FAZER LOGINPOV/ ARTHUROlhei para o chão.— E se eles encherem a cabeça dela de mentira?— Eles provavelmente vão tentar.Levantei o rosto imediatamente.— E você quer que eu fique aqui?— Quero que você não faça exatamente o que eles precisam que você faça.— Que porra significa isso?— Invadir aquela casa, agarrar Charlotte pelo braço e levar ela embora porque você decidiu que sabe o que é melhor.Minha mandíbula travou.— Eu não faria isso.— Ótimo. Então estamos concordando.Passei a mão pela barba.Maressa continuou:— Se você tentar obrigar Charlotte a voltar, ela vai olhar pra você e enxergar exatamente o homem que está com medo que você seja.A frase me atingiu.— E Carlos pode ficar sentado do outro lado fazendo papel de pai calmo — ela completou. — Não dá esse presente pra ele.Olhei para a mão machucada outra vez.— Então eu espero.— Você dá espaço.— Parece a mesma merda.— Não é.— Pra mim é.— Problema seu.Olhei para ela.Maressa deu de ombros.— Ninguém falou que ia ser confortá
POV: ARTHUREntrei em casa e fechei a porta atrás de mim.O silêncio me incomodou imediatamente.Parei alguns segundos na sala.Clotilde estava dentro do terrário. As gaiolas dos três ratos continuavam no lugar. Luan apareceu perto da grade quando passei, provavelmente esperando comida. Gael estava encolhido num canto e o pequeno Arthur continuava escondido.A casa era a mesma.Mesmo assim, faltava Charlotte.Joguei a chave do carro sobre a bancada da cozinha e abri a torneira. Molhei o rosto com a mão esquerda e fiquei inclinado sobre a pia.A direita doía.Os nós dos dedos estavam inchados e arroxeados. Eu tinha lavado os cortes no hospital, mas qualquer movimento ainda fazia a pele repuxar.Olhei para a mão.Não conseguia olhar para aquela merda sem lembrar de Charlotte cobrindo a cabeça.Fechei a torneira.Ouvi passos no andar de cima.Maressa.Subi.A porta do quarto que ela dividia com Charlotte estava aberta. As duas camas continuavam arrumadas. Maressa estava diante do armário
POV/ CHARLOTTECarlos perdeu o sorriso.Arthur voltou a olhar para mim.— Se mudar de ideia...— Eu sei.— Não precisa nem falar comigo. Liga pra Maressa.Olhei para ele.— Tá.Maressa apontou para si mesma.— Exatamente. Eu viro o serviço de transporte oficial dessa família problemática.Alfonso fechou a cara.— Maressa.— Não falei qual família.Dessa vez, não consegui evitar um sorriso pequeno.Maressa percebeu, mas teve a decência de não comentar.Ela pegou a bolsa.— Eu vou pra casa primeiro.— Buscar suas coisas? — perguntei.— Não. Eu acabei de falar que continuo morando lá.— Ah.— Vou tomar banho, trocar de roupa e pegar algumas coisas suas que ficaram no nosso quarto. Depois vou pra mansão.— Hoje?Ela me encarou.— Charlotte, eu disse todos os dias. Hoje ainda é um dia.— Tá bom.Maressa se aproximou e segurou meu braço com cuidado.— Se quiser sair de lá por qualquer motivo, me liga. Não interessa a hora.— Tá.— Se quiser voltar pra casa, eu te busco. Se não quiser voltar
POV: CHARLOTTEMaressa me encarou como se tivesse ouvido errado.Arthur ficou imóvel a poucos passos da porta. A mão direita machucada permanecia caída ao lado do corpo, enquanto a esquerda apertava a jaqueta que ele tinha trazido. O cansaço deixava o rosto dele abatido, mas o que mais me incomodava era a forma como me olhava.— Charlotte... — Maressa começou.— Eu preciso de espaço.Arthur passou a mão esquerda pelo cabelo e respirou fundo.— Eu te dou espaço.— Não é só isso.— Então me fala o que é.Engoli em seco.Carlos permanecia ao meu lado. Alfonso tinha se afastado alguns passos e agora observava a conversa perto da janela, apoiado na bengala. Nenhum dos dois interrompeu.— Eu passei a noite inteira pensando no que aconteceu — falei. — Nas coisas que eles me falaram. No que você falou. E nas lembranças que vieram depois.Arthur franziu a testa.— Que lembranças?Não respondi imediatamente.Meu pai estava a menos de um metro de mim. Eu não queria contar na frente dele que tinh
POV: CHARLOTTEA luz da manhã entrava pelas frestas da janela do hospital quando o médico apareceu para me avaliar.Ele fez algumas perguntas, conferiu minha pressão, perguntou se eu tinha sentido mais alguma dor durante a madrugada e se o sangramento tinha voltado.— Não — respondi. — Só uma pontada na cabeça quando levantei pra ir ao banheiro.— Na mesma região?Toquei de leve a têmpora esquerda.— Aqui.Ele assentiu, fez mais algumas perguntas sobre a intensidade e a duração da dor e continuou o exame.Depois da avaliação e do ultrassom, ouvi novamente os batimentos rápidos do bebê.Prendi a respiração.Aquele som ainda conseguia fazer todo o resto desaparecer por alguns segundos.— Está tudo bem — o médico explicou. — O sangramento parou e não tivemos nenhuma nova intercorrência durante a noite. Vou liberar sua alta, mas quero repouso relativo nos próximos dias, bastante líquido e acompanhamento regular. Se tiver dor forte, tontura persistente, novo sangramento ou qualquer sintoma
POV/ ARTHURPerto das seis da manhã, o movimento do hospital começou a aumentar novamente. Funcionários chegavam para a troca de plantão, carrinhos passavam pelo corredor e a claridade começava a entrar pelas janelas.Pouco depois, um dos médicos saiu do quarto de Charlotte.Levantei imediatamente.— Como ela tá?— Estável. O sangramento cessou durante a noite, a pressão normalizou e o bebê continua bem. Ela conseguiu dormir algumas horas.Soltei o ar devagar.— Ela vai ficar internada?— O obstetra ainda vai avaliá-la pela manhã. Se continuar tudo bem, provavelmente recebe alta depois da avaliação.Assenti.— Obrigado.Charlotte estava estável.O bebê estava bem.Era o que importava.Eu poderia continuar sentado naquele corredor até a alta, mas ela tinha pedido para eu sair do quarto e dito que estava com medo de mim.Ficar rondando a porta não ajudaria.Olhei para o relógio.Ainda faltavam algumas horas para o obstetra passar.Saí do hospital pouco depois das sete.O movimento da ma







