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As Marcas do Amanhecer

last update publish date: 2026-10-07 09:52:37

{Bruna}

A luz pálida do dia começava a invadir a suíte pelas frestas da cortina pesada, desenhando feixes prateados sobre os lençóis de seda chumbo desarrumados.

Acordei com o coração batendo no ritmo de uma chama que ainda recusava a apagar. O braço pesado dele continuava cruzando a minha cintura, mantendo meu corpo nu colado ao peito quente que subia e descia em uma respiração calma e cadenciada.

Virei o rosto devagar no travesseiro para observá-lo no sono. Sem a máscara de couro e metal, o rosto daquele homem maduro era uma obra-prima de traços firmes, marcantes e perigosos. A barba curta e grisalha, o maxilar desenhado e a aura de poder inabalável que nem mesmo o cansaço conseguia desarmar. Lembrei do tom grave da voz dele, da autoridade com que ditou cada movimento nosso e do domínio absoluto que me fizera esquecer a minha própria existência nas últimas horas.

O acordo era claro: sem nomes, sem passado e sem amanhã.

Com um cuidado quase cirúrgico, segurei o pulso dele e desloquei seu braço da minha cintura, milímetro a milímetro. Ele resmungou algo inaudível no sono, mas não acordou. Deslizei para fora da cama, sentindo as pernas bambas e uma pontada aguda na parte interna das coxas — a prova física da noite avassaladora que tínhamos vivido.

Recolhi minhas roupas espalhadas pelo carpete escuro. Vesti o vestido amassado, ajeitei os cabelos no espelho do banheiro e recuperei meus saltos e a máscara de renda.

Antes de ir embora, porém, dei uma olhada para o bloco de anotações ao lado do telefone de marfim da cabeceira. Peguei a caneta e escrevi poucas linhas com a mão ainda trêmula:

A noite foi inesquecível. Vou ficar dolorida por uns bons dias... mas, para um coroa, você fode bem até demais.

Deixei o papel dobrado ao lado do copo de uísque vazio dele. Dei uma última olhada para a cama onde o estranho continuava adormecido, girei a maçaneta em silêncio e saí para a manhã fria do Rio de Janeiro.

Quando o táxi me deixou na porta do meu prédio, meu corpo implorava por um banho demorado para tentar lavar a confusão de sentimentos que me corroía. A dor da suposta traição de Matheus tinha sido anestesiada pelo fogo daquela suíte, mas, à medida que a adrenalina baixava, uma culpa gelada começava a se alojar no meu peito.

Subi pelo elevador abraçando meus próprios braços.

No entanto, ao virar o corredor do meu andar, o ar sumiu dos meus pulmões.

Sentado no chão, encostado na porta do meu apartamento, estava Matheus. Ele aparentava vestir a mesma camisa da noite anterior, totalmente amassada, com os cabelos desalinhados e um olhar de completo desespero. Ao me ver surgir no corredor, ele se levantou em um pulo, quase tropeçando nos próprios pés.

— Bruna! Meu Deus, Bruna! Onde você estava? — a voz dele veio embargada, os olhos vermelhos e fundos de quem passou a noite em claro. — Eu liguei dezenas de vezes! Fiquei aqui te esperando a noite toda!

Dei dois passos para trás, ajustando a bolsa no ombro com as mãos trêmulas e o coração martelando na garganta.

— O que você está fazendo aqui, Matheus? — murmurei, tentando manter a voz firme sob o olhar dele. — Eu vi. Ninguém me contou. Eu fui no seu apartamento e vi aquela mulher de lingerie na sua sala. Acabou.

— Não acabou! Me escuta, pelo amor de Deus, me escuta! — ele se aproximou com as mãos erguidas em desespero, sem tentar me tocar, mas implorando com o olhar. — A porta estava encostada porque o zelador tinha ido checar um vazamento e a fechadura emperrou. Aquela mulher é a nova secretária da empresa do meu pai, Bruna! Ela foi até lá para me entregar uns documentos confidenciais de extrema urgência que eu precisava assinar!

Senti o chão sumir sob meus pés.

— Ela estava de lingerie na sua sala, Matheus! — desabafei, a voz falhando na tentativa de conter as lágrimas.

— Ela se molhou inteira na tempestade que deu ontem e o corredor estava alagado! — ele explicou, passando as mãos pelo rosto com um desespero tão cru que cortava o ar. — Ela tirou o casaco e a roupa molhada enquanto eu estava no banheiro pegando uma toalha limpa para ela se secar! Eu juro pela minha vida, pela memória da minha mãe, que eu nem toquei nela! Quando eu saí do banheiro com a toalha, vi que ela estava de peça íntima, me irritei, mandei ela se vestir na hora e ir embora! Eu amo você, Bruna. Eu nunca olharia para outra mulher!

O tom de verdade na voz dele era esmagador. Matheus sempre fora o homem mais leal, protetor e honesto que já conheci em quase um ano juntos. A história... fazia sentido demais.

Uma onda violenta de enjoo e pavor me atingiu no estômago.

Se Matheus estava dizendo a verdade... se ele nunca tinha me traído...

A imagem do quarto do hotel, a provocação no bilhete e o toque avassalador do homem sem nome vieram como um soco no meu peito. Eu não tinha me vingado de uma traição. Eu tinha destruído o meu relacionamento e me entregado a um completo estranho por causa de uma impulsiva e trágica má interpretação.

— Bruna, por favor... — Matheus deu o passo final e me envolveu em um abraço apertado. Ele escondeu o rosto no meu pescoço, respirando fundo. — Eu não posso te perder.

Fiquei totalmente rígida nos braços dele. O perfume doce e familiar de Matheus — tão diferente do cheiro marcante de madeira e uísque que ainda parecia entranhado na minha pele — me fez fechar os olhos com força, deixando as lágrimas da pior das culpas transbordarem.

 

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