MasukEla entrou no bar tentando passar despercebida, mas foi completamente inútil. Meus olhos a notaram no exato instante em que ela atravessou o salão, com uma postura que tentava parecer firme, mas que denunciava uma fragilidade latente.
Quando ela tomou a iniciativa de sentar-se à minha mesa e me beijar com aquele jeito agridoce, uma mistura desconcertante de timidez e ousadia repentina, todo o meu corpo reagiu ao toque dela.
Mas eu não estava ali para aquilo. Ela era uma mulher bonita, absurdamente atraente, mas aparentava ser consideravelmente mais nova do que eu. E, na minha idade, isso costuma ser um problema. Garotas novas são instáveis, impulsivas e raramente pensam nas consequências do amanhã.
Só que no instante em que ela bateu na porta do meu quarto, tudo mudou.
No começo, pensei que fosse apenas o tesão acumulado daquele beijo, e decidi resistir. Eu não ficava com mulheres como ela. Mulheres jovens, vulneráveis, claramente sob o efeito do álcool, que provavelmente acordariam arrependidas ou sem se lembrar de metade do que havia acontecido na noite anterior.
Mas o choro dela, aquela confissão dolorosa despejada no meio do quarto, acendeu algo diferente dentro de mim. Uma necessidade que ia muito além do desejo carnal. Foi como se eu tomasse para mim a obrigação de provar que ela, e cada um dos idiotas que a fizeram se sentir insignificante, estavam completamente errados.
E eu provei.
Acordei com os primeiros raios de sol batendo contra a janela de vidro do quarto do hotel. Olhei para o lado e Katherine ainda dormia profundamente, a respiração calma, os cabelos espalhados pelo travesseiro.
Sorri de canto. Acho que o feitiço virou contra o feiticeiro; no final de tudo, quem acabou cansando foi ela.
Com todo o cuidado do mundo para não acordá-la, retirei o braço dela de cima do meu peito e segui em direção ao banheiro. Joguei uma água fria no rosto e no corpo, despertando de vez.
Ao me encarar no espelho, não pude conter um riso baixo ao notar as marcas vermelhas de unhas desenhadas no meu ombro.
— Gatinha arisca... — murmurei para mim mesmo, balançando a cabeça com um sorriso genuíno que há muito tempo não aparecia no meu rosto.
Terminei o banho rápido, me enrolei na toalha e voltei para o quarto. Peguei o terno que havia deixado separado e me vesti sem pressa. Estava diante do espelho, ajustando o nó da gravata de seda escura, quando o meu celular começou a vibrar insistentemente sobre a mesa de cabeceira.
Caminhei até lá e atendi, a voz saindo no meu tom seco de sempre.
— Mason.
— Henry, vou mandar um carro te buscar em meia hora — a voz do meu advogado e amigo de longa data soou do outro lado da linha, apressada.
Olhei de soslaio para Katherine, que ainda se mantinha imersa em um sono pesado e tranquilo sob os lençóis.
— Em uma hora, Mason. Ainda tenho algumas coisas pessoais para resolver aqui.
Ele soltou um suspiro audível, claramente irritado.
— Coisas? Que coisas podem ser mais importantes do que o nosso encontro com o senhor Sherman em um café executivo?
Voltei a me encarar no espelho, ajeitando as dobras do paletó antes de responder.
— O velho Sherman não vai gostar de ser surpreendido no meio do seu café da manhã, Mason. Dê espaço ao homem.
Meu amigo bufou do outro lado da linha. Eu quase podia ouvi-lo andando de um lado para o outro na sala, como um predador enjaulado.
— Eu sei, cara, mas nós precisamos agir rápido. Você me fez trabalhar de forma incansável por anos para conseguirmos colocar as mãos nessa empresa. Estamos a um maldito passo de distância. Eu só preciso que você siga o meu comando agora.
Soltei um riso soprado, totalmente sem humor.
— O seu comando é que eu fique noivo da afilhada dele. Belo comando o seu, Mason.
Ouvi um ruído na linha, confirmando que ele estava inquieto.
— Henry, o senhor Sherman é um homem extremamente conservador. Ele já deixou bem claro que só vai transferir o controle da empresa para alguém que ele julgue ser um homem de família, exatamente como ele é. Cara, você é um solteiro de quarenta e três anos. A afilhada dele é uma moça bonita, de boa família. Veja os benefícios práticos disso. Você fecha o maior contrato da sua vida e ainda leva uma esposa jovem de brinde.
Senti uma pontada de irritação e tive uma vontade imensa de desligar o telefone na cara dele, mas me contive.
— Henry... se você não se apresentar como o homem que ele espera, pode esquecer esse negócio — Mason continuou, o tom subindo. — Esqueça conquistar o que o seu avô tentou, o que o seu pai morreu lutando para conseguir e o que você me fez trabalhar como louco nos últimos anos. Se você não estiver casado em breve, pode abrir mão de tudo e pegar o primeiro voo de volta para Londres.
Nesse exato momento, um ruído suave vindo da cama chamou a minha atenção. Virei o rosto e vi Katherine se mexendo preguiçosamente sob os lençóis brancos, os olhos se abrindo devagar.
Um sorriso sutil surgiu nos meus lábios diante daquela imagem.
— Eu não preciso da afilhada do Sherman — respondi a Mason, a mente resgatando imediatamente a confissão desesperada que Kat havia feito na noite anterior: “...eu vou perder tudo em uma semana se eu... se eu não me casar!”, afastei o pensamento e garanti ao meu amigo. — Eu já tenho uma noiva.
Mason ficou em absoluto silêncio por alguns segundos. Então, ele soltou uma gargalhada alta, que quase estourou o alto-falante do meu aparelho.
— Cara, que brincadeira de mau gosto é essa?
Katherine se sentou na cama, segurando o lençol contra o peito, e seus olhos cor de mel encontraram os meus.
— Não é brincadeira — afirmei, mantendo o olhar cravado nela. — Prepare um acordo nupcial para mim. Um contrato rígido, que não possa ser quebrado por nenhuma das partes antes do prazo mínimo de um ano. E me encontre em uma hora para seguirmos até o cartório.
— Henry, espera, você enlouqueceu...? — a voz de Mason insistiu ao fundo, mas eu simplesmente ignorei e encerrei a ligação, jogando o celular de volta na mesa.
Caminhei devagar até a cama e me sentei na borda do colchão, ao lado dela. Kat apertou o lençol ainda mais contra o corpo, uma defensiva adorável que me fez sorrir. Sem pedir licença, inclinei o meu corpo e capturei os seus lábios em um beijo lento, saboreando a maciez da sua boca logo pela manhã.
Quando nos separamos, vi um rubor suave subir do colo até o pescoço dela.
— Bom dia... — eu disse, a voz baixa.
— Bom dia... — ela sussurrou, visivelmente envergonhada. Ela olhou para o relógio digital na cabeceira e franziu a testa de leve. — Você sempre acorda tão cedo?
— Eu malho todas as manhãs — assenti, mantendo os olhos nela. — Mas me recusei a ir hoje, depois de todo o esforço que fiz durante a noite.
O rubor que antes estava apenas no pescoço tomou conta de todo o rosto dela. Estiquei a mão e afastei com cuidado alguns fios de cabelo que teimavam em cair sobre os seus olhos.
— Pode me explicar melhor aquela história de ontem à noite? Aquela sobre você precisar se casar?
Ela desviou o olhar na mesma hora, parecendo querer desaparecer entre os lençóis.
— Ah, meu Deus. Me desculpe por aquilo. Eu estava sob o efeito do álcool, acabei surtando e falando demais.
Neguei com a cabeça, impedindo que ela se retraísse.
— Eu não me importo com o surto, Katherine. Afinal, foi justamente ele que nos proporcionou uma noite incrível — falei de forma maliciosa, me inclinando para depositar um beijo rápido e quente na curva do seu pescoço, a fazendo se arrepiar inteira no processo.
— Para com isso... — ela pediu, a voz saindo quase em um fio.
Me afastei o suficiente para reencontrar as suas íris cor de mel.
— Agora é sério. Me explica.
Katherine soltou o ar com força, os ombros caindo enquanto ela se rendia.
— Minha mãe fundou uma empresa de design gráfico. É a melhor de São Francisco. Desde que atingi a maioridade, eu tenho estado à frente de tudo. — Ela abaixou a cabeça, e o tom de voz denunciou o quão doloroso era aquele assunto para ela.
Levei meus dedos até o queixo dela, erguendo o seu rosto com cuidado, em um gesto silencioso para que ela continuasse.
— Eu assumi a liderança e me dediquei de corpo e alma por todos esses anos. A empresa hoje está no topo, graças exclusivamente ao meu trabalho e esforço.
Um pensamento rápido cruzou a minha mente. A noiva do meu filho, Adam, também trabalhava com design gráfico, mas afastei a coincidência e voltei toda a minha atenção para o relato dela.
— Mas estou prestes a perder todo esse legado para o meu pai. No testamento da minha mãe, há uma cláusula: se aos vinte e seis anos eu não estiver casada, as ações e o controle majoritário voltam automaticamente para as mãos dele. Eu sei que ela fez isso no passado pensando em me proteger, mas ontem isso se transformou no meu pior pesadelo.
Passei os dedos de leve pelo contorno do rosto dela.
— Por causa do seu noivo? — perguntei.
Ela assentiu, os olhos brilhando com uma dor recente.
— Sim. Eu o peguei na cama com a minha meia-irmã. Ela estava usando o meu vestido de noiva. O casamento aconteceria em exatamente uma semana, no dia do meu aniversário. O dia em que eu seria a mulher mais feliz do mundo, me casaria com o homem que eu pensava amar e assumiria de vez o controle da agência. Eu achei que nunca mais seria humilhada, maltratada ou machucada...
Ela jogou o corpo para trás na cama, encarando o teto com uma amargura profunda.
— Mas "nunca mais" parece ser uma palavra impossível para alguém como eu.
Inclinei o meu corpo sobre o dela, apoiando minhas mãos no colchão, e capturei os seus lábios mais uma vez, em um beijo calmo e possessivo. Quando nos separamos, mantive meu rosto a poucos centímetros do dela, encarando seus olhos com firmeza.
— E se eu dissesse que não é tão impossível assim?
Ela me olhou, as sobrancelhas franzidas em pura confusão. Passei o polegar pela sua bochecha macia, deixando um sorriso de canto surgir em meus lábios.
— Se eu dissesse que estou disposto a me casar com você, Katherine... você estaria disposta a se casar comigo?
Capítulo 121 — O Bote FracassadoHenryDeixei a conversa com Edward Sherman e atravessei a lateral do salão principal com passadas calmas e calculadas.O contrato de concessão portuária estava praticamente em nossas mãos, sacramentado pelo apreço genuíno que o velho anfitrião desenvolveu por Katherine nos primeiros dez minutos de conversa. A inteligência e a altivez da minha esposa tinham feito mais pela solidez da imagem da Storn naquela noite do que semanas de reuniões corporativas exaustivas. Tudo o que eu queria agora era pegar a taça de champanhe que havia prometido a ela, retornar para o seu lado e desfrutar do triunfo que havíamos conquistado juntos.Contornei uma das colunas dóricas e entrei no corredor reservado que dava acesso ao bar privativo. A iluminação era suave, o carpete abafava os passos e a orquestra tornava-se um eco distante. Faltavam poucos metros quando uma figura emergiu das sombras de uma alcova com um passo ensaiado, bloqueando a minha passagem.Parei no mes
Capítulo 120 — A Noite dos HolofotesKatherineNo instante em que apoiei a minha mão na palma aberta do Henry e desci do carro, uma tempestade de flashes estalou contra as minhas retinas.O som metálico dos obturadores e os gritos estridentes dos repórteres disputando a atenção do meu marido ecoaram pela avenida como um trovão contínuo. Pousei o salto prateado sobre o veludo escarlate do tapete vermelho, sentindo o ar fresco da noite de São Francisco bater contra o meu colo despido. O tecido de seda azul-safira escorria pelas minhas curvas a cada movimento, desenhando o meu quadril e afunilando na cintura, enquanto a fenda lateral revelava o passo firme que treinei mentalmente durante toda a tarde.Henry não se apressou. Ele fechou os dedos firmes ao redor da minha cintura, colando o meu corpo ao dele com uma posse inegociável que calou metade do murmúrio ao nosso redor. O magnata austero, impecável em seu smoking sob medida, não olhava para as câmeras; os olhos cinzentos dele susten
Capítulo 119 — A RevelaçãoHenryA imagem da Katherine desmaiando em meus braços sobre os cacos de porcelana da biblioteca ainda queimava no fundo da minha mente.A manhã de sábado havia sido um teste de resistência para a minha sanidade. Descobrir a profundidade da sujeira do Arthur era uma coisa; ver a dor dilacerando o rosto da minha esposa ao ouvir sobre a traição do próprio pai quase me fez perder o controle. Mas Katherine não era frágil. A dor havia dado lugar a uma frieza inabalável, uma determinação de aço que só me fez amá-la com ainda mais devoção.Almoçamos juntos na sala de jantar em um silêncio reconfortante, onde fiz questão de vê-la comer e recuperar as forças. Mas o alívio durou pouco. Um chamado urgente da matriz da Storn exigiu a minha presença imediata para revisar minutas e aditivos que seriam assinados ainda hoje. Eu hesitei. Chamei Katherine para me acompanhar, para ficar comigo sob a minha vista, mas ela recusou com um sorriso doce, dizendo que preferia ficar
Capítulo 118 — A Senhora da CasaKatherineO silêncio que se instalou na suíte após a minha declaração não era de fragilidade; era de ruptura.Henry permaneceu sentado na beirada da cama ao meu lado, as mãos grandes e quentes envolvendo as minhas, os olhos cinzentos perscrutando cada centímetro da minha expressão.Ele procurava por qualquer vestígio de hesitação, qualquer fraqueza oculta que pudesse me quebrar de novo. Mas não havia nada. A menina que passou a vida implorando por um olhar de aprovação de Arthur Hill, que suportou os desaforos de Céline e as humilhações de Ester na ilusão tola de manter uma família unida, havia sido enterrada sob os cacos daquela porcelana na biblioteca.Eu ia limpar o meu nome. Ia lutar com unhas e dentes ao lado do meu marido para desatar aquele nó burocrático e punir cada envolvido. E se o preço para a minha liberdade fosse arrancar do meu peito a palavra “pai” e esquecer que aquele homem um dia compartilhou o meu sangue, eu pagaria sem pestanejar.
Capítulo 117 — Nunca mais!HenryO peso inerte do corpo de Katherine caiu contra o meu peito no mesmo instante em que os olhos dela perderam o foco e se fecharam.— Katherine! — o grito rasgou a minha garganta, cru e desesperado, ecoando pelas paredes de carvalho da biblioteca.Abracei o tronco dela com força, sentindo a pele do rosto esfriar em questão de segundos sob os meus dedos. Meus joelhos já estavam cravados no tapete, bem ao lado dos cacos de porcelana e da poça escura de café que ainda fumegava. Aproximei a boca da têmpora dela, beijando seus lábios no desespero de acordá-la.— Katherine, volta pra mim! Meu amor, acorda!Ela não respondeu. A respiração vinha curta, a cabeça tombando inerte. O terror me gelou por inteiro antes de eu gritar em direção ao corredor.— SOCORRO! AGATHA! KIRA! ALGUÉM VENHA AQUI AGORA!Passos rápidos e pesados estalaram pelo mármore do saguão no mesmo instante. Oscar cruzou a soleira da porta, seguido de perto por Kira, cujos olhos se arregalaram e
Capítulo 116 — DesmoronarKatherineMinha cabeça era um turbilhão suave de contrastes. Eu tinha a imagem do caos instaurado pelo Bruce na agência: o meu melhor amigo, o garoto que eu considerava quase um irmão e que sempre achei que estivesse morto, tentando consertar um desentendimento com a Melissa dando a ela um carro esportivo importado. Eu ainda não sabia como administrar aquela faísca caótica entre eles dois, afinal, amava os dois profundamente, mas a loucura daquela discussão e toda a preocupação em como garantir que aqueles dois não se matassem foi ofuscada pela manhã perfeita que Henry me deu. A cumplicidade na cama, as carícias lentas sob o chuveiro, a invasão deliciosa no meu ateliê...E então veio mais um contraste, Liam, bem no meio da nossa sala de estar.O choque em ver o meu gerente financeiro ali, em pleno sábado pela manhã, fez um alarme soar no fundo do meu peito. Mas a minha confiança em Henry era absoluta, inabalável. Se o meu marido me olhou nos olhos, beijou o







