca foi

  • Marcada Pelo Tio do Meu Noivo   Me tranque

    Dante TavaresAjoelhei-me diante dela, sentindo o calor que emanava da sua pele nua, brilhando sob a luz tênue do abajur. O aroma doce e selvagem do seu corpo invadia minhas narinas — uma mistura hipnótica que me deixava louco. Quando meus lábios tocaram os seus, um incêndio se espalhou por dentro de mim, consumindo qualquer dúvida ou resistência.— Isadora — murmurei, a voz baixa, rouca, carregada de desejo — cada centímetro seu é uma promessa que preciso cumprir. Não é só o seu corpo que me enlouquece, é o seu espírito, a força que você tenta esconder, mas que me atrai como um ímã.Suas mãos tremeram ao se agarrar à minha nuca, puxando-me para mais perto, como se precisasse se certificar de que eu era real, que não era um sonho impossível. Senti seu corpo inteiro respondendo ao meu toque; cada suspiro, uma confissão muda, um convite ardente.Desci lentamente pelo seu pescoço, beijando cada pedaço de pele exposta, enquanto a tensão se transformava em pura entrega. Ao alcançar seu peit

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status