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Aquele banho

last update Data de publicação: 2026-08-05 07:23:15

A casa estava silenciosa com aquela qualidade específica das casas grandes no fim da tarde — não vazia, mas em repouso. Os empregados em seus horários. Vera provavelmente ainda no supermercado ou voltando. Verônica deixou a bolsa sobre a mesa da entrada e rolou os ombros.

Havia sido um dia longo — não extraordinariamente, apenas do jeito que todos os dias eram longos ultimamente, aquela soma de decisões e reuniões e e-mails que se acumulavam antes que o anterior fosse completamente digerido. Ela caminhou pelo corredor. E parou. Franziu a testa levemente. Havia um som. Água. Vindo de cima.

Ela ficou imóvel por um segundo, escutando. Era definitivamente o som de água caindo de forma forte e constante, chuveiro — não o murmúrio discreto de um cano com problema, mas o volume cheio de um chuveiro em uso, vindo do quarto que ficava no corredor do andar de cima.

O quarto de Ricardo, mas ele não estava morando aqui, ela sabia que ele voltaria para casa mas imaginava que chegaria semana que vem. Ela chama Constância, a governanta:

— Constância! Acho que tem algum vazamento no quarto do meu irmão — Nenhuma resposta.

O quarto estava vazio há cinco anos. Encanamento, ela pensou. Algum problema no registro. Preocupada com um possível vazamento que pudesse alagar o quarto abaixo, ela foi até o armário do corredor, pegou um conjunto de toalhas com aquela eficiência prática de quem já está resolvendo o problema enquanto ainda está a caminho dele, e subiu as escadas rapidamente. Empurrou a porta do quarto. Caminhou até o banheiro. Abriu a porta sem pensar. E congelou. O box de vidro estava aberto. E dentro dele havia um homem.

A água caía pelas costas largas dele, deslizava pelos ombros definidos, pelo comprimento de um corpo que era — ela processou isso de forma completamente involuntária, antes que qualquer filtro pudesse intervir — excepcionalmente bem construído. Músculos que não existiam ali cinco anos atrás. Uma silhueta que havia mudado de todas as maneiras que cinco anos de vida intensa em outra cidade podem mudar uma pessoa. As toalhas escaparam das mãos de Verônica.

— Ah!

Elas voaram em direções distintas, o som do impacto no chão quebrando o silêncio do banheiro. O homem girou, ela o viu de frente. "Oh meu Deus" ela pensou. Rápido — o reflexo de alguém treinado para reagir a movimentos inesperados. Os olhos de ambos se encontraram.

E o tempo fez aquela coisa estranha que faz às vezes — parou. Não de verdade, mas da maneira subjetiva que acontece quando um momento carrega peso demais para ser processado na velocidade normal. Ricardo olhou para a mulher na porta do banheiro. Morena. Elegante mesmo com aquele olhar de quem acabou de levar um susto monumental. O vestido tubinho que não estava tentando chamar atenção mas que descrevia, com uma honestidade puramente geométrica, uma silhueta que ele definitivamente não esperava encontrar ali. Ele não sabia quem ela era.

Mas havia algo na postura dela — mesmo no choque, mesmo com as bochechas coradas de uma vergonha que era quase audível — que ativou nele uma atenção que não era apenas o reflexo automático de um homem diante de uma mulher bonita. Era outra coisa. Mais específica, ele sentiu-se atraído por ela.

Verônica, por outro lado, sabia exatamente quem era aquele homem. E era precisamente isso que tornava aquele momento muito, muito pior do que um simples susto. Cinco anos.

Cinco anos desde que havia visto aquele rosto — mais jovem então, mais anguloso agora. Cinco anos de distância que, ela percebeu naquele segundo com uma clareza perturbadora, não haviam preparado nenhuma parte dela para isso. Porque o Ricardo que havia ido embora era seu irmão. O rapaz que cresceu naquela casa, que disputou a atenção do pai, que aprendeu com ela a diferença entre uma boa negociação e uma grande negociação. Mas o homem que estava de pé diante dela agora — era outra coisa. O rosto queimou.

— Ricardo?! — a voz saiu mais aguda do que ela teria escolhido, carregada de um embaraço que ela desejou imediatamente poder recolher de volta.

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